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Dans le document Application Programmer's Reference Manual (Page 120-124)

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Encerramos o Diário com o último registro do livro de Cartas (2002). Caio F. ainda conseguiu escrever mais uma crônica (“Tirando o pó do velho 1995”), publicada em 7 de janeiro de 1996, no Estadão. Quarenta e oito dias depois, a escrita e o fio de vida se rompem: o escritor falece, aos 47 anos, no

Hospital Moinhos de Vento, em POA, de “insuficiência respiratória, 20 dias” após a derradeira internação, segundo o obituário de O Estado de São Paulo (26.2.96).

Em 12 ciclos, sintetizamos de que forma a trajetória de vida se faz literatura ou vice-versa. Aqui, simbolicamente, a partir dos 13-14 anos até a morte. Apontamos o gosto pelas viagens, primeiro na “pele” de Maurício, depois, seguindo a evolução cronológica-espacial do escritor em outros de si, como o exilado de “Lixo e purpurina”, os das crônicas, os das cartas, os dos poemas e romances.

Do narrador de Dulce, indica-se a alternância de pronomes pessoais em que o escritor confirma seu alter ego. Repetimos: “O homem mais triste do mundo – ele que era eu” (grifos nossos). Assim como em “Lixo”, nas cartas, há referências sobre a prisão em Londres pelo furto da biografia de Virgínia Woolf, o trabalho como modelo vivo numa escola de artes, dentre outros. Matérias- primas de vida transmutadas em literatura, que inclui a visão mais positiva de vida diante do letal HIV+.

Consideramos o Ciclo II como o duplo divisor de águas do início da carreira profissional em dois sentidos: a jornalística, como foca237 da primeira equipe da Veja, em São Paulo, e a do escritor que conquistou significativos contatos literários, incluindo Hilda Hilst. A primeira temporada no Rio é outro trampolim que serviu também para trocas de experiências com outros escritores consagrados. Os fragmentos do “milagre” da voz atestam não só a intimidade com Hilst como aponta o novo rumo existencial, com mais autoconfiança, ao contrário da preocupação de anos atrás transposta no alter ego Maurício: a voz “sairia fina ou grossa? Talvez aquela mistura de tons, com súbitas quebras” [...] (2007, p. 131).

Sem a exaustão de repassar ciclo por ciclo, o Diário de bordo evidencia que, apesar de tantas idas para São Paulo, Rio, Casa do Sol, London, Paris, Estocolmo, Madri etc., as vindas foram sempre para Porto Alegre, para a casa dos pais. Caio F. não teve casa própria e em cada desemprego, falta de $$ ou doença sempre retornava para o seu porto seguro. Antes da Aids, diga-se de passagem, com o errante desejo de partir de novo, mas sabendo que poderia

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retornar. Talvez por isso, sobre os trilhos de Paris a Bordeaux, enquanto escuta a canção Marienbad, Caio F. cita sua releitura do zen budista Ryokan: embora viva e durma sempre pensando em viagens, “o sonho que sonho/ é sempre o mesmo:/ um lar”. Entretanto, o mais curioso é que a música que ouve –

Marienbad – é a mesma do protagonista de “Bem longe”..., o mais nômade,

portanto, é o avesso dos versos zen. Mesmo assim, a atuação de Caio F. coincide com a da personagem: ouve a mesma canção, com o mesmo tipo de aparelho (walk-man) e viaja num vagão de trem em solo francês.

O Diário comprova o quanto a teia do Passo está imbricada a Santiago de Boqueirão. Por mais que tenha viajado Brasil-Europa, retornar ao lugar antropológico é um alento, um reencontro de si/outros, porque “é da própria raiz que o vivo arranca a sua energia”, reiterando Caio F., quando volta da última viagem dos Pampas e da sua existência. Mesmo doente, retorna ao útero, revê e fecha o ciclo, no Diário, com o simbólico número 12. Exemplo de outro período está indicado no Ciclo IV (drogas & rock’n’roll), quando se revigora das viagens lisérgicas.

Sintetizamos a face performática do work in progress no Ciclo X – Outras rotas –, com a “Pausa para passar Vickvaporub” [...] E, no parágrafo seguinte, com a rubrica tão teatral: “(À margem: TRECHO SÉRIO: ATENÇÃO)” (2002, p. 261). No mesmo Ciclo, mas “Em solo brasileiro”, está a “Pausa para comer um caqui”. Nota-se que o contexto é diferente das cartas do Embarque

II, escritas, no geral, durante fechamentos de periódicos. Aqui, nos dois

primeiros casos, Caio F. estava em Pariiii – “traduzida! Francesa-a!” – e, na última citação, já em São Paulo, após receber “Bem longe de Marienbad”, da França, além da capa “french” de “Dulcê Veigá”. Ou seja, no topo da carreira internacional. De sua musa, Christiane F., o fragmento faz parte da espatifada e urbana crônica “Anotações depois do Carnaval”238

. Vale a transcrição até pelo contexto:

[...] Saudade do que nunca vi, de quem ainda não amei: os caminhos são muitos e nós estamos vivos. Se os caminhos estiverem fechados, abrimos no braço. Se quiserem nos matar, não morreremos. Em riste, em guarda, a lança de Ogum arrebenta o baixo-astral. Aumento o som: quero ver Christiane F. (2012, p. 147).

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Querer ver Christiane F. em volume mais alto, é vencer os desafios, no braço, no muque, com ironia e humor. Outra face performática é a alteração sobre o primeiro encontro com Clarice Lispector. Primeiro, ele se parece com Cristo. Quinze anos depois, se reencena em Quixote, o que parece mais apropriado.

Enfim, o painel estilhaçado demonstra a força de vida inscrita na obra, a sofreguidão e a obsessão pela escrita. O amigo, escritor e jornalista Eduardo Bueno, confirma: “Caio flertou permanentemente com os limites de sua vida e de sua obra. Ao longo de sua trajetória literária e existencial repleta de coerência e altivez, conheceu-as todos. Percorreu as sarjetas e ribalta”. [...]. Mais:

Bateu as portas do céu e arrombou as portas da percepção. Como na trajetória coletiva de seus companheiros de geração, a jornada eventualmente levou-o a roçar os umbrais do inferno. Caio conheceu os paraísos artificiais e o desregramento dos sentidos, viu as cores das vogais e o bailado das consoantes. Saiu da viagem fortalecido. Fez de sua obra um diário de bordo (BUENO, 1996, ZH).

Diário de bordo que, no nosso caso, deixa de ser metáfora para se

materializar em trajetória de vida literária. A concretização só foi possível após montar as peças do quebra-cabeça da rede-obra-romance de vida. Certamente, há ainda pontas a serem conectadas a outras. O Diário é apenas um exercício em rede, com pontos de vista móveis, em deslocamentos bruscos. Portanto, não se descartam outras estruturas.

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