Partindo do contexto já apresentado, nesta seção temos o interesse de relatar e refletir sobre uma visita à turma da professora Alice, realizada no início do mês de setembro de 2014 por três pesquisadores (LEETRA/USP) de temáticas indígenas, são eles: Renato Fonseca, Antônio Fernandez e João Paulo Ribeiro. A visita propiciou um diálogo aberto por meio do qual os alunos do primeiro ano D puderam expressar suas dúvidas, sentimentos e pensamentos em relação aos índios e sua cultura.
Iniciamos a aula anunciando aos alunos que teríamos três visitantes muito especiais, e que poderíamos discutir com eles questões referentes a cultura indígena. Para recebê-los arrumamos a sala, dispomos as carteiras em meio círculo e esperamos nossos convidados lendo e discutindo uma história sobre o casamento do povo Pataxó.
Assim que os visitantes chegaram, nos ensinaram algumas palavras e suas respectivas pronuncias na língua Tupi Guarani, como: Puranga Caruca, boa tarde, Puranga Ara, bom dia e Poranga Pituna, boa noite. Durante a atividade, as crianças usaram suas hipóteses de escrita ajudando os pesquisadores com o registro das palavras na lousa. Ainda tivemos a oportunidade de aprender a contar e escrever até o número quatro em Tupi Guarnani, portanto, foi abordado que os números são falados e escritos da seguinte maneira: Um - iepé, Dois - mocoin, Três - mosapir e Quatro - irundir.
Para a professora Alice “Esta mediação foi sem dúvida muito importante e produtiva, pois seria muito difícil ensinar às crianças a maneira correta de pronunciar as palavras e também de escrevê-las sem conhecer a Língua indígena Tupi Guarani tão bem quanto os pesquisadores ali presentes”.
Num segundo momento da visita iniciamos um diálogo com os pesquisadores sobre aspectos gerais da cultura indígena, assim os alunos puderam perguntar, levantar hipóteses, e esclarecer algumas dúvidas abertamente.
Durante a roda de conversa, os pesquisadores explicaram que as crianças indígenas aprendem todos os meios de sobrevivência e a importância da vida com os adultos, por isso elas devem sempre respeitar os mais velhos e ouvi-los com atenção, em sinal de sabedoria.
Logo depois, alguns alunos questionaram os pesquisadores sobre a maneira como os indígenas dormem, isto é, se eles usam cama, dormem no chão, ou em cima de palha etc. Ouviram o relato de que alguns povos com os quais eles tiveram contato costumam utilizar redes para dormir, sendo que a mulher/mãe da família tem sua rede amarrada na parte mais baixa da armação, pois ela é a responsável, durante a noite, por não deixar a fogueira apagar, fogueira essa que protege os índios de ataques de animais. Já as crianças pequenas dormem com o pai e com a mãe, porém o pai não deve ser incomodado, ele precisa descansar a noite toda para no dia seguinte conseguir realizar seus afazeres.
Sobre essa fala dos pesquisadores, as crianças ilustraram várias imagens, escolhemos algumas como exemplo:
Imagem 13: Desenho sobre pernoite de família indígena (I)
Imagem 14: Desenho sobre a pernoite de família indígena (II)
A conversa com os pesquisadores continuou e foi mencionado que os indígenas acordam muito cedo, aproximadamente às 4h00 da manhã, uma vez que em algumas aldeias não existe luz elétrica então precisam aproveitar a única luz que eles dispõem que é a luz do sol.
Nesse momento os alunos começaram a se manifestar e direcionar os rumos da discussão.
Aluno G: Eu queria saber como é feita a farinha.
Pesquisador João: Vocês sabiam que a farinha é feita da mandioca? E que ela tem veneno? Vocês sabiam que quando os europeus e os portugueses chegaram ao Brasil, se não fosse os indígenas eles iam passar muita fome e iam morrer? Vocês sabiam que a farinha é um prato indígena e que nós somos um pouco indígenas também? Qual outra contribuição indígena que vocês conhecem?
Crianças: Silêncio absoluto.
Pesquisador João: O feijão, amendoim, milho, batata, o caju. Ninguém conhece o caju?
Houve, então, um alvoroço, já que muitas crianças conhecem o caju e queriam contar. Os pesquisadores ainda explicaram que os indígenas celebram as datas de aniversário dando um caju para o aniversariante. Essa novidade causou burburinhos entre os alunos que acharam o fato interessante ou diferente.
Continuando a conversa, um aluno resolveu relatar aos pesquisadores como a turma já tinha experiência em plantar mandioca. Vejamos a seguir:
Aluno G: A gente já plantou mandioca de dois jeitos: Um modo em pé assim (mostrou com a mão).
Professora Alice: Quem ensinou?
Aluno G: O Daniel Munduruku que é do povo Munduruku e o outro jeito foi o nosso professor de Educação Física que ensinou que é assim (novamente fez gestos com as mãos) cruzada. Porque se colocar cruzada a mandioca nasce melhor e ela pode não cair. Ela fica melhor que a outra. Aproveitando o assunto sobre recursos naturais, o pesquisador perguntou às crianças: Onde é o supermercado do indígena?
E em seguida, notando que os alunos ficaram pensativos, respondeu: É a natureza.
A aluna L com estranhamento questiona: Supermercado do indígena? Pesquisador: É eles vão na natureza e ali eles vão encontrar as coisas para comer. Eles precisam matar um monte de bicho?
Crianças responderam coletivamente: Não!
Pesquisador: Eles só levam o que precisam para comer.
Aluna L: É, se eles encontram um filhote eles não vão matar eles vão deixar crescer. Ai se eles encontram eles grandões eles soltam uma flechada.
Após esse comentário, os alunos, que já haviam pesquisado no laboratório de informática sobre as brincadeiras indígenas, questionaram os pesquisadores sobre esse assunto.
Aluna L: É verdade que os indígenas pulam corda com cipó?
Pesquisador: Tem uma palavra que a “L” está falando, alguém sabe o que é cipó?
Aluna I: Cipó é onde os macacos seguram para ir pulando de árvore em árvore.
Pesquisador: Agora, não é muito bom todas essas coisas que nós estamos aprendendo sobre os indígenas?
Aluno M: A parte da caça é meio perigosa.
A conversa se estendeu um pouco mais, falou-se em casamento indígena e no papel da mulher. Terminamos a aula aprendendo duas outras palavras em Tupi Guarani: Obrigada - Cuecatu Rete, e, por nada - Tima Rese.
No dia posterior propomos que os alunos ilustrassem ou escrevessem (o que achassem melhor), tudo o que se lembravam do diálogo com os pesquisadores, já que poderíamos utilizar essas informações em uma outra hora.