138 Reveladoras da personalidade vincada do autor e da importância que ele atribui à imposição de uma marca autoral que se constitui como fundamento da actividade do artista e, consequentemente, como componente decisiva do conteúdo da sua auto-definição como artista: “Nós somos aquilo onde queremos chegar”; “Entre o destino e a pintura a diferença é o homem” – cf. Pedro Cabrita Reis, Jorge Molder, José Sommer Ribeiro, Pedro Cabrita Reis. Contra a claridade, Lisboa, Centro de Arte Moderna José Azeredo Perdigão, Fundação Calouste Gulbenkian, 1994, (o católogo não tem números de página).
Num primeiro nível de análise, pretendemos organizar alguma informação sobre o percurso artístico, a tipologia da obra, as referências do autor e algumas pistas de decifração da personalidade de Pedro Cabrita Reis que possibilitem o entendimento do conceito de espaço que o autor propõe.
A obra do artista pauta-se por um trabalho de experimentação e valorização táctil das superfícies, fundos e formas, através da exploração de materiais diversificados com técnicas que expõem um percurso experimental.
O processo de trabalho do autor está essencialmente vocacionado para um contexto de ‘interioridade’ que suscita leituras obscurecidas das suas obras, opostas à clarividência característica da ciência que visa criar explicações lógicas e elaborar construções de sentido. No entanto, a interioridade de Cabrita Reis implica uma reflexão antropológica que contrapõe o tipo de discurso sociológico e reducionista.
Pedro Cabrita Reis, opera num plano metafórico instaurando a utopia como o terreno onde se constrói a identidade. Através de antíteses, o artista sugere metáforas que constituem ‘pistas’ de entendimento sobre o seu interior pessoal e sobre o modo próprio com que se relaciona com o mundo (concretamente com o espaço) que lhe é exterior mas que atravessa o seu interior. Este tipo de abordagem do espaço real ( a nível exterior e interior) introduziu inovações no contexto artístico português, sobretudo através da extensão conceptual e material que o artista operou ao nível do conceito de escultura, ao recorrer a objectos e espaços reais, intervindo directamente no plano de imanência do espectador, nomeadamente com instalações. A paisagem que o artista ‘constrói’ ou ‘reestrutura’ é o seu palco de intervenção directa.
A proposta estética de Cabrita Reis manifesta um carácter ecléctico, abrangendo diversas áreas criativas, que vão desde o desenho, a pintura, a escultura até ao campo da instalação sem que, de uma forma geral, seja clara a distinção entre elas. Em algumas das suas obras, o carácter de instalação implica o domínio da performance, para além do domínio da pintura, escultura ou desenho e a leitura desses trabalhos é complementada pelo espaço onde eles estão instalados.
A peça Catedral #3 (1999)139 constitui um bom exemplo deste eclectismo, consistindo na instalação de quatro parcelas de um muro, que parece estar em construção e que é constituído por tijolo e cimento, dominando as quatro paredes da sala de exposição, na qual a montagem da obra exigiu a ruptura das próprias paredes
do museu. Para além de conciliar a vertente escultórica com a de instalação, o trabalho é de tipo site-specific, estabelecendo uma integração e relação de complementaridade entre ele e o espaço de exposição onde está instalado.
As obras de tipo site-specific que constituem uma das opções de trabalho artístico preferenciais para Richard Serra, são também considerados como uma solução conceptual e plasticamente eficaz por Cabrita Reis, pela relação de interdependência que estabelecem para com os locais onde são edificadas, passando a pertencer-lhes.
Wrapping tape landscape #1 (1999) é uma obra de dimensões variáveis, que surge colocada no espaço onde é exposta, como uma parede140. Um plano de fita cola castanha colada aparentemente ao acaso, com diversas sobreposições e rugas de superfície, constitui-se como a paisagem possível para quem se encontra no interior do espaço arquitectónico onde ela está instalada. O tratamento cromático da superfície, que apresenta diversas tonalidades segundo a variação da luz e do brilho da mesma sobre esse plano, para além de variar também com as diferentes posições assumidas no espaço pelo observador, conduz a que a obra seja considerada no âmbito da pintura. No entanto, o tratamento plástico do volume, dos relevos patentes nele e dos jogos de luz que esses provocam na superfície, está perfeitamente enquadrado nas preocupações que caracterizam o universo da escultura. A conjugação de todos estes factores com o título da obra que reforça a leitura da mesma como paisagem, transportam-na para um outro nível de interpretação que ultrapassa os domínios mais clássicos da arte, para se enquadrar no novo conceito de instalação e fazer com que a peça seja parte integrante do real.
As inúmeras séries de vidros pintados pelo autor, que por vezes executam experiências novas com os velhos e clássicos princípios da pintura, podem também considerar-se inseridas, segundo os mesmos princípios, no âmbito da instalação. Recorde-se a série de trabalhos intitulada Lisbon Gates (1997) –Fig. 35 que, mais uma vez, reforça através do título a leitura de paisagem em cada um desses trabalhos que, se associa às informações visuais obtidas por cada observador ao olhar aquelas portas. Similar é a possibilidade visual oferecida por Dans les villes #1 (1998), peça que é
140 Na exposição de 1999 no Museu de Arte Contemporânea de Serralves, a obra tinha grandes dimensões.
constituída por um conjunto de volumes de aparência rectangular, idêntica à configuração de um clássico políptico de pintura.
Em peças como as que integram a série acima referida ou noutras como as que se denominam de Cidades Cegas (1998/99) – Fig. 37 a 39, a fusão e o contágio operadas pelo artista a nível formal entre os domínios criativos, considerados em sentido clássico, é levada ao extremo, tal como o intuito de actuação do artista ao nível da própria paisagem real do espaço concreto do seu plano de imanência.
Ao nível das séries de auto-retratos do artista, a fusão de domínios tradicionais (e plásticos: como o desenho e a pintura) é operada através do recurso ao uso do espaço do próprio corpo de Pedro Cabrita Reis. Vejam-se séries como Os Cegos de Praga (1998) – Fig. 31 a 33.
A escala das peças e o tipo de paisagem apresentada que é, à semelhança da que está patente nas cidades, de tipo fechado e sugerida através de planos de tons neutros que fazem pressupor jogos de luz, confere-lhes o carácter de instalações.
Nas obras em que a volumetria ou a cor são mais marcantes, pode pressupor- -se a presença do desenho como elemento estrutural e que está, por isso, subjacente à sua organização formal mas, sem aparentemente se perceber.
As peças do autor podem ser analisadas segundo esta lógica de dissecação das fusões operadas entre os diversos domínios clássicos de produção artística e as novas categorias instituídas neles.
O carácter de fusão entre a acção do artista e a própria realidade confere à generalidade das obras de Cabrita Reis um carácter ecléctico que se insere no universo da instalação e da performance, para além de realçar as possibilidades de controlo de cada espaço e o poder que o trabalho artístico confere ao autor.