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Projetos realizados no contraturno têm se mostrado, de modo geral, mais interessantes e envolventes que as atividades realizadas durante as aulas regulares, sobretudo nos últimos anos, nos quais diferentes ações educacionais foram feitas a partir dos TCAs na Rede Municipal de Ensino. Embora seja possível trabalhar com projetos nas aulas de Língua Portuguesa, as atividades realizadas no horário regular sofrem, em muitas vezes, com as exigências estabelecidas pela grade curricular e pelo funcionamento da escola. Nos projetos, cujo funcionamento ocorre no contraturno, não há a mesma rigidez quanto ao conteúdo a ser trabalhado, facilitando a presença de temas que partem da necessidade e interesse dos alunos. Além disso, dentro da estrutura desses tipos de projetos, a possibilidade de envolver alunos de diferentes turmas e séries é maior e a relação professor-aluno, geralmente, costuma ser muito próxima.

Parece-nos que há uma inclinação em considerar o trabalho feito “fora” da sala de aula regular como algo mais eficaz que aquele feito “dentro” dela. Se, por um lado, a ideia de projetos do contraturno se revela como algo deslumbrante, por outro, oferece um grave problema no ponto de vista dos duzentos dias letivos, já que pode existir um destaque para

os projetos realizados fora do horário regular das aulas, ao mesmo tempo em que o turno é esquecido.

Levando em consideração o projeto Arte e Intervenção Social e considerando a quantidade incrível de atividades realizadas no contraturno de diversas escolas e o fato de parecer que há a impossibilidade de suas realizações no turno, propomos a seguinte reflexão: é possível ser poeta também no horário regular? Talvez, nossas ações possam configurar propostas para o Ciclo Autoral dentro do turno ou, ainda, para o ensino em tempo integral.

É perceptível que a ideia do turno, da maneira que ela se revela atualmente em grande parte das escolas32, precisa ser repensada. No programa Café Filosófico, produzido pela TV Cultura em parceria com a CPFL Energia, Cortella (2004) descreve de forma bem humorada a realidade de muitas salas de aula:

você pega um menino ou uma menina de doze, treze anos de idade (...) e coloca durante seis horas, cinco horas do dia sentado em uns bancos de pau, vendo alguém escrever com uma pedra em outra pedra, falando para ele coisas interessantíssimas, coisas fundamentais pra existência humana. Por exemplo, o nome dos sete primeiros reis de Roma (...) qual é a capital da Tanzânia, qual que é o peso atômico do bário, como é que você identifica a diferença entre um adjunto adnominal e um complemento nominal, quais são os afluentes da marja esquerda e direita do Amazonas, como é que se identifica uma mitocôndria, como é que você calcula a trajetória de uma bala de canhão, que é uma coisa que tem tudo a ver com a existência, e culmina tudo isso mandando ele ler uma obra estupenda para ele agora, que é Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco. Sabe qual é a solução? Sabe o que é que eles querem fazer? Se eles puderem, eles escapam. Tem lugares que têm porta para as pessoas não entrarem: teatro, cinema, estádio de futebol; e tem lugar que tem porta pras pessoas não saírem, que é escola, penitenciária e hospício. São lugares onde você não necessariamente têm as pessoas com toda a adesão àquilo. Já imaginou? Já pensou? Ela ficaria horas em uma sala. Se ela puder, ela escapa; como não pode escapar, o que ela faz? Ela escapa mentalmente, ela não presta atenção.

Disponível em: <http://www.institutocpfl.org.br/cultura/2008/12/26/a-crianca- em-seu-mundo/>. Acesso em: 04 abril 2016.

Acreditamos que essa realidade, tão presente em muitas salas de aula, poderá ser superada, não em movimento de dentro para fora, e sim, num movimento de fora para dentro, isto é, a partir de projetos no contraturno. Nossa hipótese é de que esses projetos, aos poucos, transformarão, de certa forma, a dinâmica das escolas, influenciando, assim, o turno regular. Talvez, chegaremos a um momento em que será inevitável que as aulas regulares se deixem influenciar por essa nova perspectiva de aula baseada em projetos.

No que se refere ao Arte e Intervenção Social, em que essa prática pôde influenciar nas aulas regulares? Seriam os poetas do contraturno as mesmas pessoas dentro do turno? Consideramos que nossas posturas, formas de interagir, pensar e refletir mudam a partir de determinadas situações que vivemos. Há um valor nessa experiência, pois os poetas tiveram a oportunidade de fazer a diferença no contexto em que vivem e de inspirar seus colegas (e até outros professores e funcionários) da escola, a partir da experiência estética que tiveram durante a realização do projeto. Assim, é possível afirmar que atividades realizadas fora do turno, potencialmente, influenciam no que é feito no turno.

No entanto, caso determinado projeto apresente apenas um caráter episódico e exerça suas atividades de modo isolado, sem propor interações com a escola e com a comunidade, ou ainda se limite, ao longo dos anos, a realizar encontros somente no contraturno e para uma quantidade específica de alunos, sua aplicação pode não ser tão significativa ou impactante dentro do contexto escolar. No que concerne à relevância dos projetos de contraturno, consideramos que eles são parte de um processo maior, isto é, a perspectiva do contraturno conduz para a perspectiva do ensino em tempo integral, tanto que a adesão de algumas escolas ao ensino integral foi resultado de um longo processo de projetos, isto é, de experiências educacionais que surgiram depois da implementação do Programa Mais Educação São Paulo.

A escola que adere ao ensino de tempo integral, geralmente, é uma escola que, de certa forma, está acostumada com uma rotina dinâmica que foge dos padrões tradicionais, ou seja, trata-se de uma escola que está acostumada com os portões abertos grande parte do tempo, que tem movimentos mais constantes de entrada e saída, que incentiva a autoria, que realiza eventos e é aberta à comunidade. Sendo assim, o desafio da educação integral é sistematizar esse dinamismo e superar a hierarquização que ainda existe entre determinadas atividades.

Os projetos de contraturno, embora sejam interessantes por ampliar as atividades escolares, podem apresentar uma “armadilha”, pois ampliar atividades e tempo de permanência na escola não configuram educação integral, já que é preciso integrar e ampliar o currículo também. Contudo, as unidades educacionais que se mobilizaram desde o surgimento dos primeiros projetos realizados no contraturno (tais como o de Xadrez e Recuperação Paralela) até o Programa Mais Educação São Paulo apresentam um contexto mais favorável para a aplicação do ensino de tempo integral.

A iniciativa de criar oficinas, clubes de leitura, treinos esportivos, projetos artísticos, entre outras atividades, no contraturno, ajuda a criar um contexto em que talvez seja mais possível uma perspectiva educacional diferente, dinâmica, que oferece um novo currículo e que possibilita o aluno a aprender (e a ensinar) a partir atividades que contenham a ideia de projetividade33 e que se valem de diferentes espaços da escola. Por conseguinte, a aplicação do ensino em tempo integral, atualmente, pode ser facilitada a partir de um desdobramento de projetos realizados no Programa Mais Educação São Paulo, pois, ampliar apenas o tempo de permanência, sem repensar a estrutura atual da sala de aula, sem revisar o currículo e sem oferecer alternativas diferentes de estudo ao aluno, deixando mais horas sentado diante de uma lousa, não é viável e fará com que o aluno, como nos explicou Cortella (2004), sinta uma vontade ainda maior de “escapar”.

No que concerne ao ensino de tempo integral, um projeto artístico, semelhante ao Arte e Intervenção Social, poderia colaborar para a formação das atividades curriculares, para a formação de um novo currículo. A Portaria N.º 7464, de 03 dezembro de 2015, da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, estabelece, a partir de 2016, o programa São Paulo Integral, que visa estimular e implementar a expansão dos territórios e espaços educativos e da jornada diária dos educandos para, no mínimo, sete horas diárias. Com esse programa, a organização curricular já existente será complementada por mais dez horas-aula semanais de atividades curriculares de expansão, compreendendo os seguintes “Territórios do Saber”: I - Comunicação, Oralidade e Novas Linguagens; II - Culturas, Arte e Memória; III - Orientação de Estudos e Invenção Criativa; IV - Consciência e Sustentabilidade Socioambiental e Promoção da Saúde; V - Ética, Convivência e Protagonismos; VI - Cultura Corporal, Aprendizagem Emocional e Economia Solidária34. Segundo a portaria, para contemplar os “Territórios de Saber”, a Unidade Educacional deverá optar pelas seguintes experiências pedagógicas: Academia Estudantil de Letras, aprofundamento de estudos, artes visuais, atividade física e recreativa, canto coral, cinema e vídeo, circo, Clube de Leitura, contação de histórias, cordel, cultura popular, dança, educomunicação, fotografia, Hip Hop, Imprensa Jovem, música, sarau, entre outras atividades35.

33 Sobre o conceito de projetividade, conferir o Capítulo 1, item “1.4 Concepção de Educação: uma abordagem política e social”.

34 A expansão curricular está prevista apenas para o Ciclo de Alfabetização. Defendemos que o ensino em tempo integral, nessa perspectiva, pode ser aplicado nos Ciclos Interdisciplinar e Autoral.

35 O programa São Paulo Integral lista trinta e nove experiências pedagógicas e permite que outras sejam realizadas, desde que estejam de acordo com o Projeto Político-Pedagógico da Unidade Educacional e sejam

Diante dessa nova configuração de ensino proposta, consideramos que muitas das atividades desenvolvidas durante o projeto Arte e Intervenção Social poderiam ser aplicadas nos ‘Territórios do Saber”. Basear-se nas incríveis experiências de projetos realizados no contraturno pode ser um dos caminhos para ampliar e mudar o currículo, bem como a realidade da sala de aula.

Para o professor, trabalhando individualmente, é difícil modificar determinados procedimentos. Dowbor (2014, p. 83) nos lembra que um grande número de pessoas buscou introduzir modificações na área educacional, ao mesmo tempo que pouco mudou. Para o economista, é “impressionante a solidão do professor ante a sua turma, com os seus cinquenta minutos e uma fatia de conhecimento predefinida a transmitir”. Trata-se, assim, de uma mudança sistêmica que não se dá de forma simples e não se realizará por meio de soluções individuais, pois isso se refere a “um tipo de impotência institucional, em que uma engrenagem tem dificuldade de alterar algo, na medida em que depende de outras engrenagens”. Nesse sentido, afirmamos que a mudança da realidade da sala de aula regular e a realização de projetos, sejam no turno ou não, dependem do constante diálogo e trabalho coletivo entre educadores, funcionários, gestão e, principalmente, dos alunos, visto que a voz deles é fundamental nesse processo.

desenvolvidas com metodologias, estratégias e recursos didático-pedagógicos específicos, em diferentes espaços e territórios educativos.

CAPÍTULO 4

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