O Projecto surgiu em 1997 com a mobilização do Instituto Apoio Crianças (IAC) e da Associação de Pais promovida por uma professora em funções no Conselho Executivo e na altura responsável pela área dos alunos.
“ (…) aqui a escola na altura tinha alunos muito mais velhos do que tem hoje, níveis de abandono assustadores, problemas disciplinares gravíssimos, muita violência no pátio… muita violência no pátio, que hoje é um céu comparado com esse tempo, ainda me lembro…. E na Associação de Pais estava uma associação de pais extremamente dinâmica” E1
Resultado desta conjugação de esforços vieram para a escola os primeiros técnicos e, no ano seguinte, com um concurso ao Projecto Vida – do IDT, o apoio das duas Juntas de Freguesia da área e a dinâmica da Associação de Pais, foi conseguido financiamento para a contratação de animadores de pátio.
O gabinete criado, de início teve algumas dificuldades uma vez que o seu trabalho era visto com alguma desconfiança. Os animadores movimentavam-se no pátio e abordavam os alunos sempre que necessário.
“(…) numa fase inicial isto fez alguma confusão (…) Especialmente aos professores. (…) Porque não era normal estarem dois ou três adultos num pátio a conversar com um jovem que está, por exemplo a faltar a uma aula, não é? Isto não era uma situação aparentemente normal, isto foi até assim… hoje é um projecto que faz parte da escola.” E4
“(…) E então surgiu a ideia da mediação, do mediador, daquele que servia de diálogo entre os professores e os pais. E começou então a surgir o tal gabinete, o gabinete de apoio aos alunos e à família, que surge então de uma parceria da Associação de Pais, do Conselho Executivo (…) e do IAC, que começou a financiar.” E1
O projecto começou a ganhar espaço na escola e o trabalho desenvolvido em torno dos seus objectivos: o controlo de pátio, a mediação escola-família e a prevenção de comportamentos de risco, começou a ter os seus primeiros resultados.
O controlo de pátio possibilitou uma diminuição da violência e dos roubos frequentes. A possibilidade de uma intervenção directa junto de alguns alunos com o objectivo de modificar as suas condutas disruptivas e prevenir comportamentos de risco abriu caminho a uma maior integração destes mesmos alunos. Por outro lado, a proximidade da escola à família, salientando a necessidade da participação dos Enc. de
Educação no processo educativo dos seus educandos, começa a ser parte integrante do processo. Os pais, ao serem informados, passam a reconhecer o esforço feito pela escola no sentido de ser criado um projecto de vida aos seus filhos o que facilita a sua participação no processo, contribuindo para o sucesso de muitos alunos.
Com o melhor conhecimento da população escolar e do meio social em que vive, foram feitas parcerias o que possibilitou um aumento da rede social de apoio ao aluno e às suas famílias. A articulação entre todos é feita através de reuniões periódicas:
“(…) recorremos muito às parecerias e isso é extremamente importante (…) chegava-se a trabalhar sobre a mesma criança ou jovem, a Santa Casa da Misericórdia, a comissão de protecção, a pedopsiquiatria, o director de turma, mais a psicóloga da escola, mais a assistente social não sei de onde, mais o técnico da junta de freguesia (…) de dois em dois meses fazia-se a reunião de parecerias de todos os técnicos que estavam envolvidos na comunidade e com as problemáticas da comunidade, isso foi muito importante.” E4
“(…) eles têm sido fundamentais nalguns aspectos, no financiamento, e há sempre uma resposta sempre que se precisa. Sempre, sempre, sempre. A todos os níveis, até em questões mesmo práticas, de precisar de fazer materiais, de utilizar as reprografias deles, os jornais, quer dizer… é fundamental para isto funcionar, há mesmo aquele funcionamento em rede.” E1
Para além da sustentabilidade financeira do projecto, os parceiros trouxeram outra mais valia. A especialização, experiência e actualização dos elementos do IAC possibilitaram uma troca de experiências e uma “reciclagem” dos técnicos a trabalhar na escola, tal como uma dinâmica constante de avaliação de processos e resultados. A diversidade de instrumentos de avaliação foi igualmente uma inovação.
“(…) todas as semanas há uma reunião do GAAF, em que se faz o estudo de caso mesmo particular, de aluno a aluno. (…) Está presente sempre alguém do Conselho Executivo, do SPO, da sala de integração e da UNIVA. (…) Estava também a Associação de Pais. Este ano deixou de estar porque considerámos que a Associação de Pais tinha razão de ser nas reuniões de parceiros, e não nas de caso particular.” E4
“Na altura, a avaliação... havia vários instrumentos de avaliação (…) O projecto era avaliado de seis em seis meses, portanto… foi muito bom. Desde inquéritos, a reuniões de estudo de caso, a supervisão, tudo era avaliado. (…) no final havia uma avaliação em termos de resultados, não é?... do que tínhamos… do que nos tínhamos proposto, resultados esperados, e dos resultados que tinham sido alcançados. (…) verificava-se o que é podia ser melhor e o que é que podia ser
pior. E, claro, obviamente, quando os resultados não eram alcançados tinha de se ponderar qual era a melhor estratégia e o que é que não estava a correr bem.” E4
Se o projecto se desenvolveu e cresceu, a escola acompanhou essa tendência. Foi criada uma dinâmica resultante do envolvimento dos professores, em especial os DT e Encarregados de Educação. As informações recolhidas sobre a estrutura familiar dos alunos, o meio social em que vivem e as expectativas dos E.E. face aos benefícios de um percurso escolar com sucesso, são informações importantes para o professor na determinação das estratégias individualizadas a adoptar com os diferentes alunos. Os técnicos do GAAF conseguiam, se não trazer os EE à escola, pelo menos recolher informações e manter os pais informados e participantes no processo.
“ (…) o director de turma faz o contacto com o GAAF e explica que ele chega atrasado, desarranjado, sem cadernos, com folhas debaixo do braço, completamente desorganizado, e que as notas estão baixas, tem faltas, são injustificadas… Qual é o espanto, quando se faz a visita domiciliária, não havia grandes referências em termos familiares e percebe-se, portanto, que é uma mãe da saúde mental (…) E a casa era, se calhar com cinco metros quadrados, ou dez, (…) em que… desde a casa de banho à cozinha, ao quarto, é tudo naquele espaço onde vivem mais dois irmãos, é óbvio que este miúdo nunca podia vir organizado para a escola. Claro que o próprio professor tenta encontrar um equilíbrio, tenta-lhe encontrar aqui uma sala de estudo, tenta que os cadernos fiquem cá, tenta-lhe encontrar um cacifo melhor que o dos outros e consegue com ele, dar-lhe uma atenção diferente e articular de uma forma diferente. Porquê? Porque lhe chega a informação. Quer dizer, neste momento acho que o projecto é muito importante para a formação dos professores…” E4
Mas não é só neste âmbito que o projecto desenvolve a sua actividade. A articulação com outros projectos da escola é também uma realidade. Todos os esforços são conjugados e meticulosamente articulados no sentido da integração e sucesso dos alunos. Entre eles são referidos: o PAA, SI, Percursos Alternativos, BE/CRE, Desporto Escolar ou a UNIVA. Como se pode verificar pela afirmação da Coordenadora de Projectos (E1) ou as Coordenadoras da SI (E2):
“O GAAF é um elemento fundamental … para este… para estes projectos existirem.” E2
Os resultados do projecto GAAF estão à vista, tanto pelas palavras de satisfação de quem foi entrevistado, como na diminuição do número de ocorrências de violência, como ainda pela redução dos níveis de absentismo e abandono.
Resta acrescentar que este projecto foi pioneiro em Portugal, servindo de modelo a muitos outros espalhados pelo país. No momento presente, está na eminência de ter de terminar, uma vez que o financiamento do IDT via IAC foi cortado, inviabilizando a presença, por mais tempo, dos técnicos na escola. É, no entanto, esperança da escola conseguir que o Ministério da Educação, face aos resultados de dez anos de duração do projecto e pelo facto de ser um “pilar” para o equilíbrio da escola, assegure o financiamento e possibilite a continuidade do mesmo. O reconhecimento, por parte das diferentes entidades, dos benefícios que tem significado para a escola mantém a esperança da sua continuidade.
“Esse é a menina dos olhos da escola. Tem dez anos. Tem dez anos e foi pioneira. Foi a primeira escola do país que teve um GAAF.” E1
“Acabou mesmo (…) Nós começámos a sentir logo… olhe, muito mais… miúdos a fugirem, para o pátio, porque não existe controlo de pátio, mais roubos (…) nós chegámos a escrever uma carta à ministra e outra ao secretário de estado. A situação neste momento é um bocado dramática para nós” E1
No quadro 13 resumimos os objectivos, estratégias, descrição e formas de avaliação.
Tabela 13. Quadro de Caracterização do Projecto – GAAF
Designação do Projecto
Justificação / Estratégias Objectivos / Finalidade Descrição do Projecto Resultados Esperados (metas) Indicadores de Avaliação Gabinete de Apoio ao Aluno e à Família (GAAF) - Promover a relação escola/família;
- Contribuir para o crescimento harmonioso e global da criança; - Prevenir situações de risco; - Prevenir o consumo de álcool / droga / tabaco.
- Apoiar as famílias e alunos na resolução das suas problemáticas; - Promover redes de apoio comunitárias;
- Criar dinâmicas dentro da própria escola, envolvendo alunos, pais e agentes educativos;
- Prevenir abandono e absentismo; - Contribuir para o sucesso escolar; - Promover estilos de vida saudáveis;
- Modificar a conduta disruptiva que dificulta a integração;
- Ajudar na criação do projecto pessoal do aluno;
- Despistar situações de risco; - Prevenir comportamentos de risco.
Consiste no: - acolhimento/ abordagem individual e informal no terreno; - acompanhamento aos alunos no pátio; - intervenção junto da família de alunos absentistas/ abonadores e com problemas comportamentais, prestando apoio na vertente de informação e encaminhamento para serviços e instituições e; - articulação e cooperação com todos os parceiros da rede de suporte à comunidade local.
Outras actividades como: Dança, Escultura, Xadres, Jogos Tradicionais, Escalada, Rádio e Hip- Hop. - manter o contacto família/escola. Avaliações externas e internas. Reuniões periódicas com os diferentes parceiros onde é feito o balanço e estudados os casos.