Dentre as especificidades no cuidado ao PD em ME os participantes reconhecem a hipotermia como um dos grandes problemas que o paciente em ME possa
desenvolver, inclusive, o seu controle é tido como uma das únicas diferenças entre um potencial doador em ME e outro paciente grave interno na UTI. Citam também o cuidado com as córneas como uma ação específica, de acordo com os depoimentos a seguir:
A gente dá banho no leito, faz as medicações, massagem de conforto, mudança de decúbito. Tudo que a gente faz no outro. A única diferença a gente vai e coloca aquele... É, aquele lençol laminado pra que não é... Ba... Baixe a temperatura. A única diferença é essa de um paciente pro outro. (T5)
O especifico é, no caso, o cuidado com as córneas, aquela... Toda a umidificação que a gente faz né? A gente usa o soro fisiológico. (T16)
Assim, vale salientar que o controle da temperatura, no sentido de evitar a hipotermia é um dos cuidados fundamentais para a manutenção dos órgãos, pelo fato que a mesma pode causar depressão do miocárdio, arritmias, diminuição do transporte de oxigênio, aumento da afinidade da hemoglobina pelo oxigênio, disfunção renal, pancreatite e coagulopatias. (FREIRE et al, 2012).
No entanto, os participantes deste estudo citam o aquecimento com manta térmica como única alternativa para conter a hipotermia. Freire et. al. (2012, p. 910) cita que a manta térmica é um material dispendioso e inexistente em todas as unidades hospitalares. Sugere o aquecimento através da administração de fluídos endovenosos aquecidos previamente como alternativa mais eficaz para controlar a temperatura corporal.
Os participantes compreendem o cuidado de enfermagem a estes pacientes como uma ação importante, que requer rapidez em decidir o que fazer e como fazer, para que, mediante consentimento familiar, os mesmos estejam aptos para a doação, como se percebe nas falas seguintes:
Na mesma hora a gente liga e enquanto isso já vai abrindo um soro, já vai tentando recuperar, né? Aquela pressão. (T3)
Então, sempre estou comunicando ao médico pra ver se ele quer fazer alguma coisa, mesmo sabendo que ele é um paciente já com Morte Encefálica, mas que precisa estar vivo pra fazer a doação. Então, eu sempre estou comunicando como se fosse uma urgência porque ele não pode parar naquele momento, né?
(T8)
Então, são esses cuidados na vi... De... Realmente de monitorização da... Dos parâmetros vitais. Hemodinâmico deste paciente, potencial doador, porque
senão você acaba perdendo esse paciente. (E1)
Nas falas destes participantes é possível identificar atitudes mediadas pela reflexão sobre suas ações, ou seja, ao citar que comunica ao médico as intercorrências com o PD como se fosse uma urgência médica, um técnico de enfermagem (T8) entende que as suas ações devem ser imediatas e direcionadas para a manutenção deste paciente. Denota preocupação e conhecimento pessoal, que foi adquirido em sua formação e aprimorado em sua experiência pessoal evidenciada pela sua compreensão de que se o paciente apresentar uma parada cardiorrespiratória precisa ser reanimado imediatamente. Portanto, usa esse conhecimento para favorecer o cuidado.
Freire et. al. (2012, p. 911) cita que 52,7% dos participantes de sua pesquisa tem essa compreensão de que o PD pode ser reanimado. No entanto, é importante lembrar que a bradicardia não responde à atropina na presença de ME, sendo necessário utilizar B-adrenérgicos ou marca-passo.
O cuidado de enfermagem nas UTI caracteriza-se predominantemente pela complexidade das ações realizadas em prol da recuperação do paciente ou, no caso do PD em ME, manutenção de seus órgãos para doação. Suas ações, geralmente, são orientadas pela prescrição médica de acordo com o controle hemodinâmico do mesmo verificado pela enfermagem. Sendo, pois, a enfermagem, geralmente, a primeira a identificar alterações no quadro clínico e neurológico dos pacientes, ainda que não tenha autonomia para diagnosticar e prescrever condutas que são próprias da classe médica.
Entretanto, pode diagnosticar as respostas humanas aos problemas de saúde reais ou potenciais e então determinar as intervenções de enfermagem para que se alcance os resultados desejados. (NANDA-I, 2005, p.277).
Assim, na realização destas tarefas a enfermagem lança mão de tecnologias modernas, representadas pelo uso dos equipamentos na monitorização dos sinais vitais, bombas de infusão para administração de drogas milimetricamente controladas, ventiladores respiratórios, entre outros, os quais favorecem o cuidado e que requer conhecimento científico, raciocínio lógico e habilidades práticas para agir em prol do paciente.
Pode-se identificar que dentre os padrões de conhecimento utilizados pela equipe de enfermagem na UTI, há uma predominância do padrão empírico, embasado no método positivista, no qual tudo é medido, verificável, descrito e fundamentado em explicações teóricas possíveis de constatação.
No entanto, vale citar Ferreira (2007) que ao pesquisar sobre os conhecimentos utilizados pela equipe de enfermagem nas unidades de terapia intensiva constatou que apesar do conhecimento científico se sobrepor aos outros conhecimentos no processo de cuidar, foi possível visualizar também a presença do padrão empírico, pessoal, ético, estético.
Assim, pode-se afirmar que a enfermagem lança mão de vários conhecimentos para nortear a sua prática, acumulados em suas vivências transformando-se em experiências construtivas, nas quais o raciocínio clínico e lógico, os aspectos afetivos e intuitivos estão presentes, ainda que não identifiquem o uso sistematizado das teorias próprias da ciência da enfermagem. (FERREIRA, 2007).
Com o objetivo de orientar a enfermagem em suas ações de cuidado com o potencial doador dispõe-se de um roteiro sistemático das principais sequelas, causas e condutas adequadas no manuseio do PD em ME. (ANEXO C).
5.3. REFLEXÕES DA EQUIPE SOBRE SUAS CRENÇAS E SENTIMENTOS