Também mais abrangente do que se poderia achar é o conceito de paz e de peace-
building. O dicionário define “paz” como um Estado de uma nação ou terra que não se
encontra em guerra; um tratado que mantém, restabelece ou regula esse estado; união, concórdia, amizade entre pessoas (Machado, Grande Dicionário da Língua Portuguesa, 1981, p. 508). Este termo não se encontra explicitamente definido pela ONU, devido às
várias formas e níveis de paz existentes. É referido como ausência de guerra e de outras hostilidades; é o estado de harmonia caracterizado pela carência de conflito, sugerindo a existência de relações interpessoais recém-restauradas, prosperidade nas matérias de bem-estar social e económico, o estabelecimento de equidade e um trabalho de ordem política que sirva o interesse de todos (Gilbert & Will, 2012). Mas, tal como o conceito de desenvolvimento, anteriormente referido, este conceito de peacebuilding surge em âm- bito de guerra, mais concretamente, no contexto internacional do pós-Guerra Fria e da criação da ONU. Durante este período, as operações de peacekeeping constituíam a prin- cipal atividade de paz e de segurança da organização, que se pautavam por três princípios básicos, a holy trinity – o consentimento das partes, a imparcialidade e o mínimo uso da força (estes princípios operam até aos dias de hoje)12. Esta abordagem já vinha a ser dis- cutida por Johan Galtung, nos anos 70, no seu texto Three Approaches to Peace: Peace-
keeping, Peacemaking and Peacebuilding, embora só tenha sido utilizado pela ONU em
1992 (Cavalcante, 2010, pp. 1-7).
O termo peacebuilding surge com a adoção da Resolution 47/120 e a aprovação da “An Agenda for Peace”, pelo então Secretário-Geral Boutros-Ghali. Apesar de ser re- ferido essencialmente como reconstrução pós-conflito, estava desde já presente a ideia de construção da paz, e não apenas mantê-la ou preservá-la, evitando, assim, novos conflitos (Boutros-Ghali, 1994, p. 147). A intensificação do processo de globalização é, também, um dos motivos para a evolução deste conceito, pois, ela traz-nos mais escolhas e opor- tunidades de prosperidade e familiariza-nos com a diversidade global. Apesar destas van- tagens, a globalização também eleva incertezas, já que milhões de pessoas no mundo têm- na como uma força disruptiva e destrutiva, devido às assimetrias sociais que se acentuam ainda mais – com a globalização não há limites. Assim sendo, um dos maiores desafios de todos os tempos é aproveitar todo o potencial da globalização, enquanto se minimizam os (seus) riscos. E é aqui que entra o papel-chave da ONU, especialmente na economia e nas questões sociais (Grunberg & Sarbuland, 2000, pp. 1-5).
Entre várias organizações que trabalham na área temática da paz, a PeacePlayers
International é uma das organizações que o faz de forma exclusiva e que aborda também,
na sua missão, estes diferentes contextos de paz e o processo de transformação de conflito (Tuohey & Cognato, 2011).
1.2.6.1. O desporto como ferramenta para a promoção da paz
O Desporto tem vindo a ser reconhecido e usado como uma ferramenta de desen- volvimento e de construção da paz, não só pela ONU, como também por outras organi- zações regionais e internacionais, governos, ONGs, federações desportivas, entre outros. O interesse académico e da media em relação ao conceito de DSDP tem crescido, assim como, consequentemente, o desenvolvimento dos seus praticantes e o número de ONGs (Dienes, 2012, p. 39).
A institucionalização do DSDP, por parte da ONU, foi ao encontro da sua inte- gração nos então Objetivos do Desenvolvimento do Milénio. Embora a paz não seja um ODM, uma das maiores ambições da própria ONU é manter e construir a paz. Porém, depois de quinze anos de progresso em direção a estes objetivos, o mundo virou-se para os seus sucessores: os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), 17 objetivos que fazem parte da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável. Esta Agenda é a oportunidade para inspirar uma ação de desenvolvimento para todo o mundo, inclusive no campo do DSDP (Lemke, 2016).
A Paz forma uma condição necessária para o desenvolvimento social e económico sustentável. Assim sendo, o crescente reconhecimento e uso do desporto como uma força na promoção da paz preocupa a dois níveis – a macro e a micro níveis.
A nível macro, o desporto pode contribuir para as relações de amizade e paz in- ternacionais ou pode até contribuir para a redução de tensões entre estados e os seus povos através de encontros competitivos e grandes eventos de desporto organizado. Estes são objetivos partilhados pela ONU e pelo Movimento Olímpico, com a promoção dos ideais olímpicos (excelência, participação, paz, amizade, respeito), com a organização dos Jogos
Olímpicos (JO) e de atividades relacionadas. Desta maneira, o desporto internacional con- tribui para a formação de identidades globais, culturas e esferas transnacionais. O des- porto internacional também provou deter uma influência positiva na mudança política sob a forma de “diplomacia desportiva” (Dienes, 2012, pp. 42-44). Vários são os exemplos que provam a existência dessa paz e que funcionam como poderosos símbolos de mu- dança – desde amizades entre atletas de diferentes nacionalidades (a demonstração de
fairplay e amizade entre os atletas olímpicos Jesse Owens e Lutz Long, em Berlim, 1936,
contra o cenário de racismo existente, e o gesto de cordialidade entre os medalhistas ge- orgiano e russo, em Pequim, 2008, aquando de um conflito militar entre ambos os países) e do reconhecimento de associações desportivas de países recém-independentes, ao boi- cote internacional na África do Sul que pressionou o fim do regime do apartheid (Dienes, 2012).
A um nível micro, o desporto é maioritariamente utilizado como um instrumento de (re)construção de relações sociais e interpessoais, de reconciliação avançada, de en- frentamento de preconceitos e estereótipos e que ensina a resolução de conflitos sem vi- olência, intervenções nas competências sociais e de vida. Particularmente, em situações pós-conflito, o desporto abre portas à união entre oponentes, reconstrói a confiança, reduz os preconceitos que levaram ao conflito (Dienes, 2012). Quando a violência toma uma comunidade, os programas desportivos comunitários ensinam a cultura de paz e incenti- vam os jovens a deixarem os gangs ou que novos membros se juntem a eles. Mas este nível micro também se verifica em termos regionais e internacionais, quando, por exem- plo, ocorrem torneios de amizade ou intercâmbios de jovens (como foi o caso do Inter-
national Friendship Encounter: Sports for a Culture of Peace, organizado pela
UNESCO). Neste nível, a obtenção de resultados e a grande performance não são o pre- tendido, embora alguma competição saudável possa sempre fazer parte (Dienes, 2012, pp. 44-46).
Em relação ao tipo de desporto, atividade ou jogo, a escolha apropriada depende de vários fatores socioculturais, viabilidade técnica e popularidade entre o público-alvo – também o género, a idade e a habilidade devem ser tomados em conta. Por exemplo,
apesar da sua popularidade e fácil implementação, o futebol não coincide em muitos pa- íses e contextos, prevalecendo outro tipo de desportos e atividades.