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6. ISOTOPIC CORRELATIONS
Associar os elementos do nível discursivo (CALABRESE, 1999) com a organização da narrativa e as estruturas mais elementares (figura 7) pareceu um percurso interessante para compreender o caráter investigativo, por meio da análise das repetições, nas séries que compõem os objetos de análise desta pesquisa. Uma vez que temos a estrutura narrativa bem definida, fica mais prática a investigação de estruturas similares entre diferentes subgêneros seriados.
Figura 7 - Quadro sinóptico29
Ressaltamos que nem todos os elementos serão empregados ao mesmo tempo. No processo analítico, alguns pontos terão mais importância para determinadas cenas e sequências, enquanto outros só aparecerão para dar suporte à contemplação da narrativa.
A relação de um texto com si próprio e com outros textos permite a compreensão dos mecanismos de inovação e repetição. É de extrema importância o mapeamento das especificidades e das recorrências de cada uma das séries, para então realizarmos uma análise comparativa. Ou seja, em um primeiro momento identificar o que se tem como semelhante
29 Esquema elaborado para ilustrar de que forma relacionamos os elementos apreendidos da proposta de Calabrese (1999) e os elementos internos da Narratologia. As setas indicam a associação entre eles.
nos mais diferentes textos (identidade dos mais diferentes), e conseguinte averiguar de que forma esse idêntico é tensionado (variação de um idêntico) em gêneros diferentes.
Agora que temos as bases teóricas, compreendemos as especificidades de um produto serial, verificamos as convenções das categorias seriais aqui estudadas, reconhecemos os elementos recorrentes nas histórias policiais – e, com isso, revelamos o que constitui o caráter
investigativo –, podemos partir para apresentar de que forma, operacionalmente, assumiremos
esses elementos para analisar os episódios.
O corpus de análise se constitui de uma temporada de cada série, sendo que cada temporada tem 22 episódios, com aproximadamente 44 minutos de duração cada um, equivalendo a um total aproximado de 2.900 minutos. Dessa forma, para lidar com a grande quantidade de material, e responder aos objetivos e hipóteses, propomos a análise da: (1) apresentação do caso e (2) investigação e resolução; esses momentos, conforme estudamos no primeiro capítulo, estão diretamente relacionados com o caráter investigativo. De tal maneira, observamos de que forma foram apresentados ao espectador os elementos fundamentais de histórias de enigma.
Organização da história
O primeiro ponto a ser observado é de que forma as três séries são estruturadas para contar a história. Os episódios das três séries investigadas seguem aproximadamente uma mesma estrutura organizacional da narrativa: os episódios são divididos em um teaser (que varia entre dois a cinco minutos), cinco atos (que duram aproximadamente oito minutos), e o
clímax do episódio aparece, de forma recorrente, no quinto ato, conforme observamos na
figura 8:
Figura 8 - Estrutura dos episódios divididas em atos30
30 Figura elaborada para ilustrar a configuração dos episódios com suas divisões em atos. Com esta figura pode- se apontar os momentos em que se apresentam os arcos narrativos, e, assim, fica mais acessível a observação da serialidade e continuidade nos objetos estudados.
Apresentação do caso
Frequentemente, nas séries detetivescas, o crime a ser solucionado ocorre (ou é descoberto) no teaser. É importante ressaltar que essa apresentação muda de programa para programa, mesmo em séries policiais; por exemplo, em Law&Order - SVU (Dick Wolf, 1999-), muitas vezes, esses primeiros minutos antes dos créditos de abertura mostram os detetives encontrando as vítimas na cena do crime, ou seja, o crime já ocorreu.
O teaser de abertura do seriado tem poucos minutos para conquistar a atenção da audiência, desse modo, nos primeiros minutos, são dadas informações e pistas sobre o enigma a ser desvendado. Algumas informações são passadas por meio de convenções, como a localização (plano geral, reduzindo até mostrar o personagem), uma breve caracterização do personagem (o que ele faz, onde vive, o que está fazendo, mostrando traços de personalidade pelas atitudes e figurino) e a apresentação do crime/caso.
Em Supernatural (Erick Kripke, 2005-) e House (David Shore, 2004-2012), o teaser mostra um pouco sobre a vítima/paciente e sobre o crime/caso. Após os créditos de abertura, vemos como os personagens tomam conhecimento do caso e a discussão sobre aquela investigação de fato valer a pena. Já em Criminal Minds, os primeiros dois minutos do teaser costumam mostrar o criminoso antes da ação ou a vítima antes de sofrer a ação do criminoso; e logo em seguida, ainda no teaser, vemos a equipe analisando o caso, dando mais detalhes e um prazo de urgência para que solucionem o enigma e consigam salvar a vítima.
Importante também é a análise da aceitação do caso por parte dos investigadores. Sabe-se que quanto mais complexo e mais difícil de solucionar o caso, mais interessante e intrigante ele se torna. A apresentação do crime/enigma no início do episódio é o ponto inicial para o desenrolar da história, a organização e disposição de personagens e elementos na cena, combinados com o design de som, promovem tons, sensações e expectativas diferentes. Nessa apresentação, temos pouco tempo para conhecer os personagens do caso do dia. Então, todos os elementos dispostos para o espectador desempenham funções fundamentais para a narrativa. Normalmente, por causa do pouco tempo para conhecer a personagem – criar empatia, ou antipatia por ela – torna-se importante se observar a disposição da luz, do figurino, da composição do cenário em que ela está, sua postura, atitudes, tom de voz, entre outros aspectos, pois são elementos cruciais nessa composição.
Também, pode-se pensar em uma relação que se estabelece entre o detetive e o crime, seu grau de interesse, interação e envolvimento. Com base em Todorov (2006), pode-se sugerir dois níveis distintos de relação do investigador com o caso. A tipologia do romance policial (TODOROV, 2006) serviu como base para identificar e compreender a relação de envolvimento do investigador com o caso/enigma. Desta forma, pode-se sugerir a existência de, essencialmente, dois níveis de envolvimento do detetive com o crime: (1) investigador não faz parte da história do crime; (2) investigador faz parte do universo da história do crime e, por fazer parte da história, isto vai desencadear a sua motivação para investigar.
A apresentação do caso é importante não só para conquistar o espectador, mas também o enigma deve ser interessante o suficiente para que mereça a investigação dos protagonistas. Em vista disto, propomos analisar a forma e as estratégias empregadas na apresentação do caso/crime/enigma. O objetivo deste tópico é verificar de que modo a organização dos elementos cênicos e sonoros dão pistas da construção dos personagens do caso do dia e seus papéis na história.
O método de investigação
O modo como os investigadores procedem no processo de desvendar o mistério é peculiar de cada um, suas habilidades específicas demandam comportamentos analíticos e investigativos distintos. A comum associação de mais de um detetive (Criminal Minds), de médico- diagnosticador (House) ou caçador (Supernatural) – a dupla ou a equipe – demonstra essa necessidade de complementação de métodos, enquanto um é mais empático com as testemunhas e consegue com mais facilidade as informações, o outro pode ser mais ágil e ainda possuir uma maior percepção das situações e circunstâncias.
Mas ainda que o processo seja específico de cada investigador, alguns procedimentos são recorrentes, como a entrevista de testemunhas, o interrogatório de suspeitos, a coleta de pistas e evidências nos locais do crime/caso, a análise das informações e pistas, a pesquisa sobre semelhanças em outros casos e a intuição do investigador.
A forma com que cada detetive se apropria desses mecanismos investigativos está diretamente associada ao caso do episódio. Os interrogatórios são adaptados para que o suspeito revele os segredos, bem como são utilizados artifícios para se aproximar das testemunhas e conquistar
sua confiança, para que elas deem mais detalhes e informações do que já foi informado aos policiais (ou médicos) anteriormente.
Pensar na investigação é pensar na maneira com que os protagonistas se relacionam com a cena do crime, com as pistas encontradas, com as evidências e com o próprio criminoso. É interessante observar o comportamento e a função de cada personagem na solução do enigma, de maneira a identificar como foram estabelecidos os modos investigativos das séries e dos personagens, assim como a construção das cenas para mostrar as etapas investigativas.
A investigação resulta na solução do enigma, e os modos em que eles são apresentados para os personagens da série e para o próprio espectador são interessantes, onde se expõe a revelação do culpado e a elucidação do caso. Nas histórias detetivescas de Sherlock Holmes, Hercule Poirot e outros investigadores, os momentos da revelação eram acompanhados de um grande suspense, uma reunião com todos os suspeitos na sala, quando o grande detetive apontava o culpado.
Além da revelação do culpado, é necessário explicar como se chegou a essa resposta, então se tem o momento de elucidação, em que são refeitos os passos e pistas, explicando os detalhes que levaram à identificação do culpado. Acreditamos que as três séries manejam esse momento de formas distintas, e pretendemos verificar como uma série policial, uma série médica e uma série de scifi/fantasia se apropriam desse momento típico do caráter investigativo.
Após a análise descritiva e interpretativa de todos os episódios das três séries, estaremos hábeis para identificar quais são os elementos recorrentes e singulares: como funcionou o tempo da história; a construção, a função e a evolução dos personagens com os papéis temáticos; e a disposição e a relação dos elementos variáveis e invariáveis. É um momento de tratamento das informações coletadas, que específica cada objeto analisado. Dividimos este momento em três partes: (1) elementos variáveis e invariantes, (2) o tempo e (3) papéis temáticos. Estes tópicos específicos apresentam, sucintamente, os dados encontrados na análise. Isto posto, pode-se pensar quais são os elementos que se aproximam e se distanciam das convenções.
Convenções e inovações possuem funções culturais distintas, a primeira representa o que é reconhecível e familiar – imagens, sentidos e significados compartilhados; a segunda nos coloca em novas percepções que ainda não tínhamos visto anteriormente (CAWELTI, 1972).
Essa relação contínua entre convenção e inovação aparecem (e sustentam) as produções seriadas; é a característica básica da formulação construtiva desses produtos. Consequentemente, propomos mais um tópico: (4) especificidades e convenções, que sublinha o que identificamos como convenções e como singularidades das obras.
E, por fim, é interessante de se pontuar de que forma cada série trabalhou a (5) serialidade. Como vimos anteriormente, esses produtos têm características específicas no modo de apresentar e contar as histórias. A estrutura dividida em episódios, reunidos em temporadas, promove uma construção fragmentada e ao mesmo tempo contínua. Dessa maneira, os ganchos e arcos narrativos desempenham um papel importante, e não devem ser desconsiderados no momento da análise.
Trabalhamos com diagramas para tentar compreender de que forma a continuidade foi construída nas três séries. Esses diagramas apontam os arcos narrativos principais e os momentos em que apareceram durante o episódio e durante a temporada.
Por conseguinte, com estes elementos identificados, podemos seguir para a análise dos episódios e posterior discussão comparativa dos dados encontrados.