As variáveis que compõem a barreira estrutural procuram avaliar problemas referentes a orientação cultural (2), infraestrutura (5), recursos humanos (3) e desempenho dos órgãos de intermediação (2), que contribuem com processo de
transferência de tecnologia no local. No total, foram avaliadas 12 sentenças neste grupo de barreira. Os resultados são apresentados no Quadro 6.2.
Quadro 6.2:Dados da avaliação das variáveis agrupadas na barreira estrutural Sentenças referentes à Barreira Estrutural
V01 A orientação da universidade é direcionada apenas para a pesquisa básica.
V02 A infraestrutura e os recursos são ineficientes ou inadequados para desenvolvimento dos
projetos acadêmicos direcionados à transferência de tecnologia entre universidade-empresa. V03 Há uma Carência de Recursos Humanos para desenvolvimento de pesquisas (Docentes
pesquisadores).
V04 Há uma Carência de Recursos Humanos para desenvolvimento de pesquisas (Discentes
pesquisadores).
V05 Há uma Carência de Recursos Humanos para desenvolvimento de pesquisas (Profissionais de
apoio técnico-administrativo).
V06 Existe uma falta de capacitação da equipe acadêmica para interação entre universidade-
empresa (Docentes, Discentes e Profissionais de apoio técnico-administrativo).
V07 O Núcleo de Inovação Tecnológica – NIT não tem auxiliado no desempenho do processo
inovativo interno da UFRN.
V08 A estrutura e a política de atuação promovida pela Fundação de apoio é insuficiente ou
inadequada.
V09 Apesar dos órgãos existentes, ainda há uma falta de mecanismos de intermediação que
auxiliem a interação entre universidade-empresa.
V10 Há uma falta de agilidade e cumprimento dos prazos estabelecidos na elaboração do projeto de
pesquisa.
V11 Há uma falta de agilidade e cumprimento dos prazos estabelecidos na execução do projeto de
pesquisa.
V12 Há uma falta de cultura de comercialização na universidade dos projetos de pesquisas.
Dados correspondentes as opiniões dos entrevistados
Vx
Frequência Relativa
Média Moda Variância Desvio padrão 1-2 3 4-5 V01 0,472 0,389 0,139 2,5 3 1,4 1,2 V02 0,250 0,389 0,361 3,1 3 1,2 1,1 V03 0,333 0,472 0,195 2,8 3 1,0 1 V04 0,389 0,361 0,250 2,7 3 1,1 1 V05 0,112 0,333 0,555 3,6 4 1,1 1 V06 0,250 0,417 0,333 3,1 3 1,0 1 V07 0,223 0,556 0,222 3,0 3 0,9 0,9 V08 0,278 0,361 0,361 3,0 3 1,4 1,2 V09 0,195 0,361 0,444 3,4 3 1,3 1,1 V10 0,083 0,278 0,639 3,7 4 0,7 0,8 V11 0,194 0,306 0,5 3,4 4 0,8 0,9 V12 0,028 0,194 0,778 4,1 5 0,7 0,8
Em relação a orientação da universidade (V01), observa-se que 47,2% dos
coordenadores discordam da afirmação, demonstrando que a orientação universitária não está, apenas, direcionada à pesquisa básica. Somente 13,9% dos entrevistados concordam que a universidade mantém o foco para pesquisa básica.
Nesse sentido, pode-se dizer que UFRN caminha para uma orientação universitária empreendedora, em que estão presentes tantos os aspectos da ciência (pesquisa básica) quantos os de negócios (empreendedorismo). De acordo com D’Este; Perkmann (2011) somente com uma orientação universitária empreendedora é possível obter todos os tipos de mecanismos de interação entre universidades e empresas. No entanto para que o modelo na instituição seja eficiente é necessário que essa política também seja disseminada nos departamentos (KALAR; ANTONCIC 2015).
Quanto a infraestrutura e os recursos disponibilizados pela instituição (V02), de
modo geral, 36,10% dos entrevistados concordam que a infraestrutura e os recursos disponibilizados são ineficientes ou inadequados, no entanto, 25% discordam da afirmação. Outro dado relevante, é que uma boa parte dos entrevistados foram imparciais, apresentando uma moda igual 3, correspondendo a 38,9% dos respondentes.
Os resultados apresentados revelam que a infraestrutura e os recursos da UFRN, considerando um todo, não são, necessariamente, um dos maiores problemas enfrentados pelos participantes de projetos direcionados à transferência de tecnologia na instituição. No entanto há uma necessidade de melhoras especificas, tanto em infraestrutura quanto na disponibilização de recursos, conforme relatado por alguns pesquisadores.
As variáveis (V03), (V04) e (V05) são relacionadas a um dos assuntos mais
discutidos na literatura, a carência de recursos humanos (SIEGEL et al, 2003; GARNICA; TORKOMIAN, 2009; HSU et al, 2015). Nessa perspectiva, procurou-se subdividir o tema em 3 categorias: docentes pesquisadores, discentes pesquisadores e profissionais de apoio técnico-administrativo.
A carência de docentes pesquisadores (V03), tem como pressuposto uma análise
de dados que constatou que aproximadamente 34% das bolsas de auxilio pesquisador distribuídas na população desse estudo correspondiam à pesquisadores externos. No entanto, apenas 19,50% dos entrevistados concordam que há uma carência de docentes pesquisadores na UFRN.
Então, é possível que essa diferença entre a avaliação dos entrevistados e o que se apresenta na realidade da universidade não resida na carência de docentes pesquisadores, e sim em uma motivação pessoal dos coordenadores em querer fazer parte de uma rede
de relacionamento com professores externos (D’ESTE; PERKMANN ,2011; ARKRAH et al, 2013).
No trabalho de Garnica; Torkomian (2009), apenas uma das cinco universidades do estudo de caso apontaram para carência de pesquisadores no desenvolvimento de pesquisas. Para Siegel et al (2003) o pesquisador é considerado fator-chave do processo de transferência de tecnologia. Nesse contexto, os pesquisadores de alto rendimento são considerados essenciais para o aumento dos resultados e da qualidade das pesquisas (HOYE; PRIES, 2009; FUENTES; DUTRÉNIT, 2012).
Sobre os discentes pesquisadores (V04), dentre o grupo de recursos humanos, foi
que apresentou o maior índice de não haver carência, com 38,9% dos entrevistados discordando da afirmação. Outro dado relevante é que considerando a população do estudo, do total de bolsas de auxílio financeiro distribuídas nos projetos, aproximadamente 60% das pessoas beneficiadas são estudantes. O grupo de estudantes são formados por alunos de graduação e pós-graduação.
Em contraste, os profissionais de apoio técnico-administrativo (V05) apresentaram
a maior carência de pessoal com 55,5% dos respondentes concordando com a declaração. A moda foi igual a 4, revelando que a maioria dos entrevistados concordam moderadamente com esse problema.
Nesse contexto, em um estudo recente realizado na UFRN pelo autor Perales (2014) foi identificado no setor administrativo diversos problemas. Entre os principais estavam o número pequeno de servidores e a falta de capacitação para o exercício do trabalho. Também foram citados problemas referentes ao planejamento e execução das tarefas.
Para alguns gestores, a causa do problema foi atribuída ao crescimento acelerado da instituição provocada pelo REUNI e a reestruturação do setor responsável pelo acompanhamento dos projetos. Em consequência destes problemas, 90% dos pesquisadores avaliaram negativamente a tramitação dos projetos na instituição, em que temos os profissionais de apoio técnico-administrativo relacionados diretamente.
A variável (V06) procurou identificar a existência da falta de capacitação da equipe
acadêmica (discentes, docentes e profissionais de apoio técnico-administrativo) no processo de transferência de tecnologia na instituição. Os resultados demostram que 33,3% dos entrevistados afirmam existir uma falta de capacitação da equipe acadêmica, porém, de maneira geral, a maioria dos entrevistados 41,7% foram isentos diante da afirmação.
Em entrevistas informais realizadas com alguns dos coordenadores foi citado o problema da capacitação da equipe de apoio administrativo, conforme também visto no estudo de Perales (2014). Entretanto, diversos problemas do processo de transferência de tecnologia são provocados pelos coordenadores, mas estes não reconhecem a falta de capacitação e sim atribuem os problemas a questões de competência que não lhes deveriam ser delegadas.
No estudo também foram avaliados os órgãos de intermediação, o NIT (V07) e a
Fundação de apoio (V08) que auxiliam no processo de transferência de tecnologia na
UFRN. Sobre o NIT (V07) não se pôde garantir que esse não tem auxiliado no
desempenho do processo inovativo interno da universidade, pois a maioria dos coordenadores 55,6% demonstram imparcialidade. Esse número expressivo pode ser explicado porque a maioria dos mecanismo de interação desenvolvidos no estudo de caso, não necessitaram da intervenção do NIT. Além disso, a quantidade de entrevistados que concordam ou discordam da afirmação são praticamente iguais.
No entanto, na pesquisa de Perales (2014) realizada na instituição, foi constatado que o NIT não possuía estrutura e nem pessoal para cumprir com o seu papel. A equipe administrativa era formada por apenas 4 pessoas e suas funções se resumiam a disseminação da comunidade acadêmica sobre a propriedade intelectual e dar parecer sobre os direitos de propriedade e cláusulas de confidencialidade. Corroborando com o autor, Garnica; Torkomian (2009) afirmam a necessidade de fixação de pessoal qualificado nos NITs, devido à escassez desse perfil nas instituições e a alta rotatividade de colaboradores em contratos temporários ou estágios.
Entretanto, atualmente, a equipe administrativa é formada por 8 pessoas e suas funções foram expandidas. Também já é possível obter dados sobre a propriedade intelectual na instituição, como o quantitativo de marca, patente, registro de computador e outras propriedades intelectuais de posse da UFRN ou solicitadas.
Nesse contexto, a UFRN procura caminhar para um melhor desempenho no processo de transferência de tecnologia, principalmente, no registro de seus direitos de propriedade intelectual que envolvam a estrutura do NIT, pois o tamanho do núcleo de inovação tecnológica influência na melhora do desempenho da colaboração no contexto das universidades (SIEGE et al, 2003; HSU et al 2015).
Quanto a Fundação de Apoio (V08), apenas 27,8% dos entrevistados declaram que
sua estrutura e política de atuação são suficientes e adequadas. Tal porcentagem é considerada baixa, visto que o principal objetivo da Fundação de Apoio é estimular,
apoiar e gerenciar atividades de ensino, pesquisa, extensão e desenvolvimento cientifico e tecnológico produzida pela UFRN, assegurando, principalmente, agilidade no processo (FUNPEC, 2016).
No estudo de Perales (2014) foram identificados 3 tipos de problemas referente a Fundação de apoio: operacionalização de compras, comunicação e agilidade no processo. Os problemas das compras citados pelos pesquisadores referem-se a importação de materiais e equipamentos, aquisição de produtos com preços fora de mercado e sobre o processo licitatório.
Com a aprovação da Lei 13.243 de 2016, conhecida como o Novo Marco Legal da Ciência e Tecnologia, se espera uma melhora do processo de licitação, do preço do produto e da importação de matérias e equipamentos, uma vez que o novo marco regulatório trouxe modificações que flexibilizaram a licitação para aquisição de matérias e equipamentos para fins de pesquisas, além de conceder redução de impostos para esses produtos com essa finalidade.
A comunicação entre o pesquisador e a Fundação de Apoio atinge seu ápice critico na divisão de tarefas administrativas envolvendo os projetos. Para o coordenador do projeto diversas tarefas eram para serem executadas pela Fundação de Apoio, que por sua vez afirma que são de exclusividade do coordenador. Nessa questão, ainda não existe uma clara definição do papel de cada um (PERALES, 2014).
Como consequência desses problemas, se agrava ainda mais a situação da morosidade administrativa reclamada por muitos coordenadores em relação a Fundação de Apoio. Com isso, alguns coordenadores, às vezes, insistem que seu projeto seja executado exclusivamente pela universidade, sem o envolvimento da Fundação de apoio, afirmando que a execução somente pela UFRN é mais ágil e eficiente.
Apesar dos órgãos existentes, foi constado uma carência de mecanismos de
intermediação que auxiliem a interação entre universidade e empresa (V09), como alegam
os entrevistados (44,4%). Na pesquisa de Perales (2014) foram identificadas três unidades de auxílio a interação entre universidade e empresa: o NIT, a Fundação de apoio e o Setor de Apoio a Iniciativas empreendedoras. Até o ano de 2014, nenhuma das três unidades cumpriam com seu papel, seja por falta de pessoal e estrutura no caso do NIT e do Setor de Apoio a Iniciativas empreendedoras, seja pelo estilo de gestão no caso da Fundação de Apoio (PERALES, 2014).
Recentemente foi criada a Secretária de Gestão de Projetos, órgão subordinado a reitoria, que tem como objetivo principal promover a divulgação e aplicação do
conhecimento científico produzido pela Universidade concretizado em projetos acadêmicos, ou seja, melhorar o processo de transferência de tecnologia na UFRN. A princípio, não foram definidas todas as suas atribuições e a secretária conta apenas com um servidor. No entanto, um aprimoramento da unidade poderá ser muito útil para minimizar os problemas envolvendo a transferência de tecnologia entre universidade- empresa e, consequentemente, a falta de mecanismos de intermediação.
A agilidade e o cumprimento dos prazos estabelecidos foram avaliados na
elaboração (V10) e execução (V11) dos projetos de pesquisa. Para os entrevistados, tal
barreira é mais agravante na elaboração do que na execução dos projetos com 63,9% e 50%, respectivamente, dos entrevistados concordando com a afirmação.
No estudo de Perales (2014) a partir de uma amostra de 10 projetos no período de 2011 – 2013 na universidade, foi calculado o tempo de cadastro do processo até sua ativação, isto é, o prazo para elaboração dos projetos acadêmicos. Os números apresentados foram: a) 213 dias (2011); b) 216 dias (2012); e c) 122 dias (2013). Apesar da sensível redução de 43,5% entre 2012 e 2013, apontada pelo autor, o problema referente ao prazo de elaboração dos projetos ainda são comuns na UFRN. Neste estudo, também foi apresentado um estudo de tempos de tramitação dos projetos, o qual identificou que os prazos veem se mantendo constantes nos últimos 3 anos, com tempo de conclusão de aproximadamente 5 meses.
Segundo a literatura, uma das principais causas apontadas que provocam um maior prazo para elaboração e execução de projetos nas instituições de pesquisa é atribuída a burocracia pública, tanto no âmbito interno, universidade, quanto externo, governamental (SEGATTO-MENDES; SBRAGIA, 2002; SIEGEL et al, 2003, GARNICA TORKOMIAN, 2009, FRANCO; HAASE, 2015).
A cultura de comercialização empregada na universidade (V12) foi considerada o
maior problema em relação as variáveis agrupadas na barreira estrutural. Tal barreira foi identificada nos estudos de Garnica; Torkomian (2009) e Perales (2014). Os resultados revelam que 77,8% dos entrevistados afirmam que há uma carência relacionada a cultura de comercialização dos produtos gerados pelos projetos de pesquisas na UFRN. Apenas 1 dos coordenadores discordou do que foi afirmado.
Landry et al (2007) defendem que a comercialização dos resultados das pesquisas é vista como um dos principais motivos para engajamento de pesquisadores no processo de transferência de tecnologia. Para diversos autores, a baixa eficiência e a falta dos órgãos intermediários de negociação apresentam-se como os maiores “vilões” do
processo de comercialização na instituição (SIEGEL et al, 2003; GARNICA; TORKOMIAN, 2009; SANTANA; PORTO, 2009).
No estudo de Perales (2014) foi identificado que o NIT – Núcleo de Inovação Tecnológica, apenas exercia suas funções no âmbito interno da UFRN. Em contraste, na pesquisa de Garnica; Torkomian (2009) o NIT mostrou-se mais eficiente, presente também em atividades de negociação da comercialização dos projetos de transferência de tecnologia.
Nesse sentido, a constituição de equipes de alta qualidade e o pleno exercício das funções atribuídas nos órgãos intermediários de apoio administrativo à transferência de tecnologia podem promover a comercialização de maneira mais eficaz na instituição, sendo considerado um fator determinante para parceria (SIEGEL et al, 2003).