Neste tópico, com base nos estudos do autor Maingueneau (2008, p. 17) - o qual expõe que se situar no lugar em que vêm se articular um funcionamento discursivo e sua inscrição histórica, contribui para pensarmos as condições de uma „enunciabilidade‟ passível de ser historicamente circunscrita - buscaremos compreender como funciona o discurso do aluno no texto escrito para o jornal escolar, dando conta de percebermos as representações discursivas explicitadas nesse texto. Esse estudo depende de analisar o lugar onde o discurso se desenvolve e a inscrição histórica, da mesma forma a que se referiu Maingueneau porque importarão no chamado interdiscurso, como discutiremos a seguir.
Ao analisar textos dos discursos jansenistas (que se voltam para a meditação, recolhimento e silêncio) e humanista devoto (que contempla aspectos da natureza), Maingueneau (2008) mostra que mesmo que os autores de cada uma dessas correntes do catolicismo tenham sua maneira própria de escrever textos, esses refletirão não apenas o que é próprio do autor, mas também os discursos do momento histórico no qual se encontra e os da comunidade na qual vive. Conforme explicita:
A vocação enunciativa supõe uma harmonização mais ou menos estrita entre as práticas individuais do autor e as representações coletivas nas quais ele se reconhece e que comunidades mais ou menos amplas verão, por sua vez, encarnadas nele. Se o escritor pensa escapar à instituição, indo produzir em alguma tebaida, ele fará exatamente o que se espera dele, de sua inscrição enunciativa. (MAINGUENEAU, 2008, p.133)
O autor enfoca os espaços em que o discurso se realiza e os relaciona com as representações que envolvem o discurso. Nas palavras de Maingueneau (2008, p.15),
“entenderemos por „discurso‟ uma dispersão de textos, cujo modo de inscrição histórica permite definir como um espaço de regularidades enunciativas.”. Podemos dizer que tal “dispersão”, na acepção em que a palavra é tomada pelo teórico, implica que o discurso se espalhe no espaço e apareça como o lugar onde os textos resgatam discursos que já se misturaram porque se alimentaram da história de uma época e se organizaram em novos enunciados.
Os espaços em que são negociados os discursos não são, para o autor, apresentados como lugar de permutas ou substituições. Estão, pois, mais próximos do que o autor chama de interdiscurso, que para esse estudioso tem precedência sobre o discurso. Maingueneau (2008, p.20) afirma: “isso significa propor que a unidade de análise pertinente não é o discurso, mas um espaço de trocas entre vários discursos convenientemente escolhidos”. O autor designa com prioridade o interdiscurso em relação ao discurso, não se tratando apenas de algo que precede o discurso, mas que é necessário, porque o teórico mostra que é no interdiscurso que se realizam trocas discursivas dispostas propositalmente por resultarem de escolhas ligadas às situações. A individualidade ou a coletividade moldam essas situações, isto é, para Maingueneau um discurso só existe para outro discurso, porque outro discurso o precedeu. Assim se revela um tipo de identidade tal como ele afirma
A interpretação forte exige mais, já que coloca o interdiscurso como o espaço de regularidade pertinente, do qual diversos discursos são apenas componentes. Em termos de gênese, isso significa que esses últimos não se constituem independentemente dos outros, para serem, em seguida, postos em relação, mas que eles se formam de maneira regulada no interior do interdiscurso. Seria a relação interdiscursiva que estruturaria a identidade. (MAINGUENEAU, 2008, p.21)
A afirmação de Maingueneau traz a questão de que a identidade de um discurso tem um movimento harmônico com outros discursos e não há que se falar em independência de discurso porque, à medida que os discursos acontecem, eles se ligam a outros discursos, constituindo e recriando inúmeros outros. Esse raciocínio nos leva a compreensão de que a “liberdade” de escolha de um discurso estaria de fato aprisionada à relação com outros discursos. Tal fato é destacado por Maingueneau (2008, p.53) quando explica que “... os Sujeitos não escolhem „livremente‟ seus discursos, mas falta explicar que esse discurso seja precisamente um discurso, que possua as propriedades de estrutura correspondentes a esse estatuto.” É esse último aspecto que nos interessa nesta pesquisa, porque à medida que os discursos são construídos e que os enunciados são produzidos no texto, é possível pensar que o aluno possa considerar que esteja escolhendo este ou aquele discurso, no entanto a partir da
fundamentação teórica que adotamos temos em comum entre Maingueneau, Osakabe, Authier-Révuz e Pêcheux que não se escolhe o próprio discurso, uma vez que um discurso é produzido como resposta a outro discurso como forma de uma reação. Dessa maneira, o entendimento sobre o interdiscurso à luz de Maingueneau (2005) nos levou a verificar em que medida nos textos dos alunos é possível perceber a que discursos estão respondendo. Essa percepção se exemplifica em nossa análise, especialmente nas passagens do texto em que o aluno se posiciona.
Maingueneau (2008, p.60) postula que um discurso está inscrito em um conjunto de particularidades que o teórico chamou de “natureza do discurso” para expor que este depende das instituições que o sustentam. Relacionando tal aspecto com esta pesquisa pudemos investigar de que maneira aqueles comentários “clandestinos”, a que nos referimos na introdução, ficaram representados nos textos do jornal escolar, isto é, de que forma os diferentes valores das variadas culturas de classes sociais distintas apareceram para confirmar, negar ou colocar em dúvida o que o aluno experimentou na experiência que obteve no espaço escolar. E dessa forma, a interdiscursividade surgiu além da superfície discursiva e das regras que produziram o enunciado. Podemos recorrer, nesse sentido, a ideia de Maingueneau quando explica que
a formação discursiva não seria um conglomerado mais ou menos consistente de elementos diversos que se uniriam pouco a pouco, mas sim a exploração sistemática das possibilidades de um núcleo semântico. Aliás, essa ideia se harmoniza plenamente com nossa hipótese do primado da interdiscursividade e com o que acaba de ser dito sobre as implicações da noção de competência discursiva. (MAINGUENEAU, 2008, p.62)
O autor afirma não se aprofundar nos dois discursos, jansenista e humanista; uma vez que o que quer é perceber onde se pode chegar com as implicações teóricas e metodológicas relacionadas por tais discursos. Por isso, afirma que os enunciados são produzidos pela soma de “semas” cuja função é a de influenciar os objetos a que um discurso faz referência. Um exemplo que o autor traz para explicar essa questão é a figura de Deus tal como é definida no discurso jansenista. Maingueneau (2008, p.70-71) postula que neste discurso, “... „Deus‟ é posto em solidão absoluta, a relação de /identidade/ deve ser pensada aqui como identidade a si mesmo; de fato, Deus é imediatamente posto como /Alteridade/ em relação a um objeto afetado por todos os semas contrários...” Neste caso, o discurso jansenista coloca Deus em oposição a mundo e isso refletiria na construção dos outros objetos presentes no discurso jansenista, que manteriam a confirmação da oposição.
Segundo Maingueneau (2008, p.78), no jansenismo, existe o chamado princípio de „Concentração‟ sobre um Ponto-de-Origem. Para explicá-lo, o autor salienta que o discurso jansenista prefere manter proximidade e referência com o tempo de Cristo, infringindo o princípio da ordem por ignorar o que vem antes de Cristo. Os escritos Jansenistas, para o autor, fazem referência a Tertuliano e Santo Agostinho tomando-os como autoridades que contribuem para a construção de textos porque os jansenistas liam esses autores e aproximavam seu discurso dos deles. A esse trabalho de memória que equivale às leituras feitas e influenciaram a escrita, Maingueneau chamou de “intertextualidade interna.” Esse aspecto da teoria de Maingueneau nos coloca diante do fato de que podemos verificar, por exemplo, se em seu texto o aluno defende o pensamento de que pertence a uma classe privilegiada economicamente quando, na verdade, é de uma classe mais pobre; se manifesta atitudes anti-éticas apoiando corrupção; se mostra aceitar as situações sem se questionar; se é motivado por aspectos religiosos, se seu texto foi influenciado pelos textos que lemos em sala etc. Maingueneau (2008, p. 87) afirma que os “diversos modos de subjetividade enunciativa dependem igualmente da competência discursiva, sendo que cada discurso define o estatuto que o enunciador deve se atribuir e o que deve atribuir a seu destinatário para legitimar seu dizer.”
Uma maneira de legitimar o dizer é exemplificada por Maingueneau e se refere ao papel de citações em discursos teológicos. Em nosso caso, recorremos a essa teoria para analisar em particular o uso de citações, as quais fruto das entrevistas e pesquisas dos alunos podem romper a continuidade do texto e interferir naquilo que é texto do aluno e texto do outro. Sobre elas, Maingueneau destaca:
É preciso não perder de vista que a citação não é somente um fragmento de enunciado; ela pode ser somente isso quando se faz dela uma exploração mínima. Mas com o enunciado vêm as palavras, o estatuto do enunciador e do enunciatário, o modo de enunciação, a intertextualidade..., tudo o que deriva da semântica global. (MAINGUENEAU, 2008, p.108)
Em um texto, o uso da citação pode servir para colocar o tema abordado sob polêmica avaliando o que o outro disse. No entanto, Maingueneau (2008) esclarece que colocar-se na condição de árbitro não seria necessariamente discordar do que está sendo dito ou nas palavras de Maingueneau (2008, p. 111) “A polêmica contrariamente ao que pensamos espontaneamente, é a convergência que prevalece sobre a divergência, já que o desacordo supõe um acordo sobre „um conjunto ideológico comum‟, sobre as leis do campo discursivo partilhado.” (p.111). Segundo o teórico, um discurso só nos convence por causa da
enunciação dos argumentos do discurso que está sendo questionado ou posto em polêmica. Não há como polemizar sem tomar outro texto como referência e base de interpretações. São os sentidos do texto a que se faz referência que prevalecem.
Podemos perceber que o autor Maingueneau (2008) desenvolveu um argumento que fizesse uma relação entre a posição institucional e a forma com a qual o discurso aparece inscrito nela de maneira a circular no interior das comunidades, nos mostrando que o texto escrito não está isento das implicações sociais e históricas de um momento específico. Do mesmo modo, o discurso citado passa por tais influências e por assim dizer, demanda uma manipulação da voz citada, trazendo para o texto investidas como ironias, julgamentos, suposições ou colocar em dúvida o que foi dito. Essa acepção inscrita ao campo da posição perfaz a chamada heterogeneidade constitutiva e heterogeneidade mostrada e é delas que tratamos subtópico a seguir.