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Fostering Research and Development

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Assim, tendo nós, ao mesmo tempo, consciência do exterior e do nosso espírito, e sendo nosso espírito uma paisagem, temos ao mesmo tempo consciência de duas paisagens. Fernando Pessoa

Transferência é um termo traduzido do alemão Übertragung que significa carregar algo de um lugar para outro, ou mudar de uma forma para outra. JUNG entende a transferência como uma forma de colocar em outra pessoa ou objeto conteúdos psíquicos inconscientes.

A transferência é um caso especial de projeção. A projeção é um mecanismo psicológico que carrega conteúdos subjetivos de toda espécie. Num sentido mais amplo, a transferência não se restringe a projetar conteúdos subjetivos sobre pessoas, mas pode recair também sobre objetos físicos, ou animais pois os conteúdos inconscientes se manifestam sempre, primeiro, de forma projetada sobre pessoas e condições objetivas. O processo psicológico da transferência é uma forma específica da projeção. (JUNG, O. C. XVI § 357; XVIII § 313, 324-6).

É importante lembrar que “(...) o objetivo essencial do ‘opus psychologicum’ é o desenvolvimento da consciência, isto é, em primeiro lugar, a tomada de consciência dos conteúdos até então projetados.” (JUNG, O. C. XVI § 471) É ver os homens e as coisas como são naturalmente.

O fenômeno da transferência é característica de toda análise que se aprofunda, é, portanto, inevitável e consiste na questão central da psicoterapia. (JUNG, s/d MSR, 187)

Em seu sentido mais preciso, a transferência é uma projeção de conteúdos inconscientes sobre a pessoa que está analisando o inconsciente. O termo transferência, porém, costuma ser usado em sentido muito mais amplo, e inclui praticamente todos os processos variados que determinam uma ligação entre o analisando e o analista. (JUNG, O. C. XVII § 260).

JUNG aborda dois aspectos relacionados à relação transferencial em análise, a saber: o clínico e o arquetípico. A relação transferencial, em seu aspecto clínico, foi percebida por ele como uma profusão de projeções “que funcionam como um substituto da relação psicológica real” (JUNG, O.C. XVI § 284). A dificuldade que o paciente tem em discriminar o que pertence a si mesmo e o que pertence ao outro constitui a transferência. Trata-se da projeção da realidade psíquica interior do paciente sobre o analista. Esta projeção é determinada por fatores inconscientes; é a natureza pessoal reproduzida nas relações no mundo exterior. (JUNG, O. C. XVII § 260)

A característica essencial da transferência é o caráter de ilusão: o que é percebido objetivamente, na realidade, é concebido subjetivamente e atuado na situação da análise. Pode se instalar mesmo antes do início da análise, com base no conhecimento prévio do analista ou em pura projeção do analisando (JUNG, O. C. XVIII § 329).

JUNG ensinou que o verdadeiro analista não se coloca fora de seu trabalho, mas que o processo analítico deve ser mútuo. Uma vez que o analista assim se coloca, dentro do processo vivenciado pelo paciente, cada uma das partes afeta a outra.

Nenhum artifício evitará que o tratamento seja o produto de uma interação entre o paciente e o médico, como seres inteiros. O tratamento propicia o encontro de duas realidades irracionais, isto é, de duas pessoas que não são grandezas limitadas e definíveis, mas que trazem consigo não só uma consciência, que talvez possa ser definida, mas além dela, uma extensa e imprecisa esfera de inconsciência. (...) O encontro de duas personalidades é como a mistura de duas substâncias químicas diferentes: no caso de se dar a reação, ambas se transformam (...) Influir é sinônimo de ser afetado. (JUNG, O. C. XVI §163).

Por conseguinte, ambos – analista e paciente - estão sujeitos a transformações pela interação e também a distorções de percepções. Quando os conteúdos projetados pelo paciente recaem sobre conteúdos inconscientes semelhantes no analista, que tem dificuldade de discriminar entre o que pertence a cada um, estabelece-se a contratransferência.

Da mesma forma que a transferência do paciente pode acontecer antes do primeiro encontro, também a contratransferência do analista pode preceder a entrada do paciente no consultório. Pode acontecer devido à postura do profissional que o paciente aceita se adapta

a ela ou rejeita e vai embora. Mais comumente, porém, se estabelece no decorrer da análise, quando os complexos começam a se inter influenciar. (STEIN, 2005, 70).

No complexo processo de transferência/contratransferência entre analista e analisando “(...) existem fatores irracionais que produzem transformações mútuas”, no qual “será decisiva a personalidade mais estável e mais forte”. (JUNG, O. C. XVI § 164) Para que o campo transformador da interação analítica progrida, essas distorções precisam ser reduzidas ao máximo. Compete ao analista manter o campo de transformador livre de ameaças de dissolução ou desequilíbrio. Quando a estrutura do campo transformador se vê ameaçada, sua reparação deve ter prioridade sobre as demais atividades da análise. (HALL, 2005, 36)

Mas não é apenas negativa a perspectiva pela qual se observa a transferência e a contratransferência. Hoje são percebidas como um modo de transferência de informação. As reações do analista, confrontadas com o que o paciente diz ou sonha, constituem-se em importante fonte de informações objetivas sobre o paciente. (SCHWARTZ-SALANT, 2005, 9)

MOORE (2005, 53) descrevendo o ponto de vista de Fordham, escreve que a contratransferência não só é inevitável, mas necessária e valiosa. Quando um analista em formação se empenha efetivamente com um paciente, precisa entender sua natureza e importância, seja como fonte de erro, seja como fonte de informação, e o treinamento deve levar isto em conta.

Além do aspecto clínico da contratransferência, JUNG observou o aspecto arquetípico. HALL (2005, 47) fez um apanhado das diversas referências de JUNG acerca do aspecto arquetípico da transferência, o qual foi valioso na coleta das informações a seguir. O processo de individuação implica em integrar as imagens arquetípicas transpessoais, que fazem parte da psique. A intensidade da transferência dá uma medida da importância para o sujeito do conteúdo inconsciente que é transferido (JUNG, O. C. XVIII § 327, 352; XVIII/2 § 1094) que pode indicar uma demanda de individuação (idem, § 1097). A cultura contemporânea se empenha em negar e esquecer os deuses, que precisam aparecer sob a forma de projeção. Uma vez projetados, os aspectos arquetípicos precisam

ser integrados a fim de restaurar a estabilidade do ego e manter a capacidade de suportar a realidade, evitando assim a inundação da consciência.

Os aspectos arquetípicos da relação transferencial podem ser “(...) a descoberta do tesouro oculto, a fonte inesgotável onde a humanidade sempre buscou seus deuses e demônios e todas as idéias, suas mais fortes e poderosas idéias, sem as quais o ser humano deixa de ser humano” (JUNG O. C. VII § 105). Podem ser a tentativa do inconsciente de “(...) libertar a concepção de deus dos invólucros de uma instância pessoal” (JUNG O. C. VII § 214). Quando livre dos aspectos pessoais da transferência, o paciente pode se por a serviço de uma função religiosa (JUNG O. C. XVIII § 374), ou a uma idéia pessoal de relação Eu-Tu se não houver um continente transpessoal aceitável no mundo exterior coletivo (JUNG O. C. XI § 549).

No Volume XVIII § 357 a 377, JUNG cita quatro estágios da terapia da transferência ligando-os ao movimento rumo à compreensão dos elementos arquetípicos.

1. Trabalho com a projeção de imagens pessoais,

2. Discriminação entre os conteúdos pessoais e impessoais,

3. Diferenciação entre a relação pessoal com o analista e fatores impessoais, 4. Objetivação de imagens pessoais.

O trabalho através desses estágios da transferência - pessoal e arquetípica – se propõe a separar a consciência do objeto. Se isto acontece, “a posse do tesouro surge ao nível da consciência, então o centro de gravidade passa a estar no indivíduo, e não mais no objeto do qual era dependente”. (JUNG, O. C. XVIII, § 377)

JUNG propõe um diagrama do campo transformador da interação analítica, reproduzido abaixo:

a Sóror Analisanda Adepto Analista Animus Anima c d 2 d 1 b2 b1

FIGURA 6 - Campo da Interação Analítica Fonte: JUNG, C. G. Obras Completas, Volume XVI, § 422

A relação representada pela linha a, que JUNG descreve como adepto e sóror em relação ao trabalho alquímico, corresponde à relação entre a consciência do analisando e do analista. b1 corresponde à relação do analista com seu inconsciente, e b2, do analisando com o seu. c representa a relação entre anima do analista e animus do analisando, ou anima x anima, se a díade forem um analista e um analisando; ou animus x animus, se duas mulheres. d1 se refere à relação entre o ego consciente da analisanda e a anima do analista; enquanto d2, o consciente do analista com o animus da analisanda.

James HALL (2005, 38) valendo-se do esquema de JUNG, explica:

A relação consciente a é a interação intencional e oficial do processo analítico, ao passo que

b1 e b2 representam a relação consciente/inconsciente dentro do analista e da analisanda,

respectivamente, a linha ao longo da qual a individuação básica de cada pessoa se processa. As relações cruzadas d1 e d2 representam as formas de interação entre o consciente de uma das pessoas da díade e o inconsciente da outra.

A relação inconsciente, c, está sempre presente, mas, justamente por ser inconsciente não é transformadora.

A força do temenos - a, b1 e b2 -, as relações que contêm o elemento consciente, devem ser capazes de suportar a pressão inconsciente d1, d2 e c, a prima materia da transformação de ambos, analista e analisando.

A materia, na linguagem da alquimia, são os sentimentos, os impulsos, as ansiedades, isto é, a dimensão instintiva do espectro arquetípico. A transformação da materia em substância espiritual ou plena de significado é o veículo supremo da transformação psíquica e da individuação. Os símbolos podem curar por si sós. Por isso, GOODHEART (2005, 86) afirma que, em análise, fornece o mínimo de comunicação concreta, ou não simbólica, ao paciente.

JUNG percebia a relação transferencial/contratransferencial como um processo no qual os opostos precisam ser retirados do estado de participation mystique e integrados à consciência do ego. Os opostos, uma vez separados, participam da formação da consciência de uma noção individual simbólica do Self.

SALANT (2005, 15) lembra que JUNG escreveu que a transferência favorece uma experiência vivida como um ato de graça, a coniunctio, que leva à liberação de uma forma especial de energia ou “substância” à qual chamou Libido de Parentesco, ou Communitas. Esta energia é a essência da transferência. A busca dessa energia é inconsciente, e por isso mesmo compulsiva.

A libido de parentesco, que nas comunidades cristãs primitivas ainda criava um vínculo que satisfazia o coração, perdeu seu objetivo há muito tempo. Mas como ela é um instinto, nenhum substituto, tal como uma confissão religiosa, um partido, a nação, o Estado, a satisfazem. O que ela quer é o vínculo humano. É exatamente esse o núcleo do fenômeno da transferência. (JUNG, Vol. XVI/1, § 445).

O principal produto da experiência da communitas é uma relação Eu-Tu que traz consigo um profundo sentimento de respeito mútuo, de igualdade e de interesse pelo outro, como se tivesse havido uma troca de sangue. A communitas implica, não apenas a estrutura de comunhão ou comunidade, mas também uma espécie de “substância”, como se pudesse ser transmitida; ela não é uma realidade puramente física nem puramente psíquica, mas uma paradoxal combinação das duas coisas. (SALANT, 2005, 16)

Essa combinação – estrutura de comunhão e substância - constitui a metáfora de uma experiência “(...) que ocorre num reino sentido como fora da noção normal de tempo e dentro de um espaço que parece possuir substância”. Tal experiência ocorre no corpo sutil e possui autonomia. Neste espaço é que se processa uma experiência extraordinária, a coniunctio. Quando ocorre, a coniunctio cura antigas feridas (SALANT, 2005, 24).

A libido de parentesco, sendo instinto, quer o vínculo humano, e é esse vínculo que forma a o núcleo do fenômeno na transferência, que é essencial, pois a relação com o Si- mesmo é ao mesmo tempo a relação com o próximo. E ninguém se relaciona com o próximo se antes não se vincular consigo mesmo. (SALANT, 2005, 28)

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