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IV. L’IDENTIFICATION COMPARATIVE ET RECONSTRUCTRICE

4.2. Les moyens de l’identification comparative

4.2.2. Les odontogrammes

Ribeiro tinha perfeita consciência de que a geologia, sendo sobretudo uma ciência baseada na observação, não se podia limitar à combinação isolada de factos examinados numa dada região sendo necessário compará-los com outros estudados noutras localidades e sob diversos pontos de vista. Por esse motivo, era indispensável que a Comissão

Geológica pudesse dispor de uma biblioteca bem apetrechada.140 Como possuía total

liberdade para empregar o fundo de maneio colocado à sua disposição durante a viagem, Ribeiro não hesitou em comprar diversas obras e publicações periódicas para a biblioteca

da Comissão Geológica.141 Auxiliado pelos conselhos de Deshayes, Archiac, Suess e

Hörnes, conta que adquiriu os livros mais importantes sobre geologia e paleontologia escritos em alemão, francês, inglês, italiano e espanhol, até então desconhecidos das bibliotecas portuguesas.142 No entanto, não deixa de salientar a necessidade da Comissão

passar a dispor de uma verba especialmente canalizada para a compra de obras para poder aumentar sucessivamente o núcleo bibliográfico, ainda muito distante de poder ser comparado a qualquer um pertencente aos geólogos mais eminentes com quem contactara.143

Para o volume da aquisição contribuiu o espólio de dois naturalistas falecidos pouco antes da chegada de Ribeiro a Paris, o qual se encontrava à venda por um preço muito inferior ao praticado nas livrarias. Além disso, segundo Ribeiro, na biblioteca que pertencera a Alcide d’Orbigny (1802-1857), um dos naturalistas falecidos, estavam incluídas diversas separatas dificilmente disponíveis a não ser que fossem compradas as correspondentes

colecções de publicações periódicas.144 Para conseguir também diversas obras já

esgotadas no mercado o geólogo português contactou a livraria parisiense Baillière & Fils,

que se comprometeu a empenhar-se na procura das mesmas.145

138 Esboço de uma minuta da CGR, para prestar esclarecimentos a S. Magestade, s/ data, AHIGM, loc. cit. (47). 139

Carta de Deshayes dirigida a Carlos Ribeiro, 27 de Outubro de 1859, AHIGM, loc. cit. (91). 140

Op. cit. (82), p. 154. 141

Ofício da DGTGCHGR dirigido ao Ministro das Obras Publicas, 16 de Fevereiro de 1859, AHIGP, loc. cit. (74). 142

Op. cit. (82), pp. 154-155.

143 Ofício da DGTGCHGR dirigido ao Ministro das Obras Publicas, 16 de Fevereiro de 1859, AHIGP, loc. cit. (74). 144

Op. cit. (68), p. 85. 145 Op. cit. (82), p. 155.

Todavia, as compras de Ribeiro não se limitaram a livros e revistas. Foram também adquiridos diversos mapas geológicos e geográficos em Paris, Viena, Turim e em Madrid. Entre eles, refere a compra de um atlas, de algumas cartas geográficas de Piemonte e da Alemanha, a carta itinerária de Portugal e Espanha para uso no campo, as folhas já publicadas da carta de Espanha, a carta geológica de Murchison para a Europa, a de Haidinger para o Império Austríaco,146 e a carta geológica de França.147

Para a compra de colecções tipo Ribeiro foi aconselhado pelos seus colegas estrangeiros a contactar Louis Saemann (1821-1866), geólogo estabelecido em França. Saemann era reconhecido como sendo quem oferecia maiores garantias na venda de colecções já classificadas, sendo mesmo o fornecedor habitual de diversos estabelecimentos científicos europeus, entre os quais o Gabinete Mineralógico Real e Imperial de Viena. A primeira colecção a ser encomendada a Saemann foi a de equinodermos das diferentes formações do Mesozóico e do Terciário da Europa. Evidentemente, não se tratava de uma colecção completa mas não existiam no mercado colecções onde estivessem representadas as principais espécies de cada género, de todos os géneros determinados até então. Este tipo de colecções era unicamente pertença de

geólogos que se dedicavam exclusivamente a este estudo.148 Ribeiro também encomendou

a Saemann uma colecção das formações do Jurássico e do Liásico de França e do Reno, e uma de fósseis da bacia do Miocénico (Terciário) de França (Bordeaux e Dax)149 a qual, de

acordo com as suas palavras, era a que mais se assemelhava às das bacias do Tejo e do Guadiana.

Saemann não era, no entanto, o fornecedor exclusivo da CGR. Ao colector de Deshayes foi também encomendada uma colecção de todos os espécimes fósseis da bacia do Terciário de Paris, a qual iria ser totalmente classificada pelo próprio Deshayes. Ribeiro dizia tratar-se de uma colecção que encerrava entre 1400 e 1800 exemplares, representando para a Comissão um investimento de 1600 francos.150

Para a determinação precisa das idades das formações marinhas de Portugal e realização de um estudo comparativo de todas as bacias terciárias marinhas desde o Tejo à parte mais ocidental da Europa, era essencial conhecer as espécies mediterrânicas. Não obstante os esforços empreendidos, Ribeiro não encontra ninguém disponível a fornecer tais

146

De acordo com uma folha de despesa encontrada nos arquivos da Comissão Geológica, este mapa custou 10 francos. “Despezas sem documentos”, AHIGM, Armário 3, Prateleira 2, Maço 32, Pasta 2.

147

Ibid.

148 Ibid. 149

Ribeiro refere que o preço conseguido por esta colecção foi muito bom, tendo em conta que se trata da colecção mais completa jamais vendida por Saemann para aquela formação. Op. cit. (82), p. 156.

150

Ribeiro explica também que como muitas das espécies apareceriam repetidas nos diversos andares, tal como se encontravam na natureza, o número de espécies da colecção elevar-se-ia para cerca de 2 000 a 3 000. Ibid. As caixas contendo os fósseis enviados por Deshayes, foram expedidos para a CGR ainda antes de Ribeiro regressar a Portugal. Carta de Mathias de Carvalho, dirigida a Carlos Ribeiro, Paris 2 de Dezembro de 1858, AHIGM, Armário 3, Prateleira 1, Maço 28, Pasta 2.

colecções. Contudo, Hörnes confidencia a Ribeiro a existência de um geólogo no Cairo que se ocupava de colecções de moluscos, de quem o Gabinete Mineralógico Real e Imperial de Viena deveria receber uma colecção no início de 1859. Ribeiro solicita então a Hörnes a encomenda de uma colecção para a Comissão, desde que a mesma se encontrasse bem conservada e bem catalogada e fosse negociada a um preço inferior a 500 florins.151

Para auxiliar na exploração da costa portuguesa Carlos Ribeiro adquiriu uma draga de mão e um ancinho para águas rasas e de fundo com cascalho, além de uma máquina de pesca de coral para grandes profundidades e fundo acidentado. Com estes meios era esperada a recolha de espécimes de interesse geológico imediato, mas também para a fauna marítima portuguesa, ainda num estado de ignorância completa.152

Para os estudos de campo foram igualmente adquiridos diversos instrumentos. Por não possuir instrumentos de topografia, Ribeiro queixava-se do tempo despendido no levantamento das diversas localidades. Num país onde não existiam cartas parciais exactas para se poderem efectuar estudos geológicos detalhados era muitas vezes necessário, a cada passo, levantar à vista o esboço de diversas zonas de terrenos. Por exemplo, conta que na sua última campanha tivera de esboçar à vista as zonas entre Palma e Alcácer, e de Alcácer a Vale do Guiso, nas vizinhanças de Grândola e Santiago do Cacém, por não possuir instrumentos topográficos em condições de servir com a celeridade e exactidão

requeridas a este género de reconhecimento.153 Mesmo para um reconhecimento geológico

rápido não era possível prescindir de esboços de planimetria em grande escala onde se pudessem traçar as primeiras linhas ou se indicasse, com alguma aproximação, a localização geográfica tanto das formações como de diversos acidentes. Foi com este fim que Ribeiro adquiriu em Paris três bússolas Capitão Brunier, um sextante e um teodolito de

algibeira, e uma bússola eclímetro de grande raio e com luneta.154 Para efectuar

nivelamentos, Carlos Ribeiro comprou para a Comissão 4 barómetros de Fortin para a determinação das altitudes, e dois barómetros aneróides para registar as diferenças de nível das escarpas e obter nivelamentos parciais de pequena extensão.155

Ribeiro comprou também alguns instrumentos e caixas portáteis de reagentes para efectuar diversos ensaios químicos no terreno. Todavia, como grande parte das análises só seriam possíveis de efectuar num laboratório, reclama a necessidade da Comissão possuir um espaço próprio para esse fim e pessoal técnico especializado. Porém, a criação de um laboratório era impensável enquanto o pessoal técnico se achasse reduzido a três membros. Consciente das limitações da Comissão, Ribeiro restringiu as suas aquisições à compra do

151

Não se conseguiu apurar se a Comissão chega ou não a adquirir esta colecção. 152 Op. cit. (82), p. 156. 153 Op. cit. (82), p. 157. 154 Ibid. 155 Ibid.

material químico estritamente necessário a ensaios qualitativos.156 Para o exame geral de

alguns microorganismos e de rochas onde se verificasse a existência daqueles seres,

comprou também um microscópio.157

Ribeiro estava igualmente convencido que a aplicação da fotografia à geologia podia trazer grande auxílio, sobretudo no caso da linha de costa portuguesa, muito escarpada e acidentada:158

Nem a descripção mais diffusa e bem traçada, e muitas vezes nem o desenho podem representar com fidelidade um grande numero de phenomenos geologicos e de geographia physica, que se mostram a cada passo nas fórmas e accidentes do relevo das massas que se erguem acima do nivel dos mares, de modo a avivar as idéas e as impressões com a clareza e a verdade precisa, quando muito tempo depois da observação se reduzem a memorias, ou se precisa recorrer á fiel imagem dos fenomenos materiaes que se examinaram um ou dois annos antes, e que a descripção não póde reproduzir.

Por este motivo, frequentou um curso de fotografia no laboratório de conchologia do Jardin des Plantes em Paris e comprou uma máquina apetrechada com o respectivo laboratório fotográfico e acessórios, em quantidade suficiente de modo a evitar a constante requisição daquele material.159

Ano de 1859

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