Antes da chegada dos primeiros imigrantes ao Vale do Itajaí, na metade do século XIX, praticamente inexistiam povoações, exceto propriedades isoladas de famílias oriundas do litoral da Província e de grupos indígenas nativos.8
No século XVIII, sob os questionamentos iluministas e o fortalecimento da pequena burguesia, a Europa acelerou seu processo capitalista e entrou na era moderna.
A renovação das técnicas de transporte com a substituição das forças vitais pelas forças mecânicas, iniciou-se no crepúsculo do século XVIII ou, praticamente, nos começos do século XIX, com o carvão-de-pedra e a invenção da máquina a vapor, que inauguram a revolução industrial. (AZEVEDO, 1953, p. 17).
Quase no final do século XVIII, os industriais descobriram uma forma de fundir minério de ferro usando carvão mineral em lugar de carvão vegetal. Outros industriais utilizaram a energia a vapor para mover as máquinas que até então eram movidas manualmente, por tração animal ou por força dos ventos ou das águas. Estas novas tecnologias fizeram com que as pequenas oficinas inglesas dessem lugar a fábricas de produção em massa. A partir da segunda metade do século XIX, o aperfeiçoamento das máquinas, a utilização mais proveitosa da matéria-prima e a adoção de novas tecnologias e processos industriais deram início a um processo de rupturas e mudanças na produção social. Estas mudanças desencadearam a acumulação rápida de bens de capital, interferindo diretamente no espaço das cidades ocidentais e nas suas relações sociais, propiciando a formação de novas cidades, inclusive em outros continentes, e o adensamento das cidades existentes.
Até esse momento, não existia o Estado alemão, mas um conjunto de estados e cidades de origem germânica. A Prússia foi o país de maior relevância e influência para a unificação dos estados germânicos, e responsável pela formação
8 De acordo com o historiador local, José Ferreira da Silva, antes da chegada dos primeiros
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do Estado alemão no século XIX9. Existia na Prússia uma pré-disposição latente
para a assimilação das novas mudanças na produção social, espacial, econômica e tecnológica. A burguesia local se fortalecia e estava atenta ao que vinha acontecendo na Inglaterra desde o século XVIII. O fluxo imigratório da Europa para outros continentes, iniciados na metade do século XVIII, prosseguiria no século XIX. Entre os vários destinos da imigração européia (em especial a imigração alemã originária da Prússia), estava o Vale do Itajaí, sítio do objeto de estudo deste trabalho.
A tardia chegada da Revolução Industrial, 40 anos após a Inglaterra ter inventado a máquina a vapor, provocou uma grande transformação dos aspectos socioeconômicos até então reinantes na Alemanha. As companhias de oficio que reuniam os artesãos, sucumbiam à chegada das máquinas e da produção em larga escala. Este movimento fez com que grande parte, dos camponeses e artífices se tornasse assalariada, fazendo surgir o proletariado. (SANTIAGO, PETRY, FERREIRA, 2001, p. 11).
Segundo Vidor (1995), “a construção social do Vale do Itajaí não teve, in
loco, nenhum processo econômico anterior ao capitalismo. Não houve, como
sugerem alguns autores, o modo de produção feudal, anterior à revolução industrial.” No projeto de ocupação do território elaborado pelo Dr. Blumenau, estava explícito o modo de produção capitalista com influência da escola iluminista fisiocrática de Quesnay10, por meio do desenvolvimento da agricultura, cuja produção seria
beneficiada industrialmente.
Inspirado pelo novo ideário que envolvia a Europa, Dr. Blumenau veio para o Vale do Itajaí convicto da necessidade de se construir uma ferrovia.
O pesquisador local, Sr. Frederico Kilian entrevistou, em dezembro de 195711, o Sr. Otto Rohkohl, primeiro diretor da EFSC, e foi informado que já nos primeiros anos de colonização de Blumenau o fundador reconhecia a necessidade de construção de uma ferrovia que ligasse o centro da colônia (porto fluvial mais avançado do rio Itajaí-Açu) com o “Hinterland”12. (ANEXO A).
9 Em 1850, através da Convenção de Olmutz, a Confederação Germânica de 1815, é restabelecida
através da unidade nacional em benefício da Prússia, através da obra de Bismark. É efetuada em duas partes: a eliminação da Áustria e oposição à França. Em 1870, a França e Prússia entram em guerra. Uma série de sucessos militares confirma a superioridade prussinana, e a vitória confirma a unidade alemã. (Enciclopédia Abril, n.1, Alemanha, p. 118).
10 François Quesnay é economista francês adepto da Fisiocracia, ou seja, destaca a agricultura como
sendo a fonte de riquezas da nação.
11 A entrevista na íntegra encontra-se anexa.
12 Hinterland é uma área ou distrito junto às bordas de uma costa ou rio. Especificamente, pela
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Os imigrantes alemães e italianos aportaram à Província de Santa Catarina, onde residiam imigrantes açorianos e seus descendentes submetidos à Igreja de Roma, que ditava regras de boa conduta de acordo com dogmas medievais.
Os padres pregavam que era pecado mortal dançar por que eles levavam dinheiro para pagar a cota de entrada e isso fazia falta para eles. Isso era pecado mortal para eles. Em vez de dar dinheiro para a igreja, davam para as festas. Houve lugares onde as famílias tiveram que se mudar. O sujeito que tocava gaita e fazia baile, eles obrigavam o fulano a se mudar do lugar. Cheguei a conhecer a conhecer dois casos desses. O padre não queria que ele ficasse mais no lugar. Ela fazia o sermão e pedia para o povo não dançar. Quem for dançar no baile daquele fulano lá, que toca, vai pro inferno, vai ser excomungado. O cara então peneirava daquele lugar. E se pagava uma ninharia, uma bagatela para dançar.
A Igreja mandava em tudo, naquela época. Era a principal autoridade. A igreja falava alto, mais alto do que tudo. Eles estavam por trás de tudo. (CASCAES, 1997, p. 34).