Era sexta-feira, os alunos do segundo ano tinham o primeiro horário da disciplina de Artes e depois 4 horários vagos, visto que estavam sem professores de três outras disciplinas. Ou seja, eles deveriam se deslocar de casa até a escola, provavelmente pegando um ônibus para ir e outro para voltar, com o objetivo de participar somente de uma aula de 50 minutos. E não esqueça, era sexta-feira! As marés não estavam muito favoráveis para a nossa observação. Mesmo assim, com descrença em nossa proa, chegamos à sala de aula: esta pesquisadora, um auxiliar de pesquisa e a professora de Artes (Cora).
Cora, aos 56 anos, é formada em Artes Plásticas pela UFRN (1995) e tem especialização em Gestão Pública pela mesma universidade. Atuou como professora do estado do Rio Grande do Norte de 2003 a 2008. Durante oito anos foi remanejada para um cargo de gestão em área distinta a Educação, retornando à sala de aula em 2015.Segundo a docente, ela enfatiza o trabalho em Artes Visuais, ainda que ensine também teatro e música. No que concerne a linguagem teatral, ela destacou exercícios de mímica. Em relação a sua experiência com educação inclusiva, a professora mencionou em entrevista que já havia ensinado a alunos surdos, com o auxílio de intérpretes de LIBRAS e que essa era a sua primeira oportunidade com alunos com deficiência visual.
Ao seu lado, esperamos. No mar, nenhuma onda. Persistimos e, com atraso, chegaram dois alunos. Dois de uma turma com 40. A professora como um olhar de, interpretamos, “está vendo como é difícil?”, colocou a presença nos alunos e resolveu dispensá-los.
Com receio de que o mesmo procedimento ocorresse durante a proposta de oficina, inviabilizando nossas ações, partimos para um processo de convencimento. Com isso, fizemos visitas à escola convidando os alunos para participar da oficina na aula seguinte de Artes, falando brevemente do cronograma e do tipo de metodologia que seria desenvolvida. O combinado era que eles teriam o primeiro horário com Cora e, em seguida, iríamos para o primeiro encontro de oficina.
A oficina contaria, então, como as aulas de Artes que estavam atrasadas, porque a professora Cora estava de licença e tinha voltado há poucos dias para a instituição. Além disso, a nota da disciplina seria dividida entre a participação nas oficinas e nas aulas de Artes Visuais. Embora um tanto coercitiva, a vinculação da oficina às notas foi baseada em um acordo entre a professora e a pesquisadora para estimular a presença e justificar as intervenções durante as aulas. Como foi constatado que os alunos presentes na oficina participavam ativamente dos jogos improvisacionais, sua presença na sala de aula já era suficiente para garantir a pontuação.
No dia do nosso primeiro encontro, fomos para a instituição com a apreensão até os joelhos. Será que algum aluno iria aparecer? Durante a aula de Artes Visuais, eles foram chegando aos poucos. Depois de alguns minutos, a sala tinha doze alunos, entre eles, um aluno com baixa visão, doravante chamado de Paulo L.
A primeira aula observada de Artes versava sobre as cores. No quadro, a professora escreveu o conteúdo relativo às cores primárias e secundárias. A fim de exemplificá-las, exibiu quadros do artista francês Henri Matisse. Na medida em que escrevia, perguntava aos jovens sobre o assunto.
Os poucos, os estudantes em sala estavam dispersos. Uma das alunas de pronto se ofereceu para ditar para o aluno com baixa-visão (Paulo L.), que digitava em seu computador. No decorrer da aula, a professora lançou uma pergunta que me fez pensar: "Como a gente vê as cores?". A resposta esperada relacionava-se com a incidência de luz. Eu, entretanto, em minha cabeça, respondi acrescentando um vocativo àquela pergunta: "Paulo L., como você vê as cores?". Imediatamente, lembrei
do vídeo de divulgação da ONCE (Organización Nacional de Ciegos Españoles), intitulado "As cores das flores"40.
No vídeo, o aluno do ensino fundamental, Diego, é cego e estuda em uma escola com perspectiva inclusiva. Sua professora pede para que a turma faça uma redação cujo tema é homônimo ao título do vídeo. Um tema é um tanto desafiante para Diego, assim como a aula deveria ter sido para Paulo L. Depois de recorrer ao site Wikipédia, que pouco o ajudou com suas definições complexas e com palavras rebuscadas para sua idade como "fotorreceptores", uma possibilidade de escrita aparece para Diego. Sua mãe está contando uma história, ao mesmo tempo que ele manipula um livro sensorial, cujo enredo versa sobre um caracol e um passarinho que discutiam quem ficaria com uma flor. Na cena seguinte, a criança está andando pelo bosque quando, de repente, escuta o som de um pássaro. Em sua redação, que poderia até ter sido pensada por Manoel de Barros41, ele escreve: "As flores são da
cor de passarinho. E existem muitas cores de flores. Por isso, há muitos passarinhos, porque há um passarinho para que cada flor tenha a sua cor. Também tem flores cor de abelha e também cor de vaquinha do campo...".
No município de Natal, entretanto, as flores não tinham cores de pássaros. Ao final da aula, a docente solicitou o seguinte exercício a ser realizado em duplas: "Faça uma composição geométrica utilizando somente as cores primárias e secundárias". A atividade deveria começar na sala e ser entregue na semana seguinte. Alguém pergunta: "E Paulo L.?". A professora diz que vai passar outro trabalho, porque ele não vai poder fazer aquele. Outro aluno sugere que ele pode fazer a atividade no computador a partir de um programa. A ideia não levanta voo. O sinal toca e, em preto e branco, vamos para a oficina de desmontar o som.
40 Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=s6NNOeiQpPM>. Acesso em: 14 jun. 2016.
41Manoel de Barros foi um dos principais poetas contemporâneos brasileiro. Nasceu em Cuiabá, Mato
Grosso, em 1916. Recebeu, entre outros, o Prêmio da Crítica/Literatura e o Prêmio Jabuti de Poesia, concedidos respectivamente pela Associação Paulista de Críticos de Arte e pela Câmara Brasileira do Livro. Definiu sua arte como vanguarda primitiva. Faleceu aos 97 anos em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, em 2014.