A formação de supervisor foi vivenciada por vários entrevistados como decorrente da suas atuações como analistas e da demanda do outro para o exercício dessa função. Colegas analistas que conheceram seus trabalhos através de grupos de estudo coordenados por eles, aulas ministradas, enfim, do contexto no qual atuavam, perceberam neles a capacidade de supervisionar os casos que atendiam e pediram-lhes supervisão.
Eu não queria ser supervisora. Eu falava: não sei ser supervisora, só sei fazer o meu trabalho! E aí as pessoas, pacientes minhas - tenho uma paciente que foi minha paciente durante muitos anos e fez psicologia e estava trabalhando com o seu doutoramento - falava: você devia dar supervisão. Depois uma grande amiga, também falava que eu devia dar supervisão. Aí eu pensei: Quem sabe? Eu poderia tentar fazer esse trabalho pra ajudar alguém. Eu iria ver, se eu visse que estava podendo ajudar, tudo bem, senão, não. E deu certo. Está dando certo. É assim que eu sou, é assim que eu trabalho, simplesmente. (Kin)
Aconteceu de as pessoas me procurarem. Então, foi em função da necessidade. (Beija-Flor)
Foi que me procuraram para dar supervisão. Você sabe que eu sou didata do Instituto (...) Então as pessoas que estão fazendo formação vêm procurar porque faz parte do curriculum delas a supervisão de um didata. (Carina)
É uma coisa que vai acontecendo muito espontânea mesmo. Eram pessoas que vinham discutir teoria comigo porque eu dava grupo de estudo, e a partir dessa orientação, como disse, sempre tive essa preocupação(com o atendimento do indivíduo, em busca da melhora da saúde das pessoas), talvez até por ter tido uma formação médica. (Cila)
Muito através da procura, tanto de pessoas recém-formadas, de pessoas que na verdade buscavam um modelo profissional, ou pessoas que me conheciam nas palestras, ou algum grupo de estudos, e começaram e clinicar e quiseram começar a ver, quiseram começar a estudar os casos clínicos. (Nina)
Alguns contam que inicialmente se sentiram tomados de surpresa e inseguros acerca da própria capacidade para bem desempenhar a função. A insegurança e a dúvida mais
tarde foram percebidas por algumas entrevistadas (Kin, Beija-Flor e Lu) como facilitadores para sua formação, pois foi levaram-nas à busca permanente de desenvolvimento e autoconhecimento. Aliás, a constante preocupação com o próprio processo evolutivo foi citado como facilitador para o tornar-se supervisor.
Mas eu lembro que no começo eu ficava muito assustada. Segundo Jung, segundo não sei quem, o que é? Eu fazia um terceiro analítico, eu colocava Jung, a teoria, os livros ali. E aí eu fiquei muito assustada quando Jung disse que a gente tinha que botar fogo nos livros. (Kin)
Eu acho que é importante passar pra quem está começando que a insegurança faz parte do processo do vir a ser um terapeuta. A insegurança é a companheira constante do terapeuta. A partir do momento que você se sente seguro, você infla e perde, talvez, a necessidade de se melhorar, de se perceber como alguém que já passou por essas fases que você está transmitindo para o seu supervisionando. (Ângela)
Outro aspecto percebido inicialmente como fator limitador para o analista se tornar supervisor, trazido por Lu, foi a transferência/contratransferência na relação com o paciente. Percebia-se muitas vezes enredada pelo processo do paciente e, diante disso, fez muitas horas de supervisão individual e análise pessoal a ponto de confundi-las, ambas. Através do intenso e contínuo trabalho desenvolvido, o que era uma dificuldade se transformou em facilidade.
Eu fiz uma supervisão de 50 horas, só em cima desse caso. (...) Então, naqueles tempos eu falava: Meu Deus, mas eu sou um retardo mesmo, por que eu preciso de tanta supervisão, de tanta análise? Hoje não, hoje eu olho como tendo sido um lastro do meu trabalho. Um orgulho, um orgulho no bom sentido da palavra, de ter podido fazer tudo isso. (Lu)
Em contrapartida, outro entrevistado informou que, um elemento percebido como ponto positivo para ser supervisor – o tipo psicológico intuição/pensamento - que lhe facilita fazer o diagnóstico do paciente relatado pelo supervisionando, mostrou-se um componente a ser trabalhado a fim de não levar o supervisionando a criar dependência diante da facilidade e segurança do supervisor.
Eu confesso que, pessoalmente, sempre tive muita facilidade em supervisionar, por causa - usando uma linguagem junguiana - da minha tipologia. Eu acho que isso conta muito. Eu diria, que na maior parte dos testes psicológicos, apareço como intuição/pensamento. E nessa medida, eu pessoalmente, tenho a facilidade de, quando começam a me contar um caso, como se já começasse a ver um filminho e, intuitivamente, mas também analiticamente, tenho facilidade em montar um diagnóstico psicológico de alguém que nunca vi. Tenho certeza de alguém, porque eu observo, é uma coisa que nem todo mundo tem facilidade por causa da questão tipológica. Muitas pessoas precisam de um vínculo pessoal para poder se orientar ou precisam de mais dados concretos e específicos pra poder se localizar e fechar o quadro. Mas eu tenho muita facilidade em fazer esse diagnóstico a distância e aí já indicar mais ou menos um caminho estratégico. Eu acho que é uma tipologia adequada pra ser supervisor. Claro, que há também a contrapartida. E aí a contrapartida é o que eu coloco como minha dificuldade, talvez, pra ser supervisor. Eu acho que os meus supervisionandos tendem a desenvolver uma certa dependência. (Número 12)
Atitude facilitadora para o desenvolvimento da sensibilidade necessária ao supervisor, citada por Kin, foi o contato e o estudo permanente das obras de arte, a meditação e aos sinais que a vida fornece.
Eu acho que uma coisa que pode ajudar muito o ser supervisor, por exemplo, se eu já tenho uma supervisionando que pergunta: Como eu posso melhorar? Eu iria propor que ela fizesse meditação. Que ela fizesse meditação, que ela dedicasse muito tempo aos sinais que a vida vai lhe dando. Que ela aprendesse, que embora a gente esteja vivendo num mundo tão violento, tão agressivo, que ela aprendesse a perceber os sinais singelos que a vida oferece. Isso ajuda, muito mais a gente vai desenvolvendo desse lado. Sem dúvida, os livros são importantes, os poetas são importantes. Que Neruda é fantástico, que Vivaldi é fantástico, enfim, que todos os grandes mestres da pintura, que o Magrit é fantástico, que Serrat é fantástico. É um universo sem fim, que ela precisa ser estimulada em todo esse universo. (...) Estou sempre trabalhando, lendo. Eu me encanto pelo mundo da cultura, o mundo da manifestação das artes me encanta. Me encanta porque eles são tão singulares, mas acho que quando eu estou aqui, tudo que já li fica pra fora. Eu fico aqui num parêntesis, aqui é um vaso, um momento sagrado. Sagrado quer dizer separado. Não contaminado por livros nem por teoria, e muito menos por expectativas que os outros possam ter daquilo que ocorre aqui. Então eu me despojo de tudo isso pra tentar sentir, como isso que eu estou fazendo agora. (Kin)
Também a proposta de buscar as respostas em conjunto com o supervisionando, não se impondo como a detentora do saber, foi referido por Nina como facilitador para o desempenho da função.
Eu sempre senti que fluiu porque sempre me propus a mostrar o meu ponto de vista não como verdade absoluta, mas sim como verdade relativa daquele momento. (Nina)
Lion trouxe a identificação com a clínica:
Eu penso que a facilitação foi a identificação com a clínica.
As supervisões que fez e o valor que deu elas:
A gente aprende ser supervisor sendo supervisionado
E a história de vida, como fatores facilitadores na sua própria construção como supervisor.
Não só em função desses conhecimentos, mas em função de... Eu fui padre. Em função desse papel anterior, que até historicamente, o próprio Jung fala isso, o precursor da análise, da psicanálise, foi a orientação espiritual, foi o confessionário. O modelo psicanalítico é o modelo dessa nossa coisa da fala, do você contar suas coisas a outro. Isso é o modelo religioso, da confissão, mesmo da direção espiritual. E, durante 8 anos eu fui padre, eu exerci o ministério. Então, pra mim teve uma continuidade. Eu saí de um papel e entrei em outro papel que tinha muitas nuances de similaridade. E aí, na Psicologia Analítica entram a teologia, a filosofia. E talvez, uma coisa que seja mais importante até que a filosofia, é o estudo do latim. Que o latim é um excelente ordenador lógico, talvez o melhor estudo de lógica que alguém possa fazer é estudando latim. Porque é a leitura do latim é um exercício de lógica. E essa experiência também foi muito importante.
Lion acrescenta que as situações de confusão percebidas como dificuldades sempre foram superadas em supervisão.
O mesmo entrevistado, da mesma forma que Número 12, citou a vocação de terapeuta como importante a facilitador do tornar-se supervisor. Este último acrescenta à vocação, o processo iniciático.
Eu acho que deve existir uma vocação interna, se você quiser numa linguagem muito simples e transparente eu acho que é um processo iniciático e não por outra coisa, na verdade um dos momentos centrais da formação do analista é, na verdade, são momentos mesmo de iniciação. Não é à toa que a gente tem que ter uma boa análise, na análise ter que ter visto as transferências, tem que ter tido os insights, uma série de passagens vividas que fazem de você um analista junguiano.
Outro entrevistado cita a vocação e o desejo de ser supervisor como fatores básicos para tornar-se supervisor:
O processo de formação do supervisor, eu tenho pra mim que, é uma coisa natural, que vem acontecendo segundo alguns aspectos: primeiro a vocação, o sujeito tem que ter uma vocação pra poder ser supervisor. Em cima disso, o desejo de ser supervisor, alguns se encaminham pra outras áreas, outros preferem ser só analistas, outros preferem escrever, enquanto outros gostam da supervisão. (E3)
Três entrevistados - Beija-Flor, Lion e Rê - fizeram referência ao fundamento da formação do supervisor no exercício da função de analista e na ampla experiência clínica - através da análise pessoal, da supervisão clínica e dos grupos de estudo teórico.
A minha formação é a partir da experiência. A partir do momento que eu tive uma experiência, eu comecei a passar essa experiência pras pessoas que me procuraram. Eu penso que pra poder passar isso, é fundamental ter uma prática, senão exaustiva, pelo menos uma prática constante durante um período de, no mínimo, três anos. (Lion)
Outros entrevistados, Carina, Lion, Cila e Lu, citaram como base para se tornar o supervisor, o modelo passado pelos supervisores e analistas.
Atitude facilitadora, para Beija-Flor, foi seguir a própria intuição e desenvolver acurada percepção do processo de trabalho.