À LA GESTION DE LA PERFORMANCE
3-1 L E FONCTIONNEMENT DE LA MÉMOIRE EN SITUATION D ’ ÉCRITURE
Nesta subcategoria, serão descritas as mudanças percebidas pelas colaboradoras da pesquisa nos âmbitos emocionais e psicológicos, bem como os sentimentos que experienciaram na gravidez, as modificações nas relações com familiares e não familiares e a interação com o(a)13 bebê.
Para as mulheres colaboradoras da pesquisa, a vivência da gravidez foi descrita como sendo uma experiência boa, maravilhosa, que traz alegria, realização. A descoberta da gravidez pode envolver surpresa e susto no começo, como no caso de Melissa, que foi gradualmente gostando mais à medida que foi se acostumando com a ideia. A gestação também foi descrita como um momento mágico, talvez o momento mais feliz da vida de uma mulher, em que ela se sente mais importante e abençoada pela possibilidade de ter um(a) filho(a) e procriar. Outro ponto positivo de estar grávida que foi mencionado foi a sensação gostosa de sentir os movimentos do(a) bebê na barriga, conforme mostram as falas a seguir:
Ah eu gostei. No começo a gente assusta né. Mais depois com o passar do tempo eu fui gostando assim. A gravidez foi tranquila, eu gostei sim... (Melissa – E)
13 Durante o texto, optamos pelo uso de o(a) para se referir à palavra bebê, para contemplarmos os meninos e também as meninas em sua particularidades. Esta reflexão surge a partir de Paulo Freire, que utilizava a palavra “homens” para se referir a seres humanos – homens e mulheres – em seus escritos. No entanto, esta ação que foi criticada, na década de 70, por mulheres norte-americanas. Em seu livro “Pedagogia da Esperança”, Freire (1992, p.68) faz uma autocrítica e reconhece sua linguagem em “Pedagogia do Oprimido” como machista, afirmando: “Daquela data até hoje me refiro sempre a mulher e homem ou seres humanos. (...) A recusa à ideologia machista, que implica necessariamente a recriação da linguagem, faz parte do sonho possível em favor da mudança do mundo.”. Importante destacar ainda que Ernani Fiori e Enrique Dussel também utilizam a palavra “homem” para fazer referência ao ser humano – homens e mulheres.
Foi maravilhoso! (...) É muito bom, eu gostei muito. Você se sente mais amada né, você se sente mais importante... Sei lá, não dá pra explicar. Você se sente abençoada por poder ter um filho entendeu... Por poder procriar... Acho que é isso... (Sálvia – E)
Ah, gravidez é uma coisa boa né... Fora os enjoo, é bom né. Quando a gente sente mexer, ai nossa, que alegria, quando ela mexia era uma festa. Acho que deve ser o momento mais feliz na vida da mulher, uma realização né... Eu acho, pra mim foi assim. Pra mim foi um momento mágico... E a chegada dessa coisinha... Nossa senhora! (Malva – E)
Em consonância com estes resultados estão os obtidos por Martins (2010, p.1373) em sua investigação sobre as representações relativas à vivência da gravidez realizada com cem mulheres em Portugal, na qual diversas participantes demonstraram um sentimento de contentamento e satisfação acerca da vivência da gravidez, que “é identificada como uma situação de bem-estar que pode traduzir-se num estado de equilíbrio e harmonia vivida de forma positiva e que despertará na mulher uma sensação de plenitude, de algo que fica e que a torna “mais completa””.
Valeriana destaca que apesar de a gestação ter sido tranquila, foi um período que também envolveu adaptação e dificuldades, uma vez que representou um processo gradual de entendimento e aceitação de que agora iria ser mãe, tendo que assumir responsabilidades sobre uma nova vida, como podemos perceber em seu relato:
Foi uma experiência e tanto né! Teve momentos que foram difíceis, teve momentos assim de muita... adaptação né. Tipo assim, até entrar no meu cérebro que vai ter uma criança, até ficar fixa aquela coisa assim “mãe, eu vou ser mãe”, ter uma responsabilidade... Foi difícil... Mas assim, a gravidez em si foi tranquila. (Valeriana – E)
Nos casos de Malva, Melissa, Sálvia e Valeriana era a primeira gestação e de acordo com Souza, Rosa e Bastiani (2011) a gravidez, especialmente a primeira, sendo ela desejada ou não, sempre traz impactos na vida da mulher, pois representa uma nova etapa de vida que ela começa a vivenciar, gerando uma mistura de sentimentos e expectativas. Um destes impactos se relaciona, por exemplo, ao modo de pensar e as prioridades que não são mais as mesmas de antes. Malva e Calêndula afirmaram que uma modificação que sentiram foi de que a maternidade faz com que a mulher não pense mais só em si mesma, uma vez que a partir de então, a prioridade passa a ser o(a) filho(a), como descrito nas falas a seguir:
Ah muda, a gente se ocupa mais, o pensamento muda, tudo muda. A gente não pensa mais só na gente né, primeiro é eles, depois é a gente. (Calêndula – E) Muda o modo de pensar né... Que agora a gente pensa tudo é nela (filha). Todo pensar é nela (risos). Nada é pra gente mais, agora tudo é pra ela. (Malva – E)
A chegada de um(a) filho(a) desencadeia uma reflexão sobre as novas exigências e demandas que se impõem, sendo comum tanto a mulher como seu companheiro sentirem medo e ansiedade, se questionando diante das mudanças que são e serão exigidas, o que envolve responsabilidade e a adaptação aos novos papéis que serão desenvolvidos na família e na sociedade (SOUZA, ROSA, BASTIANI, 2011). Esta ansiedade pode estar relacionada a inseguranças que tangem a saúde, o período gestacional, o parto, os cuidados com o(a) bebê e a responsabilidade de ter um ser humano dependente de você em muitos níveis. Assim, essas variações vão sendo enfrentadas e elaboradas na história particular de cada mulher.
A ansiedade vai ficando ainda mais intensa quando o final da gestação vai se aproximando, estando relacionada às histórias que são ouvidas durante a gravidez, algumas com desfechos negativos; às preocupações acerca da saúde do(a) bebê; ao desconhecimento sobre como vai ser o parto e como será cuidar do(a) filho(a), uma vez que representa uma experiência inédita (no caso das primigestas), como podemos ver nos relatos a seguir:
Depois no finalzinho (da gestação) a gente vai começando a ficar mais ansiosa, desconforto que você fica escutando uma coisa, escutando outra, você fica imaginando como será que vai ser, você fica muito nervosa, você fica pesquisando, você vê dez vezes o mesmo site... Ai... Você fica “como será que vai ser?”, será que ai... (Valeriana – E)
A gente às vezes ficava preocupada com aquela ansiedade de saber se vai nascer bem, se vai nascer com algum problema... Ai! Passa tanta coisa... Se vai nascer na hora certa, é tanta coisa que passa pela cabeça da gente. (Malva – R.C.1)
Você chora porque você não vê a hora que nasce, você quer saber como vai ser... Você fica muito emotiva... (Sálvia – E)
O impacto da notícia de estar grávida se inicia na confirmação da gravidez, sendo comum a mulher entrar em contato com uma série de sentimentos e sensações, que envolvem aspectos positivos, como alegria, felicidade, mas também aspectos negativos, como rejeição, tristeza, medo, arrependimento, etc, mas que também fazem parte e devem ser aceitos e não negados e rejeitados. Algumas colaboradoras da pesquisa relataram que somente após terem confirmado que estavam grávidas, é que começaram a sentir incômodos como enjoos e náuseas. Malva inclusive precisou da confirmação de uma profissional da saúde para acreditar e se convencer de que estava mesmo grávida, como podemos ler em seu relato a seguir:
E é interessante né... Que até a gente descobrir, a gente não sente nada... Eu não senti nada. Depois... Eu, passou uma semana, passou duas semana... E eu com aquele negócio ali... Aí não descia, não descia (a menstruação)... Aí, eu fui lá comprar o teste de farmácia e fiz. Mais... Deu positivo e mesmo assim eu não senti um nada. Quando eu vim aqui e que a coisa (a enfermeira) falou: “Está grávida mesmo”, daí quando chegou em casa já começou... Era enjoo, era isso, e era aquilo... E era isso, e era aquilo. E meu marido: “É frescura. Que (...) até você não saber você
não sentia nada, agora está sentindo”. E eu digo assim: “É... Eu acho que... Eu não sei porque!”. Porque até descobrir não sente nada, aí quando descobre começa a sentir... (Malva – R.C.1)
Antes, que eu não sabia, eu não sentia nada também, igual ela falou. Depois que eu fiquei sabendo, mas eu passei tanto mal... Acho que eu passei uns dois meses mal... (...) Eu não comia. Eu ficava semana sem comer. (...) Eu não podia sentir cheiro de nada... Eu comia a comida dos outros... A comida da minha mãe eu não comia... Eu passei tanto mal... Fui melhorar agora, depois dos 3, do 4º mês... Daí melhorou. Mais mudou. Quando eu descobri, ai parece que (risos)... Aí começou as crise... Mais agora... Não tenho mais. (Melissa– R.C.1)
Na gestação, a mulher passa por mudanças de diversas ordens – anatômicas e fisiológicas, emocionais, psicológicas, comportamentais, familiares, econômicas, dentre outras (PICCININI, 2008). O período gestacional demanda novas formas de equilíbrio diante das mudanças inerentes a esta fase, estando algumas destas mudanças mais relacionadas aos ritmos metabólicos e hormonais e outras mais relacionadas ao processo de integração de uma nova identidade, bem como de novos papéis sociais que se relacionam à maternidade (VIEIRA E PARIZOTTO, 2013).
Sendo assim, alguns autores como Maldonado (1988) e Araújo et al. (2012) definem a gravidez como um período de crise, que representa uma transição existencial, em que há uma perturbação temporária, de desorganização de um estado de equilíbrio, exigindo uma resposta adaptativa daqueles que passam por ela, envolvendo reestruturação e reajustamento da identidade.
Durante a crise, é comum surgirem sintomas como insônia, perda de apetite e de peso, agitação, estados de nervosismo, choro, depressão, indiferença, dores de cabeça e de estômago, náuseas, sendo que “estes sintomas costumam diminuir ou desaparecer (...) quando a pessoa começa a vislumbrar alguma saída para essa situação de crise”, de forma que os desconfortos e perturbações no comportamento que normalmente se verificam devem ser considerados como “um sinal de luta interna que busca o reajustamento da personalidade” (MALDONADO, 1988, p.20)
No caso de Malva e Melissa, ambas já estavam grávidas, já estavam passando pelas mudanças hormonais, mas perceberam uma relação muito clara e imediata com o início dos sintomas e a confirmação da gravidez. Elas não haviam planejado engravidar. Malva partilhou sua percepção sobre o enjoo:
Eu acho que enquanto a gente não sabe, a mente da gente não põe aquilo na cabeça... Ai depois que a gente descobre a gente fica naquilo... Eu acho que é aí é que o corpo vai tomar... Como é que se diz?... Vai saber daquilo que está nele, que vai... Eu acho que é. Porque eu não sentia nada, nada, nada, nada... Aí depois que eu descobri foi que começou os enjôos... Gente... (Malva – E)
Sendo assim, algumas pessoas argumentam que o enjoo na gestação está relacionado mais a aspectos biológicos e hormonais, mas como esta fase também se caracteriza como um período de crise, de transição, esse desconforto pode ter origem emocional e psicológica. Segundo Colman (196914 apud MALDONADO, 1988, p.26) “é impossível discriminar separadamente as complexas inter-relações entre fatores hormonais e psicológicos”.
As colaboradoras relataram que durante a gravidez ficaram mais suscetíveis a mudanças de humor, se sentindo mais irritáveis e tendo vontade de chorar, muitas vezes sem ter um motivo específico, conforme elas relatam a seguir:
Fiquei mais emotiva entendeu... Qualquer coisa boba já faz eu chorar... É essa parte que eu digo que o psicológico que mudou... Daí depois que passa, você fala: “Nossa porque que eu chorei?”. (Sálvia – R.C.1)
A gente fica emotiva, de vez em quando dava aquela vontade de chorar do nada, não pode ouvir nada que está se derretendo em lágrima... (...) qualquer coisinha está em prantos... Gente... Meu marido fica... Ele fica morrendo que qualquer coisinha eu fico chorando. Ele diz: “Minha filha, que que tu tem?”. E eu: “Nada, mais se eu estiver com vontade de chorar, eu vou chorar!”. (Malva - R.C.1)
No começo, até uns quatro meses eu chorava muito. Muito, muito, muito, sabe... Brigava, chorava do nada... (...) Eu sentia uma necessidade de ter alguém conversando (Risos)... Menina, achei que isso nunca ia passar. E ficava assim sabe... Um sentimento muito estranho assim... Não sei se é por causa da gravidez, tudo... Porque faz tempo que eu moro aqui, estou acostumada a ficar sozinha e coisa e tal. Daí vem tudo junto... Eu já não estava mais trabalhando, estava sozinha em casa, ficava olhando e não tinha ninguém pra conversar! (...) Nossa... Daí é muito ruim... Daí chora muito! Mas não é chorinho de lagriminha... Chora pra valer. Às vezes dá até um alívio depois que chora assim... Você fica... Ah (suspiro)... Mais tarde tem mais... Você fica com o olho inchado, com a cara inchada, você fica olhando procê: “Nossa como você é tonta né!” (risos). (Valeriana - R.C.1)
As oscilações de humor são muito comuns na gravidez, bem como o aumento da sensibilidade e irritabilidade, fatores relacionados às alterações no metabolismo, mas também ao esforço de adaptação a uma nova condição de vida, que envolve novas descobertas, responsabilidades, desafios, aprendizados. Assim, a mulher fica mais suscetível a certos fatores, internos ou externos, que antes não a afetavam tanto, como por exemplo, o fato de ficar sozinha para Valeriana, que já era acostumada, mas na gestação se sentia desconfortável com esta situação. Assim, a ambivalência se faz presente e a mulher alterna de estados de choro e riso com mais facilidade, estando mais alegre e estável em um dia e sensível e irritável em outro (MALDONADO, 1988).
Estes resultados corroboram com os encontrados por Vieira e Parizotto (2013) que ao investigarem aspectos psicológicos decorrentes do período gravídico, constataram a presença
de fatores como sensibilidade, ansiedade, sendo que as participantes relataram estar se sentindo mais irritadas, estressadas e com alterações de humor, estando alegres ou tristes dependendo do dia. Sanfelice (2011) também averiguou que as gestantes colaboradoras de seu estudo sentiam-se mais sensíveis, sentindo vontade de chorar e ficando nervosas com facilidade.
Paim (1998) também confirmou mudanças nos estados emocionais em mulheres grávidas, as quais relataram nervosismo e um sentimento incômodo sem causa aparente, a não ser a gravidez, esperando-se que cessasse após este período. Este incômodo sem causa aparente fica claro na fala de Sálvia que afirmou se perguntar, após o choro, porque mesmo havia chorado, não conseguindo encontrar um motivo e também nas falas de Malva e Valeriana, que através da expressão “chorar do nada”, demonstraram que eram emoções incontroláveis e que vinham de repente, ainda que não houvesse uma causa clara e específica, nem explicações lógicas e racionais.
Calêndula também destacou alterações emocionais e no humor, como irritabilidade, emotividade e sensibilidade, além de fazer menção a outro ponto, que é a autoestima e o medo de que as modificações físicas oriundas da gestação a deixassem feia e gorda, o que poderia diminuir o interesse do marido por ela e despertar o olhar dele para outras mulheres, como podemos ler abaixo em suas palavras:
Ah muda bastante, tudo você fica irritada, você não dorme direito, você não faz isso, não faz aquilo... Igual muda o emocional, a gente fica sensível... Tudo a gente chora e se você não tomar cuidado você cria muita briga... Você quando está grávida você acha que você vai ficar feia... Aquela coisa “eu vou ficar feia”, “vou ficar gorda”, “eu vou ter isso, vou ter aquilo”... Você já acha que seu marido está olhando pras outras na rua essas coisa... (...) Daí você acha que está olhando, já briga... Muda bastante... Você fica muito sentida das coisa, qualquer coisinha você chora... Você chora porque você lembra disso, porque você lembra daquilo... (Calêndula – E)
Na gravidez, a mulher passa por um processo de alteração contínua de seu funcionamento orgânico e psicológico, podendo afetar sua estabilidade emocional além de transformar sua autoimagem corporal. Cada mulher vivencia esse processo de uma maneira, sendo que há mulheres que se sentem satisfeitas e bonitas diante destas modificações, enquanto outras vivem em permanente mal estar e descontentamento (NUNES, 2011).
Piccinini et al. (2008, p.68), que realizaram uma investigação acerca dos sentimentos de mulheres gestantes em relação à maternidade e ao período gestacional, constataram que “as transformações físicas da gestação são capazes de despertar diversos sentimentos de naturezas variadas, mas que sempre repercutem de alguma forma na vivência da gravidez”. Algumas participantes do estudo relataram sentimentos de satisfação, conformidade, enquanto outras
demonstraram insatisfação e preocupação. As que expressaram satisfação diante das transformações percebidas em seu corpo, sentiram-se orgulhosas por portarem uma vida em seu ventre e realizadas com o crescimento da barriga, que parece comprovar e simbolizar seu estado de maternidade.
Outro sentimento evidenciado pelas gestantes do estudo de Piccinini et al. (2008) foi o de conformidade com as transformações físicas, o que pode refletir uma aceitação em virtude da maternidade tão desejada ou então a estabilidade e segurança decorrente da constância conjugal, uma vez que todas eram casadas. Por outro lado, algumas gestantes relataram insatisfação e preocupação com as alterações corporais, o que pode ser decorrente da perda de um corpo que representava uma condição de mulher independente e desejada. Esta perda, somada à atual supervalorização da estética e de um padrão corporal imposto socialmente, pode gerar frustrações e insatisfação. Sentimentos de estranheza diante das alterações corporais foram também manifestados pelas participantes e pode ser justificado como uma percepção das gestantes sobre a entrada em uma nova etapa, desconhecida e sobre a qual elas não têm controle.
No estudo de Martins (2010), para algumas mulheres, engravidar significou deixar de ter controle sobre o seu próprio corpo, uma vez que consideram o corpo grávido pouco atrativo, de forma que sua autoimagem fica distorcida e deformada. A mulher pode encarar as alterações que ocorrem no seu corpo como estranhas, desconfortáveis e indesejáveis.
Além das mudanças físicas e corporais, a mulher experiencia alterações psicológicas e de ordem mais subjetivas como as relacionadas a mudanças na visão de mundo, além de perceberem alterações nas relações familiares e também no tratamento recebido de outras pessoas, conforme podemos ler nos depoimentos a seguir:
Eu não sei, eu acho assim, mudou tudo. Mudou tudo, tudo, tudo. A partir do momento que eu fiquei sabendo que estava grávida, parece que... Nossa! O mundo eu enxerguei de outra cor... Sabe? (Valeriana - R.C.1)
Eu não senti enjoo, não senti nada... Mas eu acho que mudou mais meu psicológico do que o meu corpo. (...) Minha vida tá normal, mas acho que o meu psicológico mudou muito. A minha família, meu marido, o ambiente em casa é outro. Mudou completamente. (Sálvia - R.C.1)
As pessoas começam a te tratar melhor né, parece que você se sente mais amada (risos de todas)... E isso é muito bom... Antes você fazia tudo assim, tipo pegar isso aqui... “Não, pode deixar que pego pra você”... (...) Bastante gente trata a gente diferente né. Sabe que tem um bebezinho na barriga, nossa, a gente é super paparicada. Principalmente os mais próximos. Meu pai e minha mãe então nem se fale! Demais! Meu pai sempre foi muito babão por minha causa, eu sou a única menina de casa, então meu pai sempre me paparicou muito. Ah, quando eu contei que eu estava grávida ele até chorou. Ah, daí queria fazer tudo pra mim, mais do que ele já fazia né... A gente fica mimada, mal acostumada... (Sálvia – E)
Na fala de Valeriana, fica clara a mudança na forma de ver as coisas, de encarar a vida. Maldonado (1988) destaca que a vivência da gestação representa uma possibilidade de atingir novos níveis de integração, amadurecimento e expansão da personalidade, não tendo como passar por essa experiência de maneira indiferente. Klaus e Kennel (1992) também defendem que a gestação é dotada de potencial para o crescimento emocional e psíquico. Estes aspectos de amadurecimento e crescimento não se restringem unicamente à mulher que gesta, mas se estende também ao pai da criança bem como à família como um todo, uma vez que a gestação e o nascimento são experiências familiares, envolvendo a chegada de um novo membro.
A percepção de Sálvia de que as mulheres são mais bem tratadas na gestação também foi verificada no trabalho de Oliveira e Dessen (2012), que buscou descrever o apoio prestado às mães por familiares e não familiares durante a gestação e verificar a percepção das mulheres acerca deste apoio, sendo que dentre as principais mudanças relatadas por elas durante o período gestacional e nos primeiros meses após o nascimento do(a) bebê, encontra- se o aumento no recebimento de apoio, atenção, carinho e de ajuda material e/ou financeira.