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3-1- Les spectres

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Ao falarmos em artesanato é comum vir à mente a imagem de algum produto manufaturado, ligado com o que se convencionou a chamar de cultura popular. Cordula (2006) nos aponta a compreender o artesanato como sendo a obra material do artesão; o resultado do seu trabalho realizado através das mãos na produção de objetos destinados ao conforto do homem. Estes carregariam as expressões da cultura.

O artesanato é instrumento de melhoria e distribuição justa da renda de comunidades pobres, fruto do trabalho autônomo e vivo, pois o objeto produzido pertence a quem o produziu, o artesão, diferentemente do trabalho enterrado nas fábricas pelas mãos dos operários, contrapondo-se, portanto, ao sistema de produção industrial. (CORDULA, 2016, p. 9)

Existe uma dicotomia entre arte e artesanato na literatura, alguns autores pensavam essa conotação como sendo coisas inversas, como se arte e artesanato fossem opostos já que o artesanato era algo popular, e que sendo popular não poderia ser considerado arte, ou seja, era visto de forma depreciativa.

A influência da escola finlandesa nos folcloristas – sob o lema: deixemos de teoria o importante é colecionar”- fomentou um empirismo raso na catalogação dos materiais, o tratamento analítico da informação e uma pobre interpretação contextual dos fenômenos, mesmo nos autores mais esmerados. Por isso a maioria dos livros sobre artesanato, festas, poesia e música tradicionais enumeram e exaltam os produtos populares, sem situá- los na lógica atual das relações sociais. (CANCLINI, 2009. p. 212)

Canclini faz uma critica a essa noção errônea do que é artesanato, percebemos que quando os autores tratam da cultura popular, eles apropriam a um grupo único, eles não tornam o fenômeno estudado em algo social, mas pertencente apenas a um grupo seleto de pessoas, para alguns autores o artesanato estava ligado diretamente ao popular e portanto não tinha validade social, não era arte era algo menor e sem importância.

Dessa forma vários questionamentos são feitos a respeito disso, uma das principais questões, por exemplo, é: por que tão poucos artesãos chegam a ser reconhecidos como artistas?

As oposições entre o culto e o popular, entre o moderno e o tradicional, condensam-se na distinção estabelecida pela estética moderna entre arte e artesanato. Ao conceber-se a arte como

movimento simbólico desinteressado, um conjunto e bens “espirituais” nos quais a forma predomina sobre a função e belo sobre o útil, o artesanato aparece como o outro, o reino dos objetos que nunca poderia dissociar-se de seu sentido prático. (CANCLINI, 2009. p. 242)

Outro questionamento que surge nessa linha de pensamento é porque se divide o que é Arte e o que é considerado arte popular? O que leva uma a ser considerada rebuscada e a outra não? E quem decide isso? Mais uma vez Canclíni é chamado pra trazer reflexões: “Outro argumento rotineiro que opõe a Arte e a arte popular diz que os produtores da primeira seriam singulares e solitários enquanto os populares seriam coletivos e anônimos.” (CANCLINI, 2009. p. 243).

O que deve ser considerado é a importância do artesanato, entendemos que o artesanato é uma expressão da cultura, e como tal não deveria ser classificada, ou considerada como inferior ou menor por ser popular.

Quando buscamos informações sobre o mesmo em países industrializados e desenvolvidos percebemos que o artesanato satisfaz necessidades setoriais Canclini (2009) alerta que

a contribuição do artesanato em países industrializados mostra que o progresso econômico moderno não significa eliminar as forças produtivas que não servem diretamente para a sua expansão, mas que se essas forças tornam homogêneo um setor numeroso e ainda satisfazem as necessidades de diversos setores, além de dar suporte a uma reprodução equilibrada do sistema, ela se torna uma forma complementar a reprodução das tradições sem exigir que este se feche à modernização.

O artesanato carrega em si um conjunto de saberes, de informações, de conhecimentos que são transmitidos de geração em geração, contribuindo para a constituição do patrimônio cultural, através da relação entre informação e memória.

Essa é bem elucidada por Azevedo Netto (2007), ao afirmar que a relação entre informação e memória, pode ser considerada, quando um conjunto de informações sobre o passado de um grupo são reunidas e relacionadas entre si, dando sentido ao compartilhamento de passados. Além disso, estudar o artesanato possibilita detectar configurações referentes as práticas informacionais uma vez que essa

constitui-se num movimento constante de capturar as disposições sociais, coletivas (os significados socialmente partilhados do que é informação, do que é sentir necessidade de informação, de quais são as fontes ou recursos adequados) e também as elaborações e

perspectivas individuais de como se relacionar com a informação (a aceitação ou não das regras sociais, a negociação das necessidades de informação, o reconhecimento de uma ou outra fonte de informação como legítima, correta, atual), num permanente tensionamento entre as duas dimensões, percebendo como uma constitui a outra e vice- versa (ARAÚJO, 2017, p. 221).

Vemos isso na Feira Cariri Criativo, onde cada peça feita por um empreendedor criativo traz consigo a noção de patrimônio, já que são peças que estes aprenderam com os pais, onde muitas das técnicas são passadas de geração para geração, eles persistem em desenvolver essas praticas até hoje e isso reflete na identidade dos mesmos. A exemplo disso, temos as bonecas de pano que são um bem cultural da nossa região.

Compreendendo o patrimônio cultural como uma herança importante para o futuro, é nosso dever buscar a melhor forma de preservá-lo. Nesse sentido, as abordagens trazidas pelas pesquisas em torno da memória e cultura material jogam uma nova luz sobre algumas questões pertinentes ao campo da preservação do patrimônio cultural: a definição dos valores que devem orientar a seleção dos bens a serem preservados, a ampliação da participação dos atores envolvidos neste processo e, consequentemente, o aumento da representatividade destes bens na lista do que deve ser transmitido às próximas gerações. (ZOUAIN, 2017)

Assim sendo buscamos trazer à tona esse setor da sociedade que por vezes é considerado de forma marginalizada, além de tornar visíveis as diversas manifestações artísticas, sendo elas eruditas ou populares, enfocando principalmente nos diversos movimentos existentes na região do cariri cearense ao qual o projeto Cariri Criativo faz parte. Devemos ter o compromisso com a cultura e vê-la como algo deixado para as gerações futuras.

Segundo Singer (2018) a economia solidária tem sua fundamentação na tese de que o capitalismo cria várias oportunidades de desenvolvimento de organizações econômicas cujo o objetivo é oposto à do modo de produção dominante naquele espaço. O avanço da economia solidária não se dá diretamente pelo apoio do Estado e do fundo público, mas sim, por meio do resgate de comunidades, que vivem com o mínimo de recursos permitindo as mesmas passar pelo processo de auto emancipação.

Construir uma economia solidária depende principalmente da própria população, de sua disposição de aprender e experimentar, de seu consentimento em aderir aos princípios da solidariedade, da igualdade, da democracia e de seu interesse e disposição de seguir estes princípios tanto na vida cotidiana e em comunidade.

Nesse sentido a cultura tem um papel de extrema importância já que a mesma pode ser utilizada pela comunidade a participar de forma ativa na economia solidaria. Pensando nessa dinâmica, trazemos a feira Cariri Criativo, configurada como um espaço de produção e socialização da informação, surgida da iniciativa da Universidade Federal do Cariri (UFCA).

4 RESULTADOS

O Programa de Fomento à Economia Criativa do Cariri, oriundo da Pró-Reitoria de Extensão (PROEX) da UFCA, surgiu com a finalidade de potencializar as estratégias de desenvolvimento socioeconômico dos artesãos da região do Cariri e outros empreendedores criativos. De acordo com seu estatuto, a Feira tem como objetivos: a) dar visibilidade aos empreendedores criativos do Cariri, valorizando os produtos e serviços criativos dos mesmos;

b) incentivar aos empreendedores a criação e o desenvolvimento de novos produtos e serviços criativos;

c) criar oportunidades para a realização de negócios e comercialização de suas cadeias produtivas;

d) estimular o trabalho e a comercialização coletiva e cooperada entre a comunidade e empreendedores;

e) fortalecer a Rede de Empreendedores Criativos do Cariri;

f) capacitar os empreendedores criativos e para além disso toda a comunidade interessada; e

g) se constituir como um espaço de meio cultural.

A feira acontece sempre no segundo fim de semana de cada mês, na RFFSA da cidade do Crato e conta atualmente com 38 artesãos ativos. Estes por sua vez participam da feira de quinta a sábado, onde podem comercializar seus produtos, além de contarem também com oficinas de diversos temas durante a programação da feira. Por essa razão:

Ao usarmos o contexto dos grupos como fonte e origem de recursos, estaremos valorizando e reforçando os laços e as referências que são importantes para o exercício da cidadania. Desta forma, estaríamos reduzindo o distanciamento entre a teoria e a prática, entre a ciência e a sociedade, entre produtores, distribuidores e usuários. (GUIMARÃES. 1996, p. 6)

As oficinas ofertadas pela feira acontecem sempre aos sábados e visam à interação entre a comunidade, empreendedores e Universidade. São ofertadas pelos próprios empreendedores bem como pelos parceiros do projeto, como Geopark Araripe e Representantes da UFCA.

Como exemplos, podemos citar como oficinas já realizadas: precificação de produtos, turbante, bordado, reutilização de banners, arte em pallet, costura e customização de roupas, entre outras. Estas oficinas tem a participação ativa da comunidade, sendo uma oportunidade para aqueles que participam de aprender um método que pode vir a ser uma fonte de renda.

A feira ainda conta com iniciativas internas, como a campanha “compre produto criativo local” que estimula aos visitantes a compra de produtos de pequenos empreendedores.

Uma dos empreendimentos é a barraca do artesão Boni, que comercializa esculturas populares em madeira, desde personagens literários das séries de livros como Harry Potter e Game Of Thrones, bem como personagens da cultura popular, Luiz Gonzaga, Patativa do Assaré, o casal Lampião e Maria Bonita, além de outros personagens da cultura nordestina.

Fotografia 1. Barraca Boni

Fonte: os autores.

Dentre os outros empreendimentos presentes na Feira contamos com aproveitamento de materiais reciclados, produtos em tecido, palha de milho, MDF entre outros materiais.

Quadro 1. Lista de empreendedores do Cariri Criativo EXPOSITOR(A)/

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