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L’énergie solaire thermodynamique

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O diálogo e a tentativa de negociação para obter um certo controle dos rumos da situação estão presentes em toda a seqüência do crime se redefinindo em função das reações do agressor: se este agride fisicamente, ameaça ou permanece indiferente e insiste em seu intento. Sem visar estabelecer uma seqüência válida para todas as situações de violência sexual, a análise das narrativas nos permite verificar que os diálogos com o agressor inicialmente tentam evitar o estupro, em seguida, quando este se revela inevitável, o objetivo pode se redefinir para o impedimento de agressões físicas graves que lesionem ou comprometam a vida. Se tais agressões ocorrem, todas as forças e apelos da mulher são para permanecer viva ou atravessar o melhor possível este momento. O quadro abaixo sintetiza alguns dos elementos mais importantes envolvidos nas atitudes e posicionamentos que caracterizam a interação da mulher com o agressor no momento da violência.

QUADRO III

Atitudes e Posicionamentos da Mulher no Momento da Violência 14 Relatos

Atitudes de Dissuasão Casos

1.Verbal

1.1 Falar ininterruptamente

1.2 Tentar envolver agressor em um diálogo

1.2 Declarar seus próprios atributos negativos ou de risco 1.3 Ameaçar

1.4 Gritar 1.5 Orar em voz alta

10 2. Física 2.1 Agredir o agressor 2.2 Tentar escapar/correr 09 3. Diálogo Interior

3.1 Pensamentos evanescentes sobre a causalidade da violência

07 Fonte: Pesquisa de Campo 2004-2006.

Assim, é muito comum que as mulheres tentem dissuadir o violador afirmando estar grávida, doente de AIDS ou menstruada ou ainda apontando o seu lugar social desvalorizado ou então digno de respeito: “mãe de família”, “mulher em vias de se casar”, “virgem” ou “pobre e sem beleza”. Falas assim tentam tocar a sensibilidade do agressor, apelar para sua “humanidade” e sua possível sensibilidade a valores sociais em comum. O próprio falar em

demasia é apontado como uma maneira de tentar levar a agressão ao fracasso, pelo envolvimento do agressor em um diálogo que pode assumir as mais variadas tonalidades, com a mulher encarnando diferentes papéis: a de uma amiga compassiva, a de alguém que tem coisas em comum com o criminoso, a de uma mãe repreendedora, de uma mulher ameaçadora e perigosa ou a de uma pessoa totalmente frágil e merecedora de piedade.

Deste diálogo dramático, não estão ausentes modalidades diversificadas de blefe em afirmações como: a iminência da chegada do marido policial em casa, o domínio de artes marciais, a presença de um vizinho policial na casa ao lado etc. A urgência, o risco de morte, a compressão temporal, a total surpresa da agressão implicam em que as falas dirigidas ao agressor surjam sem uma pré-elaboração, por isso sua seqüência e conteúdo variam, oscilam e se redefinem constantemente: indo de promessas de colaboração a falas de amizade, de ameaças a gritos por ajuda, podendo mesmo ocorrer o reconhecimento frente ao agressor de que se mentiu, para ganhar a sua confiança na veracidade do que será dito (um novo blefe) em seguida. As seqüências das falas e seu conteúdo dependerão do conjunto de conhecimentos e experiências prévias da vítima, de seu horizonte cultural, das reações do agressor e evidentemente da própria circunstância do crime. Nos casos em que a vítima é dominada por mais de um agressor e com arma de fogo, as possibilidades de diálogo e falas são muito reduzidas, pois nestes casos é muito comum que a mulher seja amarrada, vendada e amordaçada, impossibilitando suas tentativas verbais de dissuasão. Situação como esta foi assim narrada:

“Fomos conversando, por que ele {um dos agressores} conhece meu ex-namorado. Aí fomos conversando: “Ah! Você ainda está com fulano, não sei o quê”, essas conversas: “Porque eu to a fim de você, você não quer namorar comigo, não?”. Eu disse: “Rapaz, eu não quero, não, porque eu já terminei com seu colega e não quero pegar ninguém por enquanto, estou querendo ficar sozinha”. Aí ele: “Não, por que eu estou gostando de você, não sei o quê, vamos comigo aqui”. “Não, não vou, não”. Pegou na minha mão e, “Umbora, umbora”, me levando mesmo. Quando chegou no local tinha esses caras, esses três caras. Aí começaram a me usar, de tudo quanto é forma, jeito, que eu não gosto nem de, só de lembrar... Eu queria gritar,

eles amarraram a minha boca, amarraram meus olhos, um lugar todo escuro, não deu nem pra gritar. Porque eu só queria gritar, mas nem gritar eles deixaram, na hora da violência. É horrível, eu pedi até, eu pedindo por Deus que não, que Deus até me matasse, até isso eu pedi. É horrível, é horrível mesmo”.(Dalila, 33 anos, separada, desempregada).

Com muita freqüência, a plausibilidade das ameaças do agressor é demonstrada por golpes físicos como socos, empurrões, início de estrangulamento ou pela manutenção da arma de fogo ou arma branca encostada no corpo da mulher durante todo o crime. As agressões físicas, que muitas vezes são de extrema gravidade, podem ser um elemento definidor dos rumos a serem tomados pelas falas dirigidas ao agressor. Freqüentemente elas levam a mulher a se calar e desistir do enfrentamento. Assim, o grave risco da própria morte ou a de outros nas proximidades da cena, a concreta impossibilidade de fuga como quando o agressor invade a casa e ameaça ferir filhos e familiares, pode levar à “decisão” de não se realizar nenhuma oposição explícita ao agressor. Estes são também os casos em que as mulheres são preservadas de graves ferimentos:

“Eu tava dormindo. Minha tia disse que era pouco mais das três e meia, porque eu fui dormir mais de meia noite, aí, quando eu dei por mim ele já estava dentro de casa. Aí eu acordei assim, ele apagou a luz na mesma hora, eu tava sozinha e aí eu perguntei: “Quem é?”, aí ele mandou eu calar a boca senão ele ia me matar, entendeu? Tava correndo de um policial, aí eu disse que não sabia de nada, aí ele mandou eu ficar calada, aí ele disse que tinha saído da penitenciária, que ele tava abafado, que queria fazer sexo, que não sei quê. Só que eu fiquei assim em estado de choque, né. Aí eu fiquei sem conseguir respirar, e eu fiquei mesmo estarrecida, assim, sem fala, porque o tempo todo ele dizia que ia me matar, e que tinha outra pessoa lá fora, e que se eu gritasse ou fizesse qualquer movimento ele me mataria. Ele me beijava o tempo todo, ele ficava me ameaçando que ia me matar, mas me beijava, me perguntava se estava me maltratando”.(Ada, 40 anos, separada, acompanhante de idosos e vendedora autônoma).

“O que ele fez, me fez ficar com muito medo. Então assim: “Olha, tem gente lá fora! Já matei um, posso matar outro”, então... Aí eu pensei: “Se ele matou um, pode me matar”. Já que minha filha não estava no momento, então ele pode me matar aqui e ninguém viu mesmo, ele pode me matar e não tá nem aí. Essa pessoa que entrou na minha casa não teve um sexo selvagem comigo. Eu fiquei realmente... eu tô com medo. Mas não foi um sexo totalmente selvagem que ele fez, de meter alguma coisa assim, foi isso, ele teve uma relação normal comigo, ele não chegou a me machucar, me bater...”(Noemi, 30 anos, separada, empregada doméstica).

“Não tinha como eu gritar, ele tava com uma arma apontada pra mim, ele tava com uma arma apontada pra minha irmã e a outra menina que estava com a gente. Por eu ser a mais velha, de ela estar ali, porque ela tem treze anos, a menina que tava com a gente tem catorze, eu tinha vinte e um anos, então eu me sentia o quê? Protegendo elas, responsável por elas, que a gente tava ali, que eu tava ali com elas, eu era a responsável, então eu me senti, sabe, poxa, inútil de não poder ter protegido mais elas. Eu tentei proteger o máximo que eu pude, porque quando a gente tava lá eu pedi pra que eles não fizesse nada com elas, porque elas eram jovem, não tinham experiência de ter uma relação sexual, então eu pedi: “Não faça nada com elas, se tiver que fazer alguma coisa, faça comigo”. Porque pra uma pessoa que já sabe, que já teve sua experiência, é uma coisa, uma pessoa que nunca teve é outra totalmente diferente. Então, eu acho que eles, eu acho que Deus tocou no coração deles que eles não fizeram mais coisas porque eu pedi”. (Maria, 29 anos, separada, desempregada).

O Quadro IV apresenta um sumário das principais atitudes e posicionamentos adotados pelas mulheres para atravessar a agressão quando esta se demonstra inevitável.

QUADRO IV

Atitudes e Posicionamentos para Atravessar a Agressão Inevitável 14 Relatos

Atitudes Casos

1.Verbal

1.1 Tranqüilizar o agressor/afirmar cooperação

11 2.Corporal 2.1 Paralisar-se/desconectar-se do corpo 09 3.Diálogo Interior

3.1 Imaginar relação sexual normal com pessoa amada 3.2 Falar com Deus

3.3 Focalizar pensamentos para “não estar presente”

3.4 Prestar atenção a detalhes para reconhecimento posterior do agressor

10

Fonte: Pesquisa de Campo 2004-2006.

A violação, a invasão do corpo na agressão sexual representa um grave risco de colapso da “segurança ontológica” e coloca as vítimas diante da possibilidade concreta de

morte iminente. Essa possibilidade é reforçada pelas dores que podem ser graves e lancinantes e pelas ameaças proferidas sem cessar pelo agressor que usualmente se vale de arma de fogo, arma branca ou de sua força física. Contudo, a ausência de uma oposição explícita não significa uma entrega sem resistência e esta pode assumir a forma de um diálogo interior no qual a vítima elabora como se sair o melhor possível: com vida, sem lesões graves, durante e após a agressão inescapável. Imaginar que se está tendo uma relação sexual com o namorado, marido ou alguém amado aparece entre as formas de reduzir o sofrimento:

“Como não havia mesmo jeito de sair dali eu procurei pensar que ele era meu

namorado, comecei a pensar que ali era meu namorado”. (Débora, 19 anos, solteira, estudante).

Aos pensamentos também se recorre para tentar “não estar presente”, sair do corpo e da cena do crime, mantendo-os, com esforço, fixados em boas recordações ou em pessoas queridas. A repetição mental incessante de uma frase é também uma via para se “ausentar” do estupro. Com freqüência a frase mental que se repete como que em um mantra expressa o desejo de que a violência termine rápido.

Freqüentemente este diálogo interior se dirige a Deus e pode assumir a forma de oração, que se, por alguma razão, é proferida em voz alta, usualmente desperta a fúria violenta do agressor. As mulheres que assim procederam relatam as sérias agressões que sofreram como conseqüência. Ademais a presença de Deus é invocada de muitas formas e comporta vários pedidos: sair viva do crime, não ser machucada a ponto de ficar com cicatrizes, que a cena termine o mais rápido possível, que seu corpo, caso seja assassinada, possa ser localizado para não gerar sofrimento excessivo entre familiares e mesmo que Deus providencie a sua morte para que ela não seja testemunha de sofrimentos em demasia:

“Eu pensei em Deus, eu ainda pensei. Eu até falei de Deus no momento, que ele até falou que eu não falasse no nome de Deus, que ele ia me matar de qualquer jeito. Falou, falou: “Vou lhe matar de qualquer jeito, não adianta você falar o nome de Deus, não”. Aí foi que ele falou: “Aí, onde é que Deus está agora, que está deixando isso tudo acontecer?”(Léia, 23 anos, solteira, vendedora autônoma e empregada doméstica).

Ada:“Eu pensava em Deus, eu pedia muito a ele que me deixasse viva, eu só pedia pela minha vida, e que ele {o agressor} acabasse logo, pra eu ir embora dali. É muito angustiante, é um atentado, pra sua cabeça é horrível, é uma situação...” ENTREVISTADOR: Você falava com Deus em voz alta?

Ada: “Não. A minha voz não saía, eu não conseguia falar, que eu fiquei como se estivesse em estado de choque. Eu só fechava os olhos e pedia pra que ele me ajudasse, né, não deixasse acontecer nada de grave com a gente”.

ENTTREVISTADOR: No seu pensamento, você com Deus? Ada: É.

(Ada, 40 anos, separada, acompanhante de idosos e vendedora autônoma).

É neste diálogo interior, que simultaneamente é um diálogo com o Outro, onde se dão os primeiros esboços de elaboração de um sentido para a cena absurda que se está vivenciando. Em pensamentos, entrecortados pelos desdobramentos mais imediatos da agressão, em imagens mentais evanescentes, surgem tentativas incipientes de compreensão da experiência. Posteriormente, muitos destes elementos serão retomados no complexo movimento de recomposição que tem lugar após as agressões.

A este respeito, o caso de Raquel é bastante ilustrativo. Ela foi capturada enquanto voltava de uma passeata de professores no Centro Administrativo da Bahia e levada para um matagal das proximidades, onde foi estuprada após uma dolorosa resistência que lhe custou muitas lesões. Enquanto era violentada veio-lhe à mente uma cena produzida em uma sessão de regressão a “vidas passadas” realizada poucos dias antes. Nesta cena via-se como uma grande ave aprisionada e brutalmente assassinada em um remoto passado medieval. A captura pelo estuprador a fez evocar essa cena de uma “outra vida” em que foi uma ave acorrentada, aprisionada e morta. Posteriormente, essa conexão entre “vida passada” e causalidade da violência atual formaram a base de sua compreensão do estupro como um processo de purificação que visava o seu despertar para as dimensões problemáticas da sua existência. Dimensões que não vinham sendo bem conduzidas por ela, como, por exemplo, ter ficado transtornada com o término de seu namoro, o que a teria feito não perceber a aproximação do agressor e a seguir, sem pensar, tomar um atalho pelo matagal onde foi violentada.

Num outro caso, Dalila foi levada até um barracão por um amigo de infância onde foi violentada por ele e outros três homens armados. Imobilizada, amordaçada e vendada pensou que seu conturbado ex-marido, com quem rompera contra a vontade deste e contra quem estava envolvida em uma querela judicial por pensão e guarda dos filhos, seria a pessoa mais provável para envolvê-la nesta armadilha. Esta compreensão de ter sofrido a revanche de um marido enciumado exacerbou seu senso de necessidade de justiça, com a punição rápida dos agressores como condição essencial à sua recuperação.

Nestes dois casos exemplares, podemos verificar como uma série de aspectos do contexto de uma vida, mesmo no que ela tem de problemático, indeciso e enevoado é evocado, ainda no momento da agressão, como forma de explicá-la e superá-la. Mas o diálogo interior não tem apenas o caráter de consolo, pois remete às redes de relações das mulheres, podendo representar um novo elemento problemático da situação, uma nova fonte de angústia. É o que ocorre quando os pensamentos se voltam para imaginar como familiares e filhos ficarão caso o estupro resulte em morte, caso venham a ser assassinadas pelo agressor em lugares ermos e seus corpos não sejam encontrados. Ou então quando os pensamentos visualizam as conseqüências de a polícia jamais desvendar o autor do homicídio que sucedeu a um estupro ocorrido dentro de casa sem deixar pistas.

Ao mesmo tempo em que durante a agressão se esboçam as primeiras linhas de uma compreensão e superação possíveis, é aí também que nascem diversos aspectos perturbadores que remanescerão nos desdobramentos sociais subseqüentes e que se buscará dolorosamente equacionar. Alguns deles se tornam verdadeiros “becos sem saída”, labirintos, paradoxos sem solução adquirindo novos significados à medida que são recebidos por outros e apropriados institucionalmente. É o que se verifica na dúvida atormentadora quanto a se a estratégia adotada foi a melhor, se o crime não poderia ter sido evitado caso outras fossem as atitudes e, nos casos em que não foi possível ver o agressor, a suspeita constante e angustiada com relação aos homens do círculo de conhecidos, amigos e vizinhos.

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