Chapitre 3 - Les mesures de prévention relatives à la clientèle
3.3 Les renseignements qui sont donnés au membre
Os alunos constituem mediadores importantes do desenvolvimento da aula. Chegam à escola para brincar, para estudar, para aprender e também para ensinar as professoras a serem professoras. Eles levam para dentro da escola seus saberes, seus valores, as vivências de seu grupo familiar, de sua vizinhança. Contam coisas que acontecem fora da escola. Corrigem a professora quando ela erra o nome de alguém: “Ele não chama Gustavo, prô! Ele chama Davi!” Solicitam a atenção quando querem ir à quadra, correr pela escola, beber água, ir ao banheiro ou avisar que algo não vai bem.
Com seus modos de agir e de dizer, os alunos instauraram na jovem professora poderosos conflitos cognitivos sobre as formas de conduzir suas aulas e sobre seu papel social de professora. Transcrevo a seguir um trecho de um dos diálogos que tive com Thaís:
Thaís:Essa opção pela roda de conversa... Às vezes, sabe, na minha
cabeça, eu estou trabalhando uma coisa, eu estou pensando num objetivo, daí a criança vem me mostra uma coisa, e eu falo assim:“Não é isso agora”. Às vezes, eu poderia ter aproveitado aquilo de outra forma e não ter falado que não é isso agora.
Juliana: Escuta, você tem quantos alunos na sala? Thaís: Ah, 20 e poucos. 24, 22...
Juliana: Você imagina se, a cada dia,22chegarem pra você mostrando
uma coisa absolutamente diferente e você falar: “Ah é... Vamos ouvir...” Onde você vai parar?
Thaís: Sim, sim... É, tanto que na roda de conversa, às vezes, tem criança
que desvia muito o assunto; eu dou uns cortes também, porque é que nem você falou... Eles já têm pouco tempo de atenção, às vezes, o que você está fazendo ali já é uma coisa mais demorada pra você conseguir ouvir um pouco mais todo mundo; aí, se você deixar eles falarem coisa que não
tem nada a ver, realmente vai virar meia hora, 40 na roda, e eles nem vão ficar, eles vão dispersar. Então não tem como mesmo.
Thaís, mediada pelos alunos, viveu, e ainda vive, o conflito entre deixar que as crianças falem livremente ou assumir, como professora, o encaminhamento da interlocução, de modo que tanto as crianças quanto ela elaborem e signifiquem novos aspectos do que foi ou será aprendido na aula:
Eu fico na dúvida, porque, na escola, a gente fica mediando tudo. Falta um pouco também da questão deles mesmo se resolvendo, eu acho. A gente interfere muito. Até quando eu dou minha aula livre, eu tento não ficar interferindo muito, deixar que eles se resolvam sozinhos. A gente está trabalhando tantas coisas, mas, se a gente fica mediando, mediando, eles sempre terão a necessidade do adulto mediando pras coisas acontecerem. Por outro lado, eu penso que as crianças precisam aprender a lidar com a frustração e tal, e que esse aprendizado falta muito pra essa juventude.
De fato, direcionar a interlocução implica ensinar as crianças a participarem de uma conversa coletiva, orientada por um objetivo que extrapola a imediaticidade dos interesses individuais. Assim, elas começam a lidar com limites, a ouvir o outro, a argumentar, a organizar o que querem dizer. Escutar e também silenciar são momentos de produção de sentidos.
Compreendendo que os alunos são sujeitos que (inter)medeiam os sentidos que são produzidos na aula, é possível afirmar que a aula é constituída pelas intenções e palavras da professora na relação com eles. Entendo que a compreensão do mundo e as formas de agir sobre ele se dão sempre de maneira compartilhada entre o eu e o outro. “A linguagem é material e instrumento de ação no mundo, sobre o outro, com o outro e com os muitos outros que constituem o pensamento e a consciência. No agir no mundo, produzimos discursos e também somos por eles produzidos.” (KRAMER; NUNES; CORSINO, 2011, p. 69)
A professora silencia alguns sentidos em favor de outros. Muitas vezes, na ânsia de atingir aquilo que planejou para aquela aula, deixa sim de aproveitar alguns dizeres relevantes, deixa de construir com eles.
A escuta atenta da professora também se dispersa. São 20, 20 e poucos alunos que falam ao mesmo tempo, desviam do assunto, contam histórias que não dizem respeito ao tema da aula.
A aula é tecida na relação direta os alunos. Eles também conduzem a professora na sua atuação docente. O olhar atento, as corridas fora de hora, o levantar de mãos pedindo a palavra, o choro provocado pelo tombo, tudo isso faz parte da aula e de como ela vai sendo conduzida. Os alunos indicam para a professora que saltar uma determinada quantidade de vezes sobre a corda, não diz muito sobre eles ou sobre o que estão ou não aprendendo:
Essas crianças são muito inteligentes. Eu olho pras crianças e falo: “Como eu queria ter tido uma infância dessa forma.” Eu tenho muita lembrança boa da minha infância e reconheço que vivi coisas que faltam pra essa geração dos meus alunos, como a brincadeira livre na rua. Mas eu vejo que elas sabem umas coisas que me impressionam. Elas dançam, tem aula de música, trazem um monte de informação pra escola.
A relação das crianças com as práticas corporais entretece o fazer e o falar sobre o fazer. Alguns são mais tímidos que outros, alguns são mais habilidosos corporalmente do que outros, mas eles gostam de contar como se sentiram, de comentar o que superaram ou o que conseguiram fazer, de contar como as práticas corporais reverberam em sua vida cotidiana, como relata a docente:
Ainda ontem mesmo não sei o que eu estava falando lá, eu comecei uma unidade de...jogos e brincadeiras falando do brinquedo, do consumismo, essas coisas. E aí eu não lembro o que a gente estava falando, e eu contei para eles que a minha vó, quando era criança, que [minha avó] não[tinha] brinquedo como os de hoje, feitos em fábrica. Questionei se
eles imaginavam como é que se brincava nesse tempo? Dessa pergunta, surgiu uma fala de que adulto não brinca. Daí eu falei:“Tem adulto que brinca, sim.” E aí eles me puseram no meio: “A prô brinca! A prôbrinca, de capoeira.” Eu expliquei que adulto vai brincando menos, porque a gente tem que trabalhar, a gente tem que cuidar das crianças. Eu me dei conta de que eles têm muito essa visualização que criança brinca e adulto não.
O desejo da professora que eles saibam executar determinada brincadeira para além da escola vem manifestado em histórias, encadeadas ou não sobre o que conseguem fazer fora da escola. Ela afirma: “E eu acho muito legal quando eu dou aula e dá certo, e eu consigo que as
crianças falem, quando eles dão uns feeds que você fala: „nossa, olha que legal, eles entenderam, eles aprenderam‟.”
Questiono uma menina sobre o motivo de sua roupa estar suja de terra. Ela me responde: “Estou suja porque brinquei no parquinho!”Diferentemente dos adultos, as crianças não elaboram previamente as perguntas, a vida cotidiana faz com que elas perguntem sobre o que tem dúvida, seja para a professora ou para a pesquisadora que “invadiu” a aula. A fim de compreender como as crianças, na relação com a professora,tecem os sentidos sobre a aula de Educação Física, entre gestos e palavras,eu anoto o que os alunos dizem e fazem.
A professora também percebe os limites de sua prática com as crianças. Olha para si e afirma que só é capaz de dar aulas de Educação Física porque as crianças ainda não conhecem a fundo as práticas corporais. Ainda assim, não nega conhecimento a elas, ensina aquilo que sabe fazer e também aquilo em que não se sente habilidosa. Ensina ginástica, futebol e outros esportes, mesmo sem tê-los vivenciado anteriormente. E as crianças respondem, perguntam, questionam, criticam. As crianças reproduzem, criam e recriam jogos, brincadeiras, danças. Aos 4 anos, identificam-se com o jogo, sentem-se parte dele. Aos 5 anos, retomam aquilo que já aprenderam aos 4, ampliam os conhecimentos acerca das práticas corporais. Embora a organização escolar, no que diz respeito à separação das turmas, tenha como principal critério a idade das crianças, olhar para elas tendo em vista o que elas conhecem, como circulam pelos conhecimentos, é o principal indicativo de como as aulas devem ser organizadas. O contexto em que a criança está
inserida, as relações que ela estabelece dentro e fora da escola, indiciam mais sobre o que ela sabe do que a idade propriamente dita.
Preparar o contexto, planejar a aula e estabelecer uma relação de diálogo com os alunos integra as situações reais da aula. Contudo, as crianças têm outras demandas, escapam daquilo que foi previamente preparado para elas. Inventam outras brincadeiras, recusam-se a participar, ficam desatentas à fala da professora, quando diz, por exemplo:“Levanta a mão pra
mim quem sabe contar direitinho o que aprendeu hoje?”A partir do diálogo instaurado
deliberadamente ao final da aula, a professora consegue apreender alguns sentidos que estão sendo elaborados por aquela criança, vai “aparando as arestas da aula” para que, posteriormente, consiga oferecer uma aula “remodelada”. Também “escuta o silêncio” daqueles que não conseguiram compreender o que estava posto para eles. Essa forma de escuta e ação faz com que a professora capte alguns sentidos, não todos. As crianças não acatam a aula harmoniosamente, escapam, fogem, burlam a aula, fazem outras coisas com aquilo que a professora projetou para elas.