Décontamination ex vivo par un système peroxydasique à l’iode Après avoir été écouvillonnées, 10 prothèses ont été plongées pendant 30
V. 1. Le système peroxydase dans la cavité orale
A Folha de S. Paulo, a pretexto da Festa Literária Internacional de Parati – FLIP, edição 2003, convidou os escritores Milton Hatoum, Bernardo Carvalho, Luiz Ruffato e Marçal Aquino para uma entrevista-debate a respeito da ficção brasileira atual. Para anunciar a entrevista, o repórter Cassiano Machado cita declaração de Aquino, que classifica aquele encontro como “rara oportunidade de conversar sobre literatura brasileira de hoje”. Talvez o escritor se refira, aí, a uma oportunidade dentro da grande imprensa – e o que vamos constatar de 2003 para cá é que o espaço para discussão aumenta –, mas é preciso ressaltar que no âmbito literário, em bares, espaços literários ou na imprensa especializada, essa discussão é constante, inclusive entre os quatro convidados.
Antes de ressaltarmos alguns trechos da entrevista, é preciso fazer algumas considerações. Enquanto Aquino e Ruffato, apesar de estarem entre os mais velhos do grupo da Geração 90, são membros, já que antologizados, Carvalho e Hatoum seguem outro caminho. Estão, ambos, inseridos numa esfera paralela, justamente aquela (mencionada há pouco) que resgata postura e aspectos conservadores em seus discursos e textos. E são eles mesmos que declaram, na entrevista à Folha, não ser possível vislumbrar o que, entre os textos contemporâneos, vai permanecer ou se posterizar. “Não acredito em literatura geracional. O tempo vai dizer qual texto sobrevive”, opina Hatoum. O trecho abaixo ilustra bem essa dissonância.
Carvalho - A diversidade sempre existiu, em qualquer época. O que é curioso e até perigoso é uma militância que não tem a ver com a literatura, mas com a visibilidade, um traço normal de militância de minorias. Se você pegar essas pessoas, elas não têm nenhuma questão em comum. Não é como a nouvelle vague, um grupo que fez um manifesto, iniciou um movimento. Aqui é uma militância para criar espaço no mercado. O perigo da impostura nisso é grande. Você junta alhos com bugalhos, como se fosse propaganda.
Luiz Ruffato - Você tem razão em algum momento, Bernardo, mas não é bem assim. Essa “Geração 90”, que não existe, foi criada justamente para criar um espaço de discussão, que eu acho até que já se esgotou. Mas criou um fato. Quem vai ou não ficar não tem a menor importância.
Bernardo Carvalho - Para mim tem.
Ruffato - Para mim não. O que tem importância é o questionamento feito naquele momento. Cada um que tome seu caminho. Eu por exemplo não tenho nada a ver com “Geração 90”95.
A entrevista (que virou um debate, com pouquíssimas intervenções do repórter), entretanto, não se configurou em espaço de combate. Os escritores, que na entrevista pareciam fazer parte de dois grupos muito distintos, um que adota posições tradicionais e conservadoras, e outro que declara a vinculação com a mídia, até concordaram em diversos pontos. Porém, enquanto o assunto foi a Geração 90, existiu disparidade.
Carvalho - Acho o contrário de você. O foco está na publicidade. Ruffato - De quem?
Carvalho - Das pessoas. Ruffato - Não concordo.
Carvalho - Na abertura de um espaço de mercado.
Ruffato - Isso é ótimo, não tínhamos mercado, hoje temos. Carvalho - Mas isso é negligenciar as coisas em si.
Marçal Aquino - Mas aí entra a consciência que cada um tem das coisas que tem de escrever. Em qualquer momento da literatura ou arte vai haver impostura.
Carvalho - A literatura para mim tem um trabalho solitário muito diferente do das outras artes. Os movimentos são secundários. O que importa é o que vai ficar, não abertura de mercado.
Ruffato - Houve uma tentativa de abrir mercado, mas o que vai ficar não decidiremos nós.
Carvalho - Tudo bem, mas o movimento que para mim caracterizou essa “Geração 90”
é, em primeiro lugar, uma autopromoção incrível, que nunca houve96.
Chega a ser óbvio que a discussão passa por uma desvalorização, por parte de Carvalho e Hatoum, que tendem a ter posições mais conservadoras, do vínculo que se estabelece hoje entre o fazer literário e a mídia. No entanto, – e abstraindo o fato de que
95 Machado, “Folha reúne quatro autores para debater a ficção feita no país”. 96 Id. Ibid.
Hatoum e Carvalho têm os meios de comunicação como parceiros e fiéis divulgadores de seus livros, o que os vincularia ao grupo mais “liberal” de Ruffato e Aquino – é possível observar que, se de um lado temos uma abordagem que condena e considera sem valor ideológico a visão mercantilizada da produção literária, de outro temos os que assumem sem crises essa realidade. É a estratégia devidamente aplicada sendo também explicitada.
Em artigo-resposta publicado na Folha, Oliveira declara: “‘Geração 90’ foi o artifício que encontrei para reunir e tentar divulgar a prosa dos melhores contistas e romancistas que estrearam no final do século 20. Trata-se de uma etiqueta, um rótulo, uma logomarca”97. E essa estratégia perpassa todas as ações desse grupo e, quando convém, também as ações daqueles que impostam um discurso mais conservador. O mesmo texto de Oliveira é iniciado com uma indagação exclamada (“Geração 90, de novo?!”) e complementada por duas afirmações, em si, irônicas e com o explícito intuito de iniciar um novo debate sobre o mesmo assunto. Um certo ar cansado se mistura com um paciente tom orgulhoso, vaidoso: “Ninguém agüenta mais ouvir falar a respeito. Também parece que ninguém agüenta deixar de falar a respeito”98. Sobre a declaração de Carvalho, que vincula a idéia da Geração 90 ao “deplorável” setor midiático do mercado literário, Oliveira diz que concorda com o colega. “Bernardo não dá nomes aos autores, talvez por ignorar seus livros. Apenas diz que ‘essas pessoas’ estão se promovendo, estão só em busca de visibilidade, de espaço no mercado editorial. É a pura verdade. Não conheço escritor, genial ou medíocre, que não esteja em busca de visibilidade”99. E completa, dando uma boa noção de como funciona o passo-a-passo da
publicação de um livro de literatura:
A boa propaganda duela com armas brancas, sempre. É ela que leva os escritores da ‘geração 90’ a ler seus textos em praças e escolas, organizar saraus, criar revistas e blogs, falar de literatura 24h por dia (perdão, Ruffato, mas eu discordo de você) e muitas vezes pagar do bolso a edição de um livro. O livro pronto, recomeça a batalha: enviá-lo a críticos, jornalistas e outros escritores, insistir para que os livreiros o aceitem nas livrarias. Por que essa trabalheira? Porque acreditam que estão escrevendo a melhor literatura do planeta. E muitos estão. Todo esse movimento é sinal de vida literária, de sangue correndo no corpo. Tudo isso bate de frente com a literatura de gabinete, voltada apenas para o cânone e distante do corre-corre cotidiano, postura aristocrática que casa bem com a fixação de Bernardo e Hatoum na questão da permanência. Questão bizantina, porque discutir “quem vai ficar e quem não vai ficar” é discutir o sexo dos anjos.100
97 Oliveira, “Nelson de Oliveira comenta críticas de Bernardo Carvalho e Hatoum”. 98 Id. Ibid.
99 Id. Ibid. 100 Id. Ibid.
O resultado de todo esse movimento para aparecer está presente nos meios de comunicação. O próprio Oliveira nota que se produziram resenhas apaixonadas (a favor e contra) a respeito dos livros. Mas existem também constatações menos passionais, como é o caso do trecho abaixo, publicado em matéria da Folha, acerca da Bienal do Livro de 2003.
Em uma Bienal fraca de lançamentos dos “medalhões” da literatura brasileira, um expressivo grupo de “medalhinhas” vem mostrando seu brilho. É de escritores que estrearam na literatura nos anos 90, ou até mesmo que começam agora, neste mesmo maio, as melhores surpresas do megaevento carioca. A “literatura nova”, mais parente do cinema novo do que da bossa nova, ataca em várias frentes, mas a mais completa é a dupla de livros “Geração 90”, que teve sua primeira edição publicada em 2001 e que faz
a première da segunda dose esta tarde, com lançamento no Riocentro.101