5. Synthèse et remarques conclusives
5.3 Des locuteurs monolingues… du parler bi(e)lingue
Diccionario Poético, ao mostrá-lo a um amigo este o alertou para a necessidade de efectuar “á parte hum breve Vocabulário de diversas comparações para socorro do Poeta principiante, visto que erão mui poucas as que hião pelo corpo do Diccionario.” Dando-lhe razão e concordando com a utilidade do mesmo, optou por fazê-lo, no que adianta tratar-se de algo também inteiramente novo a um dicionário poético.
Pretende o autor encarecer a sua obra com mais esta novidade. No entanto, cumpre lembrar que já o Gradus ad Parnassum apresentava algumas comparações.
A obra encerra, então, com um apêndice a que deu o título de Socorro Poético, nele se podendo encontrar reflectidos os interesses temáticos da poesia, como era idealizada por Freire, numa estreita conexão entre esta e os valores religiosos e morais perfilhados pelo autor.138
136 In: Diccionario Poetico… 2ª ed. p. 302 137 In: Idem, Ibidem, p. 373
138 Cf. Evelina Verdelho, Sobre o Dicionário Poético de Cândido Lusitano. Lisboa, 1983, p. 290, sep. B. Filologia, 28.
Para a concepção deste Socorro, composto por comparações e símiles, Cândido afirma ter-se servido de “diversos, e gravíssimos Authores assim antigos, e modernos, como sagrados, e profanos, occupando os Poetas o maior numero.”139
São, de facto, variados os autores de que se serviu o lexicógrafo, destacando-se sobretudo, a alusão aos da antiguidade clássica como Séneca, Aristóteles, Plínio, Ovídio, Lucrécio, entre outros:
“ANGUSTIA. As tribulações elevão o espirito ao Ceo, e por isso Seneca compara huma vida angustiada de trabalhos à agua, que opprimida em repuxo sóbe com força ao ar, e deixada livremente ao seu natural curso, muitas vezes se entorpece, e se torna em ociosa lagoa. Aristoteles na sua Ethica igualmente a assemelha ao rio, que nunca se mostra mais pomposo, do que quando no seu curso encontra com obstaculos, que lhe disputão o caminho : então he que se eleva em altas ondas, e estas batidas das contrariedades se mostrão mais puras, e crystallinas.”140
Os autores de carácter religioso, como S. Gregório Nazianzeno, S. Agostinho, S. Cipriano ou S. Paulino de Nola, também são abundantemente referenciados:
“APOSTATA. S. Gregorio Nazianzeno, e S. Paulino de Nola, ambos em suas Poesias descrevendo a hum desertor da santa Religião, o comparão à pirausta, animal que felizmente vive, em quanto se corserva no fogo, e apenas está fóra delle, logo morre. Assim a alma se não se aparta do vivo fogo de Deos, com que se illustra a Religião verdadeira, vive feliz ; tanto que se affasta, morre miseravel.” 141
Cumprida a missão, o nosso oratoriano coloca, assim, ao dispor do poeta principiante um leque variadíssimo e superiormente organizado de ferramentas prontas a serem utilizadas, para que nada lhe falte. Saiba ele bem manejar este dicionário, vestindo cada vocábulo, expressão ou frase com a cor, a elegância e a sensibilidade que pedem a linguagem poética e dele retirará especial proveito.
139 In: Discurso Preliminar, 2ª ed. p. 27.
140 In: Diccionario Poetico… Socorro Poetico, 2ª ed. p. 218 141 In: Idem, Ibidem, p. 219
3. Gradus ad Parnassum / Diccionario Poetico
Sendo a obra Gradus ad Parnassum várias vezes referenciada142 por Freire, e admitida como uma das fontes seguidas, quisemos saber até que ponto o Dicionario é dela seguidora. Para tal, tomámos por exemplo comparativo dois lemas presentes em ambas as obras:
Gradus ad Parnassum Diccionario Poetico
“Castitas, atis. Pacis quietem, castitatem corporis.
(jamb.) SYN. Puritas, integritas, pudicitia. EPITH. Pura, candida, sancta, veneranda, intacta, pudica, innocens, honesta, incorrupta, verecunda, intemerata, victrix, caelestis, angelica, divina, ingenua, mira. PHR. Casta vita, casti moles. Nulla reparabilis arte. Thalamiis sine crimine vitae. Ingenuae signa pudicitiae. Intactus flos pudicitiae, servavi, fateor, morte pudicitiam. Lis est cum forma magna pudicitiae. Vel pater omnipotens adigat me fulmine ad umbras. Ante, pudor, quam te violem, aut tua jura resolvam.” 143
“CASTIDADE. Pudicicia, pureza, continencia,
honestidade. = Intacta, illeza, inviolada, immaculada, incorrupta, intemerada, pura, candida, innocente, pudica, honesta, portentosa, illustre, heroica, virginea, santa, divina, celeste, Angelica, irreparavel, illibada. = Das virtudes o lirio immaculado, Adorno o mais gentil da formosura, Que sente o seu candor irreparado Ao leve bafo da torpeza impura. Intacta flor, que o puro Ceo cultiva, Porque terrena mão da gala a priva. Heroina triunfante da lascivia. Do carnal appetite duro freio. Do sordido prazer desprezadora. De geração Angelica nascida, E não da immunda terra produzida. (Bacellar) (Os antigos Poetas a representavão na figura de formosissima Virgem, vestida de branco, com hum ramo de Cinnamomo na mão direita, na esquerda hum crivo cheio de agua, e debaixo dos pés huma serpente morta envolta em muitas joias, ouro, prata &c.” 144
“Ceres, Cereris. Flava ceres alto nequicquam spectat olympo. Saturni & opis filia. Dea frugum, & agricultura. Totum terrarum orbem peragravit, toedam accensana gerens, ut Proserpinam à Plutone raptam quaereret. SYN. Mater Eleusina: Eleusis ab Eleuso, Africae oppido, ubi colebatur. EPITH. Flava, munda, falcifera, aurea, laeta, foecunda, spicifera, rubicunda, magna, AEthnaea, dives, alma, frugifera, sitibunda, auricoma, sperata, expectata, attrix, optata, spicea, ruricola, Actaea, Attica, Eleusina, Ennaea, Enna est civitas Atticae: Sicula, sicana, AEtnaea, à Sicília, ubi templum ipsi dicatum. PHR. Frugum genitrix, mater, inventrix, alma parens. Diva potens frugum. Dea frugifera. Spicis temporã cincta Ceres. Spicea serta gerens. Spicis tempora cincta Ceres. Spicea sertã gerens. Spicis redimita capillos. Quae vestit frugibus arva. Quae frugibus almis Ditat agros. VERS. Prima Ceres ferro mortales vertere terram instituit, cum jam glandes atque arbuta sacrae Deficirent sylvae. Prima Ceres docuit turgesceré senem in agris: Falce coronatas subsecuitque comas. Prima jugis tavios supponere colla coegit, et veterem curvo dente revellit humum.” 145
“CERES. Fecunda, fertil, frugifera, liberal, generosa,
munifica, prodiga, abundante, rica, opulenta, creadora, ruricola, camponeza, fausta, alegre, sollicita, diligente, operosa, industriosa, aurea, loura, bella, formosa, benigna, benefica, propicia, piedosa, Saturnia, Attica, Sicula. = A bella filha de Opis, e Saturno, Do avaro camponez deidade amiga, Que rico o faz da liberal espiga. Benefica Deidade que alimenta A loura espiga, que os mortaes sustenta. Ao avido colono Deosa fausta, Que a terra de seus dons faz inexhausta. Do camponez o Numen adorado, Que lhe deo curva fouce, e agudo arado, Para obrigar com seu trabalho astuto A dar a terra inerte o pingue fruto. (Os Poetas representão a Ceres na imagem de huma alegre Matrona em huma carroça guiada por dous bois, ou por dous dragões, como quer Bocaccio na Genealogia dos Deoses. Na mão direita lhe põem huma fouce de ouro, e na esquerda hum feixe de espigas de trigo, com as quaes lhe ornão tambem a longa, e loura madeixa.)”146
142 A obra Gradus ad Parnassum surge nomeada por quatro vezes no Discurso Preliminar, 2ª ed., pp 2, 24 e 25. Os artigos aqui reproduzidos pertencem à edição de 1747 (Veneza na “typ. Balleoliana.”)
143 In: Gradus ad Parnassum, 1747, p. 156 144 In: Diccionario Poetico…, 2ª ed. p. 264 145 In: Gradus ad Parnassum, p. 165, ob. Cit. 146 In: Diccionario Poetico…, p. 276, Ob. Cit.
A comparação destes dois artigos confirma-nos a proximidade evidente entre as duas obras, tendo Freire aproveitado do Gradus sinónimos, epítetos e até a inspiração para algumas das frases incluídas no seu Diccionario Poético. De forma a tornar mais fácil o seu visionamento, sublinhámos no quadro comparativo anterior os vocábulos presentes em ambas.
Tomando por ilustração ao que dizemos os artigos do lema “castidade”, verificamos que dos três sinónimos presentes no Gradus, dois deles (pudicicia e pureza) foram incluídos no Diccionario.
Quanto aos epítetos, também aí se verifica ter-se abundantemente servido Cândido do
Gradus, já que do total de vinte e um presentes neste mesmo artigo no Diccionario, doze encontram-se, igualmente, na obra comparada.
Relativamente às frases, também podemos observar que algumas das constantes no
Gradus serviram para a composição das verificadas na obra de Freire. Neste mesmo artigo isso também pode ser observável, comparando frases como as seguintes com igual início:
Gradus: “Intactus flos…” Diccionario: “ Intacta flor…”
Comparando, agora, os artigos dos lemas “Ceres” presentes em ambas as obras, verificamos que também foram transportados, embora em menor quantidade, epítetos do
Gradus para o Diccionario. Dos trinta epítetos deste último, um terço deles estão, também, presentes no Gradus.
Igualmente podemos aperceber-nos de influência na construção de frases, algumas de forma mais evidente, como na seguinte:
Gradus: “Saturni & Opis filia.” Diccionario: “A bella filha de Opis, e Saturno”
De notar que no Gradus o artigo do lema “Ceres” apresenta uma organização e apresentação da informação bastante semelhante à verificada no Diccionario, com sinónimos, epítetos, frases e descrições (vers.). Tal facto constitui prova acrescida de lhe ter servido como uma das principais fontes, sobretudo em lemas que abrangem temáticas como a mitologia, vícios, virtudes ou outro sentimento humano.
É certo que de outros dicionários se serviu Cândido para a realização deste seu. Ele próprio o foi confessando ao longo do já aqui citado Discurso Preliminar. Lembramos alguns por ele referenciados como a Eloquencia Poetica do padre Lebrun, 147 o
Dictionarium poeticum do padre Vanière, 148 ou o Giardino degli epiteti, do padre Spada.149 Outros lhe terão servido de apoio, mas Freire a eles se refere de forma vaga, não precisando nem autor nem título, afirmando, em tom irónico, ter-se servido dos já enunciados “e outros, de que não sente falta a Poesia Latina.”150
Verificámos, efectivamente, que dentro da lexicografia estrangeira ao dispor do nosso autor, a que de forma mais marcada lhe serviu de apoio e referência foi o Gradus ad Parnassum, conforme acabámos de mostrar, razão essa que nos levou a optar por tal obra.
Dentro da lexicografia portuguesa, também aí se poderão encontrar antecedentes, nomeadamente nos dicionários existentes bilingues (português-latim) que terão prestado algum auxílio a Cândido. Já aqui nos referimos ao muito provável uso da Prosódia de
Bento Pereira,151 célebre composição lexical nessas duas línguas, constituída a pensar naqueles compositores, autores ou estudantes, que se exprimissem na língua latina. No entanto, foi ao Vocabulário de Synonimos de Bluteau que Freire mais recorreu para a realização do seu Diccionario Poetico, conforme também já aqui o dissemos e que motivou a nossa escolha para o estudo comparativo realizado entre ambos os dicionários. Todavia, e como no presente trabalho se pôde verificar nas comparações efectuadas, o nosso dicionarista apenas se serviu do que achou mais essencial, rejeitando vários vocábulos da fonte e, sobretudo, acrescentando-lhes muitos mais, o que proporciona à obra um valor de originalidade e qualidade intrínsecas.
147 Lavrentii LEBRUN Nannetensis, è Sociietate Iesv, Eloqventia poética, sive praecepta poética exemplis poeticis illustrata. Parisiis, Apud Sebastianum Cramoisy… et Grabrielem Cramoisy…, MDCLV, 2 tomos. 148 Jacob VANIERI, Dictionarium poeticum. Lugduni, 1710.
149 Gio Battista SPADA, Giardino degli epiteti, traslati & Aggiunti Poetici Italiani. Veneza, Francesco Baba, 1652, 2ª imp.
150 In: Discurso Preliminar, 2ª ed. p. 2 151 Bento,
PEREIRA, Prosódia in Vocabularium Trilingue, Latinum, Lusitanicum, & Hispanicum […]. Lisboa, 1605-1681.
IV - CONCLUSÕES
A leitura, a edição e o estudo de ambas as edições do Diccionario Poetico permitiram confirmar que estávamos perante uma obra e um autor merecedores de maior divulgação, estudo e conhecimento.
Esperamos que o presente trabalho contribua para recuperar e trazer de novo a público não só um texto que é pouco conhecido, mas também o seu autor que, na época, foi dos mais reconhecidos e valorizados, sendo indiscutível a sua grande erudição e o seu amor à literatura, à oratória, à cultura e à Língua Portuguesa.
O valor da sua extensa obra fica bem exemplificado por este Diccionario que, pelo seu original e abundante agenciamento da palavra selecta, deve ter proporcionado, a muitos dos nossos mais conceituados oradores, poetas e escritores que dele puderam usufruir, grande apoio e inspiração nas suas criações, disponibilizando-lhes copiosamente novos recursos lexicais, promovendo a variação e a abundância verbal, enriquecendo a memória linguística.
Através da edição e estudo aqui efectuados, esperamos poder contribuir para a sua divulgação e leitura facilitada, de forma a, por esta via, estimular novos estudos e novas reflexões. O acesso ao Diccionario, deste modo desimpedido, será certamente gratificante para muitos leitores e proveitoso para os estudiosos que queiram pesquisar o seu grande valor linguístico, poético, retórico e até literário.
As linhas de análise que traçámos proporcionam uma perspectiva ilustradora do contexto de produção deste dicionário, dando conta das fontes, metodologia e propósitos seguidos pelo autor na sua realização, bem como da técnica lexicográfica utilizada.
Sendo o dicionário um instrumento linguístico fundamental para o estudo de uma língua, a inclusão no mesmo de variadíssimas citações de autores que serviriam de exemplos autorizados para o seu uso, reforçadas por abundantes frases de valor literário e poético, ilustradoras de temáticas como a história, a mitologia, a poesia, a religião ou a natureza, enriquecem o seu conteúdo, tornando o Diccionario Poetico num verdadeiro tesouro linguístico.
O extenso corpus linguístico, organizado por lemas ordenados alfabeticamente, apresentando artigos compostos por sinónimos, epítetos, frases e citações proporciona um património linguístico, literário e dicionarístico de grande importância para a autorização da moderna lexicografia portuguesa. A técnica lexicográfica utilizada confirmou a sua modernidade, permitindo que gerações posteriores lhe reconheçam ainda valor e utilidade.
Embora cerca de duzentos e quarenta anos nos afastem desde o ano da primeira publicação do Diccionario, parece-nos que ainda hoje poderá ser obra bastante útil para os mesmos fins com que foi elaborada por Cândido Lusitano: a de prestar socorro poético à mocidade portuguesa e ao orador principiante. Atrevemo-nos, mesmo, a acrescentar que a sua utilidade poderia servir muitos outros e não só a mocidade ou o principiante nessas difíceis artes, tendo em conta a qualidade do seu conteúdo.
Deixamos, aqui, o nosso desejo e, igualmente, o desafio para aqueles que verdadeiramente se interessam e valorizam a Língua, a Literatura e a Cultura Portuguesa.
V – Bibliografia
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