Quais são as profissões em que o estresse predomina? Compilação de estudos com base no Inventário de Sintomas de Stress (ISSL), realizado por Lipp (2005) em diferentes profissões, indicou que as mais estressantes são as relativas a funcionários de hospital (86,25%), jornalistas (75%), executivos (65%) e médicos (65%). Profissões com características mais estáveis e padronizadas podem apresentar um nível menor de estresse do que as profissões mais instáveis, como as de jornalista e comerciário. Profissões como as de executivos, controladores de voo e de pessoas envolvidas em operações de alto risco são consideradas como requisitórias de atividades complexas e exigem respostas rápidas. Um erro dos profissionais contemplados neste rol pode ter consequências como envolver alto custo financeiro e também pôr em risco a vida de muitas pessoas (VASCONCELOS; VASCONCELOS; CRUBELLATE, 2008). Isso, certamente, contribui para o estresse.
Lipp (2005) faz referência a estudos que destacam índices de estresse em diferentes profissões. São citados os executivos, com 49%, e os professores, com 35%. Sadir e Lipp (2009) relatam estudo realizado no Centro Psicológico de Controle do Estresse de Campinas cujo resultado foi que 70% das pessoas que procuram esse local para tratamento ou profilaxia pertencem à classe gerencial. Isso revela ser o executivo uma das categorias mais afetadas pelo estresse.
A categoria docente é considerada uma das mais expostas a ambientes conflituosos, situações laborais adversas e de alta exigência de trabalho, por executar atividade permeada de desafios, intensas mudanças, pressões e exigências (ANDRADE, 2001; ROSSA, 2004; ZABALZA, 2004; PEIXOTO, 2004; ULRICH, 2005; GOULART JÚNIOR, 2005; BARRETO, 2007; MONTAGNA et al., 2007; SORATO; MARCOMIN, 2007; SILVA; COLTRE, 2009; ZANELATO; CALAIS, 2010). O magistério, por sua importante função social de formar cidadãos aptos a construir e manter a sustentabilidade da sociedade, é uma profissão com muitas exigências e atividades (SILVA; COLTRE, 2009).
Lipp (2005) considera alguns estressores típicos entre a população brasileira, como: lidar com sobrecarga de trabalho profissional e doméstico, lidar com colegas que não cooperam para atingir o término da execução de uma tarefa, lidar com a falta de planejamento, entre outros. Zanelli (2007) adiciona aos estressores no ambiente laboral: longas jornadas de trabalho, pressão do tempo e atuações de urgência, problemas de comunicação, excesso de burocracia, entre outros. Para Sorato e Marcomin (2007), é essencial a inserção de atividades de prevenção ao estresse na rotina de profissionais que atuam na área da educação.
Características referentes ao docente são apresentadas por Silva e Coltre (2009): o professor universitário é oriundo de várias áreas do conhecimento e muitas vezes não tem preparo para as competências necessárias para lecionar; é pressionado a ser ágil, assertivo e empático para atender aos objetivos do projeto pedagógico, às necessidades de aprendizagem dos alunos e aos anseios de uma educação de qualidade propostos pelo Ministério da Educação. Cruz e colaboradores (2010) complementam que a atividade docente tem tido influência de desafios significativos como reflexos das constantes transformações relacionadas ao trabalho. São novas exigências e competências requeridas. Essas atividades exigem do professor condições físicas e psicológicas em razão do esforço físico (transporte de livros e materiais, ficar em pé por tempo prolongado, entre outros) bem como esforço mental.
As pesquisas citadas se referem à relação entre estresse e professores inseridos em diferentes espaços. Foram encontrados estudos relacionados à identificação de situações de estresse em: professores de ensino fundamental (GOULART JÚNIOR, 2005), professores universitários nos contextos públicos e privados (PEIXOTO, 2004; BARRETO, 2007; CRUZ et al., 2010) e professores no contexto universitário privado (ULRICH, 2005; MONTAGNA et al., 2007; SORATO; MARCOMIN, 2007; SILVA; COLTRE, 2009).
A seguir, estão relacionados os objetivos desses estudos: Barreto (2007) teve entre seus objetivos investigar os elementos que contribuem para desencadear o estresse em dezessete professores de instituições universitárias públicas e particulares; Sorato e Marcomin (2007), com o objetivo de avaliar a percepção do professor universitário sobre seu nível de estresse, apresentaram entre os resultados as causas de estresse indicadas pelos professores; Silva e Coltre (2009) realizaram um estudo com o objetivo de investigar o nível de estresse dos professores da área de saúde de uma instituição de ensino superior privada; o estudo de Peixoto (2004) teve como objetivo caracterizar as
estratégias de enfrentamento de estresse em professores universitários de instituições privadas; o estudo realizado por Goulart Júnior (2005) teve o objetivo de identificar os principais estressores ocupacionais indicados por 175 professores de ensino fundamental; Ulrich (2005), em seu estudo, teve como objetivo verificar a percepção de 11 professores universitários do sul do Brasil sobre as relações interprofissionais (com colegas de trabalho) que levam ao estresse; Montagna e colaboradores (2007) tiveram como objetivo de seu estudo identificar agentes estressores cotidianos e ergonômicos que acometem os docentes do ensino superior; Cruz e colaboradores (2010) buscaram caracterizar aspectos do trabalho docente e sua influência nos processos de saúde.
Para esses autores, a profissão de professor é percebida como estressante, por fatores como: longas jornadas de trabalho com atividades em excesso (PEIXOTO, 2004; GOULART JÚNIOR, 2005; ULRICH, 2005; BARRETO, 2007; SORATO; MARCOMIN, 2007; MONTAGNA et al., 2007; SILVA; COLTRE, 2009; CRUZ et al., 2010) que, muitas vezes, são realizadas aos finais de semana e feriados (ULRICH, 2005), e em um período superior a oito horas diárias que pode privar esse profissional do tempo de contato com a família e realização de outras atividades (MONTAGNA et al., 2007). O professor que atua no ensino superior desenvolve também atividades extraclasses no ensino, pesquisa e extensão (BARRETO, 2007; MONTAGNA et al., 2007; CRUZ et al., 2010). São extraclasse atividades relacionadas a preparar aulas, elaborar atividades avaliativas, participar de bancas, corrigir atividades em geral, ler autores diversificados (BARRETO, 2007), selecionar e reservar equipamentos para uso em sala de aula. Essas atividades são caracterizadas por Sorato e Marcomin (2007) como diversificadas e urgentes.
Outros fatores considerados estressantes para o professor são: exigência de alta produtividade científica (ULRICH, 2005; BARRETO, 2007; CRUZ et al., 2010) que envolve participação em congressos (BARRETO, 2007; CRUZ et al., 2010); exigência das revistas científicas (ULRICH, 2005); muitas vezes, falta de apoio, tempo e recursos para a realização de pesquisas (SILVA; COLTRE, 2009); falta de apoio e orientação por parte da direção escolar (GOULART JÚNIOR, 2005); cobrança por constante atualização (PEIXOTO, 2004; BARRETO, 2007) e qualificação (CRUZ et al., 2010); necessidade de acompanhar os rápidos processos de mudanças nas metodologias de ensino, na tecnologia aplicada ao ensino e à pesquisa, nos materiais (SORATO; MARCOMIN, 2007); excesso de informação das novas
tecnologias – “estresse tecnológico” (BARRETO, 2007); salas de aula numerosas (GOULART JÚNIOR, 2005; BARRETO, 2007; MONTAGNA et al., 2007; SILVA; COLTRE, 2009); orientações e atendimentos individuais aos alunos (MONTAGNA et al., 2007; BARRETO, 2007; SILVA; COLTRE, 2009; CRUZ et al., 2010), comportamento dos alunos (GOULART JÚNIOR, 2005); preocupações relacionadas à responsabilidade na formação do aluno e desinteresse do aluno pelas aulas (SORATO; MARCOMIN, 2007).
Também são consideradas situações estressantes no exercício da docência fatores como: burocracia (SORATO; MARCOMIN, 2007); realizar funções administrativas (SILVA; COLTRE, 2009); lidar com pressões (PEIXOTO, 2004; MONTAGNA et al., 2007); ambiente físico inadequado (GOULART JÚNIOR, 2005); conflitos nos relacionamentos interpessoais (SORATO; MARCOMIN, 2007); interações que o professor estabelece com outros componentes da comunidade escolar – relacionamento com outros professores da escola, com a direção e funcionários (GOULART JÚNIOR, 2005) e comportamentos de colegas – falta de coleguismo, falta de ética e cobranças contínuas (ULRICH, 2005); atividades burocráticas e consideradas rotineiras, como preencher diários de classe, fazer registros de frequência e das avaliações dos alunos, participar de reuniões e atividades adicionais (MONTAGNA et
al., 2007; SILVA; COLTRE, 2009; CRUZ et al., 2010). Por último, são
enumeradas situações de estresse relacionadas à atuação docente como ambiguidade de funções (PEIXOTO, 2004), alto desempenho docente (MONTAGNA et al., 2007), falta de assistência e apoio, e, em alguns casos, pais hostis que, mesmo com os filhos matriculados no ensino superior, interferem na vida acadêmica dos filhos (SILVA; COLTRE, 2009).
As fontes de estresse em professores são semelhantes nos diversos níveis de ensino, seja este de ensino fundamental e médio, na universidade ou pós-graduação, uma vez que essa atividade de trabalho envolve atributos similares na sua atuação (PEIXOTO, 2004; CRUZ et
al., 2010). Os professores, sem distinção em relação ao âmbito privado e
público, têm apresentado diversos agravos à saúde como problemas de voz, DORT, estresse, burnout e depressão (CRUZ, et al., 2010).
Em síntese, a profissão de professor, nos espaços privados e públicos, é considerada estressante, por ser uma atividade permeada por desafios (atender às necessidades de aprendizagem dos alunos, número elevado de alunos em sala de aula, entre outros), sujeita a pressões e inúmeras exigências (constante atualização, lidar com novas tecnologias, alta produtividade científica, atender aos objetivos do
projeto pedagógico, dentre outros), relacionamentos interpessoais intempestivos e sobrecarga de trabalho que inclui realizar tarefas diversificadas de ensino, pesquisa e extensão.
Considerando que os gestores universitários, sujeitos desta pesquisa, além do cargo de gestão, que também constitui uma atividade complexa, assumem, em sua maioria, outra atividade profissional, que é a docência, estão submetidos a inúmeras situações estressantes.
Historicamente se configuraram teorias para explicar melhor esse conceito; na contemporaneidade são encontradas diferentes abordagens para explicar o estresse.
1.1.3 Diferentes abordagens sobre o estresse e conceitos