A presente investigação faz parte de uma pesquisa maior (a qual chamo de “pesquisa mãe”), intitulada “A tessitura da rede de saúde mental no Distrito Sanitário da Liberdade (DSL): o matriciamento como fio condutor”, desenvolvida pela equipe do Núcleo Interdisciplinar em Saúde Mental (NISAM), do Instituto de Saúde Coletiva (ISC), da Universidade Federal da Bahia (UFBA). A referida pesquisa tem como objetivo analisar, numa perspectiva avaliativa processual e participativa, o processo de constituição das práticas de matriciamento em saúde mental no Distrito Sanitário da Liberdade - DSL, ocorridas durante os anos de 2010 a 2015. O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do ISC/UFBA (processo nº 0040.0.069.069-11), bem como pela Coordenação de Desenvolvimento de Recursos Humanos da Secretaria Municipal de Salvador (CDRH/SMS).
A pesquisa é realizada de modo articulado com as atividades da Residência Multiprofissional em Saúde Mental do ISC, mais especificamente, com o campo de estágio de gestão desenvolvido junto à coordenação do DSL. Nesse campo da Residência, foram desenvolvidas ações no sentido de construir a rede intrassetorial e intersetorial em saúde mental
daquela região. A proposta foi agregar a tal prática uma pesquisa que buscasse avaliar os efeitos de uma tecnologia fundamental na tessitura da rede: o matriciamento.
Em termos metodológicos, são envolvidas, na implementação e avaliação processual do matriciamento, dois programas de agentes comunitários, duas equipes da Estratégias de Saúde da Família, os residentes em saúde mental, a gestão do DSL, os profissionais do Centro de Atenção Psicossocial (CAPS II) e do Centro de Atenção Psicossocial Infantil e Adolescente (CAPSia) do DSL, pertencentes à área em questão, além dos usuários cujos cuidados foram matriciados.
Neste sentido, a referida pesquisa começou em 2012, no segundo ano das ações de matriciamento, e foi organizada em duas etapas. A primeira delas destinou-se especificamente aos 12 Agentes Comunitários de Saúde (ACS) vinculados à referida unidade de saúde da família. Com estes profissionais foram realizadas entrevistas individuais e, em um segundo momento, eles foram acompanhados em algumas das suas atividades com usuários de saúde mental.
Buscava-se conhecer as produções narrativas desses agentes e, neste sentido, os significados produzidos sobre as ações, ou disparadas a partir destas, bem como buscava-se conhecer as práticas realizadas pelos sujeitos em suas experiências concretas de vida. Para tanto, utilizou-se a compreensão teórica do Sistema de Signos, Significados e Práticas (SSSP), formulado por Corin e Bibeau (1999, apud NUNES E TORRENTÉ, 2016b), na construção de um caminho metodológico que abrangesse a produção de elementos semióticos, interpretativos e pragmáticos na elaboração de uma abordagem em saúde mental que fosse culturalmente sensível e baseada na comunidade.
Nesta primeira fase da pesquisa foi dada ênfase às explicações de signos de visibilidade conferidos pelos agentes comunitários de saúde na identificação de aspectos que indicassem problemas de saúde mental; em seguida, buscou-se relacionar esses signos a significados, ou interpretações, construídos por estes profissionais; por último, foi buscado ancorar esses signos e significados em casos concretos, destacando as práticas que alicerçam esse sistema, possibilitando, além de uma compreensão das representações acerca do fenômeno, a identificação das práticas concretas. Nesta etapa ainda, foi solicitado que os ACS identificassem casos considerados marcantes/significativos pela equipe, com a finalidade de aprofundar a compreensão das ações de matriciamento e, desse modo, preparar a segunda fase da pesquisa.
Neste sentido, na segunda fase da pesquisa, além das observações das práticas de saúde mental desenvolvidas pela equipe da USF e da realização de grupos focais, tinha sido previsto a reconstituição de trajetórias de usuários acompanhados pelo grupo do matriciamento, de modo a identificar os efeitos do processo de matriciamento sobre as condições de saúde e de vida daqueles. Isso gerou descrições mais minuciosas das práticas em saúde mental com atenção para os aspectos que interatuam na constituição das mesmas. Para essas descrições mais densas, exigiu-se também uma permanência mais longa no campo, a fim de produzir uma observação que, pelo estranhamento, atiçasse a percepção e, pela insistência, multiplicasse os detalhes (NUNES; TORRENTÉ, 2016b).
A sequência das referidas etapas tinha a finalidade também de ampliar o grupo de atores/pesquisadores envolvidos na pesquisa e, sobretudo, proporcionar uma maior familiaridade com os espaços através da circulação pelo território interno e externo ao serviço, de modo que fosse possível uma maior compreensão do contexto sociocultural de ancoragem das práticas. Sendo assim, ao final do terceiro ano desta investigação foi iniciado o trabalho de campo da segunda fase da pesquisa em dois âmbitos de ação.
Em uma vertente, foi realizada pelo grupo de pesquisadores a ação de reconstrução das trajetórias sociais dos usuários de saúde mental e, em um segundo plano, por meio deste trabalho etnográfico, buscou-se aprofundar a compreensão das práticas de saúde mental realizadas na USF Santa Mônica, com a realização da observação participante e grupos focais. Ademais, esse trabalho etnográfico buscou não só aprofundar a compreensão das práticas desenvolvidas pelos ACS, mas ampliou seu campo de observação, ao realizar a incorporação dos demais profissionais da equipe da USF na pesquisa. Somada à ação de descrição e análises das práticas profissionais, neste trabalho de mestrado foi realizada também a reconstituição da trajetória de vida de uma usuária de saúde mental acompanhada pela USF Santa Mônica.