Em 2011, durante a gestão do Prefeito Gilberto Kassab (PSD)2, a Secretaria
Municipal de Educação de São Paulo, sob orientação do então Secretário Alexandre Alves Schneider (PSD), regulamentou o Programa Ampliar (Portaria n.º 2750/11)3, a fim de
implementá-lo, gradativamente, nas unidades educacionais. O Programa teve por proposta ampliar o tempo de permanência do aluno na escola por meio de ações educacionais que
1 Produzimos uma série de clipes de Spoken Poetry (Poesia Falada) com os alunos-poetas. O texto de Millene Jordison (pseudônimo de Millene Augusto Felipe), intitulado “Um poema resistente”, foi gravado e está disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=oA27wMzvv_Y>. Acesso em 17 out. 2016.
2 Gilberto Kassab foi Prefeito da cidade de São Paulo de 2006 a 2012.
3 O Programa Ampliar tratava-se da realização de projetos no contraturno escolar, a fim de que os alunos tivessem a oportunidade de ampliar seu tempo de permanência na escola. As ações deveriam ser articuladas ao Projeto Político Pedagógico (PPP) da Unidade Escolar e possuir caráter educacional, envolvendo atividades de recuperação de aprendizagem, bem como atividades de cunho social, esportivo ou cultural.
promovessem a melhoria do desenvolvimento e das aprendizagens dos alunos, o protagonismo, o enriquecimento curricular e a melhoria do convívio, além de assegurar momentos de organização de estudos de recuperação paralela e potencializar o uso de todos os recursos e espaços disponíveis ampliando os ambientes de aprendizagem para alunos e professores.
A partir dessas orientações, em 2013, na E.M.E.F. Professor Aurélio Arrobas Martins, elaboramos o projeto Explorando as Mídias, cujo funcionamento ocorria no contraturno escolar4, garantindo, assim, maior tempo de permanência de alguns estudantes na escola. Uma de suas propostas era melhorar a competência comunicativa dos educandos, por meio de um trabalho de escrita em redes virtuais. Criamos o blogue “Mentes Curiosas” e a fanpage de Facebook “Eu penso assim, é bem melhor”5, a fim de que os alunos publicassem seus textos nessas plataformas. Além dessa proposta, formamos um grupo musical com os alunos, que ensaiava durante alguns encontros para se apresentar em determinados eventos da escola.
No entanto, durante essa fase inicial do projeto, a escrita foi tratada como final de um processo, tínhamos diferentes estratégias para que, após um trabalho diferenciado com os alunos, suas produções textuais melhorassem no que tange a aspectos formais da língua. Somente no ano seguinte, nosso trabalho com língua tornou-se uma estratégia para atingir outros saberes, relacionados às relações interpessoais e à socialização, ou seja, o fato de desenvolver a competência comunicativa do aluno transformou-se o meio do processo, não mais o fim. Desse modo, decidimos exercer uma abordagem interdisciplinar a partir do trabalho com textos literários.
Essa mudança de concepção do projeto surgiu por conta das novas orientações educacionais da Secretária Municipal de Educação que, em 2014, sob orientação do ex- Secretário Cesar Callegari (PSB), lançou o Programa Mais Educação São Paulo (Portaria nº 5.930/13), cujo intuito é a realização de projetos que repensem o entorno e a realidade local das comunidades escolares e resultem, por meio das ações dos próprios educandos, em formas de intervenção social, compreendendo, assim, as unidades educacionais como polos de desenvolvimento cultural, cognitivo e ético. O Programa Mais Educação São Paulo
4 A proposta do Programa Ampliar era voltada ao contraturno. Sendo assim, nossa iniciativa consistia em aulas realizadas no contraturno escolar, das 12h às 13h30, às terças-feiras e sextas-feiras.
5 É possível acessar o blogue “Mentes Curiosas” e a fanpage “Eu penso assim, é bem melhor” por meio dos links: <blogmentescuriosas.blogspot.com.br> e <www.facebook.com/pensamentos.uteis>. Contudo, não realizamos mais postagens em nenhuma dessas plataformas.
propôs para a Rede Municipal de Ensino de São Paulo uma nova configuração para o Ensino Fundamental de 9 (nove) anos em 3 (três) ciclos de 3 (três) anos: Ciclo de Alfabetização, Ciclo Interdisciplinar e Ciclo Autoral. No que tange ao Ciclo Autoral, que envolve os anos finais do Ensino Fundamental II (7ºs, 8ºs o 9ºs anos), prioriza-se a questão da autoria por meio da aprendizagem por projetos. Assim, junto com o Programa Mais Educação São Paulo, a Secretaria Municipal de Educação implementou o Trabalho Colaborativo de Autoria (TCA), projeto realizado ao longo do Ciclo Autoral e idealizado como forma de devolutiva à problematização da comunidade local. A elaboração do TCA, que é produzido pelo aluno e acompanhado sistematicamente por um professor orientador, deve levar em consideração que
1. A formação da identidade só é possível com o outro, de tal modo que o indivíduo torna-se um ser social, com obrigações éticas e morais, em um processo constante de desenvolvimento da responsabilidade consciente e ativa.
2. A permanência no mundo de forma consciente significa saber intervir e não apenas constatar.
3. A participação compreende aprender de forma compartilhada, superando a ideia de participação concebida como a soma de participações individuais. (SÃO PAULO, 2014, p. 80)
Nesse período de mudanças educacionais e, sobretudo, políticas, os textos dos alunos que participavam do projeto Explorando as Mídias começaram a se apresentar de forma mais crítica e reflexiva. O amadurecimento da escrita dos alunos-poetas resultou na publicação do primeiro volume do livro Entre versos controversos6, cujo intuito é desvendar, por meio da palavra, “o curioso mundo jovem em que vivemos” e “mostrar a visão que temos de tudo o que nos cerca” (ALMEIDA, 2014, p. 10). A obra foi lançada no dia 10 de junho de 2014 em um restaurante localizado próximo à escola. O evento contou com a presença de pais, alunos, ex-alunos, professores de diferentes unidades educacionais, etc., envolvendo, assim, a comunidade escolar. Desse momento em diante, repensamos as concepções do projeto, mudando, inclusive, seu nome para Entre Versos Controversos. Ainda no que se refere ao livro, desde o título, até a capa, a decisão era tomada pelos alunos-poetas, uma vez que, desde o início do projeto, buscamos uma relação democrática e dialógica entre professor e aluno.
6 Entre versos controversos trata-se da primeira coletânea de poemas escrita pelos alunos-poetas. No ano seguinte, eles lançaram o segundo volume Entre versos controversos: o canto de Itaquera. A primeira obra contou com o patrocínio do Movimento Nossa Itaquera, já o segundo foi uma produção totalmente independente.
Na fase inicial do projeto, nossa ênfase esteve no trabalho com a adequação da linguagem no âmbito digital; no entanto, com a chegada do Programa Mais Educação, decidimos trabalhar a autoria com os alunos-poetas, focalizando a natureza social e ideológica da escrita, a fim de que eles pudessem apresentar, ao final do processo, um trabalho que permitisse refletir sobre a identidade deles e sobre a comunidade em que estão inseridos. À vista disso, pensamos na composição de um novo livro, em um segundo volume, uma obra que, voltando-se para a realidade dos estudantes, discutisse e analisasse os aspectos e perspectivas da periferia de Itaquera. Contudo, para concretização do projeto, precisaríamos, antes, contemplar alguns objetivos.
O primeiro passo foi garantir uma abordagem interdisciplinar por meio da leitura de textos literários, uma vez que as leituras que fazíamos serviram para dialogar com diferentes áreas do saber, tais como a Filosofia, Política, Sociologia, etc., áreas não contempladas na grade curricular do Ensino Fundamental II. O trabalho com textos literários permitiu, ainda, o exercício do pensamento complexo, crítico e reflexivo e ajudou-nos a apresentar aos alunos realidades diferentes das suas e contextos de outras épocas. Selecionamos alguns poemas de Bertolt Brecht (1898-1956), Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski (1821-1881), entre outros, a fim de incentivar os alunos-poetas a criarem formas de expressão artísticas que pudessem contribuir para uma reflexão mais profunda sobre a sociedade.
Nesse sentido, utilizamos as linguagens poéticas, a fim de (i) potencializar diálogos e colaborações entre os estudantes, (ii) instigar a sensibilidade, de modo que os alunos refletissem sobre a importância de se pensar no outro, no papel do indivíduo no mundo e em como é possível contribuir para a melhora de nossa sociedade e (iii) promover o protagonismo e produções culturais. Tais objetivos contribuíram para a constituição de identidades e construção do conceito de alteridade nos alunos-poetas. Questões relacionadas ao preconceito e às diferenças foram tratadas por meio dos estudos que fazíamos dos textos literários.
Mais sensíveis devido ao envolvimento com a arte, os alunos-poetas começaram a ter um olhar mais íntimo e crítico para realidade de Itaquera, região que sofre por conta de infraestrutura, estereótipos e preconceitos. Há um problema inerente às periferias: serem reconhecidas mais pelos seus problemas do que por sua história e seus valores. Percebendo isso, os alunos-poetas sentiram a necessidade tratar dessas questões e, assim, a poesia deles
começou a ter um cunho político-social mais forte, em cuja natureza estava presente uma crítica ao mesmo tempo mordaz e sutil sobre a desigualdade existente no bairro.
O segundo livro dos alunos-poetas nascia, portanto, da necessidade de mudar essa realidade, denunciar o que estava errado, derrubar os muros que separam as pessoas, mostrar a beleza que há no canto da periferia e resgatar, dessa forma, a identidade da região em que vivem. Embora exista uma proposta temática no livro, ela não é rígida ou cristalizada, antes se multiplica de diversas formas, numa conjunção de prismas que se voltam para um objetivo comum a todos no projeto: transformar, por meio da arte, a sociedade na qual estamos inseridos. No início de 2015, época em que começamos a selecionar e a trabalhar os textos que seriam publicados no segundo livro, mudados o nome do projeto, que era Entre Versos Controversos, para Arte e Intervenção Social, por acreditarmos que esse nome retratava de forma mais clara nosso objetivo: intervir socialmente a partir da nossa arte. Essa mudança de concepção em nosso projeto resultou na publicação de Entre versos controversos: o canto de Itaquera.
O lançamento oficial7 da obra ocorreu no dia 12 de dezembro de 2015, na Casa da
Memória8, mais conhecida como Casa do Chefe da Estação. Trata-se de um centro cultural
localizado no centro de Itaquera. Para o evento, realizamos um sarau em que os alunos poetas cantaram e recitaram poemas. Outros músicos e poetas também se apresentaram. Diferentemente do primeiro lançamento, que fora realizado em um restaurante, notamos que, no segundo, o evento teve um viés muito mais artístico, pois, do começo ao fim, houve música e recitação de poemas, isto é, cerca de três horas com apresentações artísticas.
As ações realizadas entre os anos de 2013 e 2016 no projeto Arte e Intervenção Social, renderam três premiações no Prêmio Paulo Freire de Qualidade do Ensino Municipal:
7 O lançamento oficial do livro Entre versos controversos: o canto de Itaquera foi organizado por nós. Realizamos outros lançamentos do livro, porém em eventos feitos por outros coletivos. Tais eventos foram relatados no item 3.2 História do projeto e concretização das ações.
8 A Casa da Memória é uma construção da década de 1930. Por muitos anos, o espaço abrigou o escritório do antigo encarregado da Estação de Trem, daí seu antigo nome Casa do Chefe da Estação. Ao desativar a estação, a Secretaria Estadual dos Transportes de São Paulo transferiu o imóvel para a Prefeitura. Após o final de 2012, a subprefeitura restaurou o local e a “Casa do Chefe da Estação” passou a ser frequentada por artistas e moradores do entorno, iniciando, assim, atividades culturais da região. O Centro Cultural Casa da Memória surgiu com o objetivo de retratar as lembranças que os antigos moradores do bairro guardam, sendo em fotos, peças e nas diferentes formas de registro. O espaço também é utilizado para realização de atividades gratuitas, tais como, oficinas de dança, aulas de inglês, capoeira, exercícios para a terceira idade, etc. Essas e outras informações estão disponíveis no site da Prefeitura de São Paulo: <http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/subprefeituras/itaquera/noticias/?p=48680>. Acesso em: 20 set. 2015.
o terceiro lugar na edição de 2014 e a primeira colocação em 2015 e 20169 (ANEXO B10). A partir da primeira premiação, o projeto teve mais visibilidade, o que fez com que nós recebêssemos convites para apresentar nosso trabalho em escolas, saraus, entrevistas, etc., como será explicado no próximo item deste capítulo. Embora tenha ocorrido muitas mudanças durantes esses anos, o trabalho com o grupo musical dos alunos continuou em todas as fases do projeto, até porque as atividades que envolviam música incentivavam a participação dos alunos e animavam nossos encontros.
Para melhor entender como se deu a construção das coletâneas de poemas dos alunos, discutiremos quais pressupostos envolveram sua elaboração e de que maneira ocorreu sua concretização, além de explicarmos sobre a história do projeto, as dificuldades para sua realização e quais foram seus possíveis impactos na escola e na vida dos alunos que dele participaram.