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INTRODUCTORY STATEMENT 3 KIM WON-SOO

Em 10 trabalhos o território não é citado em suas análises (Schimitt et al., 2006; Telles et al., 2006; Feffermann, 2007; Martins & Pillon, 2008; Moreira, Rosário & Costa, 2008; Ro- sa & Vicentin, 2010; Bastos & Rabinovich, 2012; Guerra et al., 2012; Souza et al., 2014; Lu- cena, 2016). Destes, Schimitt et al. (2006), Telles et al. (2006), Martins e Pillon (2008) e Guerra et al. (2012) utilizam um conjunto de noções acerca do envolvimento com o crime isoladas de qualquer contexto, fazendo com que a associação com a criminalidade seja vista em uma esfera individual, alimentando a ideia de tratamento ou confinamento para correção de desvios.

Na discussão de Guerra et al. (2010), o termo “território” aparece como território sub- jetivo (leis intrapsíquicas, inconsciente), sendo que, a partir deste, o sujeito olha para sua “rea- lidade concreta” (espaço geográfico e tempo histórico).

Já oito artigos citam bairros em que residem os jovens ou suas famílias e os caracteri- za. Contudo, tal caracterização não privilegia aspectos singulares desses espaços ou os modos de vida criados e recriados por seus moradores (Priuli & Moraes, 2007; Brandão Neto et al. 2010; Patti & Romão, 2011; Santos et al., 2012; Sento-Sé & Coelho, 2014; Luiz et al., 2015; Zilli, 2015; Welter & Scortegagna, 2016). Assim, prevalece uma visão homogênea em que se destaca uma série de faltas, como de equipamentos públicos, de boas condições de moradia, de alimentação, entre outras.

Moreira, Sucena e Fernandes (2008) também caracterizam os espaços onde os partici- pantes da pesquisa vivem, descrevendo aspectos comuns entre eles. Entretanto, o faz a partir das perspectivas dos próprios jovens. Dessa forma, além das residências sem infraestrutura e dos bairros sem equipamentos urbanos, o texto apresenta as atividades de lazer pouco dispen- diosas que fazem parte do cotidiano deles, como futebol, pipas, bailes e namoro. Além disso, os mesmos autores apresentam elementos de uma relação entre tráfico e território, ou seja, indica que o Brasil é corredor de passagem do comércio internacional de drogas e armas vol- tado para os EUA, a Europa e a Ásia. Destacam que a maioria dos jovens entra no tráfico do próprio bairro e que, apesar de não ser uma regra, ser da comunidade favorece a entrada. Nes- se ponto, também são apontadas relações afetivas da comunidade e como elas podem ser faci- litadoras.

Feffermann (2006) e Gomes e Conceição (2014) tangenciam o território, sendo que os segundos autores o citam enquanto fator importante na defesa da Liberdade Assistida e a dis- tância entre território e escola, de modo que o conteúdo escolar não se aproxima da vida coti-

diana dos jovens. Já em Fefferman (2006), ele aparece apenas em dois pontos e associado às estruturas do tráfico, com isso, a autora diz que o tráfico de drogas faz parte da vida de parce- la da população das periferias da cidade de São Paulo e que os locais de venda se espalham pela cidade, variando especificamente em relação ao produto, à procura e à administração.

Apesar de não desenvolver discussões referentes ao território, Meirelles e Gomez (2009), Carvalho (2010), Feffermann (2013), Reis (2013) e Neiva (2015) pontuam elementos relevantes dessa dimensão na constituição de sujeitos e no envolvimento com o crime. Dessa forma, Neiva (2015) apenas cita que o território pode ser fator de proteção ou de risco com base no ambiente em si e nos vínculos estabelecidos.

Da mesma maneira, os textos de Meirelles e Gomez (2009) e Feffermann (2013) enfa- tizam a existência de divisões pelas facções do território geográfico de determinados bairros onde o comércio de drogas é forte e as implicações dessas relações estabelecidas entre elas e os jovens na permanência ou desistência do trabalho no tráfico.

Os trabalhos de Carvalho (2010) e Reis (2013) são construídos a partir da noção terri- torial, sendo que o primeiro contextualiza historicamente Luanda, abordando o cenário de guerra, migração e explosão demográfica das áreas urbanas, relacionando tal contexto ao sur- gimento das gangues nessa região, em que jovens se reuniam nas ruas da cidade, em grupos sem estrutura própria, com interesse recreativo.

O segundo trabalho parte do questionamento de por qual motivo determinados bairros periféricos das grandes cidades, como Campo Grande- MS, têm índices relativamente altos de criminalidade, enquanto outros conseguem fazer relativo controle. No desenvolvimento do trabalho, há a caracterização dos bairros pesquisados através de retomada histórica, distância do centro, número de habitantes, equipamentos estatais do bairro e preconceito do bairro na cidade reforçado por histórias locais e destaque na mídia. Entretanto, foca-se no conceito de capital social, apontando para a necessidade de investimento em políticas culturais e de lazer na região visando seu aumento.

Em Guerra e França Neto (2012), o território é destacado em várias partes do texto e embasa as discussões propostas, sendo que os autores salientam, inclusive, a relevância de se tentar entender a constituição do sujeito a partir dele. Especificamente em relação às favelas, o texto afirma que precisamos entendê-las “não como exceções à regra, mas como corporifi- cações da própria forma de funcionamento de nossa contemporaneidade. Aquilo que, no fun- do, define a nossa civilização” (Guerra & França Neto, 2012, p.491).

Apesar de colocar as favelas em lugar central, diferentemente da visão cristalizada de margem, tanto geográfica quanto política e social, cria-se uma tensão ao homogeneizá-las, quando território está diretamente associado àquilo que nele se produz, singularmente.

Além disso, a favela é parte constituinte do território da cidade, de forma ampla e rela- cionada. Assim, Milton Santos (n.d., citado por Ribeiro, 2002) aponta a cidade como orga- nismo vivo, de modo que, em cada momento histórico, cada parte da cidade evolui de maneira diferente. Nesse mesmo sentido, Gondim, Monken, Rojas, Barcellos, Peiter, Navarro e Gracie (n.d., p. 2) complementam:

Uma cidade é capaz de produzir o lugar dos ricos e dos pobres, das indústrias e do comércio, dos fluxos e circulação de mercadorias, bens e serviços e também produzir riscos diferenciados para cada indivíduo ou grupo social. Sua estrutura espacial é ne- cessariamente heterogênea, resultado da permanente ação da sociedade sobre a nature- za. Esse espaço produzido socialmente se configura como um território que exerce pressões econômicas e políticas sobre a sociedade, criando condições particulares para sua utilização por cada ator social.

Nesse sentido, cinco trabalhos se voltam para uma discussão de cidade enquanto terri- tório, produzida e produtora de segregações que impactam de maneira diferente na constitui- ção de seus moradores (Oliveira et al., 2006; Silva Filho, 2008; Canetti & Maheirie, 2010; Abramovay, Feffermann & Régnier, 2012; Carvalho, 2013). Em relação aos jovens pobres, Canetti e Maheirie (2010) evidenciam os processos de invisibilidade e visibilidade perversa em diálogo com o confinamento a céu aberto apontado em Oliveira et al. (2006).

Moreira, Guerra e Costa (2012) e Costa e Santos (2014) apontam a concepção de terri- tório para Milton Santos, conceituando-o historicamente. Assim, os primeiros caracterizam geograficamente o território estudado, apresentando os equipamentos que ele dispõe (campo de futebol, praça, galpão abandonado) e os que faltam (escola, posto de saúde). Apresentam, ainda, que os grupos rivais que comandam o tráfico na região cercam esse território, refletin- do na impossibilidade de circulação e acesso a serviços próximos.

Costa e Santos (2014), por sua vez, apresentam a dificuldade de circular pela cidade, tanto pela falta de acessibilidade do transporte público para jovens pobres, quanto pela amea- ça de estar diante de outros códigos que não aqueles dominados por eles em seus bairros, des- se modo, a comunidade é tanto lugar de possibilidades, quanto de limites.

Portanto, a revisão da literatura indica que o território, enquanto espaço utilizado e a- propriado por uma dada população, não é tido como elemento central ou de destaque para a

maioria dos trabalhos, diferente da diversidade de olhares acerca da juventude e dos aponta- mentos de seu envolvimento com o crime.

Assim, há uma (re)produção de não lugares nesses trabalhos, que desconsidera os mo- dos de vida apropriados por jovens que se envolvem com o crime e permite olhá-los a partir dos modos de vida produzidos e apropriados pelos territórios nos quais o pesquisador circula, inclusive o “lugar-neutro da ciência”, ecoando em mais violência.

Nesse sentido, a noção de território precisa ser tensionada para além da composição geográfica, pano de fundo e cenário, sendo importante elemento na produção de modos de vida e, consequentemente, na apropriação destes em processos de constituição de sujeitos, principalmente, no que diz respeito ao envolvimento de crianças e adolescentes com o crime. Diante disso, este trabalho se interessa em compreender como jovens que se envolvem com a criminalidade produzem discursos neste contexto, considerando, especificamente, seus enten- dimentos sobre si, sobre o crime e sobre o território.