O movimento do empreendedorismo, no Brasil, efetivou-se na década 90 do século XX com a criação de entidades como o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas - SEBRAE e a Sociedade Brasileira para Exportação de Software - SOFTEX. Antes disso, o contexto político e económico do país não era propício, não havendo informações para ajudar o/a empreendedor/a na sua jornada. O SEBRAE é uma das instituições mais conhecidas dos micro e pequenos empresários brasileiros que buscam o apoio necessário para abertura e manutenção dos seus negócios. Já a história da SOFTEX confunde-se com a história do empreendedorismo no Brasil.
O objetivo inicial da organização era projetar as empresas de software nacionais para o mercado externo, através de diversas ações visando proporcionar ao empresário de informática a capacitação em gestão e tecnologia (Dornelas, 2001). Diversos programas foram criados, no âmbito da SOFTEX junto de incubadoras de empresa e universidades/cursos de ciências da computação/informática em todo o país, despertando a sociedade brasileira para o tema do empreendedorismo. Volvida uma década, o Brasil revela um dos maiores potenciais para o desenvolvimento de ensino de empreendedorismo de todo o mundo, semelhante apenas ao dos Estados Unidos, onde este tema é lecionado em mais de 1.100 escolas (Dornelas, 2001). Várias ações nesta área têm sido recentemente desenvolvidas como:
- o programa Geração de Novas Empresas de Software, Informação e Serviços (Genesis), que apoia atividades de empreendedorismo em software, estimulando o ensino da disciplina em universidades e a criação de novas empresas de software (start-ups);
27
- ações voltadas para a capacitação dos empreendedores como os programas Empretec e Jovem Empreendedor do SEBRAE.
- o programa Brasil Empreendedor do Governo Federal, um investimento de 8 biliões de reais, que tem por objetivo capacitar mais de 1 milhão de empreendedores em todo o país, alocando-lhes recursos financeiros (Dornelas, 2001).
O projeto Empretec, criado pelo SEBRAE em 1990, proporcionou aos novos empreendedores - denominados “empretecos”, indivíduos dotados de grande e saudável inquietude, ousadia, desejo permanente de inovar e progredir - o apoio necessário através de cursos, palestras, seminários, encontros, etc. Os novos empreendedores que surgem, devem possuir, além do seu espírito empreendedor, a formação necessária para que o seu negócio arranque e continue mediante uma prévia preparação e a aprendizagem teórico-prática como instrumento de gestão, de modo a aumentar a probabilidade de o negócio ser bem sucedido.
A dinâmica do mercado globalizado e as possibilidades de novas oportunidades de negócios interna e externamente, juntamente com a atualização de informações nas ferramentas de gestão e troca de experiências sobre negócios bem sucedidos, são assuntos abordados nos encontros de empreendedores e da Empretec realizados pelo SEBRAE. O Empretec tem o poder de mudar a sociedade, na medida em que mexe com o comportamento e não apenas com a aprendizagem técnica; além disso, é o único produto do SEBRAE com mais de uma década de existência ininterrupta. É, igualmente, o mais bem avaliado, com 93% de aprovação como excelente. Desde a sua criação, promoveu quase 2.500 cursos e formou mais de 50 mil empretecos, o que equivale a 70% dos empretecos do mundo inteiro, o que constitui um desempenho notável.
Admiráveis são, também, os resultados do curso no dia-a-dia dos empreendedores. As pesquisas4 revelam que a mortalidade das empresas de empretecos é de apenas 7% no primeiro ano, contra a elevada taxa registada por outras micro e pequenas empresas. Nada menos do que
4
28
51% dos empretecos registraram aumentos de lucro líquido nos seus negócios e 47%, afirmaram ter mais segurança na tomada de decisões; 58% disseram ter aumentado os seus rendimentos após terem feito o Empretec; o nível de emprego nos negócios dirigidos por empretecos aumentou 30% após o curso; o crescimento da massa salarial foi de 36% e o custo por emprego gerado caiu 35%.
Paralelamente, tem havido um enorme crescimento de incubadoras de empresas no Brasil. Dados da Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos de Tecnologias Avançadas (ANPROTEC) mostram que, em 2000, havia mais 135 incubadoras de empresas no país, para além das incubadoras de empresas de Internet, totalizando mais 1100 empresas incubadas, que geram mais de 5200 empregos diretos. Apesar dos diversos cursos, programas e outras atitudes de incentivo, faltam ainda políticas duradouras dirigidas à consolidação do empreendedorismo como alternativa à falta de emprego e com o intuito de apoiar as iniciativas que venham quer do setor privado quer de entidades não-governamentais, as quais estão a fazer a sua parte.
Relativamente ao ensino do empreendedorismo no Brasil, de acordo com Dolabela (1999a), este surgiu, pela primeira vez, em 1981, na Escola de Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas, São Paulo, por iniciativa do professor Ronald Degen, com a designação de “Novos Negócios”, integrado na disciplina do Curso de Especialização em Administração para Graduados (CEAG). Em 1984, o curso foi estendido para a graduação com o nome de “Criação de novos negócios – formação de empreendedores” e é, hoje, obrigatório para alunos da graduação.
Em 1984, a Universidade de São Paulo (USP), através do professor Silvio Aparecido dos Santos, iniciou o ensino de empreendedorismo, com a introdução da disciplina ‘Criação de empresas’ no curso de graduação em Administração na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade, da Universidade de São Paulo, FEA/USP. Em 1985, na FEA, foi oferecida a disciplina “Criação de empresas e empreendimentos de base tecnológica”, no Programa de Pós- Graduação em Administração. Em 1992, a FEA, por intermédio da fundação Instituto de
29
Administração, oferecia um programa de formação de empreendedores, voltado para pessoas da comunidade interessadas em abrir empresas.
Em 1984, o professor de informática Newton Braga Rosa, do Departamento de Ciências da Computação, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, num trabalho pioneiro, instituía uma disciplina de ensino de criação de empresas no curso de bacharelado em Ciências da Computação. A partir de 1992, a Universidade Federal de Santa Catarina criou a Escola de Novos Empreendedores (ENE), que, no decorrer do tempo, veio a constituir-se num dos mais significativos projetos universitários de ensino de empreendedorismo no Brasil, com uma profunda inserção académica e um total envolvimento em projetos e órgãos internos da UFSC e de outras universidades e organismos internacionais.
Em 1992, o Departamento de Informática da Universidade Federal de Pernambuco criava o (Cesar) Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife, com o objetivo de ser um núcleo de aproveitamento industrial dos resultados académicos. A experiência gerada no Cesar foi importante na conceção do projeto Softex-Genesis. Em 1995, a EFEI (Escola Federal de Engenharia de Itajubá), em Minas Gerais, criou o Centro Empresarial de Formação Empreendedora de Itajubá (CEFEI), com o objetivo de inserir o ensino de empreendedorismo na instituição.
No início dos anos 90 do século XX, o SEBRAE (MG) apoiou a criação do Grupo de Estudos da Pequena Empresa (GEPE), no Departamento de Engenharia de Produção da UFMG, com o objetivo de desenvolver estudos na área do empreendedorismo. Entre as atividades realizadas pelo GEPE, destaca-se, de 1992 a 1994, uma oferta formativa constituída por workshops ministrados por professores canadianos que, sob a liderança de Louis Jacques Filion, se transformaram em núcleos de propagação de seguidores na área. Preocupando-se com uma conceção internacional do empreendedorismo, a teoria desenvolvida por Filion, baseada em pesquisas feitas com 51 empreendedores de vários países, tornou-se no fundamento da metodologia de ensino utilizada hoje, no Brasil.
Destacam-se ainda, o programa Reune, da Confederação Nacional das Indústrias (CNI), de difusão do empreendedorismo nas escolas de ensino superior do país, presente em mais de
30
duzentas instituições brasileiras; e o programa Engenheiro Empreendedor – Santa Catarina, que capacita alunos de graduação em engenharia de todo país.
A partir de 1993, começou a efetiva participação de Dolabela no contexto de empreendedorismo no Brasil, partilhando o seu capital de conhecimento sob a forma de conferências e contato com os principais especialistas mundiais nesta matéria. Foi pioneiro nesta área e tem desenvolvido um intenso trabalho, na convicção de que o Brasil é um dos países com maior potencial empreendedor do mundo. Na sua opinião (1999a, p.12), “na formação de empreendedores, o fundamental é preparar as pessoas para agir e pensar por conta própria, com criatividade, liderança e visão de futuro, para inovar e ocupar o seu espaço no mercado de trabalho, transformando esse ato também em prazer e emoção”.
Para Santos (2007) e Pietrovski (2003), existe a consciência de que a cultura empreendedora precisa ser disseminada no Brasil, para que as empresas possam ser mais duradouras, tenham crescimento e para que haja desenvolvimento social. Esta transformação de mentalidades e de conceitos é de extrema importância num mundo onde escasseiam postos de trabalho e é difícil aceder aos que existem, em que as transformações se dão a cada instante. Não podemos parar no tempo; pelo contrário, as ações e atitudes face às situações devem ser as mais acertadas e arrojadas, fundamentadas em situações reais de experiências bem sucedidas, de forma a melhorar e inovar sempre no contexto de um mercado tão competitivo. Dependerá dos próprios brasileiros, desmistificar e acabar com o paradigma cultural da não valorização dos homens e mulheres de sucesso que têm construído este país e gerado riqueza, os quais, não obstante serem grandes empreendedores, dificilmente são reconhecidos ou admirados. Pelo contrário, são vistos como pessoas de sorte ou que venceram por outros meios que não a competência ou o mérito. A semente inicial foi lançada à terra; agora basta regá-la para que, no futuro, se tenha um pomar cheio de frutos (Dornelas, 2001) e os brasileiros, jovens e menos jovens fiquem mais empreendedores.
Com efeito, as mudanças recentes operadas no Brasil ajudaram transformar a divisão do empreendedorismo no país, fixando-o por faixas etárias. Os especialistas afirmam que a participação dos jovens com idade até aos 24 e das pessoas com mais de 50 anos é elevada. A
31
estabilização da economia nacional está perto de completar uma geração, desde a criação do Plano Real, em 1994. Segundo o administrador de empresas e presidente da consultoria de negócios e franquias Fran Systems, Batista Gigliotti (apud Chaves, 2012), essa condição do Brasil tem sido muito importante para estimular os jovens a procurarem, cada vez mais cedo, ser empreendedores. "Milhares já nasceram com moeda estável, inflação menor e instituições mais fortes. E as pessoas também se empenham mais em obter informações técnicas para assumir riscos, fator fundamental para empreender", diz este administrador (apud Chaves, 2012, s/n).
No outro extremo estão as pessoas com mais de 50 anos; o país tem assistido a um aumento da expectativa de vida da população e a uma diminuição das taxas de juros, o que faz com que investir a aposentadoria ou as economias numa aplicação financeira tenda a render menos do que os lucros gerados com uma empresa. A Selic, taxa básica de juros, alcançou o mínimo histórico de 7,25% ao ano. "As pessoas de mais idade, por essas razões, estão mais dispostas a empreender. Diria que o grande diferencial nessa faixa etária é que os empreendedores estão mais preocupados com a realização de um projeto, por isso a energia não é inferior a dos jovens", acrescenta Gigliotti (apud Chaves, 2012, s/n).
Segundo o último levantamento do SEBRAE-SP, 13% das micro e pequenas empresas tinham como sócios pessoas com idade até 24 anos; na faixa dos 25 aos 39 anos, a percentagem atingia os 49%; dos 40 aos 49 anos, a representatividade era de 24%; e, finalmente, as pessoas com mais de 50 anos eram donas de 13% das MPEs.5 Para Renato Fonseca, consultor do SEBRAE-SP, há uma perceção no mercado de que os números atuais devem mostrar um maior equilíbrio de representação entre essas faixas etárias. "O investimento produtivo virou uma alternativa real no Brasil, e para pessoas de mais idade vemos hoje também o crescimento da opção de ser um anjo, ou seja, usar as economias e conhecimentos para investir em empresas recém-criadas", diz Fonseca (SEBRAE, 2011).
As faixas etárias dos empreendedores apresentam similaridades de pontos negativos e positivos para empreender. Os especialistas apontam que, na faixa dos 20 aos 30 anos, as pessoas
5
32
costumam ter uma falta de maturidade profissional e de vida pessoal para prever e “driblar” as possíveis dificuldades. Em contrapartida, há um ânimo maior e uma maior pré-disposição para o risco.
Foi assim que começou a ABN & Trading, empresa especializada em comércio exterior que opera, já, na Ásia, Europa, América Latina e Estados Unidos. Logo que se formou em Administração, com especialização em Comércio Exterior, em 2008, Alessandro Fernandes, 29 anos, e mais dois amigos criaram a empresa com as economias de cada um. "No começo decidimos arriscar, ver o que ia dar. Acabou dando certo porque procuramos sócios complementares, com qualidades diferentes, como vendas, comércio exterior e administração", lembra (apud Chaves, 2012, s/n).
Já as características mais comuns aos empreendedores com mais de 40 anos são: uma maior preparação, o facto de os filhos estarem já criados e terem uma reserva financeira melhor. Como são pessoas que também já passaram por várias realidades, têm o perfil de realização pessoal para um projeto. É o caso do professor universitário de Ciências Biológicas, Marcílio Araújo, 56 anos. Seis meses após ter-se aposentado, decidiu ser empresário na franquia de idiomas inFlux English School, no Recife. "Estou levando a sério a iniciativa e em dois anos espero rever meu investimento. Toda minha experiência está me ajudando a tocar o negócio e me sinto feliz", comenta (apud Chaves, 2012, s/n).
Gigliotti e Fonseca elencaram uma série de sugestões para empreendedores de diferentes faixas etárias:
* Dos 20 aos 30 anos
Pela pouca experiência, a sugestão é estudar muito e procurar sócios mais velhos e com características complementares.
33
A maturidade já aumentou, mas a pressão de criar os filhos pode limitar a aceitação de riscos. Também é indicado pesquisar e estudar muito para minimizar possíveis problemas. Outra opção cada vez mais comum é a da mulher nessa faixa idade empreender mais, seja em casa enquanto o marido tem um emprego formal, ou mulheres independentes que procuram obter mais rendimentos.
* Após os 40 anos
A preparação já é muito boa, os filhos estão criados e ainda há muita energia. Além da necessidade de estudar, para aproveitar todos esses benefícios a pessoa deve melhorar a sua rede contatos.
* A partir dos 50 anos
Existem os mesmos fatores positivos e a necessidade de fazer contatos. Mas é bom ter alguma prudência e nunca investir mais do que 30% do património, porque pode não ter tempo para recuperar o investimento.
De qualquer forma, o/a empreendedor/a, em qualquer idade, tem que avaliar três fatores em si mesmo: propensão ao risco, experiência e "network" (rede contatos). Deverá ver qual o aspeto mais fraco e melhorá-lo para ser bem-sucedido em qualquer negócio.