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4. Le parler bi(e)lingue

4.2 Itération interlinguistique

A metodologia utilizada pelo nosso dicionarista na organização do seu Diccionario

Poetico, nomeadamente na ordenação da informação de cada artigo já era seguido por outros seus antecessores. De facto, já não constituía novidade a apresentação ordenada de sinónimos, epítetos, frases, adágios e até explicações sobre temas mitológicos ou históricos.62 Lembramos algumas colecções ou tesouros de elegâncias poéticas, como também eram conhecidas, entre as quais se destacam o Gradus ad Parnasum, 63 ou o Dicionário do padre Vaniere,64 obras que o próprio Cândido Lusitano reconhece ter seguido no método.65 Ele mesmo explica na página dois do seu Discurso Preliminar que ordenou “este Diccionário pela mesma ordem, com que estão muitos modernos para o uso dos que nas escolas cultivão a Poesia Latina.”

Para além destas obras que orientaram Freire na organização do seu dicionário, o nosso autor faz, também, alusão ao que diz ser o único dicionário poético existente na altura, da autoria do padre italiano Spada.66 A comparação a este epitetário é feita, no entanto, de forma pouco abonatória: “além de ser menos copioso, e methodico…, muy pouco credito dava á Itália, por fomentar o corruptissimo gosto da Poesia do século passado.”67

Também na bibliografia portuguesa encontrou Freire, certamente, antecedentes que serviram à realização e organização do seu Diccionario. No entanto, a obra que mais se realça, já aqui o dissemos e constatámos, é o Vocabulário de Synonimos de Rafael Bluteau. Muitos dos seus artigos foram passados, é certo, para o Diccionario, mas a comparação atenta dos mesmos rapidamente leva a excluir a possibilidade de estarmos perante imitação

62 Cf. Evelina Verdelho, Sobre o Dicionário Poético de Cândido Lusitano. Lisboa, 1983, p. 278, sep. B. Filologia, 28.

63 Primeira edição compilada pelo jesuíta Paul-Aler (1656-1727)

64 O título, não nomeado por Cândido Lusitano, é Dictionarium poeticum, da autoria de Jacob Vanieri, 1710. 65 Cf. “Discurso Preliminar”, Diccionario Poetico, Tomo I, 2ª ed. p. ex. pp. 2, 24 e 25

66 Giardino degli Epitteti, traslati & Aggiunti. Poetici Italiani, del P.M.F. Gio Battista Spada Di Fiorenzuola Piacentino dell’Ordine de Predicatori. 2ª ed. Veneza, 1652.

ou até mera ampliação da obra de Bluteau. Lembramos o exemplo já aqui dado através da comparação entre os artigos do lema “abater”: enquanto o Teatino se limita a apresentar três sinónimos, o Oratoriano oferece ao utilizador um conjunto de vinte e dois vocábulos, essencialmente epítetos, seguidos de duas frases e remata, remetendo o leitor para a consulta dos “Synónimos nos seus lugares”. Os exemplos são por demais abundantes, pelo que correríamos o risco de nos tornarmos maçadores.

Sendo certo que o nosso lexicógrafo abundantemente se refere ao Vocabulário de

Synónimos ao longo do Discurso Preliminar, nem sempre o faz de forma elogiosa, evocando-o algumas vezes com um sentido acentuadamente crítico e como exemplo a não seguir. Fá-lo, por exemplo, no seguimento às duras críticas à obra Giardino degli Epitteti da autoria do padre Spada, por Bluteau também admitir um número excessivo de frases, segundo Freire, “cheias de disparatadas ridicularias”. Destes excessos, tão a gosto do século anterior, propõe-se Cândido livrar a mocidade portuguesa, poupando-a dos “atoleiros”68 e mil despenhadeiros em que inevitavelmente se afundaria.

Apesar de algumas destas críticas, Freire segue o Vocabulário, nomeadamente na sua metodologia organizacional que já incluía sinónimos, epítetos e frases e em que os vocábulos tinham entrada por ordem alfabética.

O método assumidamente seguido pelo nosso lexicógrafo, no seu Discurso

Preliminar69 é, portanto, o de se seguir esta ordem: “a cada Vocábulo os seus Synonimos,…Dos Synonimos passamos aos Epithetos, dos epithetos ás Frases, e das frases a diversas Descripções”70.

Quis, ainda, Cândido Lusitano valorizar a sua obra introduzindo algo que apregoa como inteiramente novo na feitura de dicionários: a Iconologia poética. Esta está presente de forma abundante ao longo da obra e integrada na parte do artigo destinada às

descripções.

68 Cf. Discurso Preliminar”, 2ª ed. pp. 20, 21, 22, 23 e 24, Ob. Cit. 69 Idem, Ibidem, p. 2

Completa o Diccionario a disponibilização de um Socorro Poético, composto por símiles e comparações, que também o autor anuncia como sendo algo que “até aqui se não tem visto em algum Dicionário poético, sendo aliás tão preciso.”71

Apresentada a metodologia, cabe, agora, verificar se a ordenação da informação em cada artigo segue efectivamente a ordem anunciada: Sinónimos, Epítetos, Frases, Descrições, símiles e comparações.72

Convém informar que o dicionarista se deu, inclusive, ao trabalho de separar cada uma das categorias informativas através do símbolo gráfico = , simplificando e facilitando notoriamente a sua distinção.

Raramente Cândido opta pela inclusão no mesmo artigo das várias categorias, observando-se, com frequência, ou a ausência do sinónimo, ou da descrição.

- Omissão de sinónimos:

“FALCÃO. Avido, avaro, voraz, devorador, rapinante, rapido, veloz, ligeiro, fero, atroz, sanguinoso, cruento, precipitado, vigilante, attento, sollicito, diligente, insidioso. = De incautas aves rapido pirata. Insidioso ladrão do povo alado. Da pomba simples avido inimigo, Alto vôo despede, asfalta a preza, Que as nuvens busca no fatal perigo: Mas das unhas a rapida fereza A rapina segura, e n'um momento Bebe-lhe o sangue, a carne lhe devora, Espalhando furioso ao leve vento As pennas, que arrancou garra traidora. (Academ. dos Sing.)”73

- Omissão de descrições:

“CONJECTURA. Suspeita, indicio, sinal, presumpção. = Grave, revelante, vehemente, forte, prudente, judiciosa, solida, sabia, leve, tenue, duvidosa, dubia, ambigua, nescia, fallivel, vã, debil, fraca, apparente, contingente, engenhosa, astuciosa, astuta, aguda, perspicaz, cauta, prevenida, sagaz. = Leve noticia, duvidosa prova. Sagaz pesquizadora de segredos. Dos credulos fallivel argumento. Maquina em debil baze construida.”

71 Idem, Ibidem, p. 27

72 Estes símiles e comparações constam de forma separada no final do Tomo II de ambas as edições, com a designação de Socorro Poético.

Embora pouco frequente, por vezes, o artigo é composto apenas por uma só categoria: - Apenas epítetos:

“DESABRIDO. Aspero, duro, acerbo, rigoroso, rigido, intractavel, asperrimo, ingrato, injucundo, intoleravel, insoffrivel, insopportavel, (segundo as accepções em que se tomar.)”74

- Apenas frases:

“BAPTIZAR-SE. = Lavar na vital fonte a culpa antiga. Do contagio purgar a alma immunda. Alistar-se de Christo nas bandeiras. Do divino Pastor fazer-se ovelha. Armar-se do direito, que afiança, Do Império Celestial a eterna herança. Vestir da santa graça a pura estolla. Banhar-se na vital alta Piscina, Que invisivel revolve a mão divina. Vid. BAPTISMO.”75

- Apenas descrições:

BEIJAR. Os laços da amizade mais prendia Nos osculos sinceros que imprimia. A’ mão applica a boca reverente, E imprime nella hum osculo decente. Da prompta, e generosa protectora Com osculo submisso a mão adora. Com a muda expressão de osculo humilde Na regia dextra, exprime o seu respeito. (Tasso Portug.)”76

Quando apresenta um artigo contendo as várias categorias de informação, estas vão ordenadas segundo a ordem prometida pelo autor, prova do cumprimento rigoroso. Note-se nas descrições a presença da Iconologia Poética que surge a encerrar o artigo.

- Sinónimos, epítetos, frases e descrições:

“ASTUCIA. Sagacidade. = Dolosa, maliciosa, fraudulenta, maquinadora, enganadora insidiosa, disfarçada, simulada, fingida, destra, sagaz, secreta, occulta, prevenida, prevista, cauta, cavilosa: Ou Sabia, prudente, judiciosa, engenhosa, acautelada, innocente louvável. = Dolo sagaz, politica silada. Prevenida malicia enganadora Mais temida que a força declarada, Pois de destrezas mil maquinadora Faz cahir o valor na trama armada. (Em Cesar Ripa achamos representada a Astucia enganadora na figura de huma mulher de corpo grosso, vestida de cores cambiantes, e as costas, e peito cobertos de huma pelle de raposa. Alciato accrescenta, dando-lhe a acção de acariciar com huma mão a hum lince, e com outra a hum mono.)77

74 Idem, Ibidem, p. 210

75 Idem, Ibidem, p. 94 76 Idem, Ibidem, p. 98 77 Idem, Ibidem, p. 78

Relativamente à segunda edição, quando os seus autores optam por acrescentar informação aos artigos já existentes, normalmente respeitam essa mesma ordenação. É o que podemos verificar neste artigo, em que foi acrescentado um epíteto aos já existentes, colocado no final destes, que por sua vez havia sido retirado da citação que foi acrescentada no final do artigo, no local destinado às descrições.

“BRIO. Generoso, illustre, valeroso, alentado, honrado, soberbo, altivo, vingador, desafrontado, audaz, atrevido, ousado, intrepido, insofrido, nobre, forte. = Zelo da honra, espirito animado De altivez insofrida, e generosa. De illuttres corações digno ciume. Delicadezas de animos honrados, E pundonores de almas, que só gerão Pensamentos soberbos, e alentados. De acções nobres prudente conselheiro. Pimentel fol. 5. Com rutilante, e cortadora espada Mostrando Michael seus fortes brios Na vil, soberba, intrepida manada De Lucifer, meteo os duros fios.”78

Nos casos em que os lexicógrafos optam por adicionar uma nova entrada, esta ordenação da informação também é seguida. O artigo é, quase sempre, iniciado por epítetos, normalmente extraídos da própria citação, seguindo-se a mesma no espaço das descrições:

“CORREIO. Cançado, certo, seguro, apressado, empoado, fatal, funebre, feliz, venturoso, funesto, alegre, pezado, enfadonho, importuno, molesto, triste, arrebatado. Pereira pag. 30... Quando hum cansado Correo a seus pés o rosto inclina Que d’Africana terra peregrina.”79

Não se esqueceu o nosso dicionarista de proporcionar no final da sua obra um leque de símiles e comparações, que apresenta em entradas ordenadas alfabeticamente, num apêndice a que deu o nome de: Socorro Poético. A entrada é comparada e apresentada ao utilizador de forma simples e fundamentada:

“PERSEVERANÇA. Aristoteles no liv. 9. de Anim. A compara às formigas, que levando o sustento para os seus celleiros, vão todas enfiadas, e nunca se affastão do caminho, que huma vez tomarão, perseverando sempre na mesma ordem, e fadiga.”80

Cremos, desta forma, poder concluir que a ordenação da informação que compõe os artigos e anunciada pelo autor foi seguida e respeitada, sendo, no entanto, frequente a não presença de uma ou outra categoria dentro do mesmo artigo.

78 In: Diccionario Poetico… 2ª ed. p. 239 79 Idem, Ibidem, p. 315