Na produção da Folha, o ano 2014 foi o que mais acentuou a estigmatização dos beneficiários do PBF, tendência que se mantém entre 2015 e 2018, mas com menor sistematicidade. No Jornal, a partir de seu discurso predominantemente político, as nomeações para se referir aos beneficiários são menos “técnicas” das observadas no MDS. A nomeação “pobre” é a mais frequentemente usada para se referir aos beneficiários do PBF, aparecendo em 22 matérias. Em algumas notícias esta categoria é destaca no título (227: “Não há nenhuma perseguição aos mais pobres, diz Temer sobre ajuste fiscal”; 253: “Um terço dos muito pobres tem emprego, aponta pesquisa mundial da OIT”; 192: “Cortar gastos prejudica os mais pobres?”; 193: “Estado não deve atender apenas os pobres”; 185: “Bolsa Família é único gasto que chega aos pobres, aponta organização do comércio”). Apesar de que categoria pobre pode ser enquadrada no discurso da pobreza monetária (RAMOS, 2016), repertório de caráter técnico, o uso na FSP difere do observado no site do MDS. Enquanto o MDS se refere à pobreza como uma situação, a Folha utiliza a estratégia da personalização, atrelando as características desta situação a essência dos sujeitos, os quais são classificados como “pobres”, o que traz efeitos negativos automáticos sobre suas identidades.
Outras categorias, menos frequentes acionadas na produção da Folha, tem maior conotação moral negativa. Entre os termos observados estão: miserável, carente, desamparado, fraco, frágil, de baixo, necessitado, humilde, vulnerável, preguiçoso encostado, vagabundo, irregular e desonesto. Estes termos, apesar da pouca freqüência de utilização, configuram junto com a categoria pobre um cenário em que os beneficiários são predominantemente definidos de forma negativa em termos de sua identidade. Por exemplo, nas matérias 60 (“Aumento da taxa de miseráveis está dentro da margem de erro, diz ministra”), 63 e 95, os beneficiários são categorizados através do termo “miseráveis”. Novamente este termo, que refere a uma condição situacional (“miséria”) é utilizado pela FSP em sua versão personalizada (“miseráveis”), atrelando esta situação às características dos
sujeitos. Como observamos em anterior pesquisa (BARADIT, 2016) o termo “miserável” significa para os próprios beneficiários do PBF uma condição relacionada a situações inumanas e degradantes. Cabe lembrar que este vocabulário pejorativo, impróprio do jornalismo profissional, somente pode ser acionado através da estratégia da animação, da repetição de falas de outros atores sociais.
O estigma de que os beneficiários são totalmente dependentes continuou sendo repetido ocasionalmente em algumas matérias após 2014, preconceito acompanhado pelo mito que os beneficiários são desestimulados a procurar emprego, o que os aproxima da categoria negativa “preguiçoso”. Este mito já foi rejeitado a partir da evidência empírica (CAMPELLO, 2013). Entre 2014 e 2018, ao menos 11 matérias (76, 79, 42, 43, 52, 1, 238, 241, 253, 206, 188) veicularam a ideia de que os beneficiários são totalmente dependentes do Programa. Nas matérias se acionam termos/frases como dependência, falta de autonomia, legião de dependentes, os que dependem do PBF, os que vivem do PBF. Por exemplo, na matéria 241, o Jornal reproduz um discurso do presidente Michel Temer, em que o mandatário se refere aos beneficiários como os que “vivem basicamente do PBF”. A notícia 253, “Um terço dos muito pobres tem emprego, aponta pesquisa mundial da OIT”, cita um estudo de uma organização internacional prestigiosa (estratégia acreditação de categorias) e utiliza a afirmação “1/3 dos muito pobres tem emprego”, para afirmar que o restante 2/3 “depende de programas como o PBF”. Finalmente, a matéria 188, “Bolsa Família escraviza as pessoas, diz Maia em Washington”, de 2018, reproduz uma fala do presidente da Câmara Deputados, que critica duramente ao PBF, definindo-o como um programa que escraviza as pessoas e que não permite que possam “caminhar com suas próprias pernas”, gerando dependência do Estado.
Outro mito reproduzido em algumas notícias da Folha é o do incentivo à natalidade, ideia que sugere que os pobres são sujeitos irracionais e aproveitadores da assistência social, que utilizariam esta prática para conseguir mais benefícios. Este mito já foi rejeitado a partir da evidência empírica (CAMPELLO, 2013). Basicamente três matérias promovem este mito (42, 43, 254). Particularmente, a notícia 254, “Contra queda de natalidade, ministra quer ampliar Bolsa Família da Itália”, utiliza intencionalmente e de forma descontextualizada o nome do Programa para se referir á realidade italiana, em que um programa similar ao PBF seria usado pelo governo para incentivar as famílias a terem mais filhos. Este uso retórico do nome “Bolsa Família” permite associar, sem motivos, o Programa ao aumento da natalidade.
Finalmente, queremos ressaltar três matérias (42, 43, 44) que se referem à reportagem “Boyhood Bolsa Família”, produzida pela Folha de São Paulo. Nela se faz um seguimento durante 10 anos (2005-2015) a duas famílias beneficiárias da região metropolitana de Recife. Na reportagem, o Jornal escolhe utilizar de forma gráfica o RE de Relatos de Casos. A matéria 42, “Beneficiários do Bolsa Família trilham caminhos opostos ao longo de dez anos”, retrata o local de moradia das famílias como uma “favela miserável, violenta e salpicada de lixo”. As famílias são definidas como exclusivamente dependentes do PBF ou de rendas do governo, cronicamente afetadas pelo desemprego ou emprego precário e com variados problemas sociais, como baixa escolarização ou gravidez adolescente. Ressalta-se na matéria também o “inegável poder eleitoral” do Bolsa Família. A frase do título que destaca que as famílias “trilharam caminhos opostos” não é casual, já que diferencia as famílias em termos de como elas decidiram investir os recursos do PBF, situação que traz novamente a discussão sobre o uso, adequado ou não, por parte das famílias, do benefício recebido.
Na matéria 43, “Família Dumont. Os Dumont investiram em conquistas materiais”, se descreve uma família que optou pelas melhoras materiais (casa sólida, eletrodomésticos, piscina), mas que teria “falhado” na criação dos filhos, devido ao abandono escolar e gravidez adolescente. A reportagem destaca que na família Dumont “todos recebem Bolsa Família”. Particularmente, se destaca a fala de uma das filhas, vítima da gravidez adolescente, que sendo consultada sobre que aprendeu quando era beneficiária de um programa social, responde: “bagunçar e fazer menino”. Na matéria 44, “Família Silva. Os Silva priorizaram a
educação e alimentos”, a reportagem oferece o exemplo contrário, o “bom exemplo” da
Família Silva, que a diferença dos Dumont, optaram por investir em alimentação e educação dos filhos. Mas, os Silva, são retratados como uma família “100% dependente do Estado”.
Apesar de que a reportagem tente incluir algumas visões sobre o PBF, como a da ministra Campello, que elogiam alguns aspectos do Programa e desmitificam alguns preconceitos, a reportagem, em geral, tende a reproduz vários estigmas sobre os beneficiários, entre eles a ideia da dependência total do Programa, do incentivo a natalidade e de que seriam politicamente instrumentalizados. Por outra parte, a seleção intencional de famílias que constituem “casos extremos”22 (alta dependência, falta de emprego, famílias numerosas) mostra uma imagem negativa e unidimensional da realidade dos beneficiários do PBF. Também, a eleição de duas famílias que “trilham caminhos opostos” propõe uma
22 A estratégia de maximização (POTTER, 1998), recorre a casos extremos para entregar evidências irrefutáveis
dicotomização moral dos beneficiários: os que investem “bem”, no capital humano, na saúde e educação nos filhos; e os que investem “mal”, no conforto material, mas deixando de lado a educação o bem-estar dos filhos. O mito do uso indevido do benefício do Programa cruza a seleção dos casos na reportagem, estabelecendo uma comparação moral entre as famílias. Os mecanismos de seletividade utilizados pela reportagem retratam negativamente o Bolsa Família, através de uma visão enviesada e reducionista. O autor, no final da reportagem, afirma que o Programa é necessário para no contexto brasileiro, mas que os beneficiários prefeririam ter um emprego, mesmo que opções de “portas de saída” são difíceis no momento, devido à “situação em que Dilma nos colocou” (aludindo á crise econômica).
Em conclusão, a série de estigmas e mitos veiculados pela Folha colocam aos beneficiários do PBF em um lugar moral e socialmente desqualificado (PAUGAM, 2003, 2007; PROCACCI, 1991), atribuindo-lhes características negativas como serem imorais, irracionais, preguiçosos, encostados, vagabundos, desonestos, alienados, dependentes, etc. A FSP recorre ao RE Relato de Casos com uma função específica, a saber, construir uma imagem parcial e negativa (POTTER, 1998) dos beneficiários do Bolsa Família. Este posicionamento serve principalmente para apoiar o argumento da dependência econômica do Programa e da dependência política do PT. Neste sentido, vemos uma complementaridade entre os argumentos da dependência, da corrupção e do populismo, expostos anteriormente.