Atualmente a Acolhida na Colônia conta com membros associados e em processo de associação em seis municípios, dos quais destacaremos apenas os empreendimentos de Santa Rosa de Lima e Anitápolis, objetos da presente pesquisa (Tabela 6). A localização dos empreendimentos pode ser observada Mapa 1: Hidrografia, Rodovias e Propriedades, no anexo 4.
Tabela 6 - Caracterização dos empreendimentos de agroturismo ligados à Acolhida na Colônia
Empreendimento Serviços Oferecidos Mão-de-obra Principal fonte de renda Recursos para
investimento no agroturismo Santa Rosa de Lima
Pousada Tenfen
Comunidade Rio Bravo Alto
Hospedagem (30 pessoas em duas casas e uma estufa reformada)
Refeições coloniais: (até 40 pessoas)
Colônia de férias (para grupos de até 60 pessoas entre alunos e
instrutores) Atrativos: pescaria, trilha ecológica, futebol, piscina, acompanhamento das atividades agrícolas (produção leite, horta e
pequenos animais)
Familiar: casal e nos finais de semana contam com a
ajuda dos três filhos Contratada: 1 pessoa
A renda da família se divide entre a agricultura e o turismo, sendo que nos meses de maior movimento o agroturismo chega a representar
60% da renda familiar. Recursos próprios Fundo rotativo Pousada Vitória Comunidade do Rio do Meio
Hospedagem (14 pessoas em dois imóveis)
Refeições coloniais (até 25 pessoas)
Agroindústria de mel (visitação) Atrativos: pescaria, trilha ecológica, banho de cachoeira,
plantio e colheita na horta
Familiar: 2 pessoas Contratada: 1 esporádica e
1 permanente
A principal fonte de renda é o salário do chefe da família (professor do ensino médio). Nos meses de maior fluxo de turistas, a renda do turismo e da produção de mel ultrapassam a
renda fixa.
Recursos próprios; empréstimo com a família; fundo rotativo
Pousada Doce Encanto
Comunidade Rio dos Índios
Hospedagem: 14 pessoas Refeições coloniais: 40 pessoas Visita à agroindústria de cana de
açúcar (processo produtivo primário e beneficiamento) Atrativos: pescaria, trilha
Familiar: 3 pessoas Contratada: 2 (uma para a casa e agroturismo, e outra
para agricultura e agroindústria)
A renda se divide entre produção/agroindústria e turismo, sendo que em determinados meses o
turismo torna-se mais representativo.
PROGER34, recursos próprios, fundo rotativo; investimento do
futuro genro na construção da pousada;
Empreendimento Serviços Oferecidos Mão-de-obra Principal fonte de renda Recursos para investimento no agroturismo
ecológica, venda de produtos derivados da cana, acompanhamento das atividades
agrícolas
Pousada das Águas
Comunidade de Águas Mornas
Hospedagem (até 6 pessoas) Refeições coloniais Atrativo: próximo ao empreendimento de águas termais
Familiar: três pessoas (duas em tempo parcial)
A principal renda da família é o salário do chefe da família
(funcionário do Besc)
Recursos próprios
Quartos Coloniais Assing
Comunidade Rio dos Índios
Hospedagem (até 6 pessoas) Refeições coloniais para pequenos grupos (até 10 pessoas)
Atrativos: trilha e acompanhamento das atividades
agrícolas
Familiar: os quatro adultos da família dividem o tempo entre agricultura e
agroturismo, sendo que dois também participam do
processamento na agroindústria Doce
Encanto
A principal fonte de renda é aposentadoria dos pais e a produção
de leite.
São associados da Agroindústria Doce Encanto, mas não se beneficiam ainda da renda gerada
pela agroindústria
Recursos próprios e fundo rotativo
Quartos Coloniais Vandressen
Estrada da Barra do Rio do Meio
Hospedagem (até seis pessoas) Refeições coloniais para pequenos grupos (até 10 pessoas)
Familiar: duas pessoas A principal fonte de renda é a aposentadoria do casal. O retorno econômico do agroturismo não é representativo.
Recursos próprios
Anitápolis
Pousada Recanto das Cachoeiras
Comunidade do Rio da Prata
Hospedagem: total de 20 pessoas (4 no chalé, 6 na casa da família - quartos coloniais e
10 no rancho
Refeições coloniais para até 40 pessoas
Atrativos: 4 trilhas com vários
Familiar: 3 pessoas Contratada: 1 pessoa
esporadicamente
A principal fonte de renda da família é o agroturismo.
Recursos próprios para as primeiras adaptações;
Adiantamento de diárias por parte de duas clientes para a construção
Empreendimento Serviços Oferecidos Mão-de-obra Principal fonte de renda Recursos para investimento no agroturismo
graus de dificuldade; pesca, 10 quedas d'água para banho,
participação no processo produtivo
Pousada Schüller
Comunidade do Rio da Prata
Hospedagem: até 18 pessoas em duas estruturas Refeições coloniais: até 30 pessoas
Atrativos: pesca em rio, serraria movida a roda d'água
Familiar: 2 pessoas Contratada: 1 pessoa
esporadicamente.
A principal fonte de renda é a aposentadoria da mãe e a serraria.
O retorno com o agroturismo só pouco representativo.
Recursos próprios
Sítio do Silva∗
Comunidade do Rio da Prata
Atrativos: visita a propriedade cujo diferencial é a produção
baseada em técnicas de permacultura35
(acompanhamento do processo produtivo); trilha e cachoeira
Familiar: 2 pessoas A principal fonte de renda é a agricultura (venda na sede do
município)
Ainda não fez investimentos para o turismo
Não foi realizado nenhum investimento direcionado ao
agroturismo
∗ Esta propriedade está em processo de associação à Acolhida na Colônia
35 Permacultura é uma síntese das práticas agrícolas tradicionais com idéias inovadoras. Unindo conhecimento secular às descobertas da ciência moderna, proporciona o desenvolvimento integrado da propriedade rural de forma viável e segura para o agricultor familiar. Envolve o planejamento, a implantação e a manutenção conscientes de ecossistesmas produtivos que tenham a diversidade, a estabilidade e a resistência dos ecossistemas naturais. Ele resulta na integração harmoniosa entre as pessoas e a paisagem, provendo alimentação, energia e habitação, entre outras necessidades materiais e não-materiais, de forma sustentável (www.permacultura.org.br).
O número de famílias envolvidas com o agroturismo mostrou-se bastante reduzido até o momento. Os motivos para a não inserção de outras famílias são bastante variáveis, e já haviam sido apontados por Cabral (2004): amplitude das mudanças necessária (reorganização dos processos produtivos, reorganização da dinâmica do trabalho que inclui os finais de semana, mudança de hábitos de higiene, alimentares, etc.); falta de infra-estrutura nos municípios (estradas, comunicação, falta de serviços básicos, etc); sazonalidade da atividade; falta de crença no potencial dos municípios; e o mais importante, a falta de recursos para as melhorias.
Com relação à falta de recursos, das propriedades acima descritas todas utilizaram recursos próprios para a realização de melhorias, algumas se beneficiaram de algum tipo de empréstimo (fundo rotativo, Proger e empréstimo com terceiros), apontando que o agroturismo não se mostra acessível para os agricultores descapitalizados. Cabe ressaltar, porém, que os investimentos foram bastante variáveis de uma propriedade à outra, não justificando a necessidade de empréstimos em algumas delas.
Percebe-se também, que nenhum dos associados se beneficiou do PRONAF Turismo, de um lado porque alguns já estavam comprometidos com o PRONAF agroindústrias, de outro porque a aprovação desse tipo de financiamento não é tão evidente, como apontou Guzzatti (2003).
Embora o número de famílias envolvidas seja reduzido, a oferta de produtos e serviços é diversificada, e a capacidade de atendimento vem aumentando, independente da ampliação do número de estabelecimentos. Assim, hoje as propriedades de agroturismo de Santa Rosa de Lima (Prancha 1) têm capacidade para hospedar até 76 pessoas e servir alimentação para até 135 pessoas; as propriedades de Anitápolis (Prancha 2) têm capacidade para hospedar até 38 pessoas e servir refeições para até 70 pessoas.
A renda proveniente do agroturismo é variável de uma família para outra, sendo que se complementa com as atividades agrícolas, agroindustriais e com atividades externas à propriedade (salário de um dos membros da família e comércio). A mão-de-obra ocupada nas propriedades associadas à Acolhida é familiar, com um número reduzido de contratados temporários e permanentes. Esses e outros aspectos serão analisados detalhadamente no próximo capítulo.
CAPÍTULO 4
Do agroturismo à produção do espaço
O trabalho efetuado pela Acolhida na Colônia nas Encostas da Serra Geral é apenas um braço de um projeto de desenvolvimento territorial que está em processo. Embora seja uma experiência pioneira, o agroturismo não pode ser considerado o único fator de mudanças provocadas pela atividade turística em curso na região.
Partindo desta realidade, o objetivo do presente capítulo é compreender como se dão as mudanças sócio-espaciais nos municípios de Santa Rosa de Lima e Anitápolis, em função da sua inserção no projeto de agroturismo da região. Para isso, serão analisadas as ações dos atores (locais e externos) implicados na atividade turística, assim como, as interações e conflitos que se dão entre essa atividade e os espaços em que ela acontece.