Chapitre 1 Introduction et revue de la littérature
1.13. Rappel sur quelques procédures statistiques et déroulement de la méta-analyse
1.13.4. L’approche par méta-analyse: au-delà de la revue des travaux antérieurs
Pela análise marxiana, a categoria do fetiche representa a relação entre o homem e a mercadoria no sistema capitalista. Citando novamente Ximenes (2000, p. 348), o fetiche se relaciona a um “objeto ao qual se atribui poder especial e a que se presta culto”. Fetichizada, a mercadoria inverte a relação entre o produto e produtor, e revela a supremacia do valor-de- troca sobre o valor-de-uso dos produtos. Mascara as relações de produção, de individualidade e de exploração, ao conferir à mercadoria um status de autônoma ao processo produtivo.
Diante da emergência dos mercados financeiros como meio hegemônico de ampliação e reprodução do capital, denota-se o surgimento de um novo contexto de fetichização, derivado da relação entre o investidor, a organização e as finanças. Neste, as ações passam tanto a ser vistas como autônomas frente à produção e o trabalho (o que afirma a crescente independência entre as esferas financeira e produtiva), quanto a mascarar a relação entre produtores e investidores através do capital financeiro virtualizado, postulando uma relação “entre os próprios investimentos” e ocultando toda a cadeia de produção [e de exploração] que esta representa. Para Chesnais (1995, p. 21):
Esta promoção do capital-dinheiro a um status em que parece se desligar da produção e da troca e a partir do qual teria que dominar a vida econômica e social mundial pode ser interpretada como o último grau na fetichização das relações de propriedade capitalistas. Tem como consequência esconder, ou pelo menos embaçar, a fisionomia dos operadores mais relevantes e seu grau de concentração e de poder, ocultar o papel desempenhado pelos próprios Estados na gênese da “tirania dos mercados” e, principalmente, escamotear os mecanismos pelos quais a esfera financeira alimenta-se de transferências de riqueza totalmente concretas (CHESNAIS, 1995, p. 21).
Esta nova forma de fetiche não afeta somente os investidores, mas a organização em sua totalidade. A visão fetichizada das finanças induz à incorporação de produtos financeiros (ações e demais aplicações financeiras) pela própria organização, em um fato que marca a “presença ativa dos grupos predominantemente industriais no seio do sistema financeiro” (SERFATI, 1999, p. 142) e contribui para que as empresas se assemelhem cada vez mais a uma instituição financeira. Coutinho e Beluzzo (1998, p. 137), sobre este cenário, colocam que “as empresas em geral ampliaram expressivamente a posse dos ativos financeiros, e não apenas como reserva de capital para efetuar futuros investimentos fixos. A acumulação de ativos financeiros ganhou na maioria dos casos status permanente na gestão da riqueza”.
Reafirma-se, diante destes efeitos, o gradual distanciamento entre as esferas financeira e produtiva (GAULEJAC, 2007; GUTTMANN, 2008; CHESNAIS, 1999) e a dominação desta por aquela (DIAS; ZILBOVICIUS, 2006). Segundo os autores (ibid., p. 3), “a distinção entre a esfera produtiva e a esfera financeira pretende ser eliminada”. Como afirma Arantes (2001, p. 55), “o aumento da lucratividade não representou um crescimento na atividade produtiva. Pelo contrário, grande massa de recursos foi deslocada da esfera produtiva para a esfera especulativa e financeira”.
Desse modo, essa distorção que se desenvolve entre as finanças e a produção alimenta um paradoxo no capitalismo, onde quanto mais a esfera financeira se torna independente da esfera produtiva, mais a esfera produtiva se torna dependente da esfera financeira.
Quanto mais o sistema financeiro se expande, maior se torna a sua dominação sobre a produção e, em consequência, mais dela se torna independente, uma vez que consolida uma ampliação do capital propriamente financeiro cada vez mais separado do capital produtivo. Como dizia Alves (1999, p. 8), “um valor se valorizando, sem nenhum processo (de produção) que sirva de mediação”. Do outro lado, inserida nesse contexto de independência da esfera financeira, a organização passa a necessitar cada vez mais deste tipo de investimento (aumentando, com isso, a sua dependência das finanças). Como efeito, cada vez mais se assemelha a uma instituição financeira, herdando suas características e adotando seus produtos como forma de ativos. Aumenta, neste ciclo, esta paradoxal relação de dependência.
Para Paulani (2009, p. 26), “a esfera financeira coloca-se assim como o ponto central sobre o qual deve recair a análise do processo de acumulação”, e reflete a sua “capacidade de exercer influência sobre uma série de empresas ao longo da cadeia produtiva que, mesmo não possuindo participação acionária direta, se tornam [cada vez mais] dependentes dessas estruturas através de relações de suporte técnico e financeiro” (ROCHA, 2013, p. 20). Diz respeito, nesse sentido, a toda a cadeia produtiva – especialmente os fornecedores – que por sua relação com a organização, se tornam indiretamente afetados por este processo.
Em conclusão, essa realidade reafirma um atributo próprio do sistema capitalista: a busca pela subsunção de toda forma de realidade que lhe é externa. Por característica precípua, o capital busca sua contínua reprodução e auto-expansão e, para tanto, tende a englobar e sobredeterminar tudo como mercadoria. No caso presente, até mesmo seu próprio sistema mediador com o trabalho – a organização – o que reafirma, segundo Cardoso (2013) a natureza contraditória do capital e de todo o seu sistema de relações. O autor continua (ibid.):
Em lógica matemática, quando um conjunto engloba a totalidade, acabando por englobar a si mesmo, ele passa a ser um “conjunto autocontraditório”, o que a matemática denomina como uma “totalidade inconsistente”. Um conjunto que conta a si mesmo como um dos seus elementos é assim um “conjunto inconsistente”, pois se torna uma fonte de autocontradição. Este problema também é designado pelo nome de “paradoxos da auto-referência”. E assim funciona o capital.
Quadro 08: Expressões do trabalho e das organizações reforçadas pela financeirização da organização.
Expressões do trabalho e das organizações reforçadas pela financeirização da organização
A presença de um novo ator – o acionista – no sistema produtivo;
A obrigação de proporcionar uma rentabilidade satisfatória ao investidor (sob pena de desinvestimento); A disseminação da governança corporativa como uma adaptação gestionária à nova lógica de acumulação; O aumento do controle do capital sobre as organizações (onde se destacam as medidas de governança); As noções de fluidez, imediatismo, desempenho, quantofrenia, flexibilidade e rentabilidade (que passam a ser absorvidas do sistema financeiro);
O risco constante de diminuição do reinvestimento e dos investimentos de longo prazo;
A primazia das fusões e aquisições como forma mais barata de aquisição de capacidade produtiva; A maximização da racionalização do trabalho, reafirmando seus aspectos de intensificação e precarização; O distanciamento crescente entre as esferas produtiva e financeira (e sua relação de dominação);
A incorporação de produtos financeiros pela própria organização (que cada vez mais passa a se assemelhar a uma instituição financeira).
Fonte: Elaborado pelo Autor.