Ancrage des concepts
3.1. Les données du problème
O tema gestão social é considerado novo no campo da administração, entretanto, existem autores que trabalham o conceito sob diferentes olhares. A pesquisadora Tânia Fischer (2002, 2006) trabalha o tema gestão adjetivada como social, a qual se orienta para a mudança e pela mudança, já França Filho (2008) escreve que é um conceito a se desconstruir, questionando: qual gestão não é social?. E, ainda, Tenório (2007, 2008, 2010) trabalha gestão social com cidadania deliberativa, no qual o cidadão tem vontade de participar. Existem outros teóricos que estudam o conceito, entre os quais se destacam: Cançado et al. (2008, 2011), Pinho (2010), Boullosa e Schommer (2008, 2011) e, Silva Jr (2008).
Tânia Fischer aborda a gestão social como um ato relacional que se estabelece entre pessoas, em espaços e tempos relativamente delimitados, objetivando realizações e expressando interesses de indivíduos, grupos e coletividade. A gestão pretende que os “agentes sociais, a sociedade civil, o poder público estejam presentes em todos os momentos, que vão desde a mobilização e a sensibilização daqueles que precisam ser envolvidos, até o posterior acompanhamento e controle social sobre as ações pactuadas” (FISCHER, 2002, p. 11).
Para a autora, as situações concretas de gestão social podem produzir crises ou identidades no firmar acordos e regulações sociais legítimos (SAINSALIEU, apud, FISCHER, 2002). Na concepção de Fischer, a gestão adjetivada como social orienta-se para a mudança e pela mudança, seja de microunidades organizacionais, seja de organizações com alto grau de hibridização, como são as interorganizações atuantes em espaços territoriais micro ou macroescalares.
O campo da gestão social ou de gestão do desenvolvimento social como é descrito por Fischer (2002) é reflexivo das práticas e do conhecimento construído por múltiplas disciplinas. Desta forma, este novo saber acaba “[...] delineando-se uma proposta paradigmática, que está sendo formulada como agenda de pesquisa e ação por muitos grupos e centros de pesquisa no Brasil e no exterior, bem como por instituições de diferentes naturezas que atuam no desenvolvimento local” (2002, p. 29). Para a autora “a gestão social pode ser definida como aquela orientada para o social (enquanto finalidade) pelo social (enquanto processo), norteada pelos princípios de solidariedade” (FISCHER, MELO, 2006, p. 17).
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França Filho (2008), ao tentar conceituar gestão social, questiona-se sobre o que se compreende pelo assunto e, no mesmo texto, afirma que se trata de uma gestão voltada para o social. Dessa forma, a gestão social se definiria pela sua finalidade. Ele reforça a ideia de que é uma inovação no campo da teoria e da prática administrativa porque a compreensão de gestão não é orientada para a finalidade econômica.
Aqui reside uma inovação considerável para a disciplina administrativa, pois trata-se de compreender um ideal de gestão que não orienta-se, em primeiro lugar, para uma finalidade econômica – contrariando desse modo toda a tradição de desenvolvimento das técnicas e metodológicas gerenciais em administração (FRANÇA FILHO, 2008, p. 27).
A gestão social na perspectiva de França Filho (2008) está sendo usada para identificar as mais variadas práticas sociais de diferentes atores, não apenas governamentais, mas também de organizações não-governamentais, associações, fundações e, ainda, algumas iniciativas partindo do setor privado e que se manifestam nas noções de cidadania corporativa ou de responsabilidade social da empresa. Ao tentar conceituar gestão social, França Filho escreve que é um conceito a desconstruir:
A definição clássica na literatura em administração, e ainda vigorosa nos dias atuais, é aquela introduzida por H. Fayol no início do século que encerra a gestão a partir de quatro processos gerenciais básicos: o planejamento, a organização, a direção e o controle. O que tem mudado muito na prática gestionária hoje parece ser menos a definição em si e mais o conteúdo de cada um desses processos gerenciais. Pensada, portanto, sob essa ótica de processo (e enquanto formulação entre si), a ideia de uma “gestão social” convida a sua própria desconstrução, pois, uma interrogação que segue necessariamente tal formulação é aquele de saber: qual gestão não é social? (FRANÇA FILHO, 2008, p. 28).
O autor trata o conceito como complexo. A compreensão de gestão social absorve tanto a dimensão do processo ou meio como esta gestão é operada, quanto aquele da finalidade (quais os objetivos da gestão). França Filho explica que é necessário analisar dois níveis de percepção da gestão social: o nível societário e o nível organizacional.
No nível societário, a gestão social é identifica como uma problemática na sociedade. O autor explica que neste nível o social é visto “como uma categoria inventada no seio da modernidade, quando a sociedade estratifica as diversas esferas de ação dos sujeitos em razão da autonomização adquirida pela esfera econômica em relação às demais esferas da vida” (FRANÇA FILHO, 2008, p. 29). Ele enfatiza que neste caso o termo social pode confundir-se com o do conceito de gestão pública, porque as gestões das demandas e necessidades do
social eram atribuição do Estado na modernidade, através das políticas públicas. “Se a gestão das demandas e necessidades do social sempre fora uma atribuição típica dos poderes públicos na modernidade, isto nunca significou exclusividade” (2008, p. 30). França Filho ressalta que, para se acreditar na democratização da sociedade, é necessário que exista uma dinâmica política de auto-organização social por meio de diferentes modalidades do fato associativo.
No segundo nível exposto por França Filho, o organizacional, a gestão social é tratada como uma modalidade específica de gestão que pode ser pensada também como modo de orientação para a ação organizacional. Na gestão privada, o autor explica que, em razão da diversidade do universo empresarial, atualmente existem várias concepções acerca do como proceder à gestão da empresa, “com uma série de implicações relevantes, inclusive com reflexos sobre a visão da natureza humana no trabalho, o que permanece comum a essa modalidade de gestão é o imperativo econômico conformando um padrão de racionalidade que lhe é subjacente” (FRANÇA FILHO, 2008, p. 32).
Já a gestão pública está relacionada ao modo de gestão praticado nas instituições públicas do Estado, condicionando este tipo de gestão à cultura política reinante. E, a gestão social é um modo de gestão próprio às organizações atuando num processo que não é originalmente aquele do mercado e do Estado, “embora muitas organizações entretenham, em grande parte o caos, relações com instituições privadas e públicas, através de variadas formas de parcerias para consecução de projetos” (FRANÇA FILHO, 2008, p. 32).
França Filho (2008) impõe dois desafios à gestão social. O primeiro é empreender parcerias efetivas entre sociedade civil e poderes públicos para além de uma mera atitude de instrumentalização da ação, porém, para isso, é necessário superar uma cultura política organizacional tradicional que permeia o mundo das organizações sociais. O segundo desafio diz respeito à necessidade de se construir uma estrutura metodológica que preencha os requisitos básicos de uma gestão comprometida com o social. O autor sugere ainda algumas inovações, entre elas, a necessidade de se reconhecer que a gestão social se elabora num espaço público, representada na articulação entre Estado e sociedade. O teórico se refere a este espaço como estatal ou societário, ou mesmo, a confluência entre eles. França Filho ressalta que a gestão social almeja uma ação política das organizações no sentido de operarem num espaço público.
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Ao inverter-se a lógica da relação entre o econômico e o social, onde o primeiro deixa de ser uma prioridade, e acrescenta-se ainda a importância do aspecto político, a gestão social revela uma vocação forte de redefinição da relação entre economia e política, numa perspectiva de reconciliação entre o econômico e o social. De fim em si mesmo, o aspecto econômico se transforma num meio para a consecução de ou- tros objetivos (sociais, políticos, culturais, ecológicos...). Além de vocação, este é um dos ensinamentos que pode nos oferecer esta noção de gestão social, deixando assim as sementes para uma nova cultura política cidadã e democrática nas organizações (FRANÇA FILHO, 2008, p. 34).
O entendimento que França Filho (2008) tem sobre o tema gestão social pode ser conferido através de síntese ilustrada na Figura 2.
Figura 2: Síntese da discussão proposta no texto “Definindo gestão social” Fonte: FRANÇA FILHO, Genauto Carvalho, 2008, p. 35
Pinho (2010) explica que a gestão social está distante de representar o que objetiva, por isso sugere que seria melhor tratar o tema como gestão emancipadora. Baseado nos pensamentos de França Filho (2008), afirma que “a gestão social elabora-se em um espaço público, seja estatal ou societário exalando assim um aspecto político relevante, mas longe de reduzir o político governamental” (FRANÇA FILHO, 2008 apud PINHO, 2010, p. 25).
A gestão social tem se implantado e processado mesmo sem ter um consenso sobre esse conceito. A gestão social tem se firmado na prática mesmo sem ter se gerado um consenso sobre o que representa. Poderíamos dizer que tem se desenvolvido ao arrepio, à revelia de um consenso acadêmico. Podemos começar pensando em gestão social frente a outros tipos de gestão. Assim, quanto à gestão acadêmica parece não haver dúvidas que se refere à Universidade, às unidades acadêmicas. (PINHO, 2010, p. 22)
O autor traz mais alguns exemplos de conceitos de gestão, como é o caso da gestão financeira, a qual se refere às finanças sejam elas públicas ou privadas. Ou então, a gestão ambiental, que é focada no meio ambiente, sem ser questionada. E, ainda, a gestão de recursos humanos, a qual é destinada à gestão de pessoas, trabalhadores, organizações etc. Conforme Pinho ressalta, talvez o certo fosse falar “gestão do social”, pois, ao se referir ao termo gestão social, ocorre muita ambiguidade, não se tem certeza ou concordância sobre o que se está tratando. “[...] talvez por razões de comunicação soe melhor falar em “gestão social” (PINHO, 2010, p. 22).
A principal crítica e sugestão dada por Pinho (2010, p 44) ao assunto gestão social, está relacionada à educação.
Endentemos a questão da educação como chave. Se existe alguma participação essencial esta reside na participação no saber, não desmerecendo o saber popular, mas consciente de que a entrada no mundo moderno e contemporâneo exige uma série de conhecimentos básicos e amplos sem as quais o cidadão (ou candidato à) fica à margem.
O autor afirma que a possibilidade de interações deliberativas, nas quais todos tenham voz, fica muito distanciada, “porque a capacidade de compreensão da realidade, de efeito engajamento e acampamento de um debate, da construção de raciocínios e de verbalização dos mesmos ficam extremamente prejudicados” (PINHO, 2010, p. 46).
Focando a realidade brasileira, Pinho identifica um paradoxo no governo Lula. Segundo o autor o governo “comprou” a ideia de gestão social “com alguns toques de política social governamental” (2010, p. 21), e ainda pode ser identificado como “um Estado assistencialista ou neopopulista”. Pinho afirma que nunca se falou tanto no Brasil em gestão social como agora. “Adotamos um modelo neoliberal, também já distorcido, combinado com uma particular ênfase na política social, ou mais especificamente, na gestão social” (PINHO, 2010, p.21).
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Pinho (2010) é crítico ao escrever que a Alemanha de Habermas não é aqui no Brasil, e reforça que, embora estejamos em lenta construção, as condições requeridas pelo referencial habermasiano ainda nos faltam. Cançado et al. (2011, p. 693) consideram ser crucial acreditar-se na gestão social como campo do conhecimento, mas concordam que é importante a contribuição de Pinho nesta crítica, por “chamar a atenção às promessas que muitas vezes são feitas em nome da gestão social, sem as devidas ressalvas quanto às dificuldades que envolvem processos de participação” (CANÇADO et al., 2011, p. 693).
Considerado por Boullosa e Schommer (2008) como um modelo voltado ao social, o termo gestão social foi aceito pelas Instituições de Ensino Superior (IES) preenchendo o vazio conceitual existente na área administrativa. As autoras enfatizam que o conceito considera os problemas sociais bem como “as tensões e conflitos locais”, e, ainda, promovem “a integração dos recursos disponíveis em prol de uma coletividade quase sempre pouco ativa e articulada” (BOULLOSA; SCHOMMER, 2008, p. 7). O termo assumiu “parte de sua herança deixada pela gestão pública” (p. 7), as quais foram ocasionadas por alguns fatores históricos, como a diminuição de financiadores do terceiro setor, especialmente de origem internacional, e a retomada da centralidade do Estado na gestão dos problemas sociais, notadamente a partir do Governo Lula.
Boullosa e Schommer (2008, p.9) escrevem que a gestão social começou a despertar interesse a partir da década de 1990, porém antes havia produção relacionada à democracia, participação, governança, e relações entre Estado e sociedade civil na formulação, implantação e avaliação de políticas públicas e políticas sociais.
Embora tenha aumentando a diversidade de estudos e temáticas abordadas com o uso do adjetivo social e o próprio termo gestão social tenha alcançado maior projeção nos últimos anos, a literatura a respeito pode ser considerada ainda incipiente. Nos anos recentes, no entanto, é possível perceber um esforço de atores, especialmente na academia, no sentido de delimitar o campo, suas características identitárias centrais, seus instrumentos e metodologias próprias, as pessoas habilitadas a falar sobre ele e a utilizar seus instrumentos. A gestão social corre o risco, assim, de perder seu potencial enquanto campo de experimentação, de espaço de diversidade de práticas contra-hegemônicas e aproximar-se dos campos e modos de gestão aos quais pretendia se opor, em sua gênese (BOULLOSA e SCHOMMER, 2008, p.9).
Após a gestão social ter sido aceita, especialmente por denominar as práticas de interação entre a diversidade de setores, atores, práticas e termos, Boullosa e Schommer (2008) afirmam que o termo necessitava modelizar-se. Desta forma, as autoras expõem dois
pontos sobre o assunto. O primeiro diz respeito à “dificuldade em definir tal construto, pois a sua maior utilidade foi, paradoxalmente, a elasticidade e imprecisão dos seus limites”; e o segundo, refere-se à elevação do conceito “como episódio mais eloqüente de um episódio de inovação que interessa a todo o âmbito das políticas sociais no Brasil” (p. 7).
Então, as autoras propõem um modelo de interpretação do processo de institucionalização da gestão social que considera quatro momentos. No primeiro momento, experiências dispersas e diferentes de gestão são voltadas para o social, envolvendo a participação de pessoas em diferentes contextos e enfatizando o diálogo. No momento seguinte, os participantes percebem as experiências anteriores e procuram pontos de identidade com outras experiências, criando um processo de articulação e reconhecimento das práticas que anteriormente foram dispensadas. Já no terceiro momento, “elementos comuns dessas experiências passam a ser reconhecidos como características identitárias de um modo de gerir e de um campo de gestão particular, que passa a ser denominado gestão social” (BOULLOSA e SCHOMMER, 2008, p. 7). É neste momento que a gestão social torna-se uma opção de carreira. No último momento, a gestão social alcança certo grau de institucionalização e de modelização. As autoras escrevem que o termo “abre mão de parte de seu potencial de inovação, o que não significa que se torne cristalizada e resistente à criatividade, à aprendizagem, à mudança” (p. 7).
Os recentes estudos na área da gestão estão permitindo que novos centros de pesquisas sejam criados nas Instituições de Ensino (IES). Cançado et al. (2001) enfatizam que a área da administração talvez seja o campo onde haja maior abertura de espaço para novos participantes. “A delimitação do campo da gestão social, principalmente se realizada de forma dialógica, não deve “engessar” o próprio desenvolvimento do campo, nem coibir novas práticas diferenciadas e inovadoras” (p. 695).
De acordo com Cançado et al. (2011), a delimitação do campo da gestão social é para criar fronteiras para serem modificadas com os estudos e a prática na área. Para eles o conceito pode ser apresentado como “a tomada de decisão coletiva, sem coerção, baseada na inteligibilidade da linguagem, na dialogicidade e no entendimento esclarecido como processo, na transparência como pressuposto e na emancipação enquanto fim último” (2011, p. 697). Os autores não consideram a teoria como a “salvação” para o esgotamento conceitual na área da
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administração, mas como “uma alternativa teórica a prática ao pensamento organizacional hegemônico” (CANÇADO, TENÓRIO e PEREIRA, 2011, p. 698).