3.5 Le pr´etraitement
3.5.3 La correction g´eom´etrique
Quando nos propusemos a compreender práticas docentes voltadas aos usos dos livros de Matemática nos anos iniciais do Ensino Fundamental, usando a História Oral como metodologia, não dispúnhamos de uma questão investigativa histórica, nem mesmo buscávamos uma perspectiva historiográfica. A História Oral não é uma metodologia de pesquisa inscrita exclusivamente nos domínios historiográficos, mas
(...) quando tratamos de Educação Matemática e História Oral, objetivamos ter como ponto de partida uma questão histórica do presente e percorrer os caminhos epistemológicos em que a questão central da pesquisa contiver possibilidades n-dimensionais: memória, tempo, espaço, sentimentos, fluxos, atualizações, territorializações, desterritorializações e agenciamentos maquínicos (SOUZA et al, 2010, p. 245 – grifo nosso).
Originariamente, essa abordagem qualitativa de investigação encontra-se muito mais imbuída pela possibilidade de “recriar pontos de vista respeitando vivências”
(GARNICA, 2007, p. 19) por meio do vínculo entre oralidade e memória do que pela ideia na qual seu vocábulo pode remeter ao cravar, explicitamente, a palavra História.
Melhor seria dizermos: a constituição intencional de fontes históricas a partir da oralidade, numa clara complementação (alguns preferem, aqui, “oposição”) àquela concepção de “História” pautada somente em fontes escritas ou, mais radicalmente, em “fontes primárias” (GARNICA, 2007, p. 19).
Essa ideia ganha ainda mais notoriedade na forma como a História Oral é concebida no Brasil, com maior participação das Ciências Sociais em relação às influências dos historiadores.
Mesmo cientes de que o conflito entre memória e história já foi dissolvido tanto do discurso dos historicistas mais clássicos quanto dos que lidam com a História Nova (GARNICA, 2008), consideramos relevante pontuar que os debates sobre a memória e suas relações com a história alcançaram uma proporção tão ampla que uma nova inteligibilidade a respeito do “passado” é alcançada.
O aprofundamento das discussões sobre as relações entre passado e presente na história, e o rompimento com a ideia que identificava objeto histórico e passado, definido como algo totalmente morto e incapaz de ser reinterpretado em função do presente, abriram novos caminhos para o estudo da história do século 20. (FERREIRA, 2002, p. 320).
É importante ressaltar que “adulterações propositais de registros, ideológica e historicamente reconhecidas, impostas pelo poder dominante”, além das “construções textuais tendenciosas, geradas a partir de valores específicos, estéticos ou morais” contribuíram para que as fontes orais fossem reconhecidas como instrumento de qualidade necessário ao resgate e à (re)composição de fatos históricos (GARNICA, 2008, p. 30). Abalando, assim, as antigas certezas dos historiadores, a história cultural ganhou forte impulsão, na década de 1980, com o renascimento do estudo do político “e incorporou-se à história o estudo do contemporâneo” (FERREIRA, 2002, p. 319). Com isso, as experiências individuais tomam forma e adquirem relevância junto aos estudos de períodos recentes, possibilitando que mais pessoas e grupos produzam suas histórias.
O discurso da memória passa, portanto, a ser uma construção do passado, mas se distingue do relato histórico quanto a sua base e propósito, pois é flexível, além de ser “pautado em emoções e vivências; (...), e os eventos são lembrados à luz da experiência subsequente e das necessidades do presente” (FERREIRA, 2002, p. 321).
Em vista disso, desponta uma prática discursiva que permite a mentalidades do presente alcançarem o passado, com o intuito de investigá-lo diante da perspectiva desse presente, reorganizando-o, ou seja, adequando-o, para assim
dar “visibilidade a aspectos do passado antes ocultos ou dissimulados, que foram desconsiderados ou postos de lado”, uma história que mostra, como afirma Gilda Souza, que o passado comporta outros futuros além daquele que se processa no presente (GARNICA, 2007, p. 23).
As histórias produzidas, portanto, também se permitem ser histórias do agora, são estudos dos homens no tempo, vivendo em comunidade, nos quais o passado, tornado presente, permite o reconhecimento de alterações e permanências (GARNICA, 2007).
Também é oportuno sublinhar, como o fazem Souza e Souza (2006), que
[...] a faculdade humana de intercambiar experiências não é mais segura e inalienável como antes, porque as experiências sociais assumem grande complexidade e só podem ser compreendidas dentro de um grupo em que elas fazem sentido. Nessa perspectiva, a presença de um narrador onipotente, que tenha uma autoridade incontestável frente a qualquer fato da vida cotidiana é impossível. [...] Ao lado desse tipo ideal de narrador e narratividade, descrito por Benjamin, podemos enxergar a existência de múltiplas narrativas da modernidade e, também, na alta-modernidade, empreendidas por diversos narradores, que mesmo de forma fragmentada, são capazes de reconstruir a experiência de determinadas comunidades. Assim, ao contrário do que pensa Benjamin, não é a arte de narrar que está se extinguindo, mas sim uma determinada forma de narrativa (p. 41).
A expressão “História Oral” surge entre os americanos na década de 1940, quando da invenção de uma nova tecnologia de registro – o gravador portátil –, utilizada pelo jornalista Allan Nevins em um programa de entrevistas que ele desenvolveu para recuperar informações acerca da atuação dos grupos dominantes norte-americanos (GARNICA, 2007). Assim sendo, num primeiro momento, a História Oral privilegia “o estudo de elites e se atribuiu a tarefa de preencher as lacunas do registro escrito através da formação de arquivos com fitas transcritas” (FERREIRA, 2002, p. 322). Já a disseminação dessa metodologia ocorreu, de fato, atrelada à ideia de “história dos excluídos”, na segunda metade dos anos de 1960, quando das lutas pelos direitos civis das minorias (como negros e mulheres), com o intuito de
dar voz aos excluídos, recuperar as trajetórias dos grupos dominados, tirar
do esquecimento o que a história oficial sufocara durante tanto tempo. A história oral se afirmava, assim, como instrumento da construção de
identidade de grupos e de transformação social – uma história oral militante (Ibid. – grifos nossos).
A prática de identidade na História Oral manifesta-se, portanto, em "rememorar e contar, que são eventos em si mesmos, não somente descrições de eventos" (PORTELLI, 1981 apud ERRANTE, 2000).
Diante da grande abrangência mundial que a História Oral atingiu até a década de 1970, é válido salientar que estudos que se valem dessa metodologia não se restringem, exclusivamente, à história das minorias.
Foram inúmeras as experiências que surgiram por todo o mundo envolvendo a História Oral como metodologia, buscando ora destacar personalidades na história, ora coletar relatos de grupos sociais silenciados, aproximando-se tais experiências mais da História Oral como concebida na atualidade. Sendo assim, podemos concordar com Garnica (2007) que a História Oral como metodologia não é usada, necessariamente, para desenvolver trabalhos cujos temas sejam propriamente historiográficos ou voltados a reconstituir “versões históricas”, mas possui como diferencial o objetivo de criar, intencionalmente, fontes históricas.
No Brasil, a História Oral só experimentou significativa expansão no início dos anos 1990, apesar de sua inserção como método de pesquisa, com procedimentos já melhor delineados, ter acontecido em meados das décadas de 1960/70; em 1975, foi instituída a Associação Brasileira de História Oral. A História Oral inaugura técnicas específicas de pesquisa por intermédio de um corpo metodológico composto por procedimentos singulares e um aparato de conceitos próprios.
Pensar a História Oral dissociada da teoria é o mesmo que conceber qualquer tipo de história como um conjunto de técnicas, incapaz de refletir sobre si mesma. Não só a História Oral é teórica, como constituiu um corpus teórico distinto, diretamente relacionado às suas práticas (GARNICA, 1998, p. 34).
Nossa metodologia é por nós aceita, portanto, como algo que inclui um conjunto de procedimentos bem fundados e tornados públicos. A opção por guiarmos esta investigação a partir dos aspectos teórico-metodológicos da História Oral em Educação Matemática não se resume à execução de técnicas para a coleta e tratamento das entrevistas. Mais do que isso, significa optar por modos específicos de
(a) fazer surgirem questões de pesquisa; (b) buscar por informações e registrar memórias – narrativas – que nos permitam tratar essas questões; (c) cuidar desses registros de forma ética e trabalhá-los segundo procedimentos específicos, tornando-os públicos ao final desse processo; (d) analisar o arsenal de dados segundo perspectivas teóricas, em sintonia com alguns princípios previamente estabelecidos; e (e) procurar criar formas
narrativas alternativas às usualmente vigentes no meio acadêmico, constituindo os trabalhos produzidos nessa vertente mais como campos de experimentação que como arrazoados de certezas (GARNICA, 2010, p. 2).