• Aucun résultat trouvé

L’ÉVALUATION EN SCIENCES DE LA NATURE

Dans le document Chimie 11e année (Page 37-46)

Um homem solitário abre a porta a um estranho, vendedor de livros, sobretudo bíblias. Deixa-se encantar por um livro que, segundo o vendedor, não tem princípio nem fim. Após várias experiências que provaram a sua teoria, o estrangeiro conseguiu que o narrador lhe entregasse o valor mensal da sua reforma para ficar com o volume denominado “Libro de Arena”. O narrador confessa ter ficado completamente dominado pelo pesado tomo. Analisou-o de todas as formas possíveis, fechou-se ainda mais no seu pequeno mundo, com medo de partilhar o seu “tesouro”. Até que decidiu acabar com a maldição: dirigiu-se à Biblioteca Nacional, onde tinha trabalhado, e perdeu propositadamente o livro na cave, entre jornais e mapas antigos. Sentiu-se então libertado, mas, por via das dúvidas, ele próprio confessa que não voltou sequer a passar naquela rua, para não cair em tentação.

Encontramos, desde já, uma mistura de mistério, magia e terror que, juntas, são ingredientes que despertam a atenção da camada mais jovem, sobretudo na altura da adolescência. Além disso, a forma como a narrativa está construída favorece a dúvida, o

____

questionamento do leitor, em simultâneo com o narrador autodiegético, que é personagem principal da história narrada. Este assume, pois, uma focalização interna, apresenta o seu ponto de vista, limitado, dos acontecimentos. Nunca tem a pretensão de saber todos os detalhes da ação. Pelo contrário, deixa claro o conhecimento limitado acerca do vendedor e a dificuldade em lidar com a magnitude do poder do livro. É subjetivo, dado ser o seu ponto de vista que domina, as informações são veiculadas de acordo com as suas emoções e não de uma forma isenta, objetiva e não existe nenhuma testemunha dos acontecimentos, dado o caráter fechado do protagonista e o facto de só haver mais uma personagem em cena, o vendedor, que depois desaparece.

Sobre o narrador, não temos quase nenhum momento de caracterização física e o modo de caracterização é sempre indireto, pelas ações e reflexões feitas. É solitário e míope, curioso, amante de livros. Mostra-se inicialmente surpreendido e, mais tarde, enfeitiçado pelo livro. Obcecado, afasta-se de tudo e de todos, vive apenas para decifrá-lo. Consegue libertar- se e esconde-o onde não possa encontrá-lo. Esta atitude final revela um misto de coragem e de medo de voltar a cair na armadilha. Já no que respeita ao vendedor, a caracterização é física e direta, feita pelas palavras do próprio narrador: era alto, de traço indistintos, pobre, vestido de cinzento. Parecia mais velho do que era na realidade. A aparente timidez revela-se, afinal, uma certa dissimulação e esperteza, porque entrou ali com o objetivo de vender o livro. Neste momento específico, estamos perante caracterização psicológica e indireta. Ambos demonstram ter uma forte densidade psicológica, sobretudo o protagonista, o que fez deles personagens modeladas (Reis 2002: 323), que reúnem em si todas as funções actanciais da sintagmática, como prova o esquema seguinte:

Destinador: Narrador e vendedor

Objeto:

Descobrir o segredo do livro Questão dos limites do conhecimento humano Destinatário: Narrador Adjuvante: Vendedor Sujeito: Narrador Oponente: Narrador

Se nos centrarmos agora no tempo da narração, vemos que se situa na atualidade, sem grandes referências, para maior integração do leitor na magia da narração. O tempo psicológico é visível na forma como o narrador vive para o livro, para estudá-lo. Não dorme,

não vê ninguém, vive isolado do tempo cronológico, que deixa de importar perante a intemporalidade do livro. E o espaço também está ao serviço da monstruosidade do volume comprado. Há a referência ao espaço físico “calle Belgrano” (Borges 1975: 1); “calle México” (Borges 1975: 2), que situam a ação na cidade de Buenos Aires. Não há qualquer alusão à descrição da casa ou da biblioteca. Funcionam como espaços simbólicos, lugar claustrofóbico e doentio no caso do primeiro, lugar de libertação, por existirem aí milhares de livros e ser fácil “perder” o Livro de Areia, no caso do segundo.

Em termos de análise semiótica, podemos dizer que se trata de uma narrativa fechada e económica, com o já referido sincretismo actancial e o canónico retorno ao equilíbrio inicial modificado. Verifica-se a permanência dos principais momentos da ação de Ana Cristina Macário Lopes (Lopes 1987), que ampliam as provas de Courtès (Lopes apud Soares 2013: 13-14). Assim, na prova qualificadora engloba-se a situação inicial e a perturbação, em que o narrador vive tranquilo na sua solidão, até ao dia em que abre a porta a um vendedor que lhe impinge um livro no mínimo estranho. Depois, na prova decisiva, notamos que o narrador se deixa enfeitiçar pela magia que emana do volume. Fecha-se ao mundo, isola-se e vive para o livro. Trata-se da transformação de Lopes (1987). Por fim, na prova glorificadora, o herói consegue um momento de lucidez e desfaz-se do livro, voltando à paz que perdeu, mas mantendo um certo medo de passar perto do lugar onde o deixou. Este momento equivale, então, à resolução e ao estado final, que não corresponde totalmente ao equilíbrio reencontrado, na medida em que subsiste o medo de passar perto da biblioteca e deixar-se enfeitiçar outra vez.

Conclui-se que a linearidade dos contos tradicionais é mantida, na medida em que a felicidade final é mais consciente, não há uma verdadeira correspondência com o estado inicial, que era de inocência e desconhecimento. Tanto a divagação filosófica do narrador no início do conto, como a suposta ligação do conhecimento à geometria proposta pelo vendedor são bons pontos de partida para o tratamento dos limites do conhecimento humano, do fantástico na literatura e de aspetos formais / linguísticos de relevo. Por todos estes motivos, também será um dos textos escolhidos para trabalhar em contexto de sala de aula.

Dans le document Chimie 11e année (Page 37-46)