A contribuição de Fleck para a área da saúde pode ser indicada pelo desenvolvimento de um novo procedimento para a obtenção da vacina contra tifo a partir da urina dos enfermos com essa moléstia em Lwów, na Ucrânia, durante a II Guerra Mundial, quando ficou confinado no gueto dessa cidade,e, mais tarde, nos campos de concentração de Auschwitz e Buchenwald. O nome de Ludwik Fleck tornou-se conhecido por sua teoria sobre as “descobertas” médicas modernas, pelo fato de que ele não as encarava como eventos isolados, e sim como decorrências de contextos históricos e culturais. No entanto, o alcance da grande contribuição de Fleck para a filosofia da ciência só seria compreendido após sua morte, em 1961, em Ness Ziona, Israel.
Quando Ludwik Fleck nasceu, em 1896, sua cidade natal Lenberg pertencia ao Império Austro-Húngaro. Depois da Primeira Guerra integrou a Polônia independente, e o nome mudou para Lwów. (Depois de 1945, ficou sob o domínio soviético; hoje está na Ucrânia e é identificada pelo nome de Lwiw.) Em seu apogeu, a cidade era um grande centro judaico. Antes da guerra, 110 mil pessoas, um terço da população era judeu. Filho de ricos comerciantes, Fleck estudou medicina na Universidade de Lwów. Formou-se em 1920, e especializou-se em microbiologia com o professor Rudolf Weigl, um especialista mundial em tifo, doença que matou milhões na Europa Oriental. (FINGUERMAN, 2005).
Médico e epistemólogo polonês fez pesquisas em microbiologia e bioquímica, produzindo 37 trabalhos científicos no período de 1922 a 1939. A produção de Fleck no período de 1946 a 1957 é considerada a de maior densidade, orientando quase 50 teses de doutorado e um grande número de habilitações; publicou um total de 87 trabalhos em revistas polacas, francesas, suíças. Além disso, assistiu e deu conferências na Dinamarca, França, Rússia, Estados Unidos e Brasil. (SCHÄFER; SCHNELLE, 1986).
Fleck prosseguiu sua jornada intelectual. Segundo seu filho Ryszard (Aryeh, em Israel), passou quatro anos escrevendo um livro mais revolucionário que os artigos, abordando práticas médicas e científicas em geral. Ao concluir o trabalho, a escuridão nazista já envolvia a Europa. Na metade dos anos 30, nenhum editor alemão publicaria um livro escrito por um judeu, mesmo que em alemão. Fleck foi à Suíça editar a obra por um selo respeitável. (FINGUERMAN, 2005).
Em 1935, publicou sua obra epistemológica denominada “Entstehung und Entwicklung einer wissenschaftlichen Tatsache” (“A Gênese e o Desenvolvimento de um Fato Científico”29), sendo editados somente 600 exemplares, na Suíça, em alemão. Segundo Condé (2005, p. 124), “tendo circulado precariamente, e, sobretudo, entre os profissionais da área médica, até ser ‘encontrado’ por Kuhn, o livro de Fleck não recebeu nenhuma atenção significativa de filósofos ou historiadores da Ciência”. Principalmente em função de sua nacionalidade, sua obra é praticamente esquecida. Schäfer e Schnelle (1986) argumentam que o destino do livro de Fleck estava indissoluvelmente unido ao seu autor e a sua época. Segundo Finguerman (2005), é possível também supor que as idéias de Fleck fossem muito revolucionárias e difíceis de entender, e que a comunidade científica estivesse pouco disposta a aceitá-las, uma vez que o autor desenvolveu seu trabalho de forma solitária. Ele não as discutiu com quem não as compreendessem, nem com sua mulher, Ernestina Waldman.
Thomas Kuhn faz menção à monografia de Fleck no prefácio de “Estrutura das Revoluções Científicas”, no ano de 1962, afirmando que o livro de Fleck é um ensaio que antecipa muito das idéias nele encontradas.
Em 1976, no prefácio da obra de Fleck para o inglês (Genesis and Development of a Scientific Fact), Kuhn assinala que teve contato com a monografia a partir de uma referência a Fleck em nota de rodapé no livro de Hans Reichenbach denominada “Experience and Prediction”, publicada em 1938. Kuhn torna mais explícita a influência de Fleck em sua obra, mas completa: “eu não estou certo do que eu tomei e se tomei alguma coisa mais concreta do trabalho de Fleck, embora eu obviamente possa [ter tomado] e indubitavelmente teria [tomado]” (KUHN apud KOSLOWSKI, 2004, p. 13).
29 A tradução do título da monografia de Fleck é realizada de formas distintas. A mais usual refere-se
a “Gênese e o desenvolvimento de um fato científico”. Conde (2005) traduziu como “A emergência e o desenvolvimento de um fato científico”; Koslowski (2004) como “A origem e o desenvolvimento de um fato científico”; e Lima (2003) como “Surgimento e desenvolvimento de um fato científico”.
Koslowski (2004) afirma que Kuhn é muito evasivo nessa confissão, afirmando que:
A influência de Fleck na obra de Kuhn é muito profunda, e pensamos que, mesmo que haja raras remissões explícitas, podemos relacionar vários conceitos, explicações e métodos usados por Kuhn, para o entendimento da atividade científica, com os de Fleck. Mais ainda, as semelhanças nos levam a tomar como princípio metodológico de leitura e clarificação da obra de Kuhn a máxima de que este último tomou criativamente, quase por completo, o espírito e as idéias de Fleck. (KOSLOWSKI, 2004, p. 13-14).
Conforme Koslowski (2004), a dívida de Kuhn em relação a Fleck data de 1957, quando Kuhn publica “A Revolução Copernicana: a astronomia planetária no desenvolvimento do pensamento ocidental”, uma vez que, de modo semelhante, a análise de Fleck sobre o desenvolvimento do conceito de sífilis fez o percurso da passagem do sistema ptolomaico ao copernicano.
Destaca que Kuhn, no prefácio da tradução inglesa da obra de Fleck, quis mostrar mais as diferenças do que as semelhanças entre sua obra e a de Fleck.
Kuhn apela para a dificuldade da língua alemã, na qual foi escrito o livro de Fleck A origem e o desenvolvimento de um fato científico, como também a assimilação das discussões da medicina e da bioquímica [...]. Kuhn chega à minúcia de narrar: ‘os traços na margem da minha cópia do livro [de Fleck] sugerem que eu respondi originalmente ao que já tinha estado em minha mente’ [...]. Cremos que Kuhn estava consciente das enormes contribuições de Fleck para sua obra, contudo insistiu, neste prefácio, nas diferenças e ressaltou as semelhanças ao acaso. As idéias fleckianas, segundo Kuhn, foram apenas ‘insights’ que o ajudaram em seus pontos de vista. Nesse prefácio elencou com parcimônia as ‘possíveis semelhanças’ entre ele próprio e Fleck. (KOSLOWSKI, 2004, p. 52).
Delizoicov et al (2002) discutem a epistemologia de Fleck e traçam comparações com a obra de Kuhn. Argumentam que Kuhn se apropria literalmente das categorias incomensurabilidade e círculos eso/exotéricos apresentados por Fleck. Afirmam que as demais categorias, embora parecendo manter o mesmo sentido Kuhn as denomina distintamente.
Assim, paradigma tem paralelo com estilo de pensamento; comunidade científica com coletivo de pensamento; ciência normal com extensão do estilo de pensamento; revolução científica com transformação do estilo de pensamento e anomalias do paradigma com complicações da teoria dominante. Poderíamos caracterizar a teoria dos paradigmas de Kuhn como um caso particular da teoria de estilo de pensamento em Fleck, aplicada ao conhecimento produzido por comunidades denominadas de maduras, como foi o estudo realizado por Kuhn. (DELIZOICOV et al, 2002, p. 64).
Análise semelhante foi realizada por Koslowski (2004), porém detalhando um pouco mais semelhanças e diferenças entre as categorias de Fleck e as de Kuhn. Cita como exemplo “a extensão do conceito de ‘paradigma’ é menor do que a de ‘estilo de pensamento’, o qual não fica restrito apenas ao de uma comunidade
científica, já que Fleck o utiliza para comunidades diversas, como, por exemplo, a religiosa e a política.” (KOSLOWSKI, 2004, p. 32). Argumenta também que o conceito de paradigma é muito semelhante ao conceito de estilo de pensamento de Fleck, partilhando com esse não só as virtudes, mas as dificuldades.
O mesmo autor identifica que a categoria complicação apresentada por Fleck é equivalente ao que Kuhn chama de anomalias. Já a transformação de um estilo de
pensamento de Fleck é o que Kuhn chama de revolução. “Contudo, o sentido de
revolução é mais forte do que em Fleck, pois ele concebe a ciência em uma perspectiva continuísta, onde interagem vários estilos de pensamento”. (KOSLOWSKI, 2004, p. 62).
Diferentemente da noção sugerida pela SSR, as revoluções não apresentam mudanças bruscas. Kuhn as concebe agora semelhantes aos processos de evolução biológica. Diríamos que Kuhn se aproxima do ponto de vista fleckiano neste último estágio de seu pensamento. Alguns autores defendem que, para Fleck, o desenvolvimento do conhecimento científico não muda por rupturas devidas a revoluções drásticas, mas pela contínua migração de pensamento, isto é, pela sucessão de diferentes ‘estilos de pensamento’ (cf. BRORSON e ANDERSEN, 2001). Se Kuhn tivesse explorado mais o aspecto da tradução parcial, que estava presente na obra de Fleck, teria evitado várias críticas que foram feitas a SSR, principalmente quanto ao conceito de incomensurabilidade [...]. (KOSLOWSKI, 2004, p. 117).
A análise de Koslowski (2004) mostrou que Kuhn tomou daqueles pensadores mais do que poder-se-ia supor das suas poucas referências a eles. Em particular, defendeu que o autor mais significativo para a doutrina da Estrutura foi Ludwik Fleck, apesar de que as idéias de Kuhn sobre a "ciência normal" parecem ter muito em comum com as de Polanyi. “Podemos afirmar que boa parte da enorme influência (direta ou indireta, por admiração ou questionamento) que Kuhn exerceu e exerce sobre o pensamento filosófico contemporâneo, equivale a uma influência mediata, sobre esse pensamento, por parte daqueles autores”. (KOSLOWSKI, 2004, p. 129).
Fleck é considerado pioneiro na abordagem construtivista, interacionista e sociologicamente orientada para a Ciência; estudou as práticas de laboratório e de investigações enfocadas no crescimento, estabilização e difusão de conhecimento científico. (LÖWY, 2004, p. 437). Ao longo de sua vida fez críticas ao empirismo lógico, sendo sua produção contemporânea à de Popper e Bachelard. Seu reconhecimento como epistemólogo é póstumo.
Segundo Schäfer e Schnelle (1986), Fleck não foi só médico, uma vez que dedicou grande parte de seu tempo ao estudo da filosofia. Nos anos 1920 e 1930
dedica as horas vespertinas para a leitura de obras filosóficas, sociológicas e da história da ciência.
Fleck conviveu num clima científico manifestamente interdisciplinar, pela existência de vários círculos científicos mais ou menos solidificados com a participação de jovens cientistas de diversas disciplinas, contribuindo para a elaboração de suas concepções, uma vez que circulava entre os distintos círculos existentes. Condé (2005, p. 139) destaca que Fleck constrói a sua teoria da ciência a partir de sua própria experiência, mas também se consolida a partir de quatro pilares: “1- a crítica ao Positivismo Lógico; 2- a influência recebida pela Escola de Filosofia e História da Medicina Polonesa; 3- a Sociologia, sobretudo de K. Mannhein de quem Fleck extrai o conceito de estilo de pensamento; 4- pelo darwinismo”. Löwy (1994) também destaca a importância da Escola de Filosofia e História da Medicina Polonesa sobre as obras de Fleck, apesar de ele não fazer referência à escola em seus trabalhos.
A primeira publicação de Fleck sobre epistemologia data de 1927, intitulada “Sobre algumas características especiais do pensamento médico”, resultante de uma conferência realizada em 1926 na Sociedade de Amigos da História e da Medicina de Lwów. Nesse artigo discute, entre outros aspectos, o caráter cooperativo, interdisciplinar e coletivo da investigação científica (SCHÄFER; SCHNELLE, 1986), ou seja, analisa a estrutura interna de uma disciplina.
Fleck vê o pensar médico em uma tensão permanente entre o desejo de unificação teórica, que somente se pode lograr por meio de abstração, e a necessidade de concretizar as afirmações, o que obriga a multiplicidade de planejamentos opostos. O saber médico é como uma corrente sem fim em que certas idéias metódicas e pensamentos direcionados acabam formando pontos de vistas dominantes. Porém estes são sempre meras concepções específicas e temporais que se transformam dinamicamente em novas orientações. (SCHÄFER; SCHNELLE, 1986, p. 20).
Evidenciam-se as primeiras idéias de Fleck sobre o processo de produção do conhecimento, contrapondo-se a um conhecimento pronto e acabado e assinalando as transformações que o conhecimento sofre na medida em que novas investigações são realizadas. Em sua primeira obra, Fleck “reconhece na práxis de investigar e de explicar médicos a origem dos critérios específicos de cada época. Nos processos de aparição e desaparição destas orientações dominantes vê tanto uma sucessão como uma coexistência de ‘critérios conceituais incomensuráveis’ [...] historicamente entrelaçados”. (SCHÄFER; SCHNELLE, 1986, p. 20, grifo dos autores).
Em 1929, Fleck publica o seu segundo artigo denominado “Sobre a crise da realidade”, no qual generaliza suas afirmações sobre a medicina e as ciências naturais em geral, introduzindo as principais categorias de sua epistemologia: “os conceitos de pensamento ‘acordo com um estilo’, ‘estilo de idéias’ e ‘estilo de pensamento’” (SCHÄFER; SCHNELLE, 1986, p. 20). Analisa também de forma sistemática a relação entre o objeto, a atividade cognitiva e o marco social da ciência. Ao analisar a ciência, identifica três fatores sociais que influenciam as atividades cognitivas: 1- o peso da formação, 2- a carga da tradição, afirmando que todo o conhecer novo está condicionado pelo já conhecido e 3- a repercussão da sucessão do conhecer: “o que uma vez já tenha sido formulado em forma de concepção limita o campo de movimento das concepções construídas sobre ela” (SCHÄFER; SCHNELLE, 1986, p. 21).
Em relação ao peso da formação estes autores assinalam:
Os conhecimentos se compõem em sua maior parte do aprendido, não do novo. Mas, tem que levar em conta que na transmissão de conhecimentos durante o processo de aprendizagem, se produz de forma imperceptível um deslocamento do conteúdo cognitivo; o conhecimento transmitido não é exatamente o mesmo para o emissor que para o receptor, o conhecimento se transforma ao passar a outra pessoa. (SCHÄFER; SCHNELLE, 1986, p. 20).
Fleck em sua principal obra, “Entstehung und Entwicklung einer wissenschaftlichen Tatsache” (A Gênese e o Desenvolvimento de um Fato Científico), realizou um estudo de caso sobre o desenvolvimento do conceito de sífilis e na história da reação de Wassermann para a detecção da sífilis. Na medida em que descreve as diferentes explicações e interpretações dadas ao surgimento da enfermidade desenvolve suas idéias sobre o processo de construção coletiva do saber científico, construindo assim, as bases epistemológicas de sua teoria. Argumenta que as concepções da ciência moderna são também produtos surgidos historicamente e que não podem ser entendidos sem recorrer a seu desenvolvimento histórico.
Fleck (1986) afirma que a reação de Wassermann não foi “descoberta” apenas por um cientista, ou por um pequeno grupo de cientistas, mas pelo produto de um esforço coletivo da comunidade de serologistas; além disso, moldada pelas múltiplas interações dessa comunidade com outros grupos sociais (pacientes, clínicos gerais, políticos, etc.).
O problema central dessa obra, escrita durante quatro anos, abordando práticas médicas e científicas em geral, versa sobre a origem e o desenvolvimento de um fato científico. Analisando o conceito de sífilis ao longo da história, argumentou como os fatos são construídos sociologicamente, identificando e caracterizando os distintos Estilos de Pensamento existentes sobre a sífilis, reconstruindo historicamente o conceito de sífilis, analisando as concepções vigentes e as transformações sofridas neste campo do saber. À medida que havia mudanças no Estilo de Pensamento em relação às concepções da sífilis, havia uma mudança também na compreensão de sua etiologia e tratamento.
Para Lorenzano (2004, p. 92), Fleck “não somente contribui ao desenvolvimento de uma ‘filosofia especial’ da ciência – em uma época que predominava a visão geral e inespecífica – senão que ao mesmo tempo introduz uma nova concepção, histórica e social, da ciência”.