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L’empreinte du son dans la construction des objets :

PARTIE III : Quand les troubles associés à la surdité, se projettent en l’espace :

ANNEXE 5 : Dessin de la construction de Lilian

4.1. L’empreinte du son dans la construction des objets :

A partir das conversas com os envolvidos nos processos de nulidade matrimonial, das dúvidas compartilhadas sobre a configuração do processo e da leitura dos libelos introdutórios de Declaração de Nulidade Matrimonial, formulamos nossa pergunta de pesquisa. Caracterizamos, assim, a pesquisa no âmbito social, uma vez que nós, enquanto agentes, examinamos o cotidiano quando nos propomos a elucidar questões argumentativas para auxiliar as partes na produção do libelo introdutório.

“A pesquisa social é sempre tateante, mas, ao progredir, elabora critérios de orientação cada vez mais precisos” (MINAYO, 2002, p.13). Nessa direção, buscamos a objetividade e a sistematicidade da ciência e do método científico, sem desconsiderar o dinamismo e a especificidade dos elementos que compõem o objeto da pesquisa social. A subjetividade presente neste estudo valida ainda mais a investigação que precisa estabelecer procedimentos de análise criteriosos.

A pesquisa social é essencialmente ideológica e qualitativa. Considera as formações sociodiscursivas, a interação social, as relações estabelecidas entre o objeto de análise e os participantes, e segue além: o observador torna-se solidário e comprometido com a pesquisa ao mesmo tempo em que se distancia para uma análise legitimada. Imerso na realidade cotidiana, o pesquisador pondera ideologias que se aproximam do objeto de estudo, é um ator envolvido no fenômeno. Dessa forma, ele visa a “fornecer respostas tanto a problemas determinados por interesse intelectual, quanto por interesse prático” (GIL, 2008, p.35).

Neste sentido, percebemos similitudes à abordagem teórica da Análise Textual dos Discursos (ADAM, 2011a), na qual a pesquisa se filia. Para Adam (2011a), a relação entre texto e discurso é indissociável, de maneira que o texto perpassa o discurso. Sendo assim, o texto é composto também pela ação de linguagem, pela

interação social, pela formação sociodiscursiva e pelo interdiscurso: elementos fundamentais para a pesquisa social, justificando, assim, as escolhas teóricas.

A pesquisa, além da característica social, apresenta uma motivação fenomenológica, uma vez que parte da interação do pesquisador com o sujeito experienciador do fenômeno e dos discursos enunciados por ele. Alinha-se, pois, à definição da visão fenomenológica atribuída por Graças (2000, p.28-29): “é no discurso deste sujeito sobre sua experiência vivencial que se busca uma aproximação com a essência ou estrutura do fenômeno”. Dessa maneira, apresenta esse aspecto como ponto de partida, na sequência, acompanha o quadro teórico da ATD.

Optamos, assim, pela abordagem qualitativa, resultado da especificidade das ciências sociais, uma vez que nossa preocupação reside mais na análise e compreensão dos fenômenos na dinâmica social que na quantificação. Apesar de não nos reportamos à dicotomia qualitativo/quantitativo, nossa pesquisa agrupa elementos quantitativos para determinar a representatividade da amostra, contudo, focaliza os qualitativos, que têm por base a percepção de um fenômeno no discurso. Não é especulativa, ao contrário, dá- se por meio de relações estabelecidas entre as categorias analíticas, reflexo dos sujeitos e dos processos e produtos originários do ambiente.

A abordagem qualitativa, como um processo singular para a construção do conhecimento, orienta-se em direção à compreensão e à interpretação de um determinado fenômeno com vistas a situá-lo em determinado contexto, evitando, assim, generalizações e tornando-se um elemento imprescindível à pesquisa social, pois sustenta tomadas de decisões, como explica Bicudo (2011, p.21):

Dada a característica da pesquisa qualitativa, o fenômeno investigado é sempre situado/contextualizado. Exploram-se as nuances dos modos de a qualidade mostrar-se e explicitam-se compreensões e interpretações. Sendo assim, os dados trabalhados não se permitem generalizar e transferir para outros contextos. Admitem apenas tecerem-se generalidades sustentadas por articulações efetuadas sucessivamente com os sentidos do que está sendo expresso (...) Sustentam raciocínios articuladores importantes para tomadas de decisão políticas, educacionais, de pesquisa e aos poucos semeiam regiões de inquérito com análises e interpretações rigorosas. (BICUDO, 2011, p.21).

Dessa forma, na abordagem qualitativa o ambiente natural é a fonte dos dados e o olhar atento do pesquisador é um instrumento-chave para garantir a legitimidade do estudo. Além disso, as relações são estabelecidas constantemente, uma vez que a coleta e análise dos dados são etapas que se retroalimentam a cada consideração, de acordo

com Trivinos (1987). Por isso é difícil propor hipóteses nesse tipo de abordagem, visto que elas se modificam continuamente.

Nessa mesma direção, adotamos o paradigma interpretativista, pois entendemos que se trata da “busca de perspectivas seguras em acontecimentos particulares e por insight que poderá ser o resultado de acontecimentos futuros” (MOREIRA, 2008, p.61). Logo, a interpretação é intrínseca à ciência, que olha para além da objetividade, para a subjetividade, considerando, em nosso caso, a totalidade do ser e do seu meio. Assim, nossa análise associa três aspectos fundamentais, na concepção de Trivinos (1987, p.173): os resultados alcançados, a fundamentação teórica e experiência do investigador/pesquisador.

Quanto aos objetivos, a pesquisa é descritiva. Procuramos levantar questões sobre o objeto e fenômeno abordados, mas, antes de tudo, diante do caráter doutoral, partimos da tese de que as emoções são elementos argumentativos que viabilizam a construção de pontos de vista e representações discursivas a fim de agir argumentativamente em favor de uma sentença procedente no libelo introdutório, aprofundando os estudos no limite da realidade específica.

Os estudos descritivos exigem do investigador, para que a pesquisa tenha certo grau de validade científica, uma precisa delimitação de técnicas, métodos, modelos e teorias que orientarão a coleta e interpretação dos dados. (TRIVINOS, 1987, p.112).

Esse estudo não se limita à coleta, ordenação ou classificação de dados, mas é correlacional e detém-se ao exame dos dados, apropriando-se de técnicas como, no nosso caso, a análise aprofundada do conteúdo a fim de garantir a compreensão e explicação da totalidade do fenômeno.

Assim, por meio de uma análise de conteúdo sistemática e planejada, descrevemos a manifestação das emoções, por meio da orientação argumentativa, da responsabilidade enunciativa e da representação discursiva, em um determinado objeto de pesquisa de maneira a atribuir a coerência, consistência, originalidade e precisão basilares ao estudo científico.

Quanto aos procedimentos técnicos, é documental. A partir dos estudos descritivos, investigamos as fontes naturais de informação de acesso público ou privado, nas quais encontram-se evidências que fundamentam as afirmações do pesquisador. Essas fontes podem ser caracterizadas como primárias ou secundárias.

A análise documental pode se constituir numa técnica valiosa de abordagem de dados qualitativos, seja complementando as informações obtidas por outras técnicas, seja desvelando aspectos novos de um tema ou problema. (LÜDKE; ANDRÉ, 1986, p. 38). O libelo introdutório para nulidade matrimonial, nosso objeto de estudo, trata-se de uma fonte documental secundária, com caráter jurídico e válida para a igreja católica. Esse tipo de material é mantido em sigilo pela instituição, ou seja, é de ordem privada, e é utilizado pelos cônjuges para dar entrada no processo de nulidade matrimonial. Apesar de ser produzido pelos próprio nubentes, entendemo-lo como uma fonte documental secundária uma vez que, a fim de se configurar como um documento de caráter jurídico para a igreja católica, existem orientações concedidas pelo tribunal eclesiástico para a produção escrita, bem como o nubente interessado precisa consultar a arquidiocese da cidade para verificar a possibilidade de se tratar de um caso de nulidade matrimonial.

Martins e Theophilo (2009) afirmam que um dos grandes desafios da prática documental é o grau de veracidade dos documentos. A discussão versa não somente sobre a credibilidade, mas sobre a representatividade desses materiais. Essencial é, pois, de acordo com Cellard (2008), realizar um levantamento sobre a composição dessas fontes a partir do contexto, dos autores, da autenticidade e confiabilidade do texto, da natureza e dos conceitos-chave e lógica interna do texto.

Sobre o contexto, é preciso situar o documento e compreender as particularidades da maneira como é organizado, bem como elucidar a identidade dos autores para avaliar a credibilidade do texto, os pontos de vista assumidos e a ideologia presente. Ainda para Cellard (2008), deve-se estar atento à autenticidade e confiabilidade do texto, ou seja, sua procedência, se diz respeito a uma tradução, se há discurso reportado e se a interpretação dada pelos autores foge da fonte. Somado a isso, deve-se observar a natureza do texto, os conceitos-chave e a lógica interna, pois o padrão de escrita de um relatório é diferente de uma carta pessoal, por exemplo; e, da mesma forma, a natureza implica a apropriação de termos específicos à área e o entendimento do plano de texto.

A respeito da representatividade, entendemos que a pesquisa qualitativa deve apresentar uma análise consistente. Contudo, um corpus significativo do ponto de vista da linguística de corpus não é nosso foco. Priorizamos, portanto, o levantamento composicional do objeto de estudo para, assim, fornecer uma interpretação coerente com base na temática e no questionamento inicial.

Diante dessas escolhas realizadas, adotamos o método indutivo por englobar as etapas da observação e uma análise qualitativa e descritiva do objeto. Dessa forma, é o raciocínio por excelência das ciências naturais.

O conhecimento é um processo indutivo que se inicia com os dados particulares, ou empíricos, e atinge noções mais gerais. Este método indutivo permite passar de um fato particular observando a outro, condicionado pela associação das ideias, e não só fazer enumerações, mas também chegar à generalização da experiência. (CHIZZOTTI, 2010, p. 39).

Existem questionamentos a respeito das generalizações decorrentes do método. De fato, generalizações nos estudos da linguagem são perigosas uma vez que os enunciados são infinitos e, portanto, seria preciso uma amostra bastante significativa. Todavia, nossas observações partem de casos concretos que atendam determinadas especificações de gêneros textuais/discursivos, planos de texto e categorias de análise, que delimitam a pesquisa e tornam as considerações mais realistas.

Nesse sentido, para compreender o método e os objetivos da pesquisa, estabelecemos os seguintes procedimentos metodológicos:

a) escolher o tema, considerando o desafio de associar o discurso jurídico- responsabilidade enunciativa-argumentação-emoção;

b) levantar o estado da arte para atentar ao que já foi produzido nesse sentido; c) coletar os dados junto aos Tribunais Eclesiásticos a partir da autorização dos

nubentes participantes do processo;

d) realizar uma leitura inicial para conhecer o material e suas potencialidades; e) formular o problema de pesquisa;

f) selecionar o corpus e estabelecer categorias teóricas e analíticas;

g) identificar o plano de texto do libelo introdutório no material disponibilizado; h) analisar textualmente os discursos, a partir da proposta de Jean-Michel Adam

(2011a);

i) analisar a constituição dos pontos de vista e da representação discursiva que permeiam os enunciados de emoção;

j) identificar os atos de discurso presentes no libelo;

k) analisar e interpretar como as emoções se configuram argumentativamente no corpus.