Chapter 3.2. File Control (DFHFC Macro Instruction)
76 CICS/VS APR! (ML)
[1968, Porto Alegre] – [Passei nas provas da Abril. Vou para São Paulo
trabalhar na Veja193. Tranquei a matrícula na faculdade]194.
Massaguaçu, 13 de março de 1969 – Estou passando uma temporada
genial na casa de Hilda195 e Dante (2002, p. 355). [...] Fui despedido da Abril. A
Veja196 está dando prejuízos [...] desde que foi lançada, vende pouquíssimo [...]. Para a Abril inteira não ir para a falência [...], entraram [em] economia feroz, despedindo meio mundo. Quem não tinha pistolão foi mandado embora. Saiu um terço do pessoal (umas mil pessoas), entre os quais [...] eu – que não tinha ninguém para me proteger (2002, p. 355).
190 Dados da abertura do conto “O príncipe sapo”, republicado em Ovelhas negras (2002a).
CFA explica que no internato no IPA, em novembro de 1966, recebeu um exemplar da revista
Cláudia, com o conto publicado e uma carta de Carmem da Silva, a quem “O príncipe”... foi
dedicado depois. “A carta explicava: Carmem queria me proporcionar a surpresa da publicação, a primeira. Foi naquele momento que me tornei definitivamente escritor. Exceto por algumas palavras e parágrafos, não mudei mais nada nesta história. Tentar “melhorá-la” seria atraiçoar a inocência dos meus 18 anos que eu tive” (2002a, p. 43).
191
Fragmento de Limite branco. Data fictícia.
192 Data fictícia, baseada na fase da escrita de Limite..., com dados do “Diário” de Maurício. 193 A Editora Abril publicou anúncio na revista Realidade, em 1967, “convocando os
interessados a fazer os testes” para formar a primeira redação “de uma nova revista, a Veja” (CALLEGARI, 2008, p. 37). Após a entrevista inicial de seleção, “apenas 11 gaúchos [entre eles CFA] foram chamados para o 1º Curso Abril de Jornalismo”, ocorrido de março a maio de 1968, em São Paulo (DIP, 2009, p. 121). CFA foi aprovado. A Veja começou a circular em setembro de 1968.
194 Em 1967, CFA “inicia o curso de Letras e Artes Dramáticas” na UFRS, mas não conclui.
Disponível em: http://www.pucrs.br/delfos/?p=caiofernando. Acesso em: fev. 2015.
195
Hilda Hilst e CFA se conheceram por intermédio da jornalista e atriz Ana Lúcia Vasconcelos que já frequentava a Casa do Sol, por fazer parte da Companhia Teatro Rotunda, desde 1968. Disponível em: http://casadosolhildahilst.blogspot.com.br/p/cap-2.ht.
196
A versão dessa carta enviada aos pais é contraditória. Há registros de que Caio recebeu “um telefonema da redação da Veja, dizendo que oficiais do Dops estavam procurando por ele” [...] “e foi se esconder na Casa do Sol” (CALLEGARI, 2008, p. 42).
Porto Alegre197, 13 de junho [de 1969] – Recebi uma carta de Carmem Silva, diz ela que gostou dos meus livros que levou (o romance198, a novela e um dos contos) e deu-os à Editora Expressão e Cultura. O cara ainda não se manifestou, se não der pé ela vai encaminhá-los a outras editoras (2002, p. 372). Tudo é muito vago, mas tenho esperança que [...] estoure alguma noticelha boa. Maria Helena Cardoso também escreveu [...]. Reforça o convite para que eu fique na casa dela, em julho (2002, p. 373).
III.1.3.1 Cenas cariocas I
21 de agosto – Rio [1969] – Estou aqui desde domingo [...]. O ap. de
Maria Helena Cardoso, onde estou, fica em Ipanema [...]. Caí no meio de escritores, os mais famosos [...], e estou conhecendo um por um: Clarice Lispector, Nélida Pinõn, Reynaldo Jardim, Maria Alice Barroso, Walmir Ayala [...] Me sinto feliz. (2002, p. 374). Estou no quarto que pertenceu a Lúcio Cardoso, o grande escritor irmão de Maria Helena. Isso me comove: [penso] na minha infância e não compreendo bem como subi, como de repente me tornei um escritor. [...] Escolhi fazer aquilo que gosto – mesmo que não compreendam ou não aceitem (2002, p. 375).
III.1.3.2. Milagre na voz
Casa do Sol, 29 de outubro [1969] – MINHA VOZ199 MELHOROU!!!
Uma mudança completa: estou com a voz muito bonita, grave, forte, perfeitamente normal. [...] Hilda e Dante me deram [...] um GRAVADOR. Gravei minha voz vários dias, [...], pensava em fazer exercícios, melhorar aos poucos. Até que ontem à noite, de repente, a voz MUDOU. [...] fiquei umas duas horas
197
Com a saída da Veja e da temporada na fazenda de Hilst, Caio retorna à casa dos pais em Porto Alegre, mas mantém as correspondências literárias.
198
Trata-se de Limite branco. Não há registro das duas outras referências.
199
Desde a adolescência, a voz de Caio era “esganiçada”. A mudança ocorreu quando o escritor tinha mais de 20 anos. “Muitos anos depois, em entrevistas e depoimentos, Caio e Hilda acrescentariam a versão da figueira. A mudança de sua voz teria vindo após ter feito três pedidos à figueira existente no terreno de Hilda Hilst, durante a realização de um ritual. Depois de fazer os pedidos, Caio foi dormir e no dia seguinte acordou com a nova (e definitiva) voz. Os outros dois pedidos também foram atendidos: ganhar um prêmio literário com o Inventário do
irremediável, que terminara de escrever ali mesmo em Campinas e, na versão posterior,
conseguir fazer uma viagem à Europa”. [...]. “Não se sabe se o gravador referido por Caio na carta é o mesmo que Hilda usava para captar vozes dos mortos no quintal da fazenda”. (MORICONI, 2002, p. 383, nota de rodapé). Em Limite branco, o alter ego Maurício também se preocupa: “A voz sairia fina ou grossa? Talvez aquela ridícula mistura de tons, com súbitas quebras. Como sou ridículo” (2007, p. 131).
falando ao gravador, e a voz continuava ÓTIMA. Hoje de manhã mostrei à Hilda, ela ficou felicíssima. Dante também [...]. Me sinto felicíssimo, isso resolve [...] os meus problemas, [...] posso falar com quem quiser, ninguém vai rir nem achar esquisito. A única explicação é que se trata de um milagre.
Noite – Vou sábado ao Rio. [...]. Essa voz torna tudo mais fácil, me sinto com coragem para enfrentar qualquer coisa (2002, p. 383-384).
Campinas, 19 de setembro [1969] – Cheguei ontem à noite do Rio. [...]
Pensei bem [...] e decidi ficar no Rio. [...] Eu quero escrever – e somente no Rio existem possibilidades de se conseguir alguma coisa. Escolhi a literatura como caminho e tenho que aceitar todas as coisas resultantes dessa escolha (2002, p. 378).
Rio, 10 de novembro de 1969 – Adoro o Rio. A voz está ótima. Não
tenho problemas de comunicação ou de qualquer outra espécie (2002, p. 388).