3. L ES REVETEMENTS POUR OUTILS COUPANTS
3.4. Q UELLES SONT LES EVOLUTIONS TECHNIQUES DES
3.4.3. L ES DIFFICULTES D ’ APPLICATION DE CES EVOLUTIONS CHEZ LES UTILISATEURS
5.1. Participantes
Participaram deste estudo 10 sujeitos voluntários, de ambos os sexos, recrutados na UNESP de Rio Claro, sob assinatura do termo de consentimento (ANEXO 3). Os grupos foram compostos de adultos jovens saudáveis com faixa etária de 20 a 30 anos. O presente estudo teve à aprovação do Comitê de Ética Humano (ANEXO 1) e Animal (ANEXO 2) da Universidade Estadual Paulista – Campus de Rio Claro/SP, e só teve início após a aprovação do mesmo. Algumas perguntas foram realizadas aos sujeitos (conforme o questionário em ANEXO 5), a fim de qualificar a amostra do estudo. Sendo apenas selecionados para este estudo sujeitos que não possuíssem desordens neuromotoras.
A Tabela 1, resume os dados demográficos dos sujeitos participantes da pesquisa. A média de idade encontrada foi de 23,7 ± 4,32 anos, e IMC de 24,32 ± 5,01 kilos. Dos sujeitos avaliados, 8 são praticantes de atividades físicas durantes pelo menos 2 vezes por semana, e 2 sujeitos não praticam. Foi também questionado se possuem cães e se têm o hábito de passear com os mesmos, neste quesito foi encontrado que apenas 2 sujeitos não possuem cães, 3 possuem cães e têm o hábito de passear com os mesmos, e o restante possuem cães, embora não tenham o hábito de passear com os mesmos. Apesar de alguns sujeitos não possuírem cães, nenhum deles relatou ou evidenciou medo durante o momento que antecedia a coleta, que pudesse interferir nos procedimentos.
Tabela 1. Dados dos participantes do estudo.
Sujeito Idade (anos) IMC Pratica AF TC/PC
1 21 23 SIM NÃO/NÃO 2 31 32 NÃO SIM/NÃO 3 24 18,64 SIM SIM/SIM 4 20 18 SIM SIM/NÃO 5 20 24 SIM NÃO/NÃO 6 21 23 SIM SIM/NÃO 7 26 20 SIM SIM/NÃO 8 31 32 SIM SIM/SIM 9 23 28 NAO SIM/NÃO 10 20 24,62 SIM SIM/SIM
* Representação dos dados dos participantes do estudo. IMC: Índice de massa corporal. AF: Atividade Física. TC/PC: Tem cão/Possui o hábito de passear com ele?
5.2. Materiais
Para a realização do trabalho foram utilizadas duas traves de equilíbrio (Figura 5), sendo uma trave com 34 cm de altura por 28 cm de largura e 6 metros de comprimento, e outra com 34 cm de altura, 10 cm de largura e também 6 metros de comprimento. A trave de maiores dimensões de largura foi utilizada pelo cão, outra para o sujeito da pesquisa. As traves foram colocadas uma próxima à outra numa distância de 30 centímetros, conforme demonstrado na Figura 5. Ao lado (paralelamente) foram colocados colchonetes para proteção de possíveis ocorrências de quedas. As coletas foram filmadas por duas câmeras (Panasonic PV- GS300 capacidade de gerar 60 quadros por segundo), posicionadas através de tripés a uma distância de 7 metros entre elas e aproximadamente 10 metros do posicionamento das respectivas traves (Figura 6). As condições experimentais foram as seguintes: com visão (CV) ou sem visão (SV), presença (CC) ou ausência do cão
(SC). O sistema biológico de âncora foi caracterizado no manejo de um cão (Canis
familiaris L) da raça Golden Retrivier, três anos de idade, com altura na cernelha de 61 cm, de 35 kilos, previamente adestrado para a tarefa (que pudesse obedecer aos comandos de subir na trave, andando sempre ao lado do condutor, não ultrapassando o mesmo), e em condições de saúde e comportamento adequado para as condições. O cão foi mobilizado por uma guia (flexível) de 100 cm (tamanho necessário para que o cão pudesse ficar ao lado do condutor durante a tarefa). Para as condições sem visão os sujeitos utilizaram vendas de cor escura fixadas com elásticos em volta da cabeça.
5.3. Procedimentos
As coletas foram realizadas na sala de dança do Departamento de Educação Física da UNESP- Rio Claro, após esclarecimento da pesquisa e assinatura do termo de consentimento livre e esclarecido (ANEXO 4). A tarefa foi auxiliada por 2 experimentadores e consistiu em os participantes andarem sobre uma trave de equilíbrio, privados ou não da informação visual, na presença ou ausência do cão preso por uma guia, sendo que este andou sobre a trave de maior largura (Figura 5). Cada participante realizou 3 tentativas por condição. O cão foi também atrelado por outra guia e passivamente conduzido pelo experimentador 1 com o objetivo de proporcionar apenas segurança em caso de alguma saída brusca pelo participante ou do cão das traves.
Figura 5 – Desenho esquematizando o layout do presente trabalho, com algumas de suas medidas.
A primeira condição foi sempre a condição controle (olhos abertos sem a presença do cão). As demais condições (CVCC, SVSC, SVCC) foram aleatorizadas na ordem de execução, através de sorteio. Previamente ao procedimento, ocorreu familiarização (procedimento realizado com o sujeito e o cão fora da trave, de modo que o sujeito pudesse aprender a forma de conduzir o mesmo durante a tarefa). A tarefa foi iniciada a partir do comando verbal do experimentador 1. Sendo que o mesmo ficou posicionado próximo à trave para auxiliar em caso de queda do sujeito. Nas condições com a presença do cão, foi dada a instrução de segurar a guia com a mão dominante (direita ou esquerda), tentando manter a cabeça do cão, rente ao corpo, de modo que o cão não ultrapassasse o sujeito, conforme ilustrados na Figura 6, posicionamento este encontrado em atividades de adestramento. Nas condições sem visão, a venda foi colocada quando o sujeito estivesse sobre a trave. Em todas as condições a instrução dada foi para os sujeitos realizarem as passadas na trave
da maneira mais natural possível em sua cadência preferida. Embora acompanhados pelos experimentadores, os sujeitos percorreram a trave sozinhos ou conduzindo o cão.
Para a análise dos dados foram utilizados: um microcomputador AMD Se
Para a análise dos dados foram utilizados: um microcomputador AMD Sempron Processor 2800, com monitor LG; placa de vídeo e sistema Dvideow3. 0 (Laboratory of Biomechanics & Institute of Computation - Unicamp) para captura das imagens, e análise do frame correspondente as fases do ciclo (Figura 7)
5.4. Análise dos dados
As tentativas constavam de vários ciclos de passadas e poderiam variar devido a amplitude de cada ciclo de tentativa para tentativa conforme a condição experimental, ou as habilidades de cada sujeito. As mesmas tentativas foram convertidas em imagens para o computador e a análise quadro a quadro permitiu calcular as medidas: fase temporal relativa, e duração do ciclo do andar, ou da
Figura 6- Desenho esquemático demonstrando o modelo experimental utilizado, indivíduo sobre a trave de equilíbrio acoplado em um cão através de uma guia.
passada. Para análise, foram excluidos os 2 ciclos inciais, e finais, sendo considerados os 3 ciclos de passadas (para todas as condições), a fim de os corrigir erros de variabilidade, que pudessem comprometer os resultados do estudo. Para os cálculos de cada ciclo do andar foi necessário multiplicar a ocorrência de cada evento pelo tempo de duração de cada quadro (0,0167 s).
A. Fase Relativa:
Segundo MAUERBERG-DeCASTRO e ANGULO-KINZLER (2001), a fase
relativa representa o relacionamento temporal de dois sistemas, ou o relacionamento fases entre dois osciladores, ou de um oscilador com um evento específico. Em um caso mais específico, a fase relativa dependente do evento permite avaliar a coordenação entre segmentos, de forma a comparar temporalmente o toque do calcanhar esquerdo com o lado contralateral, ao longo de eventos (passadas) sucessivos. Segundo a mesma autora, podemos calcular a fase relativa através do calculo da Figura 6.
A partir deste cáculo são obtidos valores da fase relativa do membro esquerdo e do direito. A somatória dos valores dos membros resulta em um valor próximo de 1,0. A somatória da fase relativa de uma perna e da outra não resulta em exatamente 1,0, uma vez que os eventos considerados para o cálculo da fase relativa, sempre são em relação aos eventos imediatamente anterios ou posteriores. Sendo que esta somatória somente seria 1,0, se a fase relativa de cada perna sucessivamente resulta-se em 0,5.
No entanto, quanto maior o acoplamento dos osciladores, mais próximo de 1,0 serão estes valores. Para cada membro de cada sujeito, foram calculados tanto os valores médios, como o desvio-padrão de cada membro. Também foram obtidos,
valores de desvio-padrão da fase relativa, que foi calculado a partir das diferenças dos valores da fase relativa de cada ciclo do andar.
Figura7. Cálculo da fase relativa dependente do evento (MAUERBERG-DeCASTRO & ANGULO-KINZLER, 2001).
B- Duração do ciclo do andar (em segundos)
Este item foi calculado através da subtração do tempo da ocorrência de um evento (o primeiro a aparecer na filmagem) até sua próxima ocorrência, por exemplo: TPC dir (2) – TPC dir.(1) ou : TPC esq.(2) – TPC esq.
5.5. Análise estatística
Para compreender melhor os efeitos do sistema de ancoragem utilizado pelo cão durante a atividade locomotora e a influência da visão, uma ANOVA three-way com medidas repetidas em todos os fatores (visão, tarefa e repetições) foi realizada para a variável duração do ciclo de cada passada, fase relativa e desvio-padrão da fase relativa. Nestas duas últimas variáveis, um fator adicional no modelo estatístico foram os parâmetros de cada perna. Testes a posteriori de Bonferroni foram calculados para as comparações aos pares. Todas as análises estatísticas foram
realizadas utilizando o programa SPSS (SPSS para Windows - versão 6.1 - SPSS), o valor de alfa foi mantido em 0,05.
6.0 RESULTADOS
Participaram deste estudo 10 sujeitos, com idade de média de 23,7 ± 4,32 anos. O principal objetivo, deste trabalho, foi verificar a contribuição do sistema háptico durante a condução de um cão em condições de desafios ao sistema postural. Nosso principal resultado foi confirmar que durante nas condições sem visão, a condução do cão auxiliou no sincronismo entre condutor ↔ cão, favorecendo a redução das variáveis: média e desvio padrão da fase temporal relativa, e duração das passadas. A seguir os resultados são apresentados por variável dependente: a) fase relativa do grupo (médias aritméticas e desvios- padrão), e análise da duração relativa das fases do andar.
6.1 Fase relativa
A Tabela 2 apresenta os valores de média e desvio-padrão do grupo nas situações experimentais ao longo das 3 tentativas. A situação experimental em que foi observada a maior discrepância no relacionamento de fase foi na tentativa 1 (tent1), na condição S/VISÃO (sem visão), S/CÃO (sem cão) apresentando valores médios de 46,13% (± 5,23) para perna direita e 56,82 % (± 7,58) perna esquerda. No entanto, ao longo destas tentativas, nesta mesma condição, foi encontrada uma melhora no relacionamento de fases entre os membros, com valores na tentativa 3 de 48,17 % (±3,61) para a perna direita e 52,95 % (± 3,80). Em geral, os melhores relacionamentos de fase foram observados durante as tentativas experimentais com visão (Tabela 2), na presença ou ausência do cão.
Tabela 2. Valores médios da fase relativa e desvios-padrão (em itálico) das pernas direita e esquerda do grupo de sujeitos ao longo das três tentativas durante o andar com e sem visão (S/VISÃO), na presença do cão (C/CÃO) ausência do cão (S/CÃO).
PERNA DIREITA PERNA ESQUERDA
Tent1 Tent2 Tent3 Tent1 Tent2 Tent3 VISÃO S/CÃO 0,519 0,022 0,507 0,029 0,529 0,081 0,510 0,017 0,519 0,036 0,527 0,029 C/CÃO 0,548 0,065 0,525 0,502 0,530 0,467 0,535 0,063 0,543 0,066 0,533 0,053 S/VISÃO S/CÃO 0,461 0,052 0,490 0,348 0,481 0,036 0,568 0,075 0,5362 0,038 0,529 0,038 C/CÃO 0,528 0,045 0,515 0,024 0,513 0,033 0,504 0,049 0,505 0,022 0,511 0,309
A Figura 8 ilustra a média das três tentativas do relacionamento de fases entre a perna direita e esquerda. O pior relacionamento temporal foi mantido nas médias da condição SVSC (perna direita = 0,477 ± 0,030; perna esquerda = 0,5446 ± 0,0358). Entretanto, na presença do cão, sem visão (SVCC), foi encontrada uma melhora deste relacionamento de fase temporal, apresentando valores mais próximos entre as pernas direita (0,5190 ± 0,0247) e esquerda (0,507± 0,0251).
Figura 8. Médias aritméticas das 3 tentativas das fases relativas das pernas direita e esquerda nas seguintes condições experimentais CVSC (com visão, sem cão); CVCC (com visão, presença do cão); SVSC (sem visão, sem cão); SVCC (sem visão, presença do cão). A linha pontilhada sobre a unidade 0.5 representa um relacionamento de fase de cada perna dentro de um ciclo de passada.
Em relação à média da fase relativa foram encontrados efeitos significativos no fator tarefa (F1,9 = 5,096 p = 0.050), e na interação tarefa e perna (F1,9 = 9,45 p =
0.013). Neste caso, o pior relacionamento temporal foi mantido nas médias da condição SVSC (perna direita = 0,47,77±0,030, perna esquerda = 0,544 ±0,035). Entretanto, na presença do cão, sem visão (SVCC), foi encontrada uma melhora neste relacionamento de fase temporal, apresentando valores mais próximos entre as pernas direita (0,51,90 ± 0,024) e esquerda (0,50,73 ± 0,025).
6.2 Desvios-padrão da fase relativa
Os desvios-padrão das fases relativas calculado da sequência de ciclos amostrados para cada tentativa, indicativos de variabilidade das passadas dos sujeitos, de maneira geral, diminuíram ao longo de algumas tentativas. A Tabela 3 apresenta os valores de média do desvio-padrão do grupo nas situações experimentais ao longo das 3 tentativas.
De forma geral, tanto nas condições sem visão na presença, como na ausência do cão, é possível observar uma redução da variabilidade em ambas, perna direita e perna esquerda ao longo das tentativas (Tabela 4). Observando a mesma tabela nas condições SVSC e SVCC, é possível visualizar, por exemplo, uma redução na variabilidade em relação às mesmas tentativas, na perna direita (tent1= 0,085; SVSC); (tent1= 0,020; SVCC), e na perna esquerda (tent1= 0,110; SVSC); (tent1= 0,052; SVCC); valores de grande redução também podem ser visualizados na tent 3; tanto na perna direita, quanto na perna esquerda.
Em relação às condições com visão tanto na presença, quanto ausência do cão observa-se pouca variabilidade ao longo das tentativas e pouca diferença entre as condições comparando as mesmas tentativas. Sendo observada em algumas
condições com visão na presença do cão, uma redução da variabilidade (tent1 e tent2= perna direita ; tent 3 =perna esquerda).
Tabela 3. Desvio-padrão das fases relativas da fase relativa das pernas direita e esquerda do grupo de sujeitos ao longo das três tentativas durante o andar com e sem visão (S/VISÃO), na presença do cão (C/CÃO) e ausência do cão (S/CÃO).
PERNA DIREITA PERNA ESQUERDA Tent1 Tent2 Tent3 Tent1 Tent2 Tent3 VISÃO S/CÃO 0,031 0,021 0,027 0,017 0,023 0,045
C/CÃO 0,026 0,016 0,039 0,032 0,025 0,032 S/VISÃO S/CÃO 0,085 0,055 0,111 0,110 0,043 0,091
C/CÃO 0,020 0,044 0,046 0,052 0,041 0,024
x tent= tentativa
Na Figura 9, está sendo demonstrada a média dos desvios-padrão das três tentativas em relação ao relacionamento de fases entre a perna direita e esquerda. Comparando as condições com visão, ocorreu um discreto aumento da variabilidade (1,8% perna direita; 6,2 % perna esquerda), em relação aos valores encontrados na condição controle (CVSC). No entanto, em relação às condições sem visão, na presença do cão, ocorreu uma redução da variabilidade (44,1% perna direita; 47,9% perna esquerda),quando comparados com a condição SVSC. Valores que podem ser ilustrados na Tabela 4.
Tabela 4. Valores médios do desvio padrão da fase relativa das pernas direita e esquerda do grupo de sujeitos ao longo das três tentativas durante o andar com e sem visão (S/VISÃO), na presença do cão (C/CÃO) ausência do cão (S/CÃO).
PERNA
DIREITA PERNA ESQUERDA
VISÃO S/CÃO 0,026 ↑1,8 % 0,028 ↑6,2% C/CÃO 0,027 0,030
S/VISÃO S/CÃO 0,084 ↓44,1% 0,082 ↓47,9% C/CÃO 0,037 0,039
*Valores médios do desvio padrão , e valores da porcentagem de redução ou aumento (em relação aos pares: CVCC X CVSC; SVCC X SVSC), em negrito.
A análise estatística apontou efeitos significativos no fator visão (F1,9 = 21,195 p< 0.05), indicando que nas condições CVSC (perna direita=0,026; perna esquerda=0,028; perna esquerda), houve uma grande redução de variabilidade, quando comparadas com as condições SVSC (perna direita=0,084; perna esquerda= 0,082;), indicando que a utilização da visão reduziu a variabilidade ao percorrer a trave.
Nossos resultados também encontram efeito de tarefa (F1,9 = 7,471, p< 0.05), indicando neste caso um pequeno aumento na variabilidade na condição CVCC (perna direita=0,027; perna esquerda=0,030), quando comparados com a condição CVSC (perna direita=0,026; perna esquerda= 0,028).
Foi encontrado também, um efeito significativo na interação entre visão e tarefa (F1,9 = 7,91, p< 0.05), indicando que nas condições SVCC (perna direita=0,037; perna esquerda=0,028) houve uma grande redução de variabilidade, quando comparadas com as condições SVSC (perna direita=0,084; perna esquerda=0,082).
Finalmente, nossos resultados encontraram efeito na interação dos fatores: visão x repetição x perna (F2,8 =4,93, P < 0,05), indicando que ao longo das
tentativas, nas condições sem visão houve uma maior variabilidade do componente relacionado ao relacionamento temporal entre a perna direita e perna esquerda, indicando fraco acoplamento entre as mesmas.
Figura 9. Médias aritméticas do desvio padrão de 3 tentativas (1,2,3) das fases relativas das pernas direita e esquerda dos sujeitos nas seguintes condições experimentais CVSC; CVCC; SVSC; SVCC. CVSC (com visão, sem cão); CVCC (com visão, presença do cão); SVSC (sem visão, sem cão); SVCC (sem visão, presença do cão).
6.3 Durações do ciclo do andar
A duração dos ciclos do andar variaram em relação às diferentes situações experimentais. Analisando as médias da duração dos ciclos, os valores dos desvios- padrão apresentaram alta variabilidade em relação à duração do ciclo entre os sujeitos, em todas as tentativas: 0,43 s (± 0,13) na condição CVSC; 0,38s (± 0,05) na condição CVCC; 1,24s (± 0,58) na condição SVSC; e 0,68s (±0,31) na condição SVCC. Entretanto, nas condições sem visão esta variabilidade (desvio-padrão) é
maior. Adicionalmente, o fator cão, produz uma redução da média e da variabilidade tanto nas condições com visão e um pouco mais evidente nas condições sem visão. A Figura 10 representa as médias aritméticas e os desvios-padrão (barras) entre os sujeitos.
Figura 10. Médias aritméticas e desvios-padrão (das 3 tentativas) da duração do ciclo do andar nas quatro condições experimentais CVSC; CVCC; SVSC; SVCC. CVSC (com visão, sem cão); CVCC (com visão, presença do cão); SVSC (sem visão, sem cão); SVCC (sem visão, presença do cão).
Os resultados da duração da passada apontaram efeitos significativos nos fatores visão (F1,9 = 23.8, p < 0.001), condição da tarefa (F1,9 = 21.016, p < 0.001), e interação entre os fatores visão e tarefa (F1,9 = 11.9, p = 0.007). A interação significativa indica que a tarefa sem o uso da visão com condução do cão foi mais afetada em seus valores de duração do ciclo (média = 0,684 s; ±0,323) em contraste com a condição sem visão sem uso do cão (média = 1,248 s; ± 0,670). As condições com visão com e sem o uso do cão mostraram valores semelhantes entre si para esta variável.
Nossos resultados confirmam a hipótese 2 deste trabalho, indicando que nas condições sem visão a utilização do cão, favorece o grau de acoplamento (indicado pela diminuição da média e do desvio da fase relativa), bem como no desempenho da marcha (indicado pela diminuição na variável duração da passada).
No entanto, em relação à hipótese 1, nossos resultados confirmam apenas, parcialmente. Indicando que nas condições com visão, a utilização do cão, aumenta os valores da variável (média da fase relativa e desvio padrão da mesma), prejudicando o grau de acoplamento entre as pernas. Entretanto, em relação ao desempenho da marcha (variável, duração da passada) houve uma redução significativa desta variável.
7.0 DISCUSSÃO
O objetivo deste trabalho foi avaliar, ao longo de uma caminhada (andar sobre uma trave de equilíbrio), a contribuição do sistema háptico durante a condução de um cão em condições de desafios ao sistema postural. Os principais resultados deste estudo refletiram na confirmação da hipótese de que, durante a tarefa postural, a sincronização entre o condutor e o cão ocasionou melhoras na estabilidade e na eficiência do movimento refletindo-se principalmente pela diminuição significativa do desvio da fase relativa, e pela diminuição da duração da passada, principalmente na condição onde a visão foi obstruída.
A manutenção da orientação para estabilidade corporal é condicionada ao relacionamento entre as informações sensoriais e a atividade dos músculos (HORAK & MACPHERSON, 1996). A informação sensorial é importante para mapear todas as informações provenientes do meio ambiente e da tarefa, bem como receber as informações contínuas das atividades musculares (BARELA, 2000). No entanto, devemos considerar o contexto onde a tarefa é realizada (STREEPEY & ÂNGULO KINZLER,2002), pois em função da mesma, o sistema de controle postural pode utilizar-se, para seu controle adequado, mais uma informação sensorial, em detrimento de outras (JEKA, OIE & KIEMEL,2000).
Em relação ao contexto da tarefa, este trabalho envolveu a restrição da base de suporte do individuo, imposto pela largura da trave de equilíbrio. Em estudos propostos por MARIN, ET. AL. (1999); OULLIER, et. Al (2005), foi encontrado, a partir da manipulação das condições da tarefa visual, e da restrição mecânica (imposta pela largura da trave), altas amplitudes de oscilação postural, nas articulações de tornozelo e de quadril em tarefas de perseguição visual. Nestas
tarefas, informações sensoriais podem ser ou não integradas em conjunto ou isoladamente, alterando o “ganho” (influxo de informações) de um ou mais sensores, responsáveis pelo equilibrio. Neste trabalho ocorreu influência de dois sistemas sensoriais principais, o sistema visual e o sistema háptico (através da condução de cães através de guias acopladas).
Estudo realizado por ROBERTSON e ELLIOT (1996) mostrou que a oclusão da visão afeta diretamente a postura de atletas habilidosos e de novatos na tarefa de caminhar sobre uma trave de equilíbrio (aumentando o grau de oscilação). Os mesmos autores também verificaram que durante estas tarefas existe uma participação mais efetiva de outros sistemas sensoriais, ou seja de mecanismos de re-ponderamento sensorial, ou re-pesamento das informações sensoriais (HARAN, EMILY, KESHNER 2008). Quando uma informação sensorial é ausente ou inadequada, outros sistemas ganham prioridade funcional pelo aumento do “ganho” do respectivo canal. Esta adaptação, ou integração sensorial envolve diminuir o peso de informações irrelevantes e aumentar o peso (o influxo sensorial) das entradas disponíveis que indicam situações com informação útil e relevantes para a ação a ser realizada a fim de manter a orientação corporal (JEKA, OIE & KIEMEL, 2000). No caso dos resultados sem visão com uso do cão, esta influência aumentaria o “ganho” dos outros canais, influenciando de forma positiva o comportamento locomotor na tarefa restrita.
Segundo SHUMWAY COOK & WOOLLACOTT (1995), a visão é utilizada para suplementar a informação providenciada pelos proprioceptores a fim de manter a postura ereta em tarefas dinâmicas (como a marcha), particularmente naquelas com restrições (terrenos irregulares). Nestes casos, a visão proveria uma ação reguladora no feedforward (antecipação postural), proporcionando estratégias úteis
ao equilíbrio. Assim sendo, o sistema visual é extereoceptor (pois recebe informações do meio ambiente) e também exproprioceptor, pois fornece informações sobre o movimento dos corpos a partir do fluxo óptico.
Estes resultados permitem afirmar que as informações extereoceptivas e exproprioceptivas captadas pela visão influenciam a função vestibular. A restrição visual prejudica na detecção das variações da posição do corpo no espaço, influenciando o equlibrio na tarefa (POZZO, BERTHOZ, LEFORT, 1990). Portanto a instabilidade (causada pela postura tandem) pela “exigência da tarefa” (andar sobre uma trave de equilibrio) leva a projeção do centro de massa fora dos limites da base