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3. CADRE THÉORIQUE ET CONCEPTS

3.5. Les structures d’aide et les outils de l’assistant social en Valais

3.5.1. Les structures de prise en charge en Valais

Para Lutero, o “mais intolerável ainda, porém, é o fato de [Erasmo incluir] essa causa do livre-arbítrio entre as que são inúteis e desnecessárias e, no lugar dela, nos enumera as coisas que julgue suficientes para a piedade cristã [...]” (LUTERO, 1993, p. 26). Lutero responde:

Se julgas essa causa desnecessária para os cristãos, peço que abandones a arena. Nada temos a ver contigo. Nós a consideramos necessária. Se é ímpio, se é impertinente, se é supérfluo, como dizes, saber se Deus tem presciência de algo de modo contingente, se a nossa vontade faz alguma coisa naquilo que concerne à salvação eterna ou apenas sofre a ação da graça, se fazemos o que realizamos de bom ou de mau apenas por mera necessidade ou, antes, sofremos, que então, pergunto, será piedoso, que será importante, que será útil saber? (LUTERO, 1993, p. 26).

Segundo Lutero (1993), Erasmo acreditava que os seres humanos tinham de empenhar esforços e fazerem algumas penitências com o objetivo de obter de todos os modos à misericórdia de Deus, pois sem a misericórdia não há eficácia, nem na vontade e nem nos esforços humanos. Lutero vê uma contradição clara nos argumentos de Erasmo, naquilo que a vontade humana pode fazer concernente à salvação eterna. Neste sentido, Lutero diz:

[...] há forças em nós, há um empenho com todas as forças; existe a misericórdia de Deus; Deus é justo por natureza, clementíssimo por natureza etc. Se, pois alguém ignora o que são essas forças, do que são capazes, o que sofrem, qual é o seu esforço, qual é a sua eficácia e qual a sua ineficiência, que haverá de fazer tal pessoa? Que lhe ensinarás a fazer? Dizes que é ímpio, impertinente e supérfluo querer saber se a nossa vontade faz alguma coisa naquilo que concerne à salvação eterna, se apenas sofre a ação da graça. Aqui, todavia, dizes, ao contrário, que é piedade cristã empenhar-se com todas as forças e que a vontade não é eficaz sem a misericórdia de Deus. Aqui afirmas claramente que a vontade faz alguma coisa naquilo que concerne à salvação eterna, pois a representas como vontade que se empenha; por outro lado, porém, a apresentas como vontade que sofre, pois dizes que é ineficaz sem misericórdia, embora não definas até que ponto se deve entender esse fazer e sofrer e de propósito nos deixa na ignorância sobre o que pode a misericórdia de Deus e o que pode nossa vontade, e fazes isso justamente ao ensinar o que fazem nossa vontade e a misericórdia de Deus (LUTERO, 1993, p. 27, destaque nosso).

O poder do livre-arbítrio humano ainda é o assunto principal em torno do qual gira a discussão. Para Lutero, o assunto não é inútil e nem desnecessário, mas sim “salutar e necessário”, porque:

[...] este é ponto capital de nossa disputa, em torno disso gira o grau dessa questão, pois tratamos de investigar do que o livre- arbítrio é capaz, o que sofre, de que modo se relaciona com a

graça de Deus. Se ignorarmos isso, absolutamente nada saberemos das coisas cristãs e seremos piores do que todos os gentios. [...] Entretanto, se ignoro as obras e a potência de Deus, ignoro o próprio Deus. Se ignoro a Deus, não posso venerar, louvar, agradecer e servir a Deus, pois não sei quando devo atribuir a mim mesmo e quanto a Deus. Portanto, se queremos viver piedosamente, é necessário que mantenhamos uma distinção certíssima entre a força de Deus e a nossa, entre a obra de Deus e a nossa. [...] Assim, pois, em primeiro lugar é necessário e salutar que o cristão saiba também que Deus de nada tem presciência de modo contingente; antes, ele prevê, se propõe e faz tudo com vontade imutável, eterna e infalível. Com este raio o livre-arbítrio é totalmente derrubado e destruído. Por isto, os que querem defender o livre-arbítrio devem negar esse raio, ou dissimulá-lo, ou afastá-lo de si de alguma outra maneira. (LUTERO, 1993, p. 29-30, destaque nosso).

Lutero ainda argumenta com Erasmo, a fim de lhe mostrar a soberania e a eficácia da vontade divina, a qual de modo nenhum é inconstante se comparada com a vontade dos seres humanos. Ela é sempre imutável e jamais poderá ser impedida, por isso, diz a Erasmo,

Pregas que a vontade imutável de Deus deve ser aprendida, porém proíbes que se conheça sua presciência imutável. Acaso crês que ele tem presciência sem querer ou que quer sem saber? Se tem presciência querendo, sua vontade é eterna e imutável (porque é sua natureza); se quer tendo presciência, seu saber é eterno e imutável (porque é sua natureza). Disso se segue irrefragavelmente: tudo o que fazemos, tudo o que acontece, ainda que nos pareça acontecer de modo imutável e contingente, na verdade acontece de modo necessário e imutável, se considerarmos a vontade de Deus, pois a vontade de Deus é eficaz e não há como impedi-la, visto que é a própria potência natural de Deus; além disso, ela é sábia, de sorte que não se pode enganá-la. Ora, se não se pode impedir a vontade, também não se pode impedir a obra, isso é, não se pode impedir que aconteça no lugar, no tempo, do modo e na medida que ele mesmo sabe de antemão e quer. Se a vontade de Deus fosse tal que cessasse uma vez acabada a obra e esta permanecesse, como é a vontade dos seres humanos, que deixa de querer tão logo esteja edificada a casa que querem, assim como cessa a morte, então poder-se-ia dizer verdadeiramente que algo acontece de modo contingente e mutável. Aqui, contudo, acontece o contrário: a obra cessa de existir e a vontade permanece. “Acontecer de modo contingente”, porém, quer dizer, na língua latina (para que não abusemos dos vocábulos), não que a própria obra aconteça de modo contingente, e sim, segundo uma vontade contingente e mutável, tal como não há Deus (LUTERO, 1993, p. 31, destaque nosso).

Este contexto dá origem a uma discussão, na qual Lutero (1993) procura deixar evidente a Erasmo, a diferença existente entre a “necessidade do

consequente” (necessitas consequentis) ou “necessidade absoluta” e da “necessidade da consequência” ou “necessidade condicional”. Diante desse assunto, os sofistas e os escolásticos se deram por vencidos admitindo que “tudo acontece necessariamente, mas pela necessidade da consequência (como dizem), e não pela necessidade do consequente” (LUTERO, 1993, p. 33). Afirmavam que “a ação de Deus é necessária ou [se há] uma necessidade da consequência, ainda que a coisa, uma vez acontecida, não exista necessariamente, isto é, não seja Deus ou não tenha uma essência necessária” (Ibidem). Lutero vê nesta argumentação apenas um “ludíbrio”, porque quando se diz que “tudo é feito por necessidade da consequência, mas não por necessidade do consequente, nada contém senão o seguinte: é verdade que tudo acontece necessariamente, porém as coisas que assim acontece não são Deus mesmo” (Ibidem).

Neste ponto, Lutero é enfático em afirmar que “tudo acontece

necessariamente” (Ibidem, destaque nosso) e cita a passagem do profeta Isaías:

“Meu conselho permanecerá, e minha vontade se fará” (Is 46.10). E ainda, cita o poeta Virgílio: “Tudo está estabelecido por lei certa”. “A cada um está fixado o seu dia”. “Se o destino te chamas”. “Se romperes o áspero destino”33, no intuito de

mostrar o quanto o destino é superior aos esforços humanos, impondo uma “necessidade às coisas e aos homens” (LUTERO, 1993, p. 33). Em Lutero, “Deus não mente, mas tudo faz imutavelmente [...] a sua vontade não se pode resistir [...] e não se pode mudá-la ou impedi-la” (LUTERO, 1993, p. 34) e ainda cita algumas passagens de Paulo, como em “Romanos 3.4: ‘Que Deus seja veraz, e todo ser humano mentiroso’; 2 Timóteo 2.19: ‘O fundamento de Deus está firme, tendo este selo: O Senhor conhece os que lhe pertencem; e Tito 1.2: ‘Que Deus, que não mente, prometeu antes do começo dos séculos’” (LUTERO, 1993, p. 34).

Esse pensamento de Lutero no tocante à “necessidade da consequência” não poderia ser visto como determinismo? No dizer de Schwambach (2008), muitos consideram essa formulação do pensamento de Lutero em torno da “necessidade da consequência” como um pensamento determinista, porque segundo Lutero, a liberdade divina controla o “vir e o devir necessário” de toda criação e por meio dessa liberdade nos é imposta a “necessidade”. Porém, esse agir de Deus, de modo

33 Virgílio, Aen. II,324: “Certa stant omnia lege. VI,883: stat sua cuique dies. VII,314: si te fata vocant.

dinâmico e livre, não pode ser entendido como um “sistema de pensamento determinista”. Não obstante, Lutero sabia que era perigoso usar o termo “necessidade” e fica claro que ele não tinha interesse no tema filosófico “de que tudo acontece por necessidade”, mas queria afirmar que tudo o que for prometido por Deus será cumprido e aquilo que foi por Ele determinado e requerido, será feito necessariamente. Lutero então acreditava que Deus não pode mentir e nem efetuar mudança naquilo que foi prometido, daí é extraído toda a convicção e garantia diante de suas promessas, que não mudam e vão se cumprir necessariamente. Lutero está interessado é no sentido pastoral e bíblico, e não no sentido “filosófico- especulativo” do termo. Reinhuber (1998) é citado por Schwambach (2008, p. 88), a fim de mostrar argumentos contrários à afirmação de que Lutero é determinista: “não deixa de ser um pensamento tremendo e imperioso, que o mundo e a experiência humana são perpassados pela complexa realidade de uma soberana e imperscrutável necessidade divina, que o ser humano não tem sob seu controle, muito menos em suas mãos”.

Portanto, Lutero manifesta a Erasmo, em primeiro lugar, que a causa do livre- arbítrio é “necessária e salutar”, e é o ponto mais importante da controvérsia entre ambos. Em segundo lugar, que o cristão tem todo o direito de saber que a presciência de Deus nunca opera de modo contingente, pois, aquilo que foi por Ele previsto e proposto é feito necessariamente de acordo com sua “vontade imutável, eterna e infalível”. E por fim, em terceiro lugar, que com esta argumentação, o livre- arbítrio humano é totalmente destruído e se torna completamente ineficaz quando se trata de seu relacionamento com a graça de Deus.

A fim de entendermos, segundo Lutero, como Deus age por necessidade e não exerce coação sobre o ser humano, mas simplesmente o convida e o atrai para Si, contrariando, assim, o dogma do livre-arbítrio de Erasmo, apresentamos, na sequência, uma abordagem sobre o tema.