Além dos cursos de preparatórios ao ginásio e do de madureza, preparatório aos cursos superiores, vários outros cursos práticos eram oferecidos pelo Instituto Evangélico. Essas iniciativas também estavam vinculadas às convicções religiosas. Com o objetivo de reformar a sociedade nos moldes presbiterianos, segundo as Escrituras, os missionários entendiam que todas as ações deveriam ser influenciadas pela pregação do evangelho. Como a ociosidade é incompatível com a fé bíblica, desse ponto de vista, deveriam ser criadas oportunidades para que todos, mesmo aqueles que estivessem impossibilitados de se ingressarem nos cursos regulares do Instituto, recebessem algum tipo de preparo para que a sua atuação no mundo fosse melhorada e que fossem abertas diversas portas de oportunidades nas diversas áreas. O fundador e reitor do Instituto Evangélico, Samuel Rhea Gammon costumava chamar o prédio principal da escola de “A Porta da Oportunidade”, como forma de incentivar os habitantes da cidade e da região a se inscreverem nos diversos cursos ali oferecidos (Oliveira e Mendes, 2003, p. 20).
FIGURA 11: O Prédio, como era chamado o prédio principal do Instituto Evangélico, na década de 20 (Acervo do Pró-memória Gammon)
Fonte: Oliveira e Mendes (2003)
A Revista escolar, do dia 01 de Junho de 1908, afirma:
Entre as seções do Instituto contam-se igualmente as oficinas de sapataria e selaria, de carpintaria e marcenaria, de tipografia e encadernação, em alguma das quais é obrigado a trabalhar uma hora por dia o aluno interno maior de dez anos48
Esses cursos obrigatórios aos alunos internos eram facultativos aos externos e aos interessados que não fossem alunos dos cursos regulares do Instituto. Os diversos cursos oferecidos pela Escola Feminina, posteriormente denominada Colégio Carlota Kemper, visando à boa formação da mulher, também seguiam esses critérios referentes às alunas internas, externas e à comunidade. 49
48 Revista Escolar: Boletim Quinzenal do Grupo Escolar de Lavras, do dia 01 de Junho de 1908,
editado pelo professor Firmino Costa
Como o Instituto Evangélico fazia parte da Federação Universitária Evangélica, depois da organização da sua Escola Agrícola eram oferecidos cursos preparatórios para o ingresso em escolas superiores de diversas áreas do conhecimento que faziam parte dessa federação. Essas escolas superiores aceitavam os exames do Instituto para a admissão em seus cursos. O Instituto Grambery de Juiz de Fora, por exemplo, aceitava os exames de admissão para os seus cursos superiores em Farmácia e Odontologia. O Mackenzie College de São Paulo, para os seus cursos de Engenharia Civil, Eletricidade, Mecânica, Arquitetura e Química Industrial. O Instituto, para atender a essa demanda, oferecia cursos preparatórios para esses exames de admissão com ênfase específica na área pretendida pelos alunos.50
Dentre esses cursos preparatórios, havia também a preocupação com a formação dos pastores e líderes para as igrejas. A primeira esposa do reverendo Samuel Gammon, Willie Gammon51, criou uma agremiação especificamente para
50 Prospecto do Instituto Evangélico de 1921
51 A revista Vida Escolar: Boletim Quinzenal do Grupo Escolar de Lavras, editada pelo professor
Firmino Costa, do dia 01 de Agosto de 1908, ao informar sobre a morte de D. Guilhermina Gammon, assim se expressa: “Recebemos carta do Sr. Dr. Samuel Gammon, diretor do Ginásio de Lavras, comunicando-nos haver falecido nos Estados Unidos em 21 de junho findo, às onze horas da manhã, sua digna esposa, a excelentíssima Dª. Guilhermina Gammon, que há bem pouco tempo seguira desta cidade para a sua terra natal, aonde fora tratar-se da grave enfermidade, que a levou ao túmulo. Lendo a carta do Sr. Dr. Samuel Gammon, não pudemos conter as lágrimas, tanto nos acostumamos a venerar a ilustre morta, que durante longos anos foi uma das melhores auxiliares de seu esposo no grande trabalho do desenvolvimento da instrução nesta cidade. Amiga dedicada do Brasil e do trabalho a que aí consagrou tantos anos de sua vida preciosa, são palavras da referida carta, Dª. Guilhermina mostrou até o fim vivo interesse em tudo quanto dizia respeito a esse trabalho. Nos últimos dias de vida poucas cousas lhe despertavam animação, mas sempre que se falava em alguma cousa que se prendia ao colégio, ou aos altos interesses de seu trabalho nessa cidade, ela se mostrava desde logo vivamente interessada. Amava o colégio e os alunos, amava os amigos e o povo de Lavras. Assim nos escreve o Dr. Gammon.
E como não havia Dª. Guilhermina Gammon de conquistar o apreço e afeição de quantos aqui a conheceram de perto, se ela passou em Lavras quase quatorze anos de sua existência no esforço constante e inteligente de instruir e educar, com a palavra e com o exemplo, tantos e tantos conterrâneos nossos, que hoje guardam as mais gratas recordações da notável professora, para quem a arte de ensinar não tinha segredos! Sem esquecer sua grande pátria, Dª. Guilhermina Gammon ficou pertencendo a Lavras, para cujo progresso trabalhou de modo eficaz e desinteressado, cooperando em muito com seu ilustre esposo pelo desenvolvimento extraordinário do Instituto Evangélico, aqui estabelecido. Prestando nossa homenagem à Dª. Guilhermina Gammon, estamos habilitado a dizer que a instrução em Lavras perdeu muitíssimo e que
o preparo pré-teológico dos candidatos ao “Sagrado Ministério”. Além de servir para o preparo dos líderes que atuariam na igreja local, tinha com objetivo principal preparar os jovens que desejavam prosseguir nos estudos, ingressando- se nos seminários para a formação de pastores.
Os missionários presbiterianos, ao criarem o Instituto Evangélico de Lavras, seguiam os mesmos objetivos que os levaram a iniciar o Colégio Internacional, em Campinas, projeto que foi bruscamente interrompido pela epidemia de febre amarela que abateu-se sobre aquela cidade. Embora em contexto bastante diferente, a idéia era a formação de elites. No ponto de vista dos missionários e das organizações por eles representadas, o acesso à educação escolar seria ampliado e com ela os princípios morais oriundos das convicções religiosas. Os benefícios da fé reformada seriam experimentados pela sociedade local, abrindo-lhe portas para a civilização e o progresso por meio do desenvolvimento das potencialidades humanas. Além disso, de forma indireta, portas seriam abertas para que o objetivo principal da ação missionária fosse cumprido: a pregação do Evangelho e a redenção dos que viessem a crer. Estes seriam congregados, a igreja organizada e, por meio dela, a fé evangélica, nos moldes presbiterianos seria fortalecida.
dificilmente se poderá preencher bem, no Ginásio desta cidade e no Instituto Evangélico, a falta de tão exímia professora. Dona Guilhermina Gammon nasceu nos Estados Unidos da América do Norte, no estado de Virgínia, em 23 de março de 1865. Era filha de um ministro evangélico, que também foi diretor de uma escola, onde ela se educou. Diplomou-se numa das mais célebres escolas normais do estado de Virgínia e ocupou por algum tempo o cargo de professora pública. Aos 27 de junho de 1894 casou-se Dª. Guilhermina com o Sr. Dr. Samuel R. Gammon e em outubro do mesmo ano chegaram os dois a esta cidade. De seu matrimônio ficou apenas uma menina nascida em Lavras, a senhorita Maria Isabel. Dª. Guilhermina foi aqui diretora do Instituto Evangélico e ultimamente, além de lecionar outras matérias, era professora de geografia no Ginásio de Lavras.Em sinal de pesar pelo falecimento de Dª. Guilhermina Gammon fizemos hastear no Grupo a bandeira nacional a meio pau no dia 23 do passado. Como homenagem à distinta educadora instituímos para este ano um prêmio escolar com o seu nome, destinando-se o mesmo ao aluno que residir mais longe do Grupo e obtiver freqüência anual.
3 O ENSINO AGRÍCOLA E MISSÃO PROTESTANTE
Neste capítulo será apresentado o processo de criação da Escola Agrícola de Lavras. Serão interpretadas as suas motivações, de conformidade com o discurso dos seus idealizadores e as providências tomadas para que ocorresse a sua efetiva instalação. È necessário observar aqui a experiência dos idealizadores no que se refere às ciências agrárias e como essa experiência foi adquirida no seu país de origem. É preciso entender também quais os aspectos da sociedade brasileira e, especificamente do oeste de Minas Gerais, levaram esses missionários a entender que uma instituição desta natureza seria viável e até imprescindível naquele contexto. Além disso, é preciso discutir as teorias e políticas existentes no Brasil neste período no que se refere a esta área do conhecimento. Isso será necessário para que haja uma compreensão adequada do ambiente no qual a escola se instalou, verificados os aspectos que foram favoráveis à aceitação da sua proposta e aqueles que a dificultaram.