Rafael Cardoso é historiador da arte, escritor e tem contribuído para a bibliografia do design brasileiro com obras de referência: ‘O design para um mundo complexo’, ‘Uma introdução à história do design’, ‘O design brasileiro antes do design’, entre outras.
Para Cardoso (2012), o paradigma da produção industrial está mudando da produção em massa dos anos 1960 para uma produção flexível. De acordo com o autor, na sociedade contemporânea os conceitos que norteiam as indústrias com visão de futuro são: (a) customização, que é adaptar um produto de acordo com consumidor, (b) gestão contínua do fluxo de produção e (c) qualidade total do processo com responsabilidade social e ambiental.
Cardoso (2012, p. 162) argumenta que “o presente impasse ambiental nos obriga a adotar outro olhar para o artefato – como cultura material, ou seja: o vestígio daquilo que somos como coletividade humana”. Portanto, criar artefatos para que possam estar aptos para vários processos de ressignificação durante o tempo. Para o autor, projetar para o pós-uso será um grande desafio, que revolucionará o pensamento em design.
No contexto das problemáticas ambientais, optar em usar matérias-primas recicladas na concepção de produtos ainda é uma escolha que não resolve a totalidade do problema, principalmente quando a produção de lixo aumenta cada dia mais. Entretanto para Cardoso (2012) pode ser o primeiro passo.
Salienta também que o ciclo de vida do produto de modo linear é o modelo mais difundido entre os designers, iniciando-se com a concepção, até a última fase, o descarte. Na opinião do autor, o modelo de pensamento cíclico do ciclo de vida é pouco difundido no campo do design. Trata-se de um modelo que contempla também desde a primeira fase de concepção, mas não se finaliza com o descarte. Ele prevê ainda processos de reciclagem ou de recuperação para fechamento do ciclo e reinício do processo. O autor conclui que estamos com um grande problema, pois, “[...] poucos designers tentam fechar o ciclo, relacionando o descarte a uma nova modalidade de concepção” (CARDOSO, 2012, p.160).
Somando-se a isso, o autor faz uma reflexão sobre o pós-uso dos artefatos. Para Cardoso (2012) é difícil conceber o pós-uso, ou seja, projetar com a consciência ampliada do ciclo de vida dos produtos. Na verdade, para ele será um grande desafio, uma reflexão importante para propor para todos os designers no momento de criação e pesquisa. O autor argumenta que todo o artefato tem uma pré-história mesmo antes de ser concebido, e que nada vem de lugar nenhum. Na opinião do autor:
Para compreender verdadeiramente os desafios a serem enfrentados por um pensamento projetivo renovado, é preciso entender que a vida do artefato tem duração muito longa. Toda forma tem raízes num passado imemorial, o do repertório, e abre-se para um horizonte ilimitado, o da linguagem materializada. (CARDOSO, 2012, p.163)
Assim, uma das alternativas viáveis para a construção de cenários futuros poderá se dar por meio do modo de significação estabelecido entre artefato, usuário e sistema. Na visão de Cardoso (2012) o processo de significação dos artefatos é determinado por quatro fatores: (a) materialidade, (b) ambiente, (c) usuários e (d) o fator tempo. Em relação aos usuários, o autor afirma que os mesmos, são os responsáveis por modificar os significados dos artefatos e que essas modificações poderão se tornar uma prática de toda sociedade. Desta forma, o designer pode ser considerado um
mediador estratégico para concretizar a comunicação eficaz entre o produto e o indivíduo.
Cardoso (2012) também recomenda alguns princípios para serem considerados no processo de significação dos artefatos: (a) reversibilidade, o design para o desmonte com a utilização de módulos, para diminuir o acúmulo de lixo e estender a sobrevida através de substituições e combinações de partes; (b) manutenção, o artefato inserido em um sistema de uso, para aperfeiçoamento, reaproveitamento e simplificação dos processos de substituição; (c) pensamento sistêmico, como por exemplo, os objetos de uso múltiplo; (d) durabilidade, propiciando mais ênfase ao sentido do objeto do que dos materiais com que ele é produzido, objetos considerados heranças e relíquias. E afirma que:
Na origem de todo artefato, há um projeto. Seu propósito é embutir significados aos objetos: codificá-los com valores e informações que poderão ser depreendidos tanto pelo uso quanto pela aparência. Por meio da visualidade, o design é capaz de sugerir atitudes, estimular comportamentos e equacionar problemas complexos. (CARDOSO, 2012, p. 117)
Quanto maior for a capacidade de agregar e simbolizar mais de um valor a um objeto, menor é o risco do descarte (CARDOSO, 2012). Neste sentido, para os objetos que são considerados obras de arte, herança ou relíquias, Cardoso afirma que:
A durabilidade do valor desses objetos, mesmo que seja um valor puramente afetivo, transforma a própria noção de posse. Normalmente, em nossa sociedade, possuir um objeto quer dizer ter o poder de usufruir dele com exclusividade. (CARDOSO, 2012, p. 167)
Desta maneira, no ato de projetar um produto, o designer pode se dedicar mais aos significados do ser do que do ter, possibilitando que o usuário adquira a consciência do valor do produto e da sua responsabilidade pela manutenção e integridade do produto, para além do período de posse dele. No projeto, o designer pode sugerir uma multiplicidade de significados, que dependerá dos usuários utilizá-los ou não. Esta característica é mais um fator que demonstra a importância do profissional de design para os sistemas de significação (projeto), produção e consumo dos artefatos. O ideal é projetar objetos resistentes à obsolescência.
3.2.6. ‘Cradle to Cradle’ de Braungart e McDonough (2013)
A definição do termo ‘Cradle to Cradle’, que significa ‘do berço ao berço’, se refere à lei sobre a devolução de materiais, um modelo cíclico, se comparado ao modelo linear da Revolução industrial, ‘Cradle to Grave’, ou ‘do berço à cova’, na qual, após o uso, a produção industrial era destinada para uma única direção, o lixo. O padrão linear da indústria alterou o equilíbrio natural dos materiais no planeta. O modelo dessa abordagem é cíclico e se assemelha com o padrão da natureza, “opera de acordo com um sistema de nutrientes e de metabolismos em que o desperdício não existe” (MCDONOUGH; BRAUNGART, 2013, p.97).
O arquiteto William McDonough e o químico Michael Braungart são os criadores da abordagem ‘Cradle to Cradle’ (2013). A filosofia mais profunda deste modelo consiste em ver o descarte como alimento, como nutriente. O desperdício não existe. É uma forma de alimentar o futuro das próximas gerações. Os criadores aplicam métodos de cooperação entre indústria e consumidores, para assim, modificar a forma tradicional de se pensar os resíduos. McDonough e Braungart desenvolvem projetos e consultorias com base nesse conceito no mundo todo, e foram eleitos, em 2007, pela revista ‘Time’ como os “Heróis do Meio Ambiente”, como um reconhecimento por suas pesquisas e trabalhos (MCDONOUGH; BRAUNGART, 2013, p.20).
Na prática da abordagem ‘cradle to cradle’, os produtos podem ser compostos de materiais biodegradáveis, para funcionarem como alimentos dos ciclos biológicos ou de materiais tecnicamente criados, que permanecerão nos ciclos técnicos e fechados da indústria. McDonough e Braungart (2013) entendem que:
[...] Há dois metabolismos distintos no planeta. O primeiro é o metabolismo biológico ou biosfera – os ciclos da natureza. O segundo é o metabolismo técnico ou tecnosfera – os ciclos da indústria, incluindo a obtenção de materiais técnicos provenientes de lugares naturais. Por meio do planejamento correto, todos os produtos e materiais fabricados pela indústria alimentarão esses dois metabolismos com segurança, fornecendo sustento para algo novo. (MCDONOUGH; BRAUNGART, 2013, p.107)
Para os autores desse pensamento, as indústrias podem e devem contribuir para o bem-estar das pessoas e da natureza, colaborando para a restauração dos
ecossistemas do planeta e criando produtos que possam gerar impactos positivos para as pessoas e para a natureza. Braungart considera a abordagem ‘cradle to cradle’ como uma ‘estratégia de apoio’ e “[...] uma vantagem competitiva, porque toda empresa que adota essa abordagem revela ambição e disposição para a pesquisa” (MCDONOUGH; BRAUNGART, 2013, p.12).
McDonough e Braungart (2013) indicam cinco princípios orientadores para os designers e os líderes empresariais: (a) sinalizar sempre a intenção para o novo paradigma, (b) restaurar, (c) pronto para inovar mais, (d) entender e se preparar para o aprendizado e (e) exercer a responsabilidade Inter geracional. Estes princípios tem o foco nas pessoas.
Assim como Kazazian (2005), Braungart e McDonough (2013) observam que na natureza os resíduos são nutrientes para outros ciclos de vida. Ambos os autores argumentam que é necessário refletir sobre a forma tradicional de se pensar os resíduos e defendem a importância de valorizá-los nos sistemas produtivos da sociedade.