Patrick Hajayandi
7.7 Les groupes de dialogue permanent
Além da submissão da inteligência e da vontade, a obediência da fé de modo pleno e aberto é também assentimento voluntário. Em sua posição no texto conciliar, o assentimento coroa as demais características antropológicas já decritas, enfatizando a dignidade humana no ato de fé. Com o assentimento voluntário sublinha-se a liberdade do ato de fé e, ao mesmo tempo, a responsabilidade humana perante sua decisão.
Dando margem a essa interpretação, ainda no despontar do Concílio, a revista teológica da Faculdade Gregoriana publicava um artigo assinado por Z. Aiszeghy e M. Flick, no qual diziam que o ato de fé compreendido como opção fundamental a Deus é diferente de todos os demais atos bons que o ser humano pode fazer.457 A diferença está no fato de não se tratar de uma espécie de caridade para com Deus, mas um ato pelo qual
453 Cf. AGOSTINHO DE HIPONA. O livre-arbítrio, II, 14,37, p. 121.
454 “Aquí será bueno recordar también que ser hombre es algo distinto de lo que muestre el esqueleto de
una ética abstracta: ‘pura realización de sí mismo en libertad’. Este acto se halla profundamente inserto en una naturaleza orgánica, cuyas leyes repercuten arriba en la libertad, pero deben ser reconocidas por ésta y aceptadas con la humildad propia de la criatura. María no se convierte en madre gracias a una rígida ‘realización de sí misma’, sino entregándose a la vez y de manera inmediata a la voluntad de Dios y a las disposiciones que se encuentran encarnadas en su naturaleza de mujer. De este modo la fecundidad de su fe es una con la fecundidad de su seno y de toda su naturaleza humana.” (BALTHASAR, Hans Urs von. Ensayos teológicos, p. 85-86). Cf. FRANKL, Viktor. A vontade de sentido: fundamentos e aplicações da logoterapia, p. 52-53.
455 Cf. ALFARO, Juan. Cristología y Antropología, p. 348. ALFARO, Juan. Revelación cristiana, fe y
teología, p. 90-91.
456 Cf. ANSELMO. Monológio, LIX, p. 74. Cf. ST. I q.29, a.4, rep., sol.1, 3-4.
457 Cf. FLICK, M.; ALSZEGHY, Z. L’opzione fondamentale della vita morale e la grazia. Gregorianum:
commentarii de re theologica et philosophica editi a professoribus Ponticiae universitatis Gregorianae. Roma, v. 41, n. 4, p. 593-619, set-dez. 1960.
Deus é reconhecido como norma suprema da existência humana. Um reconhecimento como ato de resposta ao Deus que se revela.458
Essa dimensão do assentimento voluntário na definição de fé da DV 5 se aproxima do ato de fé defendido na Declaração Dignitatis Humanae do Vaticano II como expressão da liberdade religiosa:
Com efeito, o ato de fé é, por sua própria natureza, voluntário, já que o homem, remido por Cristo Salvador e chamado à adoção filial por Jesus Cristo, não pode aderir a Deus que Se revela a não ser que, atraído pelo Pai, preste ao Senhor o obséquio racional e livre da fé. Concorda portanto, plenamente com a índole da fé que em matéria religiosa se exclua qualquer espécie de coação humana. (DH, 10)
É possível perceber nas linhas da Declaração supracitada a mesma perspectiva de fé proposta na DV 5. Uma aplicação que reconhece o ato de fé como volutário, enquanto resposta do ser humano a um modo de vida decorrente da confissão de fé, possível quando sustentado pela graça. Retornando a DV 5, o assentimento, embora disposto no final da sequência dos elementos antropológicos, não é apenas o último passo do ato de fé, mas pode-se dizer que ele está presente desde o início como fio condutor.
a) Assentimento voluntário como reconhecimento de uma presença
A fé reporta a confiança existencial e fundamental que cada pessoa humana carrega. Enquanto ato de confiança, a esperança cristã não se difere da esperança humana. Sua diferença está em seu horizonte teológico, por meio do qual se reconhece a manifestação gratuita e universal de Deus. Uma esperança que não se efetiva sem a decisão humana.459 Essa confiança inicial indica que o primeiro movimento do ato de fé é a disponibilidade afetiva perante uma realidade que o antecede e abraça. É um dado antropológico, existencial. Diante da Revelação, essa decisão torna-se assentimento. Essa
458 “Il dialogo con l’Assoluto personale appare così come un’esigenza della vita individuale. Aplicando
questo schema dialogale all’opzione fondamentale per Dio, apparirà meglio che essa, per la sua natura specifica, differisce da tutti gli altri ‘atti buoni’. Ciò non vale soltanto per quell’opzione fondamentale, in cui il credente, con un atto di carità, aderisce al Padre che lo giustifica sopranaturalmente. Accettare Dio, anche soltanto nell’orizzonte della natura umana, come proprio Signore, cioè come norma suprema della propria esistenza, significa sempe investirsi di un ‘ruolo’. Come tale, quest’opzione è concepibile solamente come risposta ad un appello, in cui l’Assoluto si rivela come Dio, mio Signore.” (AISZEGHY, Z.; FLICK, M. Il peccato originale in prospettiva personalistica. GREGORIANUM: commentarii de re theologica et philosophica editi a professoribus Ponticiae universitatis Gregorianae, p.718-719).
chave de leitura direciona a atenção para o aspecto da experiência de uma fé religiosa que, no dizer de Pedro Rodriguez Panizo, é “uma das experiências plenas da vida humana; mais ainda, poder-se-ia dizer que é a dimensão de profundidade de todas elas”.460 Por experiência religiosa, leia-se a tradução da subjetividade humana e a manifestação de sua transcendência. Uma dinâmica que se faz presente pelo ato de fé em sua dimensão religiosa e que se abre à obediência como ato de fé teológico, isto é, revela o ser humano não somente como um homo religiosus, mas um homo viator461 chamado da vida para a Vida.
No dizer de Panizo,
um nômade que já não encontrará descanso nem preencherá sua sede de Absoluto neste mundo, porque nenhum projeto – pessoal ou coletivo – nenhuma realidade intramundana, nenhuma relação interpessoal poderá jamais fazer coincidir a voz silente desse além do ser humano e sua circunstância, seu convite constante a um transcender absoluto de si mesmo, com as mediações de todas aquelas realidades que prometem sua realização plena – sua salvação – de maneira menos custosa.462
Em relação aos outros níveis de fé (antropológica e religiosa), na fé teológica o movimento existencial se inverte. O ser humano procura, mas é Deus quem o encontra ao fazer-se um deles. Uma Revelação que desperta no ser humano a compreensão de que assentir ao sentido da vida em Deus incorre em mergulhar na realidade humana, marcada por contradições e chagas, para descobrir a vida que está escondida no mistério pascal do Verbo eterno (cf. Cl 3,3). Um mergulho que estabelece o fundamento da vida no Amor dispondo à comunhão.463 Uma afirmação que aponta para a opção fundamental como assentimento à Revelação, que se manifesta como opção autêntica pela vida.464
460 PANIZO, Pedro Rodriguez. Experiência religiosa. In: TAMAYO Juan José (Dir.). Novo dicionário de
teologia, p. 212.
461 Cf. COMISSÃO TEOLÓGICA INTERNACIONAL. Comunhão e serviço: a pessoa humana criada à
imagem de Deus, n. 24. Disponível em: http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/cti_docu ments/rc_con_cfaith_doc_20040723_communionste wardShip_po.html.
462 PANIZO, Pedro Rodriguez. Experiência religiosa. In: TAMAYO Juan José (Dir.). Novo dicionário de
teologia, p. 213.
463 Segundo Élisabeth Parmentier, cuja posição corrobora a perspectiva assinalada aqui, “a verdadeira
consolação cristã reside na revelação de um Deus que sofre com o ser humano, mas para vencer a morte. Doravante, mesmo o ser humano que desespera de si mesmo pode saber-se reconhecido em seus medos (compartilhados por Jesus), aceito no perdão (de acordo com a oração de Jesus: ‘Pai, perdoa-lhes’), transportado para a vida da Páscoa.” (PARMENTIER, Élisabeth. Ser cristão...numa sociedade sem religião. Concilium: revista internacional de teologia, p. 47).
464 “Na realidade, o mistério do homem só no mistério do Verbo encarnado se esclarece verdadeiramente.
Adão, o primeiro homem, era efetivamente figura do futuro, isto é, de Cristo Senhor. Cristo, novo Adão, na própria revelação do mistério do Pai e do seu amor, revela o homem a si mesmo e descobre-lhe a sua
Um peregrino insatisfeito, eis o ser humano. Insatisfeito não pela ausência de sentido, mas por sua condição de caminhante à plenitude que torna sua existência um êxodo465 ao advento de Deus. Um peregrino “da morte para a vida, sob os golpes da finitude, que parecem conduzi-lo inexoravelmente da vida para a morte”.466 O ser humano é movimento467 que comporta identidade tornando-o um ser de esperança que, na fé, deseja o que não possui. Segundo João da Cruz, uma tensão carregada da nostalgia de quem, tendo descoberto o amor, sabe-se marcado por Ele.468
Todo esse movimento, como testemunha João da Cruz, acontece na realidade do amor, que, segundo João Evangelista, assegura o sentido da vida à plenitude (cf. 1Jo 3,14). Assim sendo, o movimento da condição humana na contramão de sua aniquilação criatural para sua plenitude não é, senão, um movimento de reconciliação no Amor que se antecipou e se deu primeiro (cf. 1Jo 4,19). Neste sentido, não somente se antecipa o eterno, mas descobre-se Nele, em um movimento que tende à plenitude do amor.469 Sua irradiação é força de Vida (cf. Jo 1,4).
No Amor – parafraseando uma citação de Paulo em seu discurso aos atenienses – vivemos, nos movemos e existimos.470 A realidade do amor requer comunicação e
vocação sublime. Não é por isso de admirar que as verdades acima ditas tenham n’Ele a sua fonte e n’Ele atinjam a plenitude.” (GS 22).
465 Cf. FORTE, Bruno. A teologia como companhia, memória e profecia, p 35-37. 466 FORTE, Bruno. A teologia como companhia, memória e profecia, p. 36.
467 “A abertura e o movimento rumo à vida determinam de maneira profunda o ‘existir desde a morte’, que
constitui a condição humana no tempo [...] A historicidade é a epifania do ser, o devir é a casa da verdade. E a linguagem, em que a história do homem se expressa em sua densidade complexa, é o ser levado à palavra, o lugar, sempre em movimento e sempre aberto, em que aflora a fonte escondida do ser”. (FORTE, Bruno. A teologia como companhia, memória e profecia, p. 42).
468 No Cântico Espiritual, são João da Cruz traduz esses sentimentos com intensidade: “¡Ay, quién podrá
sanarme! Acaba de entregarte ya de vero; no quieras enviarme de hoy más ya mensajero, que no saben decirme lo que quiero. Y todos cantos vagan, de ti me van mil gracias refiriendo. Y todos más me llagan, y déjame muriendo un no sé qué que quedan balbuciendo. Mas ¿cómo perseveras, oh vida, no viviendo donde vives, y haciendo, porque mueras, las flechas que recibes, de lo que del Amado en ti concibes? ¿Por qué, pues has llagado aqueste corazón, no le sanaste? Y pues me le has robado, ¿por qué así le dejaste, y no tomas el robo que robaste? Apaga mis enojos, pues que ninguno basta a deshacellos, y véante mis ojos, pues eres lumbre dellos, y sólo para ti quiero tenerlos. ¡Descubre tu presencia, y máteme tu vista y hermosura; mira que la dolencia de mor, que no se cura sino con la presencia y la figura! ¡Oh cristalina fuente, si en esos tus semblantes plateados, formases de repente los ojos deseados, que tengo en mis entrañas dibujados! ¡Apártalos, amado, que voy de vuelo!” (CRUZ, Juan de la. Escritos Breves: poesias. In: CRUZ, Juan de la. Obras completas, p. 84-87).
469 Sobre esse movimento, Mestre Eckhart faz a seguinte reflexão: “Nosso Senhor diz no Evangelho: “Um
homem nobre partiu para um país longínquo, a fim de receber um reino e voltou” (Lc 19,12). Nosso Senhor nos ensina, através destas palavras, quão nobre o homem foi criado em sua natureza e quão divino é o ponto ao qual ele pode chegar pela graça, e também mostra como ele pode chegar até ela. Além do mais, por estas palavras é atingida uma grande parte da Sagrada Escritura.” (ECKHART. O homem nobre, p. 21).
470 “O Deus que fez o mundo e tudo o que nele existe, o Senhor do céu e da terra, não habita em templos
linguagem. Requer encontro. O Amor é Palavra que se faz carne. Sua epifania é relacionalidade.471 Afirmar que o ser humano é também capaz de manifestar amor e que isso acontece no próprio Amor que é infinito e eterno leva a perceber que há no infinito um espaço para que a realidade finita e criada possa vir-a-ser de modo autêntico.
Tal realidade fez o evangelista João afirmar: “Se alguém disser: ‘Amo a Deus’, mas odeia o seu irmão, é um mentiroso: pois quem não ama seu irmão, a quem vê, a Deus a quem não vê, não poderá amar.” (1Jo 4,20-21). Em uma palavra, o amor divino se traduz em amor humano, acessível: “Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (Jo 15, 12). Eis a expressão nuclear da obediência da fé, ou como se tem afirmado, a resposta ao Amor: “Vós sois meus amigos se praticais o que vos mando [...] Isto vos mando: amai-vos uns aos outros” (Jo 15, 14.17).
Nesse direcionamento existencial, o ser humano é convocado a um discernimento total que o desperta para a disponibilidade e a responsabilidade “como santidade que se realiza num estilo de vida, fiel e criativo, capaz de gerar a vida na vida de outros”.472 Há, portanto, no interior da opção de fé que leva a obediência ao amor
divino uma disposição ética fundada na alteridade, na perspectiva do encontro que parte do reconhecimento do outro.473 Uma opção fundamental que forja um modus vivendi de
acordo com a fé474 e que não se move por leis humanas, mas por uma entrega confiante
do ser humano.475 Assim, se a fé se compreende no horizonte obediencial como resposta
ao Amor que se revela, não há senão que compreendê-la como fruto de uma relação profundamente marcada pela confiança.
ele que a todos dá vida, respiração e tudo o mais [...] Pois nele vivemos, nos movemos e existimos, como alguns dos vossos, aliás, já disseram: ‘porque somos também de sua raça’. (At 17,24-25.28).
471 Cf. BALTHASAR, Hans Urs von. Solo l’amore è credibile. In: BALTHASAR, Hans Urs von. La
percezione dell’amore: abbattere i bastioni e solo amore è credibile, p. 84-85.
472 CORREIA, José Frazão. A fé como forma vital e forma expressiva da existência humana. In: CORREIA,
José Frazão; LOURENÇO, João (Org.). A fé da Igreja, p. 13.
473 Juan Ambrosio chama atenção para uma perspectiva individualista, que pode perpassar a defesa do
direito à diferença. Diz o teólogo português: “Falamos muito hoje acerca do direito do outro a ser diferente. Este é um caminho positivo a percorrer, mas devemos percorrê-lo até às últimas consequências. Dizer que o outro tem direito a ser diferente é importante, mas isto é ainda estar centrado em mim mesmo. Ou seja, o outro tem direito a ser diferente de mim. Eu é que sou a medida e a norma e porque sou a norma até admito que o outro possa ser diferente. Penso que devemos arriscar e ir mais longe, afirmando que é por causa do outro ser diferente que eu posso ser eu. É nessa inter-relação com o outro diferente de mim que se constrói a identidade. (AMBROSIO, Juan. A ‘marca’ da ressurrreição de Jesus na História da Humanidade. Didaskaia, p. 273).
474 Cf. DUNN, James D. G. A teologia do apóstolo Paulo, p. 714-723.
475 Segundo James Dunn, é “precisamente esta fé operando através do amor que liga toda a extensão da
justificação pela fé, desde a justiça já recebida através da fé [...] à justiça ainda não experimentada, mas ansiosamente esperada”. (DUNN, James D. G. A teologia do apóstolo Paulo, p. 718).
b) O assentimento voluntário como via de realização
O ser humano é um fenômeno no universo. Na busca por uma autocompreensão, percebe que compõe um cenário que lhe antecede e que lhe sucederá. Tal condição o faz viver, constantemente, em relação com o mundo do qual faz parte, carregando em si mesmo sinais da criação que o cerca.476 Nesse movimento, sua corporeidade passa a ser compreendida como alteridade. Uma constituição que o faz permanentemente aberto a novas possibilidades como sujeito histórico e relacional. Não um bloco encerrado em si que se relaciona objetivamente com tudo o que lhe cerca, mas alguém com capacidade de interagir em subjetividade.
A existência do ser humano, enquanto dom, é seu primordial projeto de vida477 e, em sua liberdade, ele se torna responsável por si no espaço aberto entre sua condição finita e sua capacidade de infinitude. Sua unidade existencial – espiritualidade e corporeidade478 – além torná-lo presente a si mesmo é também seu primeiro movimento de transcendência: por ela, ele se afasta do mundo em que foi plasmado, é capaz de investigar esse mundo, perceber-se e questionar-se.479 Em suma, sua condição ontológica o coloca para além de si mesmo e lhe desperta para um sentido vital que o ultrapassa.
Ele não somente pensa e se manifesta sobre as realidades que o cercam, mas manifesta-se a si mesmo quando afirma seu eu480, refletindo sobre si. Como ser espiritual, ele se enriquece interiormente e se expressa de modo ilimitado.481 Como ser corporal, interage com o mundo, podendo dominá-lo e transformá-lo.482 Nessa dinâmica de interação, descobre que não é somente consciência, mas que ama. Amor como capacidade
476 “Experiencia de su dependencia del mundo. En su mismo cuerpo lleva la presencia de la naturaleza con
sus procesos físico-químicos, que aparece así como constitutiva”. (ALFARO, Juan. Revelación Cristiana, fe y teología, p.19).
477 Cf. ALFARO, Juan. Revelación Cristiana, fe y teología, p.14.
478 Cf. ALFARO, Juan. Naturaleza y gracia. In: RAHNER, Karl. Sacramentum mundi, p. 887.
479 Cf. ALFARO, Juan. Revelación Cristiana, fe y teología, p. 26. AGOSTINHO DE HIPONA. O livre-
arbítrio, I, 7,15, p. 45.
480 Segundo Alfaro, “Lo que, en última instancia, lo caracteriza, es aquello que hace posible el pensamiento
pensado, etc., es decir, la conciencia que se actúa en el sentir sentiente, en el pensar pensante, en el decidir decidiente; cualquiera que sea el contenido de su pensar, sentir, etc., el hombre afirma siempre implícitamente: yo-sinto, yo-pienso, es decir, afirma siempre lo exclusivamente suyo, su intransferible ser personal.” (ALFARO, Juan. Revelación Cristiana, fe y teología, p. 26).
481 “La persona tiene algo de inefable, porque su doble elemento fundamental, espiritualidad-alteridad, es
también algo inefable. Para definir completamente la espiritualidad es preciso llegar a esa percepción del ‘yo’, que es un dato inmediato de la conciencia; la alteridad dice precisamente relación a otra persona, a otro ‘yo’.” (ALFARO, Juan. Cristología y Antropología, p. 360).
de perceber o singular no outro, sua beleza, sua bondade e sua verdade. Pelo amor, o ser humano acessa sua dimensão estética.483
Apesar de sua aspiração ao infinito, ele descobre sua finitude e sua insuficiência. A morte, como manifestação da solidão radical do ser, coloca-o frente ao dilema de uma vida que pode ser interrompida sem ter alcançado a realização de seus projetos. Nesse movimento, a possibilidade de um assentimento voluntário confirma sua inteligibilidade e sua vontade, além de sua disposição para decisões que o comprometem em totalidade e liberdade. Essa possibilidade permite retomar e afirmar o que anteriormente se aludiu: o ser humano não é apenas um complexo físico-químico ou bio-psíquico em evolução. Há nele um dado ontológico que o precede, ultrapassa-o e se revela nele como parte de si. 484 Sob essa perspectiva, o assentimento à Revelação se torna uma opção fundamental À medida em que comunica sentido à sua existência em constante devir e ansiosa por plenitude.
Compreender o assentimento à Revelação como opção fundamental define a fé como resposta ao anúncio da Revelação em uma decisão livre e pessoal. Nesse sentido, opção fundamental como ato de fé traduz a obediência da fé anunciada por Paulo nas citações utilizadas na DV 5. O sentido último revelado na encarnação do Verbo compromete o ser humano em sua totalidade e liberdade. No mistério do Verbo encarnado, a questão de Deus se mostra imersa, insuperável e implícita nas questões fundamentais da existência humana quanto a sua origem, seu sentido e seu destino.485
Aqui se chega ao núcleo da reflexão teológica, o mistério da encarnação e da redenção. Em tal mistério, a questão de Deus se revela profundamente implicada na questão do ser humano como um evento não apenas histórico em sentido estrito, mas
483 “Ora, l’amore di una persona è differente dall’apprezzamento di un oggetto: l’amore personale significa
accogliere incondizionatamente l’esintenza dell’amato, nella sua singolarità irrepetibile, un aprirsi dinnanzi al su appello: un dialogo”. (AISZEGHY, Z.; FLICK, M. Il peccato originale in prospettiva personalistica. Gregorianum: commentarii de re theologica et philosophica editi a professoribus Ponticiae universitatis Gregorianae, p. 718).
484 Uma perspectiva atualmente aceita, como corrobora o memorando Neurociência reflexiva de 2014, no
qual se lê: “em última instância, a redução do ser humano e todos os seus desempenhos intelectuais e culturais a seu cérebro, como ‘nova imagem do ser humano’ é totalmente insuficiente. Nesse enquadramento unilateral, a concepção do ser humano não pode mais abarcá-lo como sujeito e pessoa em