Foi desenvolvido um inquérito por questionário direcionado para as duas sub-amostras, as quais, apesar de terem sido analisadas autonomamente no capítulo anterior, partilham um grande conjunto de características, que permitiram o desenvolvimento de um único questionário, salvaguardando a comparabilidade dos dados produzidos para os dois subgrupos. Não obstante, foram desenvolvidas questões específicas para cada um destes subgrupos, utilizando o processo normal de filtragem.
A construção do questionário foi apoiada, por um lado, pela consulta de outros questionários, a maioria de amplitude mais genérica, direcionados para o associativismo cultural e os seus agentes de ação, e alguns, embora pontuais, dirigidos a algumas estruturas associativas cinematográficas31; e, por outro, pela constante auscultação e permanente contacto com interlocutores privilegiados, como o ICA, e o próprio público-alvo do inquérito, como o CCP, com o objetivo de obtermos um retorno sobre vários aspetos, nomeadamente a clareza das questões, a sua pertinência, a sua aplicabilidade e a abrangência das possibilidades de resposta disponíveis.
O questionário é sobretudo factual e composto por questões fechadas. Grande parte destas abrange um período temporal de 3 anos – 2012 a 2014 –, o qual, embora acrescente uma maior complexidade no preenchimento do questionário, considerámos fundamental, pelo caráter volátil e precário de que se reveste muitas vezes a atividade de exibição não comercial de cinema, permitindo aferir a maior ou menor consistência da atividade desenvolvida. Ressalve-se que esta mesma justificação fez com que a consideração de um período temporal superior viesse a tornar a informação demasiado fragmentada e dificultasse quer ainda mais o preenchimento, quer o próprio tratamento.
31 Como é o caso dos estudos Associativismo Cultural em Cascais (Pinheiro & Gomes, 2005) e Entidades Culturais e Artísticas em Portugal (Gomes et al., 2006), além do inquérito Community exhibitor survey 2011/2012, da British Federation of Film Societies (2012).
O guião do inquérito por questionário é constituído por doze secções, que contemplam as dimensões centrais para uma caracterização extensiva do objeto de estudo (ver Anexo 1), e que a seguir apresentamos.
1. Identificação e contactos
Visa recolher elementos genéricos, tais como o nome, a localização geográfica e os contactos da entidade. Trata-se de um questionário confidencial, mas não anónimo, e estes dados são essenciais para a análise e a interpretação da informação a recolher (incluindo a possibilidade de cruzamento com informação obtida de outras fontes, por exemplo, sobre a história própria das entidades). São também necessários para eventuais contactos posteriores, uma vez que, dada a envergadura da informação a recolher, é plausível que alguns dados fornecidos suscitem dúvidas na fase de tratamento32.
2. Caracterização institucional Pretende recolher informação sobre:
a) o regime jurídico da entidade, a data de constituição legal e de início da atividade, de forma a aferir a informalidade ou não da atividade desenvolvida, que tende a ser comum no meio associativo;
b) a situação perante a atividade – se, à data do inquérito, a entidade está ativa, com atividade suspensa ou se cessou a atividade – e aferir as razões que tenham levado à suspensão ou cessação da atividade;
c) se a entidade dispõe de um espaço sede e, com ou sem esse espaço "formal"33, de que valências dispõe. Esta é uma sub-dimensão da (possibilidade de) institucionalização da atividade que marca, inevitavelmente, o tipo e mesmo a regularidade da atividade. Perceber ainda a propriedade e o regime de utilização desse espaço é, portanto, essencial.
3. Caracterização geral das atividades
Procura aferir o grau de especialização por confronto com a abrangência da atividade, através da identificação das três atividades mais importantes desenvolvidas pela entidade.
32 A título de exemplo, como existem várias questões sobre o número de sessões realizadas por cada entidade,
pode haver necessidade de efetuar novos contactos, caso haja discrepâncias nas respostas fornecidas.
33 Mesmo sem um espaço-sede, ou, por outras palavras, mesmo num espaço informal (a casa de habitação de um
dos elementos/membros, por exemplo), podem existir funcionalidades específicas, como, por exemplo, de arquivo, ou mesmo (mais dificilmente) de exibição.
Trata-se de uma questão de perceção e não de quantificação do número de atividades desenvolvidas, e sabemos que pode haver alguma discrepância entre as atividades mais valorizadas e as mais frequentes e/ou regulares.
4. Caracterização das atividades de cinema
É uma das secções mais estruturantes do questionário, tendo três grandes objetivos: a) compreender a amplitude das atividades desenvolvidas pela entidade em relação ao cinema, desde produção, distribuição, realização de workshops e outra formação, conferências, exposições, edição de conteúdos editoriais e multimédia; até às atividades de exibição, que constituem o cerne deste estudo;
b) conhecer, com o detalhe possível, as suas iniciativas de exibição cinematográfica (nos últimos 3 anos, como referido supra), através da quantificação das sessões de cinema e das mostras/ciclos e festivais de cinema realizados. No caso dos eventos de cinema, colocaram-se algumas questões adicionais sobre o número de edições realizadas, em que época do ano ocorrem, as localidades onde existem extensões e o número de sessões realizadas. Este bloco de questões procura, assim, medir a consistência da exibição de cinema da entidade e, consequentemente, a sua importância relativa no circuito de exibição não comercial de cinema, embora essa importância não se esgote neste conjunto de questões, como ilustra o aspeto seguinte;
c) identificar o papel da entidade na programação, através da quantificação das sessões programadas em exclusividade pela entidade ou em parceria com outras.
5. Espaços de exibição
Procura identificar até 3 espaços de exibição34 e caracterizá-los:
a) através do regime de utilização dos mesmos por parte da entidade e através da identificação da entidade exploradora, questões que permitem aferir o grau de autonomia ou dependência da entidade para a prossecução da sua atividade de exibição;
b) através de questões como a tipologia do espaço, as condições de licenciamento e técnicas – o tipo e o tamanho do ecrã, a lotação, o tipo e a qualidade da projeção – que permitam apreciar a qualidade das condições de exibição e o grau de formalidade dos espaços de exibição utilizados.
34 Mais do que três espaços levantaria problemas idênticos aos referidos para o período temporal, e não
6. Regularidade da exibição e programação
Aprofunda o conhecimento sobre a atividade de exibição a partir de um conjunto de questões sobre a frequência e o horário das sessões de cinema. Acrescenta ainda algumas questões sobre a programação de cinema, nos últimos 3 anos, como o tipo de metragem e de filme, a sua origem geográfica e o suporte de exibição do filme. Por fim, no formato de questões abertas, ausculta-se a entidade sobre o tipo de programação desenvolvida e as principais dificuldades que enfrenta no seu desenvolvimento. Esta dimensão é especialmente importante para a aferição do caráter independente, ou alternativo, da programação (ou, pelo menos, da intenção).
7. Relação com o mercado de distribuição
Detém-se sobre o problema dos direitos de exibição dos filmes, ou seja, sobre a legalidade das sessões de cinema, e procura identificar as principais distribuidoras com as quais a entidade colaborou nos últimos 3 anos. Através destas questões, procura apreciar-se o grau de relação que este “setor” estabelece com o mercado de distribuição cinematográfico. Com efeito, a informalidade, o amadorismo e o “fraco” grau de especialização e comprometimento com o cinema das entidades que compõem este “setor”; a facilidade no acesso aos filmes – em suportes como o DVD ou o Blu-ray e até mesmo os downloads/streamings; os elevados custos associados aos direitos de exibição dos filmes, a dificuldade no acesso aos catálogos de filmes das distribuidoras; ou ainda a legendagem dos filmes, são vários e diversificados os fatores que podem concorrer para este “setor” funcionar, em grande medida, à margem do circuito económico da indústria do cinema (produção –> distribuição –> exibição). Trata-se de uma informação delicada, uma vez que este circuito é fortemente regulamentado e mesmo fiscalizado, mas, por outro lado, acontece haver (sobretudo pequenos) distribuidores dispostos a colaborar com a exibição (cedendo gratuitamente alguns filmes).
8. Recursos humanos
Pretende identificar os recursos humanos afetos à atividade de exibição de cinema e caracterizá-los a partir de um conjunto de questões, por um lado, sociodemográficas (sexo, idade, grau de habilitações, formação em cinema…) e, por outro, sobre a relação estabelecida
com a entidade (ano de integração, vínculo contratual, funções desempenhadas). O voluntariado e o caráter informal das atividades são muito frequentes neste âmbito.
9. Despesas
Intenta conhecer o peso das despesas das entidades com os custos gerais de funcionamento, os recursos humanos e, em particular, com a atividade de exibição de cinema, desde os espaços de exibição aos custos de aluguer, transporte e legendagem dos filmes, da aquisição de equipamentos técnicos até às iniciativas de divulgação e comunicação.
10. Receitas e fontes de financiamento
Procura compreender a sustentabilidade financeira das entidades, através de um conjunto de questões sobre o peso das receitas próprias, relacionadas com as quotizações e a atividade de exibição de cinema, e das fontes de financiamento no total das receitas, bem como a identificação da proveniência das mesmas.
11. Parcerias
Procura averiguar o envolvimento das entidades em iniciativas de cooperação com outras entidades, através de um conjunto de questões sobre: as principais finalidades visadas na constituição das mesmas, que podem ir desde a cedência de espaços, recursos humanos e meios técnicos à formação, divulgação ou definição de uma programação de cinema; as principais entidades parceiras; os principais projetos desenvolvidos. Além disso, pretende-se identificar os principais motivos que levam ao envolvimento ou ausência do mesmo na prática de parcerias.
12. Relação com a comunidade
Esta dimensão está, em parte, contida noutras anteriores, que permitem aferir as relações das entidades com os locais, ou as regiões em que operam (por exemplo, quando se questionam sobre as parcerias, ou a programação, ou os espaços de exibição, ou os recursos humanos). Nesta autonomização, procura-se descortinar o tipo e o grau de captação da comunidade envolvente, através de um conjunto de questões sobre o número de associados, as condições de filiação e as vantagens da mesma, nomeadamente no preço das sessões e na participação em atividades exclusivas. Pretende-se compreender se a atividade de exibição de
cinema das organizações é sobretudo direcionada, ou não, para os associados e que meios utilizam para a divulgação das sessões de cinema.
A consideração deste número de dimensões implicou uma operacionalização complexa e extensa em indicadores capazes de serem traduzidos em questões consistentes e claras. É o que se apresentará a seguir.
5.2. A construção do inquérito por questionário: principais dificuldades, desafios