Entretien avec Anne Martiréné, travailleuse indépendante ayant fréquenté un espace de coworking pendant 8 ans.
Mardi 18 juillet – Son bureau (Paris, 24 rue des Amandiers)
Em meados da terceira parte do romance, o libertino concebe um projeto contra- revolucionário. Depois do deboche no qual Juliette assassina seu pai biológico136, Bernole,
assessorada por Noirceuil, Clairwil e o ministro, este entretém a trupe com suas recentes maquinações. Seja ciente de que os déspotas estão sujeitos a complôs, visto que “Maquiavel mostra que ninguém está mais sujeito às conspirações do que os que pretendem governar segundo seus próprios delírios”137; seja para contextualizar o discurso de seu personagem na
realidade francesa da época, Sade faz Saint-Fond suspeitar de uma revolução no reino. Conforme fala o herói, quanto mais o povo se esclarece, mais perigoso se torna. Com o intuito de evitar a rebelião, ele elabora um projeto cruel de devastação da França138. Primeiro, deseja
suprimir todas as escolas gratuitas. Não satisfeito, diz ser preciso diminuir o número de habitantes, incitando o ataque a mendigos e a demolição de hospitais e casas de piedade. Finalmente, para conseguir uma redução mais rápida da população, pretende estimular a guerra e a fome por meio de um confisco de grãos.
“Guiado”139 pelos princípios de Maquiavel, o preceptor afirma que os indivíduos nada
lieu de m'écrire, rentrer à l'écurie, demander de l'avoine et se taire [...]” (itálicos do autor), (Carta de Sade a Gaufridy, citada por Lever, op. cit., p. 473).
134 Lever, ibid.. 135 Id., ibid., p. 474.
136 Juliette descobre que o homem assassinado por Noirceuil não era seu pai biológico quando Bernole aparece em sua casa e lhe narra a relação que teve com sua mãe (H.J., pp. 594-595).
137 Newton Bignotto, “As fronteiras da ética: Maquiavel”, op. cit., p. 123: “Para durar, é preciso que o tirano faça de seu governo um governo político”.
138 H.J., p. 607.
139 O termo utilizado pelo personagem é “penetrado”: “Il y a bien longtemps, poursuivit le ministre, que
são na política além de máquinas secundárias do governo, devendo assim trabalhar para a prosperidade do mesmo. Contudo, a recíproca jamais deve ocorrer, pois todo governo que se ocupa dos homens é fraco. Desse modo, é essencial que o soberano seja déspota e que seus grilhões tenham enorme peso sobre o povo. O tirano deve ser considerado o único detentor da força:
“[...] é no soberano somente que deve ser considerada toda a força e uma vez que esta é moral, já que fisicamente o povo é o mais poderoso, deve ser apenas por uma sequência ininterrupta de ações despóticas que o governo pode estabelecer nele a força física que lhe falta; sem isso, ela será apenas uma ideia”140.
Notemos que Saint-Fond atribui à “força moral” do déspota uma conotação de “poder intelectual” que se contrapõe à “potência física”. Como o governante não pode ser fisicamente mais poderoso do que a união de seus súditos, o tirano deve manipulá-los por outros meios: é preciso acostumá-los a ver aquilo que funcionalmente não existe, pois se os súditos enxergarem o governo tal qual ele é, o soberano estará perdido. O ministro conclui que só é possível governar os homens enganando-os: o autocrata precisa ser falso141.
Juliette pergunta se a falsidade não seria um vício. Ao contrário, para seu mestre, ela é uma virtude: a única chave para o coração humano. Ele argumenta que, se todos os homens enganam, é impossível viver com franqueza, logo, a falsidade torna-se um imperativo ao governante. O talento do homem de Estado é justamente penetrar na mente dos outros sem se expor. E se é impossível empreender tal tarefa sem a falsidade, esta só pode ser definida como uma virtude, ou seja, uma qualidade do governante, um recurso político que colabora para a conservação do governo. Afinal, num mundo absolutamente corrompido, jamais há perigo em ser ainda mais contaminado que os outros, raciocina o celerado. O termo “virtude”, aqui, explicita Cusset, não tem sentido moral: “a falsidade é uma virtude relativamente à arte de governar, sem nenhum julgamento moral”142. Delon salienta que, no discurso dos libertinos, a
referência a Maquiavel “representa o deslocamento da virtude como respeito à norma moral à
virtu como força e energia”143.
[...]” (itálico nosso), (H.J., p. 607).
140 “[…] c'est dans le souverain seul que doit être considérée toute la force, et puisque cette force n'est que morale, dès que physiquement le peuple est le plus puissant, ce ne doit donc être que par une suite non interrompue d'actions despotiques que le gouvernement peut établir en lui la force physique qui lui manque ; elle n'y sera jamais qu'idéalement sans cela” (H.J., pp. 607-608).
141 H.J., p. 608.
142 “[...] la fausseté est une vertu relativement à l'art de gouverner, sans aucun jugement moral” (Cusset, “Sade, Machiavel et Neron”, op. cit., p. 403).
143 “Il encarne le déplacement de la vertu comme respect de la norme morale à la virtu comme force et énergie” (Delon, “Notes de H.J”, op. cit., p. 1469, nota 3 da p. 607), (itálico do autor).
Ilustrando o desvio apontado por Delon, Saint-Fond enfatiza que a máquina que conduz o governo nunca poderá ser virtuosa (aqui, sim, trata-se da virtude como respeito aos costumes e valores da sociedade), porque é impossível prevenir todos os crimes e abrigar-se deles sem ser também criminoso: aquele que governa homens corruptos também deve sê-lo. A base deste argumento é a seguinte: “jamais será com a virtude, que é um modo sem ação, que vocês conduzirão o vício, que é um modo sempre em ação; o governante deve ter mais energia que o governado”144. Logo, para o ministro, a virtude é passiva, inativa e incapaz de
gerir o vício, sempre em atividade. Ora, se o governo precisa ter mais energia que seus súditos, o governante deve ser mais criminoso que os governados. Aliás, lembra o libertino, as punições também são crimes145, justificados pela necessidade de governar. E se o povo já é
por si próprio pleno de delitos, tão mais será o governo146. Assim, tanto o crime quanto a
falsidade, embora sejam vícios do ponto de vista dos bons costumes, são “virtudes”, isto é, qualidades quanto à arte de governar, sinônimos de força e energia.
Para tornar mais clara a relação que o devasso estabelece entre vício, poder moral e energia, uma comparação com o panfleto lido pelos libertinos de La Philosophie dans le
boudoir pode ser útil. Embora em Français, encore un effort si vous voulez être républicains o
registro seja muito diferente, pois trata-se da defesa da república, há um longo trecho esclarecedor acerca dessa relação:
“[...] não devemos jamais duvidar que tudo o que é chamado de crimes morais, ou seja, todas as ações da espécie daquelas que acabamos de citar [prostituição,
adultério, incesto, violação e sodomia] sejam perfeitamente indiferentes num
governo cujo único dever consiste em conservar, por qualquer meio que ele possa, a forma essencial à sua manutenção: eis a única moral de um governo republicano. [...] não poderíamos imaginar razoavelmente que esses meios conservadores fossem
meios morais, pois o governo só se conservará pela guerra e nada é menos moral
que a guerra. Agora, pergunto: como conseguiremos demonstrar que, num estado
imoral por suas obrigações, seja essencial que os indivíduos sejam morais? Digo
mais: é bom que eles não o sejam [...]. Seria, assim, tão absurdo quanto perigoso exigir daqueles que devem manter a perpétua agitação imoral da máquina que fossem, eles mesmos, seres muito morais, porque o estado moral de um homem é um estado de paz e de tranquilidade, enquanto seu estado imoral é um estado de movimento perpétuo”147
.
144 “[...] ce ne sera jamais avec la vertu, qui est un mode sans action, que vous conduirez le vice, qui est un mode toujours en action ; le gouvernant doit avoir plus d'énergie que le gouverné [...]” (H.J., p. 608). 145 Saint-Fond não explica por que as punições são crimes, mas supõe-se que ele assim as julgue por serem
frequentemente injustas e arbitrárias. Lembramos mais uma vez que Sade ficou doze anos preso por causa de uma lettre de cachet e reclamava frequentemente da injustiça que sofria.
146 H.J., p. 608.
147 “Nous ne devons certainement pas douter un moment, que tout ce qui s'appelle crimes moraux, c'est-à-dire toutes les actions de l'espèce de celles que nous venons de citer [la prostitution, l'adultère, l'inceste, le viol et la sodomie], ne soient parfaitement indifférentes dans un gouvernement, dont le seul devoir consiste à conserver, par tel moyen que ce puisse être, la forme essentielle à son maintien ; voilà l'unique morale d'un gouvernement républicain ; [...] on ne saurait imaginer raisonnablement que ses moyens conservateurs
Mas qual é a semelhança se no panfleto republicano todos devem ser imorais? Ora, o sentido é o mesmo, é apenas a palavra que muda: o “estado imoral” de Français, encore un
effort é o “poder moral” do déspota de Saint-Fond. Embora usando termos opostos, ambos os
textos sustentam a mesma coisa: criticam e renegam os conceitos de virtude da época (bondade, compaixão, altruísmo, etc.), que conduzem à inércia, à inação e à indolência, para valorizar a agitação, o choque energético e o movimento perpétuo proporcionado pelo crime. Se a paz e a tranquilidade (atribuídas à inércia da virtude passiva) opõem-se à energia necessária ao governo, somente o crime e suas bases (o interesse particular, o egoísmo, a falsidade) podem ser um modo de ação e conservação eficaz para o Estado. O “poder moral”, por conseguinte, tem aqui uma conotação de energia, enfatizando o poder ativo do soberano. São, pois, o vício e a sua energia em intensa agitação que elevam o sujeito à posição de poder, possibilitando-lhe o controle do vulgo. Essa inclinação ao vício, aparentemente, aproxima o tirano do ministro do oriental:
“[...] incapaz de governar, de tanto ouvir que é ‘tudo’ compraz-se em saciar os seus cinco sentidos. O déspota, apenas sensual, nada sabe a não ser gozar ‒ e daí vem a sua crueldade: é-lhe impossível conhecer, quanto mais respeitar, o outro, os contrapesos que caracterizam um governo moderado, as frustrações que lhe provocam a natureza, o tempo, os homens. No sultanato, a política reduz-se a capricho. Sob o arbitrário poder despótico os desejos substituem as políticas, cessando qualquer estratégia; por isso é fácil depor um sultão, cujo poder, forte em aparência, é de todos o mais frágil”148.
Apesar do déspota do ministro ser tão sensual, egocêntrico e cruel quanto o sultão, igualá-los seria um grande engano. Há uma característica fundamental do autocrata ocidental que o distancia do oriental: o primeiro não é alheio ao governo e seu poder tampouco é frágil. O primado do prazer, na teoria do nosso libertino, é também uma estratégia política que acarreta a sujeição. O soberano do ministro não delega seu poder a um terceiro como o sultão. É ativo e governante justamente porque, em meio à massa corrompida, é o mais vil e, assim, é quem possui a maior energia para contê-la, fazendo valer suas vontades. E seus desejos, ainda
puissent être des moyens moraux ; car il ne se conservera que par la guerre, et rien n'est moins moral que la guerre ; maintenant je demande comment on parviendra à démontrer que, dans un état immoral par ses obligations, il soit essential que les individus soient moraux, je dis plus, il est bon qu'ils ne le soient pas [...] [...] il serait donc aussi absurde que dangereux d'exiger que ceux qui doivent maintenir le perpétual ébranlement immoral de la machine, fussent eux-mêmes des êtres très moraux, parce que l'état moral d'un homme est un état de paix et de tranquillité, au lieu que son état immoral est un état de mouvement perpétuel” (Sade, “Français, encore un effort si vous voulez être républicains”, op. cit., p. 129), (itálico do autor).
148 Renato Janine Ribeiro, Ao leitor sem medo: Hobbes escrevendo contra o seu tempo, São Paulo: Brasiliense, 1984, p. 42.
que caprichosos, correspondem aos vícios de seus subordinados,
“Pois é pouco relacionar o soberano com seus súditos somente pelo medo; tal paixão, aliada da aversão, sozinha não funda a representação. Para que esta surja, e não a simples opressão, requer-se também um apetite, que se traduz como esperança”149
.
Tal “apetite” é desencadeado pelo livre gozo de uma elite. Mesmo sem ter a intenção de promover o bem, já que defende que todo governo que se ocupa do homem é fraco, o déspota de Saint-Fond age a favor da felicidade de alguns cidadãos, à medida que legitima uma gama enorme de perversões. Por isso, a política de privilégios luxuriosos elaborada pelo ministro implica um conjunto de normas que determinarão um comportamento favorável da elite, promovendo o contentamento dessa classe da sociedade e a manutenção do trono. Finalmente, a dissertação do herói mostra que a energia celerada pode ser um meio eficaz de dominação política e denuncia todo Estado que, amparado pelo crime e pela volúpia, dizima seus governados sob o manto de uma falsa virtude moral incorruptível.