Uma das bases do clássico estudo de Nobert Elias, O Processo Civilizador (1995), são os livros de conselhos e de etiqueta que remontavam ao século XIII, a partir dos quais o autor reconstrói todo um conjunto de valores e a configuração de um processo histórico. Em suas pesquisas sobre a Modernidade Reflexiva, Giddens (2002) também nos ensinou a ver na análise dos livros que circulam em uma época, no caso os de auto-ajuda, uma forma de explicitar diversas dimensões de relações sociais nascentes como o lugar destacado dos especialistas, dos processos de reflexividade na intimidade e a dinâmica de “desencaixe” das relações sociais. No que diz respeito ao trauma, a sua atualidade pode ser verificada no surgimento de uma série de “novas leituras”, caracterizadas por uma ênfase na terapia do trauma relacionado a eventos como guerras, seqüestros, assaltos, acidentes urbanos e naturais e estupros. Essas abordagens não necessariamente se assentam em pesquisas científicas, como as que se vê em andamento sobre o atualíssimo Transtorno do Estresse Pós-Traumático – TEPT. Mas analisá-las, tomando a sugestão de Giddens e Elias, é importante na medida em que nos ajudam a demonstrar a ausência de uma compreensão social do trauma e a explicitar uma das poderosas vias de formação da percepção dos indivíduos sobre suas experiências.
Através dessa literatura podemos compreender diversas concepções sobre a causação do trauma que o desvinculam do social e deixam transparecer uma visão ora biologizante, ora pressupondo um sujeito atomizado. A importância dessa literatura é nos revelar também uma fonte importante na formação do senso comum e, portanto, do olhar social para os estupros no mundo urbano contemporâneo. Como tentarei demonstrar, se um dos elementos na produção social do trauma ou da traumatização é o bloqueio de sua mediação social, de seu compartilhar com outros, a ênfase da literatura terapeutizante numa subjetivação intensa para a produção da cura pode muito bem ser vista como parte importante da construção social do próprio trauma, na medida em que abre as possibilidades de fortalecimento do sentimento de culpa.
Tomarei como protótipo das idéias dominantes na literatura terapêutica a obra de Levine & Fredrick (1999) O Despertar do Tigre: Curando o Trauma e, quando apropriado, farei referências a outras obras no que elas têm a complementar às interpretações aí apresentadas.
Uma das premissas de que parte a obra é de que o choque traumático ocorre quando experienciamos acontecimentos potencialmente ameaçadores à vida e que superam nossa capacidade para responder de modo eficaz. Ao mesmo tempo, a chave para a cura do trauma deve ser buscada em nossa fisiologia. Nesse sentido, o mundo animal teria muito a nos ensinar sobre o trauma, pois aí há uma adaptação fisiológica ao enfrentamento do perigo que foi perdida pelos seres humanos civilizados, e os autores tomam como exemplo a reação de impalas ao ataque do chita. Momentos antes de ser capturado, o impala cai no chão e se paralisa completamente, como se estivesse morto num estado que os fisiologistas chamam de “congelamento” e que teria duas funções básicas: a primeira seria uma estratégia de sobrevivência, pois levaria o predador a dar a presa por morta e relaxar na sua vigilância o que possibilitaria uma fuga de última hora. Por outro lado, o “congelamento” representa um estado alterado de consciência no qual o animal não sente dor, dessa forma se o resultado final for ser devorado esta será uma morte sem sofrimento. Caso consiga não ser devorado, o “congelamento” se desfaz e, com movimentos de sacudir o corpo e saltar, o impala se libera da energia congelada. Essa seria uma forma de reação a situações extremas própria dos mamíferos, inclusive do ser humano que teria preservado em seu cérebro e sistema nervoso a memória de ter sido uma presa fácil, mas sem as mesmas habilidades de seus primórdios. Esta inaptidão levaria o cérebro humano freqüentemente a duvidar de nossa habilidade para tomar
ações de modo a preservar a nossa vida e isso nos torna extremamente vulneráveis aos efeitos do trauma.
Essa descrição do processo de “congelamento” dá aos autores a chave para compreender os sintomas traumáticos que seriam fruto não do acontecimento desencadeador em si mesmo, mas do resíduo congelado de energia que não foi descarregado. Um ser humano ameaçado precisaria, à luz da análise dos autores, descarregar toda a energia mobilizada para lidar com a situação ameaçadora, caso contrário será vítima do trauma. A maioria de nós falharia exatamente aí com tentativas malsucedidas de descarga dessa energia. Um exemplo disso seriam as vítimas de estupro que segundo os autores podem passar messes e anos falando de suas experiências, revivendo-as, expressando raiva, medo e tristeza, mas sem passar pelas respostas de imobilidade primitivas e liberar a energia residual do “congelamento”. Como resultado, permanecem presas no “labirinto traumático” e continuam “incapazes de se envolver novamente com a vida, pois estão virtualmente aprisionadas por seu medo”. A partir daí se traça a via terapêutica do trauma: seria preciso evocar nossos recursos fisiológicos profundos e utilizá-los conscientemente. Os autores advertem: “Até que entendamos que os sintomas traumáticos são fisiológicos e psicológicos, seremos infelizes em nossas tentativas de curá-los”, por isso pensam que devemos ter os “animais como professores”.
Por este caminho os autores insistem em negar as afirmações difundidas em larga escala de que o trauma não pode ser curado. Segundo eles, mais do que curados os traumas podem representar verdadeiros momentos de aprendizagem. As pessoas que saem deles podem crescer pessoalmente e aprender a lidar com novas situações de ameaças que venham a enfrentar. Mas, mesmo reconhecendo o papel da comunidade e das relações afetivas nos processos de cura, o que segundo os autores há muito já é reconhecido por vertentes tradicionais, a exemplo do xamanismo, que tratam os problemas do trauma como uma questão comunitária, é verdadeiramente no plano individual que as forças terapêuticas devem ser buscadas. Aí se encontrariam as bases instintivas para lidar com situações traumáticas. O problema do homem moderno seria ter se desligado dessas raízes que formam “planos de ação inatos” para situações de perigo, e por isso é mais facilmente traumatizável. Mas esse potencial não se perdeu e os autores dão uma demonstração disso nessa história:
“Uma mulher contou-me a seguinte história que se constitui um exemplo mais complexo: ela está voltando para casa no escuro quando vê dois homens que vêm em sua direção, do outro lado da rua. Algo na aparência deles não parece certo e a mulher fica imediatamente alerta. Quando chegam mais perto, os dois homens se separam, um deles cruza a rua na direção dela, e o outro anda em círculos atrás dela. O que antes era suspeita, foi confirmado agora – ela está em perigo. Seu coração se acelera, ela se sente subitamente mais alerta e sua mente busca freneticamente uma resposta. Ela deveria gritar? Deveria correr? Para onde deve correr? O que deve gritar? As possibilidades passam freneticamente por sua mente. Ela tem opções demais para escolher, e não tem tempo suficiente para considerá-las. Dramaticamente o instinto assume. Sem decidir conscientemente o que fazer, ela de repente se vê andando com passos rápidos e firmes na direção do homem que está atravessando a rua. Visivelmente surpreendido pela audácia dela, o homem muda de direção. O outro que estava atrás dela, desaparece nas sombras quando o homem na frente dele perde a sua posição estratégica. Eles estão confusos. Ela está segura. Graças a sua habilidade de confiar em seu fluxo instintivo, essa mulher não foi traumatizada.”(Levine & Fredrick, 1999 p. 56).
A questão, então, seria encontrar formas de por estes planos de ação instintivos em funcionamento, apoiando-se na capacidade de curar a si mesmo que cada um de nós possui e que deve ser orientada para descongelar as respostas incompletas que sobrecarregam o nosso sistema nervoso.
Com estas afirmações os autores do “Despertar do Tigre” em nada divergem da ampla literatura direta ou indiretamente dedicada ao trauma, pois corroboram a mesma premissa básica: é no indivíduo que se encontra a compreensão do trauma e é dele que depende as possibilidades de superação. Se há basicamente uma mobilização do corpo nos oito exercícios que são ensinados para a superação do trauma, trata-se de um corpo que deve ser mobilizado reflexivamente e de forma solitária no banheiro ou no quarto. Nenhum dos exercícios terapêuticos preconiza a participação do outro ou um direcionamento para as relações sociais ou vínculos afetivos das pessoas14. Os exercícios da nova linha terapêutica que
14 Para ilustrar o teor dos oito exercícios terapêuticos, transcrevo aqui o exercício que é apresentado em primeiro lugar: “Por aproximadamente dez minutos de cada dia, tome uma chuveirada suave e pulsante, da seguinte maneira: exponha todo o seu corpo à água, numa temperatura fria ou morna. Ponha toda a sua consciência na região de seu corpo onde a estimulação rítmica estiver focalizada. Deixe que sua consciência se dirija para cada parte de seu corpo conforme você se move. Ponha as costas de suas mãos sobre a água; depois as palmas e os pulsos; depois os dois lados do seu rosto, ombros, antebraços etc. Assegure-se de incluir cada parte de seu corpo: cabeça, testa, pescoço, peito, costas, pernas, pélvis, quadris, coxas, tornozelos e pés. Preste atenção à sensação em cada área, mesmo que esta esteja, adormecida, dolorida ou ausente. Enquanto você estiver fazendo isso diga: “ Esta é minha cabeça, o meu pescoço etc. Eu lhe dou boas-vindas”. Outro despertar semelhante é provocado ao dar pancadinhas suaves e rápidas nas diversas partes de deu corpo. Novamente, se for feito com regularidade por algum tempo, isso irá ajudar a restabelecer o senso de um corpo com sensação na pele.” (Levine & Fredrick, 1999 p. 65).
assim surge – e que se chama “Somatic Experiencing” – visam desbloquear a energia represada no congelamento do trauma com o acesso aos nossos recursos instintivos.
Como conclusão, é importante destacar que os livros de auto-ajuda radicalizam a dimensão subjetiva do trauma, reforçando a responsabilidade individual pela superação. Tal radicalização, como sugerido por autores como Giddens (2002) e Vigarello (1998), parecem ajudar a compor uma “ambiência social de culpabilização” das pessoas que vivenciam o infortúnio, principalmente por colocar sobre tais sujeitos a responsabilidade pela sua auto- superação. Mas nossa análise estaria incompleta sem uma discussão de outra versão do trauma, desta vez uma que apresenta um cunho mais “científico”: a que diz respeito ao Transtorno de Estresse Pós-Traumático. Veremos que apesar da mudança de ênfase e do apoio em pesquisas, esta versão se guia pelos mesmos pressupostos básicos das concepções apresentadas até aqui.
O TRANSTORNO DE ESTRESSE PÓS-TRAUMÁTICO: A NEUROSE DE