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Retomando as imersões aquáticas da seção 4, reiteramos a audiodescrição como uma tradução intersemiótica (PLAZA, 2013), pautada no princípio da transcriação. Desse modo, consideramos que a contrapalavra (BAKHTIN, 1986) do audiodescritor mobiliza contraimagens (ALVES, 2016a) nos espectadores com deficiência visual. Essas imagens, entretanto, podem ser provocadas com qualidade poética. Encarando a resposta do audiodescritor ao espetáculo também como uma interpretação, ainda que subordinada tanto ao espetáculo quanto à sua estética, assumimos a subjetividade em detrimento da neutralidade. Isso não exime o audiodescritor de sua responsibilidade a partir de um ato ético (BAKHTIN, 2003).
Em roda de conversa, quando perguntados sobre a quantidade de inserções, momentos de fala do locutor durante o espetáculo, os espectadores com deficiência visual que ainda não tinham visto a encenação em outra oportunidade afirmaram que
elas foram suficientes e não interferiram no texto cênico do monólogo, tal como observamos nas falas a seguir:
Bandeira: É, pra mim tá bom.
Adélia: De uma forma bem particular, eu achei que você entrou na hora certa, no momento certo e deu pra poder entender todo o ambiente. Deu pra mim compreender o que estava acontecendo. [...] Eu não tenho o que dizer a respeito se aumenta ou diminui, assim, a interferência. Gostei das entradas né. Que você não ultrapassou na voz dela. Foi no momento certo, no momento exato. E deu pra compreender.
[...]
Pesquisadora: E você Paulo L. e Bandeira? O que vocês acharam? Paulo L.: Foi boa.
Pesquisadora: Ou eu falei demais ou eu falei de menos. Paulo L.: Não, não, não falou normal.
Bandeira: Normal, falou o necessário. O que deveria falar.
[Machado, entretanto, pontuou que houve sobreposições entre a voz da locutora e da atriz:]
Machado: Tava legal a audiodescrição. Só que tem algumas coisas, assim, como é um monólogo, você tem que sobrepor a fala dos personagens muitas vezes. E aí você fica meio em dúvida sem saber o que vai ouvir, se vai ouvir o personagem ou se vai ouvir a audiodescrição. Mas fora isso eu acho que tava bem completo.
Como a encenação é composta de várias músicas aliadas a ações físicas e à manipulação de elementos cênicos, em determinados momentos, durante a segunda ou a terceira repetição do refrão, escolhemos por fazer inserções. Nesse momento, havia sim sobreposição. Entretanto, nós a consideramos necessária e com pouco prejuízo para a apreciação do espetáculo.
Em detrimento desses momentos, nosso objetivo era, sobretudo, preservar os silêncios propostos pelo espetáculo. Por isso, buscamos descrever menos e com mais ênfase na poesia das palavras. No que concerne às notas introdutórias (descrições realizadas antes do espetáculo), os espectadores se posicionaram ensejando o seu uso para esse espetáculo:
Adélia: Até porque na hora que ela faz a introdução, é importante porque faz a introdução, descreve tudo que tá acontecendo pra quando começar não ficar repetindo o que tá acontecendo. Então a gente já sabe o que está acontecendo, já sabe como é a estrutura dos equipamentos, dos objetos. É importante sim.
Paulo L.: Na hora ajudou, que eu não tava vendo. [...] Assim pra saber como é os negócios lá, o figurino (as roupas dela).
Bandeira: Sim, ajudou pra identificar o trabalho, identificar como vai ser a peça, a apresentação, entendeu. Ajudou sim.
Durante a roda de conversa, a professora da Sala de Recursos Multifuncionais do turno vespertino (Roseana) sentiu a necessidade da descrição das expressões faciais da atriz, o que abriu para uma discussão do que é relevante ser descrito durante a AD:
Adélia: A expressão facial né, que vocês veem e a gente não consegue compreender o que está acontecendo. É importante sim pra gente saber. Só que da mesma forma que vocês tentam perceber o que tá acontecendo, precisa também ter essa abstração.
[...]
Pesquisadora: O que eu queria comentar é que na audiodescrição a gente também tem a dificuldade do tempo. Eu acho muito importante no espetáculo de Mayra, a descrição da face, das emoções dela. Mas como o tempo é limitado...
Roseana: Era constante dela, era constante a mudança de expressão. Pesquisadora: Então, mas a gente escolhe...
Roseana: Prioriza.
Pesquisadora: Isso. Prioriza alguns detalhes. E pelo tom de voz de Mayra, a gente também pode tirar outras informações.
Adélia: É porque nem tudo na audiodescrição é possível, como ela falou. O importante é que as partes principais que ela consiga passar pra gente. Caso contrário, fica muito cheio. Muito poluído de informações. E até na hora que ela vai falar, interfere também na fala da atriz. Então a gente fica até um pouco confuso, diante das falas. Então é necessário enxugar e passar o essencial pra gente, pra que a gente possa mergulhar e possa compreender o espetáculo. Foi o que ela fez.
Roseana: Até porque a cena tá andando...
Adélia: A cena tá andando e é uma coisa muito espontânea. É rápido. É uma coisa atrás da outra, é simultâneo, quer dizer. Então é necessário que tenha essa inteligência de saber até onde pode entrar a audiodescrição.
Devido ao tempo exíguo entre os diálogos, a AD exige um esforço do intelectual do audiodescritor em eleger criticamente aquilo que é descrito. O critério da relevância, em nossa concepção, fundamenta-se, sobretudo, na estética do espetáculo. A partir do estudo da obra, podemos elencar com mais coerência os elementos que atuam como signos de destaque da cena, seja a ação da atriz (sua expressão), seja a descrição detalhada de um elemento cênico. Em determinados momentos, por exemplo, era mais relevante descrever a movimentação dos tecidos do que a expressão que a atriz fazia durante a ação, principalmente devido ao fato de que estados emocionais podem ser inferidos pela voz da atriz, pela intensidade dos movimentos dos tecidos e pela própria locução da AD (partindo do princípio do uso dos timbres). Nesse sentido, atuando de forma conjunta ao roteiro, a locução também mobiliza a formação de significados. Ao sabor das marés, veremos agora o posicionamento dos espectadores em relação à locução.