POLITIQUE ET PROJET DE DÉVELOPPEMENT
I. PUISSANCE ET COMMERCE INTERNATIONAL
2. L’analyse théorique et la part du conflit
“... é assim, todas as noite são assim! Eu sento no sofazão, ponho um tamborete pra ponhar as perna e fico ali apontando o mudador de canal pra televisão. Antes era cumpricado, mode a gente não queria vê um canal aí tinha que levanta, ficá lá trocano, agora não... esse mudador aqui, cume qui chama? É, esse controle remoto é bão dimais, cum ele é mordê no quiabo. Aqui do ladin senta a Vera (esposa) que é pra mode ela fica apertando e estralando meus dedo que me apazigua. Os minino senta por aí porque minino não pára mesmo em nenhum lugá, inté parece que tem formiga no pandú (...) eu cumbinei com a Vera... inté a novela das oito quem manda sou eu, despois ela vê a novela. Se tivé um futebó pra gente vê aí ela vai proséa com as vizinha e eu fico aqui (...) tem dia que incapeta quando ela cumeça a dá pitaco no Lula. Aí eu num aceito purquê eu acumpanho o Lula desde quando ele começô, quem não presta é aqueles ministro dele!
(Maurício Pedro, 43 anos, 6ª série “completa”, casado com Vera e pai de Jânio e Isabela, 4 e 6 anos respectivamente, historiando o seu “habitus”.)
O consumo de televisão, em especial das telenovelas, é uma rotina familiar em todo o país. Em Rio Verde não é diferente. Aposso-me do trabalho de Jiani Adriana Bonin quando em Delineamentos Teórico-
Metodológicos Para Estudar a Mediação do Cotidiano Familiar na Recepção, quando dialoga com Silverstone (1966), sobre como as
rotinas cotidianas traduzem o paradigma familiar e a torna “organizadora central das construções, disposições, expectativas e fantasias que a família comparte sobre o seu mundo social. Significa dizer, segundo Bonin, que os membros de uma família compartilham certos pressupostos essenciais sobre o mundo, ainda que diferenças e conflitos possam existir entre eles. A cultura familiar dota os membros de uma matriz de identidade e de reconhecimento, o que não exclui ser também um lugar de crises e tensões. A cultura familiar constrói-se na dialética da interação intra-grupal e do grupo familiar e com o contexto vivido e a sociedade maior.
Em Rio Verde, onde 76% das famílias presentes ao Projeto Ciranda são trabalhadores rurais, ocorre um processo de interferência na vida social de acordo com a emergência dos ciclos produtivos. Esse fato interfere
em todos os setores da sociedade. No caso das mídias, por exemplo, no pico do plantio e da colheita há uma queda real na audiência dos meios, principalmente da televisão. As interações extra-familiares que os membros estabelecem rotineiramente escola, igreja, lavoura, pasto, indústria, comércio -, fazem com que os limites familiares se estendam além da casa e do grupo, o que gera espaços de circulação e reposicionamento das mensagens.
Segundo Bonin, as rotinas familiares são ordenadas espacial e temporalmente. Esta administração do tempo e do espaço também caracteriza a cultura familiar. As famílias apresentam especificidades em relação à temporalidade e espacialidade ou, como se refere Silverstone, têm culturas espaciais e temporais próprias. No caso dos trabalhadores rurais de Rio Verde, a temporalidade familiar, incluindo as temporalidades de recepção de telenovela certamente se modula também pelas especificidades do trabalho no campo estritamente familiar, e que se liga a rotinizações dos ciclos produtivos. Também a espacialidade familiar, quando pensamos na conformação das rotinas familiares e não apenas na espacialidade relacionada ao consumo da mídia, em especial da televisão, têm suas especificidades no caso das famílias rurais, visto que as relações familiares não se inscrevem apenas na casa, como em outros segmentos sociais, mas se estendem ao espaço da unidade familiar.
Seguindo Silverstone (1996), pode-se apreender a cultura temporal da família com base nos pontos de orientação e de programação familiares. A orientação diz respeito aos pontos de referência temporais que a família usa para conduzir seus assuntos. Pode-se demonstrar que a família tem orientações dominantes para o passado, o presente e o futuro. A programação diz respeito à organização e ao manejo do tempo dentro da família e se expressa nas rotinas familiares, onde se pode “ler” o que a família considera mais importante. Para Bourdier, a casa e seus objetos expressam o estilo de vida, que exprime o habitus de classe. A televisão e outros meios de comunicação também conformam estes espaços e situam-se, como objetos e como meios, nestes estilos de vida.
Para Silverstone, ainda citado por Bonin, o espaço familiar é um lugar. Os lugares são espaços construídos por relações, investidos de significação, diferentemente dos não-lugares, que por definição são espaços carentes de significação social. É objeto de apego emocional, de sentimento de pertença. Desta perspectiva, o espaço familiar é a
manifestação de um investimento de sentido num espaço. É um espaço construído através de relações sociais, internas e externas e que se modifica tanto no que se refere à sua força quanto à sua importância. A casa é um espaço onde ocorre uma interação, onde a pessoa desenvolve, conserva ou modifica a sua identidade. É o abrigo para as coisas e as gentes que definem o eu, o que torna a casa um ambiente símbolo indispensável.
Halbwachs (1990) propõe que a identidade e a memória apropriam-se de lugares. Sugere que os grupos impõem a sua marca nos espaços. Quanto aos objetos, eles rememoram e trazem o passado ao presente.
Mais que um sentimento estético ou de utilidade, os objetos nos dão um assentimento à nossa posição no mundo, à nossa identidade (Bosi, 1994: p.441)
José Inácio Lima, o Inacinho, é o porteiro do Campus Dona Gercina Universidade de Rio Verde, a “Casa do Ciranda”. Desde 2000, quando começamos o evento naquele município, Inacinho é o sujeito que recepciona a equipe quando chega à cidade. Motoristas de caminhão, ambulâncias, policiais militares, jornalistas, professores, todos, indistintamente, o conhecem e por ele são recebidos com um “Prazer!” e um leve movimento positivo de cabeça. Invariavelmente, ali pelas tantas, Inacinho, cheio de mesuras e cortesias, chama a “diretoria” para um cafezinho “macho”, feito na hora. Nas primeiras vezes, minha atenção se voltava para o sabor delicioso do café e dos traços negros, fortes e altivos de Inacinho, mesmo medindo pouco mais de 1.60m. Um dia, interessado em saber o segredo do café forte, doce e de sabor realmente diferenciado, perguntei sobrei a origem dos grãos: “Ah, é de qualquer lugá, sendo baratim, é só torrá!” Bem, não satisfeito com a resposta, indaguei se ele colocava açúcar mascavo, se a água era de filtro de barro, quais eram as medidas... com um sorriso no canto da boca, como se estivesse guardando um grande segredo, me convidou para entrar na varandinha da casa, anexa à cozinha. Pomposamente, e com muita cerimônia, apontou para a ponta de uma mesa de aroeira que se estendia por quase todo o espaço. Na beirada, afixada sobre tarraxas, um preto, antigo e mesmo humilde moedor de café. Aproximei-me e na lonjura de uns três metros minhas narinas foram invadidas por uma fragrância memorial, daquelas de criança, que
imediatamente me levou a rua do moedor de café de minha pequena Orizona, onde o Judas perdeu às botas, lá nos confins de Goiás. Percebendo o meu encanto, Inacinho, então, começou sua história. Aquele moedor de café pertencera a sua bisavó, Dona Emerenciana, que ganhara o moedor de sua mãe, antiga escrava na Fazenda Babilônia ( hoje tombada pelo Patrimônio Nacional ), situada no município da antiga Meia-Ponte, atual Pirenópolis. Desde então, o moedor de café de Vó Emerenciana vem sendo personagem importante do momento mais receptivo e social das famílias no Interior do Brasil, a “hora do cafezinho”. Parentes, vizinhos, amigos, recorda Inacinho, vinham de longe para prosear, fazer “boca de pito” e triscar um cafezinho. Inacinho, agora viúvo, sem filhos e descendentes, vive no humilde barracão dos fundos do Campus Dona Gercina. Não tem companhia, sequer um gato, cão ou galinha. Só lhe restou a memória e um velho moedor de café.