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INTRODUCTION

Dans le document ETMIS2009_Vol5_No3 (Page 23-26)

Se ao longo das formulações de Mariátegui sobre a caracterização do Peru, tanto do ponto vista do estágio de avanço das forças produtivas como do estágio de organização das classes sociais, há pontos de concordância com a análise de Haya de la Torre, o que os levounum primeiro momento a se aproximarem, por outro lado, o aprofundamento da análise que Mariátegui empreendeu da realidade do Peru, a partir de seu referencial marxista, acabou levando-os ao rompimento.

Haya de la Torre, em 1924, durante seu exílio no México, criou a APRA, organização que pretendia unir as diversas forças que lutavam contra o imperialismo no continente. Sua principal tarefa seria constituir a “Frente Única Internacional de Trabalhadores Manuais e Intelectuais (operários, estudantes, camponeses e intelectuais) com um programa comum de ação política”. Os fundamentos dessa organização, que Haya de la Torre denominou de “programa máximo” da APRA, eram expressos em cinco pontos gerais:

60 Augusto B. Leguía governou de 1908 a 1912 e de 1919 a 1930, sendo este segundo período designado de oncenio pela historiografia peruana. (ESCORSIM, 2006, p. 18).

1º – Ação contra o imperialismo yanqui.61 2º – Pela unidade política da América Latina. 3º – Pela nacionalização de terras e indústrias. 4º – Pela internacionalização do Canal do Panamá.

5º – Pela solidariedade com todos os povos e classes oprimidas do mundo (HAYA DE LA TORRE, 1972, p. 3).

Esses postulados vão constituir-se nos pontos que sustentarão a proposta de transformação da APRA em um partido político. E justamente a partir dessa definição de Haya de la Torre de transformar a APRA, de um movimento que nasceu com o caráter para organizar os mais diversos movimentos e partidos numa frente anti-imperialista em um partido, é que Mariátegui rompe com ele, em junho de 1928. Um partido que nascia como mais um “partido nacionalista pequeno-burguês e demagógico” (MARIÁTEGUI apud LÖWY, 2005, p. 28).

O aprofundamento dos estudos que Mariátegui realizou sobre a realidade peruana demonstrou que a perspectiva apontada por Haya de la Torre estava equivocada, o que foi determinante para o seu afastamento da política traçada pelo fundador da APRA. Para Mariátegui, não era possível, a partir de alianças entre classes antagônicas, derrotar o imperialismo; já Haya de la Torre defendia que, mesmo com contradições entre essas classes, a dominação imperialista exercida nos países latino-americanos possibilitava a aproximação e alianças de classe.

Segundo Mariátegui, a construção da nação dar-se-ia a partir da transformação do Peru, bem como dos países que estivessem no mesmo patamar de desenvolvimento de suas forças produtivas, em sociedades socialistas. Sendo essa a luta a ser empreendida centralmente pelo proletariado urbano e camponês, era necessário que se compreendesse o papel do índio, que representava, naquele momento, mais de quatro quintos da população do Peru. Mesmo que para Haya de la Torre o indígena fosse considerado também como ponto de partida para o combate ao imperialismo, na visão de Mariátegui isso não possuía sustentação do ponto de vista histórico, pois, a partir da colonização

61 Haya de la Torre vai advertir que o postulado de “luta contra o imperialismo yanqui” não excluía a luta que a APRA teria que desenvolver no combate aos imperialismos, como o britânico, por exemplo. Vai justificar o lema de luta contra o imperialismo yanqui como fator de maior irradiação junto aos países do Caribe e América Latina que naquele momento viviam sob o jugo predominante do imperialismo estadunidense.

espanhola, passando pela república, o indígena não logrou sua integração à sociedade peruana. Afirmava Mariátegui:

A República significou para os índios a ascensão

de uma nova classe dominante que,

sistematicamente, se apropriou de suas terras. Numa raça com costumes e alma agrária, como a raça indígena, este despojar constitui-se numa causa de dissolução material e moral [...]. A servidão do índio, em resumo, não diminuiu sob a República [...]. (MARIÁTEGUI, 1975, p. 29 e 30).

Portanto, o discurso aprista da construção de uma Indo-américa era figura de retórica, pois as elites criolla e mestiça, que para Haya de la Torre seriam parte integrante da luta anti-imperialista, nunca buscaram integrar de fato o índio na suas respectivas sociedades.

O desafio posto por Mariátegui e que se diferenciava da perspectiva aprista era que, mesmo sem o desenvolvimento por completo do capitalismo no Peru, era necessário empreender as transformações com um caráter socialista. Isso só seria possível construindo a unidade entre o proletariado e o camponês indígena.

O combate ao APRA que Mariátegui realizou foi por conta da defesa da aliança de classes que o partido de Haya de la Torre passa a buscar para viabilizar sua estratégia. No seu estágio de partido, o APRA, mesmo tendo um discurso que incorporava conceitos do socialismo, como, por exemplo, a necessidade de as transformações poderem se dar pela via revolucionária, defendia que, após derrotado o imperialismo, as classes governariam em harmonia. Essa política de alianças de classes, para Mariátegui, não tinha como levar à socialização dos meios de produção, contradição que ele expressou da seguinte forma:

[...] as burguesias nacionais que vêem na cooperação com o imperialismo a melhor fonte de ganhos sentem-se suficientemente donas do poder político para não se preocuparem seriamente com a soberania nacional [...] seria um grave erro pretender que, nesta camada social, vingue um sentimento de nacionalismo revolucionário [...]. (MARIÁTEGUI, 1994, p. 196).

Para Mariátegui, a estratégia do APRA de luta anti-imperialista não tinha sustentação numa formação social como a peruana. Ao escrever o prólogo do livro Tempestad em los Andes, de Valcárcel, Mariátegui apontava:

A destruição do gamonalismo, ou do feudalismo, poderia ter sido obra da República, dentro dos princípios liberais e capitalistas [...] estes princípios não nortearam efetiva e plenamente nosso progresso histórico. Sabotados pela própria classe encarregada de aplicá-los, durante mais de um século foram impotentes para reabilitar o índio de uma servidão que constituía um fato completamente solidário com o feudalismo. Não se pode esperar que hoje, quando estes princípios estão em crise no mundo inteiro, de repente adquiram, no Peru, uma estranha vitalidade criativa [...]. (MARIÁTEGUI, 1975, p. 22 e 23).

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