PARTIE IV : LE PROJET « INTERFACES WEB TÉLÉMATIQUES »
2. Réalisation des interfaces
2.1 Les interfaces Crash Test
No Brasil, a questão social emergiu nas práticas terapêutico-ocupacionais a partir de questionamentos e reflexões intrínsecos ao foco da atuação em instituições totais30 e à
inquietação frente ao esvaziamento de vida no aprisionamento em espaços asilares. As contradições presentes na força do asilamento, o poder médico, a visão reducionista do adoecimento e as precárias condições de vida contribuíram para que alguns terapeutas ocupacionais, no final da década de 1970, se tornassem agentes de um processo de questionamento e vislumbre de transformação das próprias ações, no âmbito das instituições asilares (BARROS; GHIRARDI; LOPES, 2002).
As primeiras práticas ligadas diretamente ao campo social, das quais se tem conhecimento, estiveram localizadas e direcionadas às condições de vida das crianças em creches populares, de jovens na Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor (FEBEM), dos adultos nos presídios e de idosos em asilos (GALHEIGO, 2016). Assim, o campo social na terapia ocupacional foi se desvelando na compreensão da dimensão político-social da atuação e no envolvimento com projetos e ações sociais, que ficavam até então distantes das preocupações e práticas efetivas da profissão (BARROS; GHIRARDI; LOPES, 2002).
No mesmo período em que a terapia ocupacional iniciava suas atividades especificamente no campo social, com outros grupos populacionais que não aqueles tradicionais de seu cerne de atuação, ou seja, as pessoas com deficiência e/ou transtornos mentais; foram criadas as primeiras disciplinas destinadas ao referido campo em cursos de graduação (UFSCar, São Carlos/SP e PUC, Campinas/SP); foi também quando aconteceu a publicação da primeira experiência sobre a intervenção social, com caráter não terapêutico, pela terapeuta ocupacional Jussara de Mesquita Pinto, nos Anais do V Encontro Científico Paulista de Terapeutas Ocupacionais, em 1979, inaugurando o termo Terapia Ocupacional Social (GALHEIGO, 2016). Naquele mesmo ano, os formandos do Curso de Graduação da Universidade de São Paulo (USP/SP) puderam se inserir em estágios profissionalizantes em Terapia Ocupacional Social, sendo capacitados para práticas em novos espaços profissionais (LOPES; BARROS; MALFITANO, no prelo).
Em síntese, as práticas neste campo foram emergindo de forma concreta nas propostas de intervenções às populações marginalizadas, observando as desigualdades presentes na
30 Para Goffman (1974, p. 11) “uma instituição total pode ser definida como um local de residência e trabalho
onde um grande número de indivíduos com situação semelhante, separados da sociedade mais ampla por considerável período de tempo, levam uma vida fechada e formalmente administrada”.
estrutura social do país e, como mencionado, na criação de disciplinas específicas nos cursos de graduação em terapia ocupacional. Ressalta-se, no entanto, que embora as práticas estivessem em andamento, ainda precisavam ser construídas as metodologias de ação e sua fundamentação teórica, considerando que estas demandas se colocavam no contexto de um regime ditatorial no país que restringia as práticas e discursos emancipatórios publicizados (GALHEIGO, 2016).
O cenário ditatorial e suas mudanças sociais, políticas e econômicas foram impulsionadores para requerer do terapeuta ocupacional atuações que não estavam em consonância à base teórica clínica da formação profissional (BEZERRA; TRINDADE, 2013). O regime autoritário estabelecia sistemas assistenciais implicados com a segregação e a disciplina, “legitimado pelo tecnicismo crescente que, ao conceder o poder aos técnicos, buscava garantir a conformidade com a violência em uma sociedade profundamente desigual” (LOPES; BARROS; MALFITANO, no prelo, p. 5).
Em meio às críticas a este modelo tecnicista, na década de 1980, retomou-se um importante debate para a terapia ocupacional sobre as estruturas de formação profissional dos estudantes e de profissionalização (LOPES; BARROS; MALFITANO, no prelo). Ainda naquele período, foi apresentada via documento oficial pela primeira vez a proposta de reformulação do currículo mínimo de graduação em terapia ocupacional, a qual previa a disciplina “Terapia Ocupacional aplicada às condições sociais, incluindo situações de marginalização social” (GALHEIGO, 2016, p. 50). No âmbito dos debates da Terapia Ocupacional Social, as demandas pelo conhecimento na área, pela nomeação do campo, por modelos de intervenção, entre outros, permaneciam presentes.
Na terapia ocupacional social, a nomeação do campo, as demandas implicadas nessa temática, a necessidade de conhecimento e postura crítica com relação a determinados posicionamentos ideológicos, a concepção de ser humano e de sociedade, a definição de modelos de intervenção, tudo isso compunha o debate que sempre foi intenso e com muitas dissonâncias. (LOPES; BARROS; MALFITANO, no prelo, p. 6).
Diante de tais debates e demandas, ainda na década de 1980, os profissionais buscaram desenvolver a fundamentação teórica pautada em referenciais da história, antropologia, sociologia, das lutas pelas reformas sanitária e psiquiátrica, da psiquiatria democrática, entre outros (LOPES; BARROS; MALFITANO, no prelo). Destaca-se, neste processo, o envolvimento de alguns terapeutas ocupacionais com o movimento de
desinstitucionalização e com o desenvolvimento de intervenções no âmbito territorial. Estes adventos incitaram parte deles a repensarem suas práticas, indo além dos limites impostos pelos muros institucionais e inserindo no escopo de sua visão profissional também a perspectiva da cidadania. Assim, a contextualização territorial das intervenções possibilitou a ampliação das ações para novos locais, abordagens e dimensões macroestruturais no desenvolvimento da prática terapêutico-ocupacional, avançando nos espaços de atuação para além do âmbito das grandes instituições (MALFITANO, 2005).
No entanto, naquele momento, o arcabouço teórico-prático produzido desde o final da década de 1970 não foi suficiente para afirmar com clareza os domínios de ação e a fundamentação da terapia ocupacional no campo social (GALHEIGO, 2016). Assim, em meados da década de 1980, emergiram debates em relação ao social como denominação de um campo específico da terapia ocupacional (LOPES; BARROS; MALFITANO, no prelo). Naqueles debates, apresentavam-se duas direções para o entendimento do social na terapia ocupacional: a primeira apontava para o social como uma dimensão que estaria presente em toda terapia ocupacional; a outra entendia que, embora o social estivesse presente em toda terapia ocupacional, haveria necessidade de um campo específico da terapia ocupacional social para avançar em termos de práticas, populações e espaços de atuação profissional.
Nos anos 1990, perguntava-se, afinal, qual é o lugar do social na constituição da terapia ocupacional? Ou qual é a constituição do campo social na terapia ocupacional? Os debates, as conversas e as diversas demandas do campo vão se evidenciando; apesar das variações em torno do discurso sobre o social na terapia ocupacional, alguns profissionais permaneceram e/ou passaram a tomar para si a questão da atuação e da proposição do desenvolvimento de uma terapia ocupacional social. (LOPES; BARROS; MALFITANO, no prelo, p. 10).
O debate sobre o social foi retomado entre parte dos terapeutas ocupacionais, no final da década de 1990, produzindo um processo importante na constituição do campo social, por estarem “problematizando a medicalização e a psicologização dos conflitos sociais, a interpretação da diversidade e da cultura, além da crítica à redução da terapia ocupacional ao paradigma da mediação necessária entre saúde e doença” (LOPES; BARROS; MALFITANO, no prelo, p. 10; BARROS, GHIRARDI; LOPES, 2002). Abarcando perspectivas teóricas em torno da questão social, os conceitos e ações da Terapia Ocupacional Social caminharam para o seu reconhecimento como um campo específico de atuação, a partir do desenlace da saúde, em que a terapia ocupacional tinha sido, e ainda é historicamente alicerçada (BARROS,
LOPES, GALHEIGO, 2007; BARROS, 2004). Barros (2004), discutindo sobre o desenlace do social sociais e de saúde, argumentou sobre a ampliação do conceito de doença, que convertia necessidades de grupos sociais, ou até mesmo étnicos, em patologias e adotava uma racionalidade e linguagem técnicas que reduziam conflitos sociais e relacionais a problemas individuais de desordens biológicas.
Bezerra e Trindade (2013) apontam a ampliação dos campos de trabalho do terapeuta ocupacional que se distinguem da área da saúde:
O terapeuta ocupacional deixou de ser um profissional exclusivamente da reabilitação física e da saúde mental e garantiu sua inserção em outros programas e políticas da seguridade social, tendo em vista a ampliação dos direitos sociais no país no período pós-constituinte. Esse movimento de incorporação de novas atribuições da profissão (...) vem demonstrar que a Terapia Ocupacional está preocupada com a dimensão ocupacional do sujeito não somente na área da saúde, através das políticas de saúde e previdência (reabilitação profissional), mas também em outros campos de ação, onde a saúde deixou de ser o foco principal da intervenção profissional, como a política de assistência social e no campo sociojurídico. (BEZERRA; TRINDADE, 2013, p. 435).
Especificamente em 1998, a criação do Projeto Metuia31 constituiu um movimento
organizado para a fundamentação das bases teórico-metodológicas da Terapia Ocupacional Social. Este projeto, nos seus mais de vinte anos de existência, tem desenvolvido ações associadas a atividades de extensão universitária e projetos de pesquisa interinstitucionais. Galheigo (2016) aponta que uma estratégia desenvolvida pelo projeto Metuia para criar um alinhamento teórico metodológico entre docentes e profissionais vinculados a ele foi a realização sistemática de encontros (oficinas, grupos de discussão) e eventos que abrangiam:
as produções teóricas que agregavam fundamentos ao campo; as pesquisas em curso realizadas pelos membros do grupo; os projetos assistenciais desenvolvidos nas organizações não governamentais parceiras; as metodologias de ação utilizadas no ensino e na assistência, e a própria estruturação do Projeto Metuia, com elaboração de suas diretrizes de ação e da preparação de material de divulgação, como folders e o sítio eletrônico. (GALHEIGO, 2016, p. 55).
31 O Projeto Metuia constitui-se como um grupo interinstitucional de estudos, formação e ações pela cidadania
de populações em processos de ruptura das redes sociais de suporte. Desenvolve projetos de ensino, pesquisa e extensão no âmbito da Terapia Ocupacional Social e atualmente possui núcleos em atividade na: Universidade de São Paulo - USP/SP, Universidade Federal de São Carlos - UFSCar, Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP, Universidade Federal do Espirito Santo – UFES (LOPES; MALFITANO, 2016), Universidade de Brasília (UnB) e Universidade Federal da Paraíba – UFPB e Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas (UNCISAL) conjuntamente.
Parte da produção acadêmica dos integrantes do projeto utiliza as contribuições de Robert Castel para situar a abordagem da questão social pela Terapia Ocupacional Social articuladamente aos contextos de vida das pessoas em processo de ruptura das redes sociais de suporte (GALHEIGO, 2016). O debate proposto por Robert Castel evidencia, ao ancorar o conceito de coesão social ao trabalho e aos vínculos relacionais de suporte, por um lado, a pequena possibilidade de intervenção dos profissionais em realizar transformações concretas no mundo do trabalho e, por outro, coloca a potência de intervenções como as executadas por terapeutas ocupacionais para atuar no âmbito das redes relacionais/sociais de suporte. Neste sentido, fundamentando-se em Robert Castel, entende-se que uma das vias de intervenção do terapeuta ocupacional na questão social seria pelo caminho das ações que mobilizam as redes sociais de suporte das pessoas que se encontram em situação de vulnerabilidade e/ou desfiliação social.
Com base neste e em outros referenciais teóricos, a Terapia Ocupacional Social se estruturou com práticas e saberes profissionais pautados nas reflexões críticas sobre o “lugar social do terapeuta ocupacional”, delineando suas metodologias e populações-alvo, visando à “autonomia, cidadania e acesso a direito de sujeitos e coletivos” (GALHEIGO, 2016, p. 56). Nas construções e desenvolvimento da atuação social do terapeuta ocupacional, ainda hoje se fazem necessários os apontamentos sobre as “generalizações e especificidades” do campo. Malfitano (2016, p. 117) coloca luz neste entendimento ao apontar a diferenciação entre o “contexto social, como elemento que deveria estar presente em toda ação no âmbito da terapia ocupacional” e subárea Terapia Ocupacional Social, que possui especificidades e “tem se caracterizado pela abordagem teórica e metodológica, no trabalho junto a sujeitos, grupos e coletivos específicos”.
Estas especificidades da subárea se relacionam a práticas que buscam a inserção social de pessoas cujos fatores socioeconômicos impedem e/ou dificultam a sua inserção e participação sociais. Sua intervenção requer “tecnologias de cuidado próprias voltadas à dimensão social da vida, em diálogo predominante com as ciências humanas e sociais, ressaltando que os aportes provenientes da área da saúde podem ser insuficientes para a constituição do seu referencial teórico-metodológico” (MALFITANO, 2016, p. 124). Destaca-se, ainda, que a Terapia Ocupacional Social “opera em diferentes setores das políticas sociais: na assistência social, na educação, na cultura, na justiça e, a depender, na saúde” (MALFITANO, 2016, p. 127).
embasamentos teóricos que instrumentalizam/informam a atuação nas políticas sociais e nos seus respectivos espaços de práticas, entre eles os serviços socioassistenciais da assistência social. Neste sentido, enfatiza-se que a subárea de atuação da profissão, é mais ampla que a terapia ocupacional na assistência social, a qual, sem dúvida, pode compor a Terapia Ocupacional Social. Na perspectiva aqui adotada, compreende-se que a terapia ocupacional na assistência social pode ser informada teórico e metodologicamente pela Terapia Ocupacional Social, como uma de suas subáreas de atuação, em um dos setores das políticas sociais que compõem as atuações em Terapia Ocupacional Social, conforme ilustrado na Figura 3.
Figura 3 – Contextos e subáreas na terapia ocupacional
Fonte: Elaboração própria baseado em Malfitano (2016).
Partindo da compreensão da assistência social como um setor de atuação da subárea de Terapia Ocupacional Social, a seguir, descreve-se especificamente a inserção da terapia ocupacional na política de assistência social.