4.1 EXAMES ENDOSCÓPICOS
Foram realizados 3.461 exames endoscópicos do TRA em 2.354 animais, dos quais somente 2.120 foram considerados, devido a dados insuficientes em 234 eqüinos, durante o período de 1993 a 2003. Todos esses eqüinos foram encaminhados a Divisão de Assistência Veterinária do Jockey Club de São Paulo (DAV-JCSP) para exame do trato respiratório com suspeita de alterações ou com intuito de atestar a sanidade dos mesmos. Neste estudo, foram considerados os resultados obtidos durante o primeiro exame endoscópico, embora alguns animais foram examinados mais de uma vez. Os resultados obtidos em exames subseqüentes somente foram considerados naquele grupo em que foi verificada a progressão da hemiplegia laringeana (95 eqüinos).
O método utilizado para o ranqueamento das doenças do TR diagnosticadas endoscopicamente quando em associação, foi baseado na experiência clínica desenvolvida pelo autor em quase três décadas de atividade no DAV do Jockey Club de São Paulo. A graduação da HL foi usada segundo aquela originalmente descrita por Cook (1976,1988a) e, posteriormente, usada por Knottenbelt e Pascoe (1994) e Archer, Lindsay e Duncan (1991).
O exame clínico consistiu na anamnese, na inspeção direta do eqüino apresentado e da inspeção indireta do trato respiratório anterior através de exame endoscópico, utilizando um fibrocolonoscópio flexível*. O exame endoscópico foi realizado com os eqüinos em posição quadrupedal na sala de endoscopia do DAV e contidos pelo uso de um cachimbo e sem a administração de tranqüilizantes. A idade dos eqüinos variou de 22 meses a 8 anos, sendo fêmeas, garanhões e também machos castrados. Foram examinadas as vias nasais, cavidade nasal, faringe, palato mole, recesso faringeano, aberturas faringeanas dos divertículos auditivos, epiglote, aritenóides, cordas vocais, lúmen laringeano e traqueal. A movimentação da faringe e laringe foi estimulada usando-se instilação de água destilada através do canal de trabalho do endoscópio, por obstrução manual das narinas durante um minuto, por contato direto da ponta do endoscópio nas paredes faringeanas ou nas cartilagens laringeanas e por *Fibrocolonoscópio Flexível Olympus, GIF, tipo CF – P20L de 1.60 m de comprimento com 10 mm de diâmetro e uma fonte de luz fria alógena de 15V/150W.
meio do “slap test”. Este último método diagnóstico foi utilizado principalmente em casos de dúvida de HL.
Os eqüinos examinados foram apresentados, alguns em descanso total, outros antes do exercício e outros após um trabalho forte. Não foram examinados eqüinos imediatamente após a corrida. Durante o transcorrer do estudo, 353 eqüinos foram reexaminados duas ou mais vezes.
Foram realizadas análises estatísticas utilizando os testes Exato de Fisher e Qui- quadrado.
4.2 RESULTADOS PÓS-CIRÚRGICOS DAS LARINGOPATIAS
Foram analisados criticamente os resultados pós-operatórios de 134 cavalos PSI em treinamento submetidos à cirurgia laringeana nos meses de setembro de 1998 a setembro de 2003, sendo que em sete destes animais foram realizados duas ou mais intervenções cirúrgicas diferentes e em épocas diferentes (Apêndice Y – Tabela e Gráfico 15).
Foram realizadas 84 cricoaritenoidepexias (prótese laringeana) (62,69% do total de 134 cirurgias laringeanas realizadas), destas, 71 associadas à ventriculectomia (84,52% do total de 84 próteses laringeanas realizadas), seis associadas à ventriculectomia e neurectomia do nervo laringeano recorrente (7,14% do total de 84 próteses laringeanas realizadas) e três associadas à ventriculectomia e cordectomia (3,57% do total de 84 próteses laringeanas realizadas). Portanto, apenas quatro eqüinos foram submetidos à prótese laringeana sem associação a outra técnica cirúrgica (4,76% do total de 84 próteses laringeanas realizadas), oito ventriculectomias (5,97% do total de 134 cirurgias laringeanas realizadas), 18 aritenoidectomias (13,43%), 16 desmotomias dos ligamentos aritenoepigloticos (11,94%), 6 eqüinos submetidos à estafilectomia (4,48%) e dois submetidos a remoção de cisto subepiglótico (1,49%) (apêndice Y - tabela e gráfico 15). Neste estudo, do total de 84 equinos submetidos à prótese laringeana, apenas 60 (71,43% do total de 84) foram considerados, pois 24 eqüinos não forneceram dados suficientes.
Os eqüinos operados variaram de dois a seis anos de idade, sendo machos, fêmeas e machos castrados; alguns inéditos (cavalos que não chegaram a estrear) e a maioria animais em campanha ativa.
As diversas cirurgias executadas foram realizadas por diversos cirurgiões veterinários atuantes, particulares ou do quadro de funcionários do Jockey Club de São Paulo, todos os animais foram operados sob anestesia geral no centro cirúrgico da DAV-JCSP usando os seguintes protocolos:
a) Avaliação pré-anestésica do paciente: ausculta cardíaca, respiratória, intestinal e aferimento da temperatura retal, para validar suas atuais condições.
b) Medicações pré-anestésicas (tranqüilização): romifidina, 0,04 mg/kg, (Sedivet® – Boehringer Ingelheim) e escopolamina, 0,044 mg/kg, (Buscopan® – Boehringer Ingelheim) por via endovenosa em bolus.
c) Após um período de 10 minutos o paciente foi encaminhado à sala de indução; d) Nova avaliação (grau de sedação e freqüência cardíaca).
e) Indução anestésica por via endovenosa (100 mg/kg de Éter Gliceril Guaiacol em 500 ml de Solução Glicosada 5% em bolus) até os primeiros sinais de ataxia e relaxamento, seguidos de 4,5 mg/kg de Tiopental de Sódio (Thionembutal® – Abbott) em bolus.
f) Intubação orotraqueal (sonda endotraqueal (Cook) de 20 mm lubrificada com gel hidrossolúvel).
g) Remoção do paciente até a mesa cirúrgica.
h) Posicionamento do paciente na mesa cirúrgica (dorsal ou lateral dependendo da técnica cirúrgica).
i) Manutenção anestésica (por meio de um aparelho de anestesia inalatória HB Hospitalar Conquest Big®): o paciente foi ventilado mecanicamente numa freqüência respiratória de 10 movimentos respiratórios por minuto com halogenado (Halothano® – Cristália ou Forane® – Abbott) em oxigênio 100%); artéria metatársica foi canulada com um cateter de 22 G (Jelco® – Ethicon Endo-Surgery) e conectada a um circuito contendo solução heparinizada e um esfignomanômetro para mensuração da pressão arterial direta. O uso de fármacos vasoativos foi instituído em casos onde havia uma pressão arterial menor ou igual a 60 mmHg (uso de Cloridrato de Dobutamina 250 mg (Dobuton® – Ariston) diluído em solução fisiológica 0,9% em infusão contínua numa
taxa de 0,005 mg/kg/min). Fluidoterapia de manutenção de 10 a 15 ml/kg/h (Solução de Ringer com Lactato intercalado com Solução Fisiológica 0,9%, ambas mornas). j) Desmame (diminuição da freqüência respiratória para sete movimentos respiratórios
por minuto e diminuição da vaporização do halogenado até o paciente respirar espontaneamente).
k) Recuperação: o paciente foi colocado na sala de recuperação com os devidos cuidados. Através da sonda orotraqueal insuflou-se 15 L/min de oxigênio 100%, quando presente o reflexo da deglutição; a sonda orotraqueal foi removida e após isso foram administrados 10 ml de uma solução à 0,15% de fenilefrina (Fenilefrina® – Bioformula) por via intranasal com intuito de promover vaso constrição e conseqüente diminuição do edema nasal. Após todos os procedimentos descritos, foi novamente administrado oxigênio 100%, por meio de uma sonda via nasal até a faringe, numa taxa de 7 L até que o paciente se encontrasse em posição quadrupedal).
As técnicas cirúrugicas empregadas foram:
• Ventriculectomia realizada segundo a técnica descrita por McIlwraith e Robertson (1998);
• Aritenoidectomia subtotal realizada segundo a técnica descrita por Tulleners (1990); • Prótese Laringeana (Cricoaritenoidepexia) realizada segundo a técnica descrita por
McIlwraith e Robertson (1998);
• Desmotomia do ligamento ariteno-epiglótico realizada segundo as técnicas descritas por Boles, Raker e Wheat (1978) e Wheat (1978).
A avaliação pós-cirúrgica dos eqüinos submetidos à cirúrgia laringeana consistiu em um exame endoscópico em descanso realizado três a cinco semanas após a cirurgia. O período de recuperação pós-operatório foi em média de quatro semanas antes do retorno ao treinamento, porém, este período variou de três a dez semanas.
Os resultados pós-cirúrgicos desses animais foram analisados comparando seus índices de performance pré e pós-cirúrgicos, segundo os critérios de Hammer et al. (1998), para determinar a eficácia cirúrgica da laringoplastia para o tratamento da hemiplegia laringeana
esquerda em cavalos PSI de corrida. Estes critérios foram também usados por Russell e Slone (1994); Kidd e Slone (2002) e Hawkins et al. (1997).
Hammer et al. (1998), utilizaram o índice de performance que consiste na soma total dos pontos da performance graduada recebidos pelo cavalo nas três corridas imediatamente após a cirurgia, divididos pelos pontos da performance graduada recebidos nas três corridas imediatamente antes da intervenção cirúrgica. Diferentemente neste estudo foram consideradas as três melhores corridas antes e após a cirurgia. Os pontos de performance foram designados da seguinte maneira para páreos comuns nos hipódromos de Cidade jardim e Gávea: primeiro lugar, 5 pontos; segundo, 4 pontos; terceiro, 3 pontos; quarto, 2 pontos e outros 1 ponto. O valor do ponto designado para uma corrida individual foi multiplicado por uma escala de correção para as diferentes categorias de corrida, ou seja, clássicos ou provas de grupo a pontuação é o dobro da descrita para páreos comuns e provas de grupo I e II a pontuação dos páreos comuns são triplicadas. Os pontos obtidos nos hipódromos de Taruma e Cristal foram multiplicados por 0.5. O índice de performance foi calculado da mesma forma descrita acima por Hammer et al. (1998). O eqüino foi considerado como tendo melhorado se o índice de performance (total de pontos da performance graduada ganhos pelo cavalo nas três melhores corridas após a cirurgia dividida pelos pontos ganhos na performance graduada nas três melhores corridas antes da cirurgia) foi maior que 1. Se o índice de performance graduado foi 1, a performance foi estabelecida como inalterada; se o índice foi menor que 1, a performance foi considerada como inferior ou diminuída; neste estudo, se o índice de performance foi igual à zero, indica que o animal não correu no pós-operatório. Cavalos operados que não correram antes da cirurgia, mas que correram após a mesma, foram considerados como tendo melhorado. Os cavalos que haviam corrido três ou menos vezes sem sucesso antes da cirurgia e, que correram com sucesso após a cirurgia, seu índice de performance é inexistente. Cavalos que correram antes da cirurgia e que não correram após a mesma foram considerados como tendo deteriorado (índice de performance igual a 0 (zero)). O progresso pós-operatório dos cavalos em corrida foi estabelecido, subjetivamente, entre 3 meses a 5 anos (média de 34 meses) após a cirurgia.
Neste estudo também foi determinado o tempo transcorrido entre a cirurgia e o reaparecimento do cavalo em corrida, as complicações pós-operatórias, as distâncias das corridas abordadas pré e pós-operatoriamente, assim como a categoria das corridas em que participaram os cavalos baseado nos critérios de Hammer et al. (1998).