Flick (2004) aponta para o processo de pluralização das esferas de vida que coloca os pesquisadores diante de novos contextos sociais e estes, por sua vez, passam a exigir novas sensibilidades para o estudo empírico de suas questões. Neste quadro, a perspectiva qualitati- va ganha relevância, possibilitando a criação de caminhos para além das metodologias deduti- vas tradicionais. Assim, esta pesquisa foi desenvolvida no quadro qualitativo e em diálogo com as contribuições do Círculo de Bakhtin.
As proposições do Círculo não postularam um conjunto sistematizado para realização de pesquisas e análise. Todavia, a somatória destas obras possibilitou a construção de uma análise/teoria dialógica do discurso que repercutiu em estudos linguísticos, literários e nas Ciências Humanas (Canetti, 2010).
Dentro deste contexto, o caminho e o objeto na pesquisa devem ser construídos a cada investigação, em diálogo com as contribuições teóricas de Bakhtin e demais autores de seu Círculo. Diante disso, Castro, Portugal e Jacó-Vilela (2011) alertam para a necessidade de rejeitar tais aportes como uma fórmula ou uma série de regras a serem aplicadas e, desse mo- do, são características desta proposta a indeterminação, duplicação e ambiguidade.
Além disso, tendo em vista que, na perspectiva bakhtiniana, os sujeitos se constituem discursivamente (Pucci, 2011), trata-se de um desafio às ciências humanas realizar investiga- ções tendo por base sujeitos produtores de discursos, diferenciando-se da condição do objeto do qual se fala para sujeito falante, tal qual reforçam Magalhães e Silva (2016).
Dessa forma, a partir do prisma bakhtiniano, não é interesse do pesquisador assumir e defender uma postura neutra. Pelo contrário, os autores sugerem que cabe estabelecer relação dialógica com o sujeito participante da pesquisa, em que tanto um quanto outro falam, todavi- a, sem perder o lugar de pesquisador.
Isto é possível a partir dos seguintes pontos: a compreensão do texto/enunciado a par- tir do lugar de seu contexto de produção; e fazer uso da distância temporal e cultural entre pesquisador e participante da pesquisa com objetivo de adicionar a compreensão que escapa ao pesquisado no contexto investigado. Esses dois aspectos são imbuídos do ato ético respon- sável que conecta o âmbito singular da vivência do sujeito ao âmbito da teoria, sem sobrepor
o campo da teoria ao sujeito (Magalhães & Silva, 2016). Este processo corresponde, a uma atividade estética, sendo que nela,
para que um autor possa tratar de um conteúdo, de um “outro”, deve realizar alguns movimentos. Primeiramente, perceber esse conteúdo de fora, de uma posição de quem tem um excedente de visão sobre o outro. Essa percepção já implica esteticização do conteúdo, posto que aquilo que se vê de fora permite a projeção de um acabamento i- nerente a atividade estética. Em seguida, o conteúdo estético deve ser conhecido do autor a partir do próprio lugar ideológico desse outro. Esse movimento é definido pelo pensador russo como “enformação” da consciência do autor na consciência do outro (Bakhtin 2003a:25) que é uma tentativa de ver o que o outro vê, de sentir o que ele sente. Finalmente, o autor deve retornar a sua posição exotópica, de onde, então, terá sobre o outro uma nova percepção, que inclui aspectos inerentes ao seu posicionamen- to externo, mas leva em conta os aspectos da visão desse outro. (Magalhães & Silva, p. 992).
Com isso, tanto o pesquisador quanto o participante da pesquisa se implicam no pro- cesso de produção de um conhecimento singular, do qual não se pretende a generalização de resultados. Nesse sentido, Souza e Albuquerque (2012) acrescentam que o pesquisador em Ciências Humanas transita entre descobertas, tomadas de conhecimento, comunicações e pro- duções de sentido entre eu e o outro, sendo que a especificidade desse encontro produz igual- mente um conhecimento específico, que é dialógico e alteritário. Assim, para as autoras, a pesquisa com base na perspectiva bakhtiniana, constitui-se enquanto um processo de produ- ção de conhecimento compartilhada, evidenciando as tensões entre eu e o outro e a singulari- dade dessa constituição.
Além disso, a obra bakhtiniana volta-se para o estudo da linguagem nas esferas da vi- da e da arte, adotando a perspectiva do sujeito enquanto situado social e historicamente, mar- cado pela produção ideológica que o circunda (Pucci, 2011). Dessa forma, a linguagem deixa de ser entendida apenas a partir de componentes formais da língua e pelas significações está- ticas das palavras registradas em dicionários. Pelo contrário, aos enunciados somam-se os componentes discursivos, tornando relevante aspectos do contexto em que ele foi produzido, como o lugar, momento, interlocutores e a relação entre eles (Sobral & Giacomelli, 2016).
Assim, trata-se de um fluxo generalizado e inacabado de trocas verbais, em que os signos que a compõe são marcados pelos valores dos sujeitos e, inevitavelmente, respondem a outros signos, sendo ainda, produzidos na expectativa desta resposta (Costa, 2015).
Neste contexto, a constituição de sujeitos remete a um processo discursivo associado às interações com diversas vozes sociais. Este movimento ocorre através de um encontro de consciências, em que há um intercâmbio de sentidos e estes, por sua vez, possibilitam a re- produção do discurso alheio ou a produção de outros (Pucci, 2011).
Fiorin (2006) indica que um dos aspectos do dialogismo bakhtiniano é a constituição de um enunciado heterogêneo a partir de outros aos quais se responde, concordando ou dis- cordando. Disso resulta a ideia de que, além da posição explícita no enunciado, revelam-se, também, as posições a partir da qual ele se constrói, exibindo “seu direito e seu avesso” (Fio- rin, 2006, p.24).
Com isso, em processo de diálogo, compreensão e (re) produção de discursos há um encontro entre as palavras recebidas - e que, por sua vez, já dialogaram com outras palavras – e as contra-palavras “produzidas” a partir do repertório e da constituição do sujeito. Essas contra-palavras são mediações próprias que tornam intraindividual aquilo que antes era inte- rindividual (Pucci, 2011).
De acordo com a autora, embora essas palavras sejam produzidas pelo sujeito, ofer- tando individualidade ao discurso, ainda assim, elas estão imersas na condição social que constituem o sujeito, por isso, até mesmo as contra-palavras são sociais. Dessa forma, a dialo- gia ocorre tanto no que diz respeito ao encontro de dois interlocutores, quanto no que se refere a esferas mais amplas, como visões de mundo e orientações teóricas e filosóficas.
Nesta conjuntura, Costa (2015) destaca, como princípio dialógico, que aquilo que é ti- do como externo ao enunciado é, na verdade, intrínseco a ele. Com isso, as relações alteritá- rias ganham lugar central e as palavras utilizadas em um enunciado se engendram numa ca- deia de significações atribuídas por aqueles que já as utilizaram. Vale destacar que, de acordo com Geraldi (2007), a alteridade é pilar da perspectiva bakhtiniana e isso se traduz na existên- cia e no reconhecimento do Outro pelo “eu” e na relação entre ambos como fundamental na constituição dos sujeitos.
Desse modo, um conjunto de enunciados em diálogo/relações dialógicas faz com que uma multiplicidade de vozes possa ser ouvida em um único enunciado, o que caracteriza a polifonia, tal qual mostra Amorim (2002). Isto posto, a autora diz que a enunciação é espaço de expressão e, também, de constituição de subjetividade, sendo que o sentido é produzido e não dado a priori, com base nas relações de alteridade. Portanto:
Relações dialógicas são, para o sujeito, fundantes de sua constituição, de sua atuação frente a vida, e esta constante tensão e luta com as palavras dos outros constituem a fluente e situada identidade de cada um (Pucci, 2011).
Isso antecipa o entendimento de constituição enquanto um processo constante, em que novos diálogos são estabelecidos a cada encontro com o outro e, nesse sentido, não se trata de um projeto acabado, finalizado, fechado, ao contrário, refere-se a um frequente vir a ser.
Diante disso, Castro, Portugal e Jacó-Vilela (2011) pontuam que essa perspectiva se afasta da consciência individual e do idealismo, justamente por encontrar seu sentido e sua origem na tensão dialógica que requer a participação do outro. Portanto, deve-se considerar a ideologia intrinsecamente às condições materiais de existência, de modo que se torna impos- sível separar a análise do contexto ao qual o sujeito está inserido.
Voltar-se para os espaços onde os sujeitos se constituem, a partir de como eles os des- crevem, é um dos caminhos para aproximação e apreensão do contexto no qual ele está inse- rido, considerando que muitos são os aspectos que o circundam.
Silva (2017) indica que não é nova a associação entre sujeito e meio na Psicologia e destaca que ela é central em variadas abordagens desta, ainda que cada uma apresente singula- ridades a partir das diferentes definições atribuídas aos termos em questão. Dessa forma, a autora aponta que estes estudos orientam-se, com frequência, por questões referentes ao ho- mem e o território e considera, em outro sentido, a perspectiva que se interessa pelo homem do território, com os enredamentos em torno das dinâmicas históricas e psicossociais dessa reorientação.
Diante da segunda perspectiva, os conceitos de espaço, território e territorialidades ga- nham relevância neste debate e faz-se necessário elucidar as concepções aqui adotadas. A compreensão e definição de espaço envolvem intensos debates na Geografia, entretanto, po- demos tomá-lo, com base na obra de Henri Lefébvre, a partir de sua estreita correlação com a prática social, portanto, como espaço social, vívido (Corrêa, 2000). Em complemento a esta visão, a obra de Milton Santos aponta para o espaço como o sistema de relações indissociá- veis, indicando estreita relação entre a sua produção, a produção da vida e a constituição de sujeitos, tal qual aponta Silva (2017).
Em conformidade com esta visão, as noções de território e territorialidades contribu- em, de maneira mais específica, para situar espaço-temporalmente a produção de discursos e os diálogos estabelecidos na constituição de sujeitos, esta entendida com base na perspectiva bakhtiniana. Assim, Silva (2007) afirma que território corresponde a partes de espaços apro- priadas por sujeitos e grupos e, ainda:
O território, espaço apropriado, comporta condições materiais e simbólicas, relações de classe, de gênero, etárias; implica disputas. A territorialidade é expressão das for-
mas de ocupação do espaço na consolidação ou na desconstrução dos territórios. (Sil- va, 2017, p. 314).
Tanto a dimensão de território quanto de territorialidades aponta para uma relação in- trínseca entre sujeito e território, em que um produz e, ao mesmo tempo, é produto do outro (Silva, 2017). Desta maneira, em diálogo com a perspectiva bakhtiniana, ambos assumem a dimensão de interlocutores com os sujeitos: o primeiro a partir da relação dialógica estabele- cida com as bases materiais e simbólicas do lugar com o qual o ele interage em seu constante processo de constituição; e as segundas com base na dialogia em torno da multiplicidade de discursos que compõe e circundam as formas de ocupação do espaço, com foco nas relações estabelecidas neste contexto.
Apesar de ter uma base material, o território apresenta a condição de ser inconstante, uma vez que ele pode ser composto e desmanchado em diferentes temporalidades e escalas, bem como apresentar períodos permanentes, periódicos ou cíclicos (Souza, 2000). Com isso, um espaço físico ocupado, que configura um território, sofre influência das inúmeras territori- alidades que o sobrepõe. Portanto, “por cima” de um território físico “flutuam” e interage uma infinidade de territorialidades flexíveis. Estas, por sua vez, dizem respeito às relações estabe- lecidas neste espaço e marcam uma diferenciação alteritária entre um grupo e os demais, o “nós” e os “outros” (Souza, 2000).